Era Uma Vez Um Macaco Chinês – Iolandinha Pinheiro

” E durante muitos anos crimes insolúveis, todos igualmente macabros, aterrorizaram a China” – Diário de Pequim – 13 de outubro de 2000.

” As investigações nunca foram concluídas” – Depoimento colhido do Chefe de Polícia Pong Shu – Diário de Pequim – 15 de outubro de 2000.

A pequena estatueta ficava numa daquelas lojas que proliferam em galerias e estreitos bequinhos do centro comercial mais antigo da cidade, iguais a outros milhares de becos, de modo que nunca sabemos se estamos na esquina certa ou se deveríamos ter entrado duas ruas atrás, e, na maior parte das vezes, nunca conseguimos voltar ao lugar certo.

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Prólogo a um epílogo – Ana Maria Monteiro

 

Nadam nos teus olhos peixes azuis
E há neles um profundo imenso.

Olhos oceânicos em pequenos globos
onde os peixes azuis deslizam
no impulso de movimentos imperceptíveis.
Mergulho nesse olhar,
fico una a ele
diluída eu em tudo e tudo em mim.
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MORTE EM VIDA – Neusa Fontolan

 

MÓNICA descansa os bilros depois de dar o último NÓ DE RENDEIRA em mais um trabalho. Fazer rendas é sua OBSESSÃO, ou como ela sempre diz, são a sua distração para aguentar as longas noites de INSÔNIA. Ela levanta a cabeça e olha ternamente, quase com DEVOÇÃO para o garoto que, distraído, coloca seus pequenos navios de brinquedo em uma fila.

“Ele está calmo… quem dera fosse sempre assim.” Ela suspira junto com o pensamento, sabe que essa calmaria vai durar pouco, A SEGUNDA NATUREZA DE ADRIANO logo surgirá e com ela os gritos, choro e o sofrimento sempre presente NA MORTE REFLETIDA em seus olhos. Nem sempre foi assim, o menino era uma criança feliz, apesar do autismo leve. Continue lendo “MORTE EM VIDA – Neusa Fontolan”

Mónica (Ana Maria Monteiro)

 

Vi-a pela primeira vez no centro comercial Apolo 70 em Setembro de 1992, na loja de animais que existia na cave. Olhou para mim com aquele olhar infinito de cão bebé e as nossas vidas tomaram um novo rumo a partir desse instante. Era arraçada de podengo (mãe pura e devassa e pai incógnito e aproveitador) e linda.

Eu não sei se o cão é o melhor amigo de homem. É uma frase feita que contém em si o vazio habitual de todas as frases feitas, que perdem o conteúdo graças à sua repetição banal e sem sentido.

A minha cadela morreu. Continue lendo “Mónica (Ana Maria Monteiro)”

Júlio César (Renata Rothstein)

 

O tempo quase parado no ar cinzento fazia voltas em torno de sua mente confusa e estranha, sempre fazendo Júlio questionar se ele existia, de fato.
Tudo o que ele conseguia lembrar era muito pouco. O suficiente para aumentar seu sofrimento e a vontade frustrada de acabar de vez com aquele suplício, que vinha de longe, mas não tão longe que ele esquecesse, de vez, daquela merda toda.
Aos nove anos, menino de subúrbio, educado por família tradicional (aos olhos asquerosos dos hipócritas do bairro), era até quase normal – quase feliz – quase acreditando no sonho de crescer e ser bombeiro, “para ajudar muitas pessoas”.

 

Era essa a vida. E seguia, sem muita novidade: pai motorista de madame da Zona Sul, gente muito fina, mas que gostava de cheirar – era o que dizia o pai.

Júlio imaginava então que ele falava dos perfumes caros. A mãe…ah, a mãe! mulher trabalhadora, esforçada, dava um duro danado lavando roupa para a vizinhança.
Mas quando o pai trabalhava à noite, saía tão bonita: colocava o vestido vermelho com decote até o fim das costas (ele lembrava bem), passava um batom roxo e abusava do leite de colônia. Fedia até de tanto leite de colônia, tadinha da mãe.

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As Últimas Horas – Claudia Roberta Angst

 

É quase julho. Uma noite longa e fria. Rodrigo olha o nada pela janela, mantendo uma postura marmorizada, quase irreal. Ao lado, está Marcelo, meu melhor amigo. Este nada faz, apenas personifica o vazio.

Assim, permanecemos há horas, na insistência do silêncio. Levanto-me com a agitação febril do momento. Acendo o terceiro cigarro. Ou será o quarto? Contar os degraus do vício não facilita nada.

