Café – Catarina Cunha

Antes de pensar o dia perguntei-me se haveria outra noite suficiente para alimentar todas as bocas estelares. A mudez solar sepultou todos os meus pensamentos óbvios na cova rasa da imensidão galáctica.

Vácuo no corredor.

Meteórico.

Foda.

Odeio o dia começar assim da mesma forma que terminou.

A cafeteira me inferniza com questionamentos domésticos recheados de rotina maternal. Sofro as lamúrias depressivas das marés, como se não bastasse o que tenho que assistir inerte.

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Sopa de Fruta pão – Paula Giannini

Ingredientes

1 fruta pão madura

100 g de linguiça calabresa

3 colheres de azeite

5 dentes de alho – 1 cebola média

Salsinha e sal a gosto

De seus olhos vertiam mares. Não à toa. Era preciso cortar a cebola miúda, algo que aprendera com a mãe, ainda em menina, e que agora, aos poucos, quase que instintivamente, também ensinava à filha. Comida também tem ciência, ela dizia. Tem ciência. E cada prato, sua própria sabedoria.

Saudade. Quase podia senti-la ali. Aromas e sabores eram poderosas máquinas do tempo. Mas não por isso derramava lágrimas. Não. Não por isso. Tampouco era pelo ácido do corte enevoando toda a cozinha. Não. Não por isso e menos ainda pelo vento, que, agora levantando a cortina que tomava o lugar da porta, soprava-lhe gelo na nuca desnuda, tão desacostumada a andar assim, desprotegida.

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Iberê – Renata Rothstein

Mais um dia chegava ao fim, naquele distante Brasil. Tão distante, quanto belo e sofrido. 
Na terra das chuvas o pouco era sempre muito, pra bem, ou pra mal.
Misto de cor, dor e beleza, que fugia a qualquer compreensão. 
Até mesmo os destinos, mais que noutro lugar qualquer, pareciam seguir um roteiro escrito por mãos sábias e um tanto cruéis, invariavelmente misteriosas.
Iberê trazia no rosto as marcas do tempo, da vida, assim como o solo dos caminhos ficam sulcados pelas muitas águas ou pelas muitas secas, rugas precoces que contavam histórias de força, de luta e superação.
De perdas, muitas – mas o sangue guerreiro de seus antepassados, os sobreviventes mundurukus, correria até o fim em suas veias, quisesse ele, ou não.

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Versos trocados – Fernanda Caleffi Barbetta

Um barulho na janela tirou minha atenção da leitura. Dali de onde eu estava, na poltrona, espichei um pouco o pescoço e consegui ver que era uma espécie de pássaro em pé sobre o parapeito, do lado de fora. Deixei o livro de lado e fui até lá. Era um pombo quase todo branco, não fosse pelas penas negras na cauda e algumas manchinhas na cabeça. Assim que percebeu que eu o examinava, começou a bater a cabecinha no vidro, insistentemente, uma, duas, três, quatro vezes.
Com as mãos sobre a boca, fui me afastando, um pouco mais a cada golpe seco sobre a vidraça, o tec tec me afligindo, não sei se pelo inusitado da situação ou pela possibilidade dele estar se machucando com aquele ato repetido. Continue lendo “Versos trocados – Fernanda Caleffi Barbetta”

Carpe diem – Claudia Roberta Angst

Que novidade é essa? Todas as janelas estão abertas, mas as portas uma a uma são trancadas. Pessoas isoladas, mentes fechadas, entradas lacradas e bloqueadas.

Sinto medo e tristeza. Depois, passa. Como tudo passa, sem deixar aviso ou alternativa. Apenas passa.

Clarinha anda de lá para cá, e de cá para todos os outros cantos, como um daqueles robozinhos de brinquedo que batem em uma parede e retornam em linha reta. Imagino o impacto seco dos pensamentos a impulsionando de volta a uma rota imaginária. Sigo o som de suas pegadas no chão, que já deve estar acumulando riscos e poeira, mesmo com a rotina desvairada de faxina.

