Não me convide – Elisa Ribeiro

A casa não estará lá e se estiver será outra. O piso estará áspero e embaçado e não escorregará sob nossos pés como quando o lavávamos, meninas. Até nossas obrigações nos divertiam. Não estarão lá nossa avó resignada, nosso pai e tios de shorts, acriançados, nossa mãe com os meus braços roliços, minhas coxas ainda... Continuar Lendo →

SORVE(R)TE – Elisa Ribeiro

A tarde escorrendocaldasecos, os lábios trememum estalo: a língua nos dentesa nuvem-creme deslizaformandoum arco-íris no céu               da boca__ escorrega, geladoo sorvete, às entranhas.

Prece – Elisa Ribeiro

Antes que os olhos abramo café desperta as narinas— bom-diaa língua saliva— há de ser, há de sero corpo responde num saltoas mãos postas na xícara.

O especialista – Elisa Ribeiro

Viam-se todas as terças e sextas. Ela, ainda de dentro do ônibus, atraída pela estranheza de sua figura, o observava caminhando, solitário, na areia. Ele a acompanhava com a respiração suspensa assim que ela dava as costas à praia e entrava no prédio de fachada vermelha: seu andar de princesa, as pernas longilíneas deslizando, o... Continuar Lendo →

Aquilo que se impusera – Elisa Ribeiro

Sentou-se no tapete em frente à janela. As pernas dobradas, as mãos sobre os joelhos, os olhos da gata da vizinha nos seus. Fechou-os. Pensou em si mesma como uma fruta em ponto de tombar ao chão de madura ou uma hortaliça em fim de ciclo na terra. Usava essa imagem para fazer-se imóvel, o... Continuar Lendo →

Match, crush & pizza – Elisa Ribeiro

Local: Quarto do filho jovem (Mãe e filho sentados na cama) FILHO: Mãe, agora não. Eu tô cansado. Isso aí é demorado. MÃE: Nada disso. Eu já baixei o Tinder (pronunciando “tindow”). FILHO: Mãe, é Tinder (com pronúncia corretíssima). MÃE: Então, foi o que eu disse. FILHO: Ok. E aí? (debruçando-se sobre o celular da... Continuar Lendo →

Toda água – Elisa Ribeiro

Cavaste um poço em mim e deleembora secoiçaste um óleo que sobre meus olhos-lentefez brilhar dourada a tarde a meio e pressurosa E desse poço agora brota o impulsoa dança sinuosa e o saltoa pirueta líquidaa borboleta esguia que evapora [Inversão antideterminística dos polos: o que era pouco e frágil e vagose fez potênciae não... Continuar Lendo →

Meninas e lobos – Elisa Ribeiro

Quatro da manhã em ponto, o instante em que os espíritos voltavam aos corpos, riu de sua própria desgraça.  O cheiro nauseante a despertara, os olhos muito abertos, não voltaria a dormir, nem adiantava continuar deitada. O cheiro era uma alucinação olfativa, pesadelo recursivo, sem imagens, já estava acostumada. Sempre vinha acompanhado do ranger fantasmático... Continuar Lendo →

Vestígio – Elisa Ribeiro

VESTÍGIO Penetra a trama do meu vestidodesfaz o liso dos meus cabelosqualquer brecha é caminhoarrepia-me os pelos. Sibila nos meus ouvidosdelícias que eu não entendocerra meus olhos, prefiroalongue-se e seja lento. Dança comigo, aproveitameu corpo servil ao seu ritmopor um tempo até que a chama se extingasem deixar qualquer vestígioao sopro do próximo vento. (*)... Continuar Lendo →

Encarnado – Elisa Ribeiro

O espelho trincou do nada. Trinta anos pendurado na parede, trinta e um precisamente, desde que se instalara naquele sala e dois quartos. Não acreditava em maus presságios. Olhos exagerados, rugas e sarda apagadas, polvilhou no rosto o pó translúcido, última etapa da maquiagem; o batom, só na hora de sair de casa. A flacidez... Continuar Lendo →

Dobradinha – Elisa Ribeiro

— Não. Nunca aconteceu. Acho que eu não ia gostar. — Mas como é que você vai saber se gosta se não experimentar? — Não tenho vontade. Sei lá, não tenho interesse. — Você nunca se sentiu estranha? — Estranha? Como assim? — Estranha, assim, diferente das outras meninas. — Hum. Não. Talvez não tão... Continuar Lendo →

Tropeço – Elisa Ribeiro

Porque olhava adiantenão no espaço — o chão abaixo,o imediato à frente —mas no tempo           o mundo transfigurado          as dores próprias e as dele          que ainda não sabia, mas que viriam            e a névoa que lhe embaçaria... Continuar Lendo →

A última chance – Elisa Ribeiro

Não era por amor que ia visitá-la, mas por compromisso. A hipótese de se tratar de amor o sentimento que o unia à esposa só durara até ele se apaixonar por Eloísa. Depois de Eloísa, só restara a coabitação, os bens em comum, os filhos. Com Eloísa entendeu e experimentou o que depois dela passou... Continuar Lendo →

Ciúme – Elisa Ribeiro

Quando era Maria Helena a primeira a despertar, abria só o olho direito, o outro, mantinha fechado. Virava-se, então, para o lado esquerdo da cama, aquele onde o marido não estava, e aproveitava para pensar um pouco na vida, sossegada. Paulo achava um milagre gostar tanto da mulher. Após tantos anos, ainda admirá-la apaixonado. Enquanto... Continuar Lendo →

Trinta minutos – Elisa Ribeiro (desafio)

Levantou-se assim que a mãe sentou de volta com mais meia dúzia de pães de queijo, uma montanha de ovos mexidos e a terceira chávena de café com leite.  Iria esperá-los lá fora, no alpendre, estava satisfeita. O pai fez que sim com a cabeça, a boca cheia de presunto com bacon. Odiava aquela parte... Continuar Lendo →

O quadro – Elisa Ribeiro (desafio)

Instalou-se bem cedo em um banco no meio da praça: cavalete, pincéis, tela e tintas. Luz e ângulo perfeitos, pôs-se a pintar: o céu, os passantes, os automóveis, os edifícios. Logo, alguns suspenderam a pressa da segunda-feira lenta para assistir-lhe o manejo dos pincéis, a forma como misturava as cores sobre a tela transformando em... Continuar Lendo →

Pas de quatre – Elisa Ribeiro (desafio)

Tomava café e fumava na janela de seu apartamento no oitavo quando a avistou no térreo do prédio em frente. Dançava, um vestido branco transparente e esvoaçante usando nada por baixo, imaginou, já sentindo os nervos involuntariamente se tensionarem. Nunca a notara antes, seria neta da velha horrenda que ali morava? Portava algo entre os... Continuar Lendo →

Ela – Elisa Ribeiro

A tímida luz crepuscular apenas se insinuava por trás das delicadas cortinas de voile lilás. Logo o despertador do celular a traria de volta de seu sono de princesa, lânguido sob a coberta cor-de-rosa macia e peluda que transbordava da cama como uma calda cremosa de morango se misturando às almofadas e aos bichinhos de... Continuar Lendo →

A versão da vovó – Elisa Ribeiro

Refaço teus passosTe recrio no que façoMeu fim, teu começo “Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.” Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele... Continuar Lendo →

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