De repente, Rodrigo some em direção à cozinha. Gosta de saídas dramáticas, o que combina muito bem com a ocasião. Marcelo aproxima-se lentamente e deita sua cabeça loira sobre minhas pernas. Não tenho coragem de negar-lhe carinho. Hoje, não devem existir porquês. Nada faz o menor sentido.

Deslizo minha mão entre os cabelos de Marcelo. Meu menino mimado, por que teus olhos revelam tanta esperança?

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Ficou a Espera – Fheluany Nogueira

 

O perfume sempre foi uma armadilha, consolo ou ilusão. Como o orgasmo no amor, o tempero no alimento. Uma mentira que ajuda, a espera de um novo dia.

 

Luzia era vizinha de Ernesto desde criança. Cresceram juntos, brincaram juntos, foram para a escola juntos. Claro que faziam parte de um grande grupo, mas os olhos de um eram voltados somente para o outro. Olhos cinza-amor em verdes-brilhantes, falando-mais-que-falando. Olhos de sussurrar, aconchegantes, aconchegando, e aquelas mãos chamativas. E era doce aconfagar os cabelos até o ínfimo das pontas. Acontecendo natural, como a coisa mais esperada, definitiva de todo. E foram se aceitando de comum acordo.

 

— Essa menina foi sempre muito doente. Não sei o que você vê nela — a mãe dele implicou.

— O cheiro dela é tão bom! Luzia me faz ver o sol, as flores — respondia o rapaz.

— É uma família esquisita. Ela quer é o seu dinheiro. — e por aí seguia a ladainha de mãe ciumenta.

— Não encha, mãe! Sei o que faço.

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Mousse de Maracujá – Paula Giannini

Que acreditava em Deus.

É o que responderia se acaso um dia alguém lhe perguntasse.

Que sim.

É o que diria se tivesse o senso para responder questões.

Sim, acreditava. Ora, e como não?

Como, afinal, se chamaria aquilo em que habitava?

Deus.

Aquilo constituía toda a sua curta vida. Comer no momento em que desejasse e beber do néctar daquelas flores que povoavam o jardim. Seu jardim. O único que conhecera e, igualmente, o único que jamais um dia viria a conhecer.

Flores de maracujá. Continue lendo “Mousse de Maracujá – Paula Giannini”

INSÔNIA ∣ Juliana Calafange

Alice olhou o relógio, duas da manhã. Numa noite normal já estaria dormindo há horas. Nunca foi de dormir tarde, nem na juventude – quando ia a festas sempre voltava cedo pra casa. Imagine se o velho ia deixar filha moça chegar em casa depois das dez! Talvez por isso estivesse passando por essa situação só agora, na maturidade.

– Nem tão madura assim… – pensou Alice – Trinta e cinco anos na cara, e com esse medo todo do escuro!

Na verdade, não era medo do escuro, ela sabia. Era medo do silêncio, do vazio, da solidão.

– Se ao menos a TV estivesse funcionando. Tinha que quebrar justo hoje que o Rodolfo viajou?

Era a primeira noite que Alice passava só em casa, sem Rodolfo. Na verdade, era a primeira vez que passava a noite só em casa, ponto. Sempre tivera a presença dos pais, às vezes só da mãe, às vezes só de algum empregado. E depois que casou, Rodolfo estava sempre lá, do seu lado da cama, roncando e roubando-lhe a coberta, todas as noites. O que não impedia Alice de se sentir solitária, às vezes. Mas sozinha, sozinha, uma noite inteira, ela nunca tinha ficado. E só agora se dava conta. Continue lendo “INSÔNIA ∣ Juliana Calafange”

Incondicional – Evelyn Postali

 

Eu subo na bancada da janela lateral e espio pela fresta da cortina. O gramado é viçoso e a saída lateral do carro do meu patrão está fechada. A vizinha estende a roupa e vejo as crianças passarem com as bicicletas. Se não estivesse preso aqui já estaria lá fora, querendo seguir com elas. Já estou acordado há um bom tempo. Não vi Julia e Kadu chegarem. Eles não coçaram minha barriga. Nem me chamaram para jogar com meu brinquedo favorito. A bolinha ainda está ao lado da minha cesta. Olho para ela e não sinto a menor vontade de brincar sem eles.

Eu faço o que normalmente faço o dia inteiro. Percorro a casa reconhecendo os lugares pelo cheiro peculiar de cada parte. Subo as escadas e me deito em cima da cama dos que me amam. Cheiro os travesseiros. Vou até o ateliê e dou uma volta. O cheiro das tintas faz meu focinho coçar. Quando eu me canso, eu desço. Faço minhas necessidades na área de serviço, em cima do tapete de plástico porque fui bem treinado.

