Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

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De vidro – Paula Giannini

Que o mundo não era chato, era tudo o que queria provar. E iria. Custasse o que custasse. Levasse o tempo que levasse. Ora, não era plano… Não só. Por que é que os outros insistiam naquela história? Não havia razão para discordar, diziam. Bastava olhar para cima, para os lados, e pronto, lá estava o céu, plano, o horizonte, reto, com seus cantos e arestas simétricas de ângulos perfeitos.

Era chato.

E ponto.

Plano.

Não era.

Não para ela. Tampouco para sua imaginação. E, se plano, o seu, era provar aquilo que intuía desde sempre.  A vida era bem mais que o horizonte onde a vista alcança. Estava decidida. E iria experimentar sua teoria na próxima abertura.

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Hamster – Paula Giannini

Tic.

Às quatro-e-trinta começa o giro.

Roda-gigante, roda-da-vida, um olho no sonho, o outro na tela, enquanto brilho do relógio arrebenta lhe a retina.

Bom-dia.

Mau-dia.

Não há outro jeito. Não para você. Que se a noite é curta, seu tempo é ainda menor.

No quarto ao lado as crianças dormem, graças a Deus que é pai, mas que devia ser mãe.

Mãe.

Porque pai é duro. Pai é fúria, é temor.

Para que será que serve, Deus meu, deixar que seus filhos passem por tanta prova, por tanta dor? Para que será?

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Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir. Continue lendo “Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar”

Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

Ingredientes
5 cl de Gin – 3 cl de xarope de rosas – 1,5 cl de Triple Sec. –
2 cl de suco de limão – Gelo

Ela dormia tarde. Gostava de ter uns minutos para si. Mesmo exausta, mesmo após o dia longo e cheio de trabalho. Abria a janela e subia pelas escadas externas do prédio até a cobertura. Quase iguais às que vira em filmes durante toda a infância. Quase iguais às que um dia sonhara ter, em um prédio do outro lado do mundo, em um país distante e cheio de oportunidades. De trabalho. E já lá em cima, no topo do mundo, como gostava de dizer, fumava um cigarro apreciando a cidade envolta em névoa. O último do dia. Sem pressa. E brincava com a fumaça, fazendo bolinhas no ar, enquanto via vésper desaparecer, ofuscada pela luz do sol.
Ele acordava cedo. Gostava de ter um tempinho só seu antes de sair. Respirar fundo como aprendera quando criança. E tomar seu chá, bem quente. E com cuidado para não queimar os lábios, assoprava devagar, sem se importar com o vapor que, subindo, embaçava seus óculos. Gostava do efeito de refração da luz nas gotículas que se formavam na lente. Adorava o ar desse país. A luz. Fascinara-se logo no primeiro dia, quando chegara para nunca mais partir. Talvez por isso tivesse o hábito de se deixar assim, quase em meditação. E sem pressa alguma começava o seu dia, observando vésper desaparecer, ofuscada lentamente pela luz daquele sol.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve. Continue lendo “Ovos Nevados – Paula Giannini”

(A)Outra – Paula Giannini

Bateu a porta.

Finalmente em casa, arrancava tudo: roupas, sapatos, meia-calça, cinta, calcinha, sutiã, aquele aplique patético para deixar os cabelos compridos. Os cílios. Os malditos e borrados cílios postiços, ensopados de suor, grudando nos dedos a gosma negra da cola.

Maldito verão.

Melhor ligar logo a porcaria do ventilador.

Não dava.

Onde enfiara, pela glória de sua mãe, Iansã, os ainda mais malditos benjamins?

Por que, por sua mãe, por quê? Continue lendo “(A)Outra – Paula Giannini”

Musa – Paula Giannini

Existe uma teoria que suspeita o universo como uma bolha. Não o meu, não apenas, mas todos. Sim, outros, pois que para esta suposição, há tantos mundos no cosmos quanto bolhas em uma garrafa de espumante. Para ela, a tal teoria, meu universo, nada mais é que uma destas incomensuráveis e frágeis bolinhas, vagando errática, flutuando em um tipo de sopa cósmica, e densa o suficiente para que eu viva, inocente e desavisada, acreditando ser única, até o fim de minha existência. Ou melhor, até o fatal dia em que, outra dessas bolhas, entrando em rota de colisão com a vizinha mais próxima, eu, se fundirá a esta sem nem ao menos perceber que foi atingida, que desapareceu, que já não é, ou, que ainda é, mas outra, maior e totalmente diferente da original, de ambas. Continue lendo “Musa – Paula Giannini”

Com a ponta dos dedos – Paula Giannini

Dessa forma aprendeu a descobrir o mundo desde pequena. Gostava de passar a mão na superfície lisa da mesa e subir os dedinhos pela borda do prato até circundá-lo por inteiro. Só então metia o indicador para sentir a temperatura da sopa e procurar dentro do caldo as letrinhas de macarrão acrescentadas à janta pela mãe.

Mãe! M… A… E…

– Cadê o til? –  . Não havia. E sem til, mãe não era mãe, mas mae.

E mae não era uma palavra. Mae não significava nada, e assim a sopa não tinha graça. Palavra que, aliás, também não havia, já que o fabricante da massa se esquecera de acrescentar cedilha ao C…

Não. Continue lendo “Com a ponta dos dedos – Paula Giannini”

Super mulher – Paula Giannini

Minha mãe sempre me disse… A vida inteira… Não case. Não se case! Ou, pelo menos, não se case cedo. Casamento é coisa de gente insana. Uma tediosa refeição, com a sobremesa no começo. Um submarino que pode até boiar, mas foi feito para afundar… E o que foi que a insana aqui fez? Casou. Não satisfeita em casar, casei cedo. Cedo e com um homem 3 efes. Feio, fo(piiii) e faminto…  Ai, como esse homem é faminto. Ele é capaz de comer qualquer coisa, come o que você colocar na frente dele. Inteiro. E ainda pede sobremesa. Dá para alguém explodir de tanto comer? Não. Eu digo que não. Se assim fosse… Se a gente explodisse… Eu já estaria viúva há anos. Muitos. Meu marido come. Come tudo… Tudo. Menos a mim. Não.