─ Por Deus, menina, sossega!

Viro a cabeça ao ouvir a voz de Amadeu. Parece indeciso, talvez se equilibrando sobre a tênue linha que separa a tolerância herdada do acúmulo dos anos e a impaciência da falta de perspectivas.

Pressinto uma tempestade… Há cheiro de chuva no ar. Que delícia! Um dos meus aromas preferidos na vida.

─ Mas, pai, não está vendo o que está acontecendo?

─ Trancado aqui, fica difícil ver ou saber de qualquer coisa.  

Meu Amadeu, sempre irônico e pouco habilidoso com as palavras. Sútil como um paquiderme afoito em loja de delicados cristais.

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De volta ao paraíso – Amana

O prédio agora era uma construção tão desfigurada pelo tempo e pela desgraça, tanto quanto ele mesmo era. As estantes empoeiradas, os livros há tanto tempo fechados. Há quantos anos não eram mais tocados pelas mãos de leitores ávidos pelas histórias neles oferecidas? Mãos como as dele.

Antes da fatalidade lia muito, sedento por histórias a lhe proporcionar momentos em lugares inimagináveis, para onde ele talvez jamais fosse. Quando poderia estar no mar, caçando Moby Dick? Ou na selva, com Mogli? Ou na Inglaterra coberta pela névoa, cuidando de um jardim secreto?

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Resenha: “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Cláudia Quintana Arantes – por Bia Machado

Descobri Ana Claudia Quintana Arantes no YouTube, ao buscar vídeos sobre um tema que eu queria trabalhar com meus alunos, há uns dois anos. Fiquei impressionada com a maneira da escritora, médica e palestrante, tratar o assunto “morte” e ao mesmo tempo abordar sua antítese, a “vida”. Já fui procurar sobre algum livro dela e encontrei “A morte é um dia que vale a pena viver”, publicado pela editora Casa da Palavra. É um livro que desde o seu título provoca o leitor a pensar sobre o assunto de uma forma mais positiva. O que há de positivo em se saber que está para morrer? O que você preferiria? Saber a verdade, ou ser poupado?

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Vício silencioso – Juliana Calafange

São vinte um dias do segundo mês da terceira década do milênio, e há algo muito estranho acontecendo. Desde o ano passado, o silêncio parece ter desaparecido. Falo do silêncio propriamente dito. Não é aquele silêncio de quando a gente acampava no mato, som de insetos, grilos, corujas. Falo do silêncio mesmo, total. Um silêncio que já era raro, principalmente na cidade, onde tudo parece ter sido feito pra fazer barulho: os carros, ônibus, caminhões, fábricas, televisores, afiadores de facas, vendedores de vassouras, de pamonha, compradores de ferro velho, sinos de igrejas, cachorros, gatos e pássaros de gaiola, panelas na cozinha, descargas de banheiro, janelas de alumínio abrindo e fechando, secadores de cabelos, aspiradores de pó, telefones fixos e móveis com diversos toques polifônicos, o vendedor de algodão doce, ou de qualquer outra coisa. Obras da prefeitura, para a melhoria da urbe, ou simplesmente obras particulares, residenciais, pequenos consertos, barulho constante, sete dias por semana. Domingos e feriados não são poupados, pois sempre há o churrasco de família, a festinha de criança, o bar com pagode ao vivo, os parafusos e as furadeiras, os pregos e os martelos, a TV ligada no programa de auditório, os jovens e adolescentes falando alto ou ouvindo em volume alto seus “sons” do momento. Os bebês e crianças a testarem seus pulmões.

A princípio pareceu a todos nós uma coisa normal, natural e necessária. Os velhos reclamando do barulho dos vizinhos e os vizinhos usando os instrumentos mais barulhentos: martelo, serra, marreta, bombas; as mulheres com seus tamancos de madeira, vassouras, gritos estridentes e enciumados! Os homens com suas últimas palavras, seu futebol fanático. Fodas cada vez mais escandalosas, gatas miando no cio, cachorros enclausurados clamando por sua liberdade, música que só agrada a uns poucos e precisa ser ouvida por todos, festas, oficinas mecânicas, aeroportos, estações de trem, de metrô.