Espero na porta, sentado. Estão demorando.  Já passou da hora do almoço e ninguém ainda chegou. Eu dou uma volta pela sala e subo novamente na bancada. Espio. Enxergo o cão que sempre circula naquele horário e dou uns latidos. Ele não escuta porque está sempre do outro lado da rua. Não ouço o barulho do carro. Julia e Kadu estão demorando e eu não ganhei biscoito.

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Na morte refletida – Anorkinda Neide

 

 

Ela percebeu-se no espelho. Ainda aparentava o viço da mocidade, mas sentia que nada mais havia… Por que a morte parecia tão igual à vida mesmo sendo tão diferente?
Francine sempre fora muito analítica, uma pensadora, quando viu-se morta não perdeu o hábito. Até porque nada mais havia para fazer… A jovem vagava presa entre dois mundos.
Ela faleceu sem aviso. Alimentava os pássaros quando a visão escureceu e caiu amparada pelo gramado orvalhado… Por que a morte buscava os corpos jovens? Continue lendo “Na morte refletida – Anorkinda Neide”

Obsessão – Priscila Pereira

Abrigado no interior de meu carro, observei as pessoas que passeavam pela praça, tentando imaginar de onde estariam vindo, para onde iriam, se tinham família, amigos. Olhei atentamente sua fisionomia, as mais felizes sempre me atraíam, levavam-me a pensar que conseguiram tudo o que queriam da vida, tudo o que haviam planejado.  Infelizmente não conseguia achar pessoas felizes com tanta facilidade, já passara das cinco horas da tarde e eu não havia encontrado ninguém ainda. Continue lendo “Obsessão – Priscila Pereira”

UM REI NO PURGATÓRIO – Juliana Calafange

Virgulino Ferreira da Silva, aqui na Terra conhecido como o Lampião, Governador do Sertão, estava lá no Purgatório, fazendo a tal retrospectiva de sua vida, ponderando seus atos malvados e virtuosos, na expectativa de ser aceito no Paraíso, nos braços de São Pedro e do Padinho Padre Cícero.

Tudo ainda estava muito confuso em sua cabeça. Sabe como é, nesses casos, o tempo na cabeça do cabra corre bem mais devagar do que para nós aqui na Terra. Mesmo que para nós já tenham se passado muitos anos, no etéreo as coisas andam mais lentas. A pessoa fica meio perdida, demora pra se acostumar com o ocorrido e com a nova condição de morto.

Virgulino, no caso, ainda sentia a dor das balas que o tinham matado, fazia pouquíssimo tempo que tinha compreendido a sua morte, pois ficara muito tempo atordoado, sem entender direito o que tinha se passado em Angicos.

Ele só lembrava do rosto da Maria assustada, olhando pra ele, ele ensanguentado com aquela dor aguda no peito. Depois, só o escuro, e depois do escuro, a luz, e depois, a notícia de que estava no Purgatório… Foi um anjo que lhe sussurrou no ouvido: “Virgulino… Virgulino… Agora teu acerto é com Deus…” Ele não acreditou, reclamou, gemeu, gritou, berrou, urrou, mas acabou se lembrando de tudo e agora estava lá, tentando aceitar as coisas e se arrepender, pra poder morar ao lado do Senhor. Continue lendo “UM REI NO PURGATÓRIO – Juliana Calafange”

Passagem – Maria Santino

Arigó, de nascimento Cícero Sant’Anna, respondeu prontamente à voz surda que só ele ouviu.

— Tô indo, meu pai!

E num movimento brusco despertou. Não de todo. Na mente embaralhada pelo peso de seus oitenta e seis anos de idade, ideias soltas roçavam. Fiapos se emaranhavam cada vez mais com o nascer e morrer do dia. Quando menino e moço, acordava com o canto do galo para tirar leite da vaca, dar milho para as galinhas e estar pronto para ir com o pai e os irmãos roçar o mato da plantação. “Quem dorme até tarde é Barão. Pobre só ajunta alguma coisa, madrugando”. Era o que o pai dizia. Mas agora Arigó já não era mais menino e nem moço. A boca seca e o chiado nos ouvidos eram constantes, mesmo com os remédios para o diabetes e hipertensão. Lembrou-se de Agustina, mulher miúda que havia lhe dado três filhos — seriam seis se todos tivessem vingado —, e tateou com avidez pela cama, na escuridão do quarto, desejando encontrá-la. Nada. Levantou sentindo tontura e a vista turva, e logo a incontinência urinária o fez molhar toda a calça deixando o piso frio ser aquecido pelo mijo. “Isso não é vida.” Pensou num muxoxo triste, e perguntou-se o que havia acontecido com todo o seu vigor.
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Devoção – Rose Hahn