Menino! Olha essa bola! Olha, olha, olha a sua irmã, menino. Eu vou aí! Eu estou avisando. Eu, mico? Eu estou gritando? Garanto que você ainda não viu nada. Nada. Eu vou até aí e vou lhe dar uma coça para ficar na história. Você vai ficar uma semana sem conseguir sentar. Eu prometo. Continue lendo “Super mulher – Paula Giannini”

Casal perfeito – Paula Giannini

Eram feitos um para o outro, dizia quem os via assim, aos beijos em pleno meio-dia de uma data qualquer, em frente ao prédio onde moravam. Romeu e Julieta, queijo com goiabada, arroz e feijão, brincavam os amigos.

Eram feitos sob medida.

O céu e o mar, a Bela e a Fera, a faca e o queijo. Eram o cúmulo do cúmulo dos clichês amorosos, e chegavam a “pegar nojo” aqueles que os viam assim, de mãos entrelaçadas, melosos, melados, cheios de risinhos, beijinhos, e mais inhos e inhos. Tudo era diminutivo no vocabulário daquele superlativo e sempre unido casal.

Metades da mesma fruta, na estranha matemática do amor, dois somados, juntos, eram um, e, separados, quase nada. Acordavam juntos, comiam juntos, trabalhavam juntos, sonhavam…

Não se podia pensar nela sem se pensar nele e vice-versa. Chegava-se mesmo a confundir um e outro. Sempre unidos. Onde quer que um estivesse, bastava uma esticada no olhar, para em seguida avistar o outro, saído de trás de alguma prateleira ou árvore no caminho.

Era chato.

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Rabanada de Panetone – Paula Giannini

Querida menina,

Então, depois de tantos anos, hoje você veio.

O mesmo perfume adocicado. O mesmo olhar meio de lado e aquela mania de sempre, de buscar o teto repetidas vezes, como se ali se encontrassem as respostas para o que quer que fosse. O que quer que, porventura, em sua vida, estivesse fora do lugar.

Você veio.

E pelas mãos puxava sua pequena sósia. Cópia perfeita da menina magricela que um dia iluminou a vida de todos, correndo solta por aqui. Passou os dedos já não tão esguios no desenho do beiral, caçando poeiras que já não importam, do jeitinho mesmo como costumava fazer mamãe. Iguais. Tão parecidas, tanto, que até seu coração a enganou apressado, ao enxergar de passagem, o reflexo da mulher no espelho manchado do vão de entrada.

Você.

Veio.

Alguns poucos quilos mais gorda e muitos problemas mais séria, o penteado diferente e teimando em implicar com a menina. Que olhasse bem por onde andasse. Que pisasse com cuidado por onde seguisse. E que não se sentasse no chão. Continue lendo “Rabanada de Panetone – Paula Giannini”

Ponche de Maçã – Paula Giannini

Ingredientes

Comprar 1 litro de Sidra espumante para o ponche, que a Maria adora.

2 litros de guaraná.

1 cacho de uvas.

E maçãs 5.  3, grandes para cortar em cubos de gelo a gosto

 

Comprar uma agenda nova que a velha desapareceu.

E flores para Maria. Amarelas, suas preferidas.

Comprar fita vermelha para um laço bem bonito. Dourada.

E lentilha. Hoje é ano novo e na televisão disseram que isso dá sorte.

Passar na feira.

Trazer frutas.

Bananas. Maçãs.

E uvas para a Maria, que ela adora.

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Pão do Céu – Paula Giannini

Ingredientes

  1 Xícara (chá) de leite

1 Lata de leite condensado

200 Gramas de açúcar

Pão para rabanada, fatiado

3 Ovos

2 Colheres (sopa) de canela em pó

Óleo para fritar

— Quando crescer… — Eu explicava. — Quero ser chefe de cozinha. — Como vira no restaurante em que jantamos naquele Natal. Meu pai, minha mãe, meu avô, meu irmão e eu.

Na bancada, os ingredientes já estavam arrumados. Um a um. Lado a lado. Prontos para sua função. Compor o meu preferido entre todos os doces de todo o mundo. Ou ao menos do meu mundo.

O Pão do Céu da Vovó Beatriz. Continue lendo “Pão do Céu – Paula Giannini”

Mousse de Maracujá – Paula Giannini

Que acreditava em Deus.

É o que responderia se acaso um dia alguém lhe perguntasse.

Que sim.

É o que diria se tivesse o senso para responder questões.

Sim, acreditava. Ora, e como não?

Como, afinal, se chamaria aquilo em que habitava?

Deus.

Aquilo constituía toda a sua curta vida. Comer no momento em que desejasse e beber do néctar daquelas flores que povoavam o jardim. Seu jardim. O único que conhecera e, igualmente, o único que jamais um dia viria a conhecer.

Flores de maracujá. Continue lendo “Mousse de Maracujá – Paula Giannini”

O Espeleólogo – Paula Giannini

(de Paula Giannini)

Quando crescesse, queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar o seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos.

– Agora você já é quase um homem.

E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô, um local provisório, de onde, assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra.

Coisa para gente muito rica.

Coisa para os heróis. Continue lendo “O Espeleólogo – Paula Giannini”

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