Luz e Sombra – Renata Rothstein

Terras de Ythisi, século VII D.C.                              

Yanna caminhava resoluta pela encosta íngreme rumo ao cemitério de Tagar, sentindo o vento frio e cortante, tão frio e cortante quanto aqueles últimos tempos, feitos de surpresas e responsabilidades impostas, para as quais não havia se preparado.

Continuou a subir a montanha cada vez mais rápido, e parando subitamente ao atingir o ponto mais alto, de onde se avistava todo o grande reino de Orr – e onde ficava também o cemitério do reino.

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Para Inspirar: Maternidade (Kátia Muniz)

Quando uma mulher diz que optou por não ser mãe, eu respeito a escolha e não estendo o assunto com questionamentos ou ponderações. Nem todas nasceram para a maternidade. Carregamos o potencial de gerarmos a vida, mas nem sempre se tem a vocação.

Porém, a opção pela “não maternidade” deve ser pensada e repensada para que não haja arrependimentos futuros. Dizer “não” é uma escolha, desde que ela não venha acompanhada de culpa.

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Luz (Renata Rothstein)

Caminho. Meu passo – tão invisível quanto solene sela sua autoridade na manhã que nasce, explosão de cores e esperanças.
A porta a ponte o muro e o mundo abrem seus ansiosos olhos, e pouco a pouco exigem, permutam falaciosos sonhos banhados no ouro perdido do que já foi – e embora exaurida estendo minhas mãos sem rumo para tatear a sensibilidade, em tudo que não há. Arrumo e aprumo a lente e o chão, impostos pela impossibilidade que contrariando meu desejo mais oculto, a tudo invade.
Arde em mim a realidade, enfim.
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Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)

A vida bolorenta nas vielas de barro e cheirando a chorume continuava, como sempre, a mesma merda, depois da morte de Julinho Esmola.

Miséria chama miséria e a necessidade de pobre é aquela coisa – nunca tem fim.

Quando depois de trinta meses de trabalho, bico, aperta aqui e esse mês paga-se a água, no outro paga-se a luz e vamos que vamos, “Deus vai ajudar, eu tenho fé!”, aí quando finalmente o puto do economicamente desfavorecido consegue adquirir o que precisava, e pobre de verdade sabe que supérfluo é só em sonho, e mesmo assim nem sabe direito o que é sonhar, vem uma chuva e leva tudo. Triste.

É. Nada é mole, todo mundo diz que não tem nada, mas quando vem a tragédia, diz que perdeu tudo. Perder tudo quando não se tem nada é rotina lá nos becos por onde caminhava a exuberante Magá – a Magali Batista – morena formosa de lábios de mil promessas e curvas perigosas, sonho de consumo da bandidagem local, e de fora também, e dos pais de família respeitáveis que não perdiam uma missa sequer, nos domingos pela manhã. Continue lendo “Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)”

Vinte e nove de julho (Renata Rothstein)

Acordou decidida, naquele vinte e nove de julho. Ninguém mais ia guiar seus passos, indicar o caminho, como se fosse comandada por um general invisível, ou eletrônico, uma espécie de GPS dos infernos que só aparecia para deformar seus pensamentos, seus antigos planos, seu sonho de viver.

Viver. Verbo tão vasto, que já se transformara em pesadelo, há tempos.

Mas como toda grande crise antecede grandes mudanças, após todo o sofrimento, todo joelho dobrado, vidros quebrados e pulsos cortados – medida extrema, não metafórica -, estava mais forte.

Juntou as roupas, jogou na maior bolsa que encontrou no guarda-roupa, lembrou de escrever um bilhete, dizendo que não voltaria, mas que mesmo assim esperasse, pois nunca se sabe o caminho que a estrada nos fará percorrer. Ou a estrada que o caminho irá nos impor.

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A Puta Pobre (Renata Rothstein)

Ela existia. Existia e só sabia disso porque sentia, de vez em quando, bofetões e algumas varadas que a faziam urrar, detestando o próprio corpo, o copo de cachaça barata, o bafo dos homens nojentos, hipócritas e mal-amados.
Incapazes de conseguir uma mulher para trepar por vontade, iam ali, pagar pouco do pouco dinheiro bandido e nojento para ter o mesmo nojento sexo com ela – uma puta pobre, cheirando a perfume barato, coberta de herpes e impregnada por alguma moléstia que ela não sabia muito bem qual era.
Percebera, nos últimos meses, que seus cabelos e dentes, alguns pedaços da pele manchada e sua bunda, estavam caindo.