A vidinha pachorrenta entrou cambaleante no mês de abril. Aguardo o milagre da profundidade empanturrando-me de chocolate. Os botões do suéter xadrez estão gastos do ruminar melancólico de uma existência imponderável. Amizades rasas, casamento raso, tal qual o prato raso remexido de garfadas apáticas. O menino Jesus bem que podia me inspirar com esse negócio de ressureição.
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O Navio da Esperança – Vanessa Honorato

Olhando para este imenso horizonte, me pergunto de onde vem tanta água. O céu, muito azul, passa a impressão de que o mar é ainda maior, que vai crescendo, chegando ao alto, ao infinito…

O barulho da onda quebrando está longe, como se meus ouvidos estivessem tapados. Mas a verdade é que o álcool deixa tudo em câmera lenta, inclusive o som. A garrafa de whisky repousa ao lado dos meus pés descalços. Até ela está suja de areia. Continue lendo “O Navio da Esperança – Vanessa Honorato”

Ausência – Iolandinha Pinheiro

Era a última noite de pescaria. O crepúsculo havia findado há um par de horas e a brisa marinha, de tão leve, somente ondulava a superfície negra do oceano.
Três homens em uma pequena embarcação partilhavam o mesmo anseio. Calados, aguardavam o destino mirando as cordas que sustentavam a rede, ainda sem peso.
Quando havia luz e o mar transparecia, era possível ver as franjas da rede balançando como mechas de cabelo em flutuação sinuosa – um balé submarino. A noite sem lua deixava o mar como um gigantesco abismo: insondável e assustador.

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A segunda natureza de Adriano – Elisa Ribeiro

 

Os olhos levemente estrábicos de Letícia brilharam ao ver sua imagem refletida no espelho. Vestido novo, cabelo arrumado, maquiagem perfeita. A festa era em uma embarcação, navegando pelo lago Paranoá noite adentro. Fazia tempo que estava sozinha, estava na hora de encontrar um novo parceiro.

Marcou com as amigas mais cedo num bar ao lado do ancoradouro. Tomava uma Margarita quando o coração disparou. O despertar de um antigo medo. Percebeu que não teria coragem de navegar sequer por uma hora, ainda que na tranquilidade daquele lago em noite de ventos calmos. Continue lendo “A segunda natureza de Adriano – Elisa Ribeiro”

Beladona – Catarina Cunha

Beladona nasceu com um problema que carregou como uma cruz por toda a vida. Veio ao mundo proprietária inquestionável de beleza intoxicante; daí o nome.

Foi a bebê mais fofa da maternidade: sem ruga, amarelão, hematoma ou inchaço. Verdadeira top model do berçário. No parquinho sua companhia era disputada pelas mamães, papais, babás, bebês e até pelos cachorros. Voltava para casa toda lambida e com as bochechas amassadas. Passou a infância sendo assediada, bolinada e elogiada como uma boneca de vitrine. Lutou na adolescência por uma identidade própria. Quis ser professora, veterinária, bombeira, policial, atleta e cientista. Todo mundo achava graça nela desperdiçar tamanha lindeza. Nem pensar. Foi capa de revista infantil, modelo e, para ser atriz, bastou estar de corpo presente no estúdio para ganhar fama e fortuna. A família, orgulhosa, cobria a garota de mimos.  Eram tantos compromissos que Beladona desistiu de seus sonhos. Continue lendo “Beladona – Catarina Cunha”

Nó de Rendeira – Sandra Godinho

Dona Firmina, que já não tinha as mãos firmes, arrastou com dificuldade a cadeira para junto da janela, buscando na claridade a guia dos olhos. Olheiras azuis, córneas esbranquiçadas, insones de dias, preocupadas a encarar o corpo que apodrecia a cada segundo e com a missão que ainda não cumprira. Ela desejava a luz branca, o céu, o teto da santidade humana o qual ainda não podia encontrar, mesmo a natureza expulsando-a da terra com a pressa que nunca teve razão de ser.

Depois da cadeira colocada no lugar de costume, arrastou o cavalete de madeira, deitando a almofada cilíndrica em seu encaixe no topo. Depois, alcançou o pique, o molde em papelão que guardava o desenho da renda. O caminho de mesa ficaria bonito na mesa de jantar, relíquia de rendeira velha. Continue lendo “Nó de Rendeira – Sandra Godinho”

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