Tudo aconteceu aos poucos, é claro. Ninguém percebeu a princípio. Foi tudo muito gradual. As pessoas se incomodavam e mantinham a pose de quem não se importa, pose de quem se adaptou, uma vez que adaptar-se era o lema do momento; porém no fundo sentiam que alguma coisa estava além da conta. Mas também iam se acostumando gradualmente com o barulho, sabendo que não havia muito a fazer, que era uma coisa maior que a vontade de todos, era uma onda quase natural, um processo global, cultural, impossível de conter.

Até que começaram a surgir os primeiros sinais de que a coisa era séria. Séria para toda a humanidade. Foi no dia em que se viu a primeira propaganda comercial de um pedaço de silêncio.

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Mechanismo – Iolandinha Pinheiro

 

O INÍCIO

Em 1940, um dia antes do embarque dos jovens selecionados para as batalhas da segunda guerra mundial, o melhor amigo de Benjamin Schuartzmann organizou uma noitada de despedida com muita bebida e dança. Durante a festa, o jovem aspirante foi esnobado pela loira Elizabeth Rivers, o que o fez beber além da conta e perder o trem para o quartel. Por sorte do rapaz, havia outro comboio com o mesmo destino, partindo uma hora depois e Benjamin conseguiu lugar no último vagão, onde também viajava um curioso senhor usando uma exótica roupa colorida, que se distraía mexendo em um relógio dourado.

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Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

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pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

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deus da mitologia – Sabrina Dalbelo {inapropriado para menores}

Segunda-feira almocei na praça de alimentação do shopping. Não estava com muito apetite, comi pouco. Cheguei cedo para pegar lugar, escolhi um buffet. Tomei um copo d’água, como o usual e deixei o restaurante.

Do lado oposto ao dali, avistei um cartaz colorido, que me chamou a atenção. O filme estampado era “Thor Ragnarok”. A semana estava difícil, resolvi apostar numa distração, mal sabia eu que aquela sessão de cinema seria a mais inusitada da minha vida.

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Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

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Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio

Quando foi morar na casa da Dedé, Pipo ainda era bem pequeno, um cachorrinho com apenas algumas semanas de vida. No início, ele não sabia onde fazer o xixi e o cocô e levava bronca sempre que sujava a sala. Era muito difícil entender o que seus donos queriam que ele fizesse. E o que eles não queriam também.
Dedé comprou vários brinquedos para o filhotinho: bolinhas, ossinhos que faziam barulho e bonecos de pelúcia. Pipo adorava morder os brinquedos. Mas a sua diversão maior era morder as roupas, os móveis e as mãos da Dedé. A menina não entendia porque ele fazia aquilo.

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Resistência (Renata Rothstein) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.

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SAUDADE, PALAVRA SEM FIM – Claudia Roberta Angst

Sentia a falta dele, como quem consome mais palavras do que cabem na boca, aos bocados, sem trégua. Rompia-se em saudades, em implosões contidas, subterrâneas sensações que a levavam a um ócio doentio, ao meio de todas as dúvidas que amanheciam junto a ela. Por que não falara toda a verdade quando o céu ainda estremecia em temeridade ao julgo daqueles que realmente importavam? Por que faltara com a sinceridade pontual, característica dos amantes imortais, para só então revelar o que lhe vinha definhando as fibras do bom senso, uma a uma, como cordas desgastadas de um instrumento afinado e raro? Decerto, cumpriria as inúmeras promessas, assim que fosse possível, se algum dia, fosse mesmo possível, expressar em ações tudo o que havia sido acordado entre eles, já tontos pela embriaguez passional, às portas de um romance que, logo de início, já se mostrava compassivo e dúbio.

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