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Presenças – Renata Rothstein

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br>

Para Doutor Pedro

Caro Doutor Pedro,

Conforme o combinado, aqui vai o resumo do meu inferno em vida, na instituição para pessoas de pino frouxo em que minha amada família tão prontamente me enfurnou. .

Bom, confesso que poderia ser pior, como daquela vez que fiquei pelas ruas. Ali eu quase consegui meu objetivo, me mandar dessa para outra. Se pior ou melhor, vou dizer a verdade, tanto faz. Só que naquele pardieiro eu era obrigada a engolir onze remédios pra apagar de uma vez só, fora as vezes que uns carinhas resolviam entalar na minha garganta outras coisas, além dos malditos psicotrópicos.

É, é assim que se chamam os remedinhos pra gente como eu, como nós, sei lá mais o quê.

Queria saber como o senhor tem passado, sei que no fundo todo médico de cabeça tem seus próprios dramas, né não, doutorzinho querido?

Bem, espero que o senhor realmente não seja corno, ou viado, seria uma pena, já disse e repito: acho você um tesão. Ok,sei que não tenho chance, além do mais esse tal de TDI sempre poderia pregar uma peça na gente.

Imagina, talvez fosse excitante, cada dia uma pessoa diferente na cama, na vida, na coisa toda. Vou deixar a tonta da Milla falar qualquer coisa.

Beijos,

Vitória

Doutor, não suporto mais, eu preciso morrer,

Milla.

PS: Doutor, a Milla é uma frouxa. Assinado: Vitória.

 

Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla, querida,

Sua internação faz-se necessária, por enquanto. Sei que os médicos que atendem na Casa de Saúde são muito capacitados, os melhores do país. E os remédios farão efeito, quem sabe você tenha alta antes do previsto?

Sinta-se à vontade para escrever, mesmo distante continuo sendo seu analista e confessor.

Eu estou muito bem, fique tranquila, siga à risca o que mandam fazer, você é mais forte do que imagina.

Obs: Não disse que se você colaborasse deixariam usar o notebook? risos.

Grande abraço,

Doutor Pedro.

 

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br

Para Doutor Pedro

 

Doutor Pedro, seu grande filho da puta,

Eu sabia que todos aqueles anos de tratamento, conversinha, aquele amansa idiota não iam resultar em nada.

Hoje a Kátia apareceu. Eu lutei com todas as minhas forças, minha cabeça quase explodiu, e ela ali, dizendo que queria “sair”, que precisava fazer aquelas coisas que você sabe que ela adora fazer.

Pois bem, perdi a batalha e a Kátia fez a festa. Fumou, conseguiu drogas com o pessoal da ala F, seduziu três enfermeiros nojentos que andam sempre de olho “na gente”, durante o banho. Porra, fico aqui pensando se ela vai acabar botando uma doença nesse corpo, que é nosso, não é só dela, não!

Ela é muito vulgar, diz que é assim que vai vencer na vida. Pedro, a vida é minha, não é? Sou eu – de verdade – a dona desse corpo, dessa alma?

Queria me curar e viver com você, quem sabe ser sua esposa, ter filhos.

Mas e os outros? Não sei…

Depois de aprontar todas e me deixar um lixo, Kátia se mandou, enquanto eu ouvi todo o sermão da psiquiatra do hospital.

Estou cansando.

Talvez seja melhor morrer logo, como tanto quer a imbecil da Milla.

Well, vou seguindo.

Beijo de língua,

Vitória.

 

Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla,

Como sabe, Vitória e Kátia estiveram fora por muito tempo. recebi vários e-mails da Vitória.

Precisamos rever sua terapia, Kátia está se fortalecendo, e precisamos determinar urgentemente o fim dessa personalidade, estou cuidando disso com a equipe do hospital.

Tenho receio de que o fim de Vitória e Kátia afetem sua estrutura básica, entende? Que você também “desapareça”.

Faça tudo certo, não se preocupe, em breve entrarei em contato.

Pedro.

 

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br>

Para Pedro Arantes

 

Douto,

É o nicolas eu tô com medo a vitória quer matar a tia mila e se a tia mila morrer eu tabém morro eu quero a minha mãe, toda noite a tia mila chora muito e pede pra papai do céu levar ela logo a vitória é muito ruim ela não deixa eu ficar aqui eu quero só o meu carrinho ir pa escola e brinca mas…

Olá, Pedro Pederasta, aqui é a Vivi, chega de conversa por hoje. Nicolas, como um bom menino, vai dormir. E eu vou descansar, Kátia está quietinha, a idiota da Milla que se veja com esses médicos chatérrimos.

Adeuzinho!

Doutor, é a Milla, quando o senhor retorna? Vitória está impossível, o pobrezinho do Nicolas tenta ajudar, mas não tem forças, por favor, nos ajude!

Milla.

 

De Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla:

Aqui é o doutor Pedro.E os outros.

Como notou, nós fugimos ao controle. Você, Milla, anda muito deprimida. Vitória cada vez mais arredia. Nicolas, sempre o moleque medroso. Kátia, vulgar e insubmissa – e eu, um psiquiatra fracassado, que não encontrei a cura para nossa própria loucura.

Receitei uma dose extra para evitar que Vitória atrapalhe tudo. Milla, a arma está carregada, na gaveta da escrivaninha. Você resolverá tudo: um tiro e o fim, para todos nós.

 

Milla Vieira <millavieira5@rocketmail.com>

Para Doutor Pedro

 

Doutor,

Aqui é a Milla. Sinto que será o melhor para todos. Irei até o fim. Não tenho “sentido” Vitória por perto. O remédio terá funcionado?

Adeus…doutor, socorro, minha cabeça está doendo muito!

Olá Milla, Nicolas e Doutor Pedro,

Vocês nunca passaram de fracotes covardes. Sendo assim, tomo as rédeas da situação, de vez. Vida que segue, vocês terão apenas que obedecer, fazer o que mando, e tudo dará certo. Confiem, crianças.

Hoje fujo do manicômio. Vida nova, suporto vocês na minha cabeça, e por fora, serei só eu.

Ah, sim, descobri um jeito de enfraquecer a cretina da Kátia, essa não vai mais atrapalhar, por um bom tempo.

Com carinho eterno,

Milla, Pedro, Nicolas e Kátia.

ad aeternum, Vitória.

 

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Feliz Ano Novo! (Renata Rothstein)

Feliz 2018!
E então chega o primeiro dia de um novo ano: novinho, leve e transparente como Thêmides, em preparação para o grande momento do esplendor.

Tudo novo, de novo…
E eu, que sempre pensei que só tivesse mesmo que jogar fora o calendário do ano passado e começar a utilizar o desse ano, fico assim, meio por fora, meio sem função em meio àquela animação toda, abraços e choros e risos ( histeria coletiva?), e gente que você nunca viu antes na vida te agarrando no suspiro etílico, jurando Amor Eterno e Dedicação à Humanidade.
E “tá” lá todo mundo jurando de pés juntos que nunca mais vai jogar comida fora (tanta fome no mundo, né, menina?), e nem “varrer” a calçada com água (sabia que a água no mundo acabou?). Então.
A necessidade de encerrar ciclos, apenas para encenar o recomeço de outro ciclo, é realmente inspirador, muito, mas muito inteligente, mesmo.
Essa é a hora!

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Júlio César (Renata Rothstein)

 

O tempo quase parado no ar cinzento fazia voltas em torno de sua mente confusa e estranha, sempre fazendo Júlio questionar se ele existia, de fato.
Tudo o que ele conseguia lembrar era muito pouco. O suficiente para aumentar seu sofrimento e a vontade frustrada de acabar de vez com aquele suplício, que vinha de longe, mas não tão longe que ele esquecesse, de vez, daquela merda toda.
Aos nove anos, menino de subúrbio, educado por família tradicional (aos olhos asquerosos dos hipócritas do bairro), era até quase normal – quase feliz – quase acreditando no sonho de crescer e ser bombeiro, “para ajudar muitas pessoas”.

 

Era essa a vida. E seguia, sem muita novidade: pai motorista de madame da Zona Sul, gente muito fina, mas que gostava de cheirar – era o que dizia o pai.

Júlio imaginava então que ele falava dos perfumes caros. A mãe…ah, a mãe! mulher trabalhadora, esforçada, dava um duro danado lavando roupa para a vizinhança.
Mas quando o pai trabalhava à noite, saía tão bonita: colocava o vestido vermelho com decote até o fim das costas (ele lembrava bem), passava um batom roxo e abusava do leite de colônia. Fedia até de tanto leite de colônia, tadinha da mãe.

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