Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

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Culturar (Zé Parangolé de Marré Maré) – Desafio

Cultura popular, oriental e haikai

Samba do brasileiro ensandecido e seu forró arretado de doido

Cultuando o culturar

Pela via do dia-a-dia

Que é a rotina ardente não descontente

Dos descamisados desnecessariamente úteis

Dos yogues urbanos ufanos

Dos mestres de rua do mundo da lua

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pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

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deus da mitologia – Sabrina Dalbelo {inapropriado para menores}

Segunda-feira almocei na praça de alimentação do shopping. Não estava com muito apetite, comi pouco. Cheguei cedo para pegar lugar, escolhi um buffet. Tomei um copo d’água, como o usual e deixei o restaurante.

Do lado oposto ao dali, avistei um cartaz colorido, que me chamou a atenção. O filme estampado era “Thor Ragnarok”. A semana estava difícil, resolvi apostar numa distração, mal sabia eu que aquela sessão de cinema seria a mais inusitada da minha vida.

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Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

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Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio

Quando foi morar na casa da Dedé, Pipo ainda era bem pequeno, um cachorrinho com apenas algumas semanas de vida. No início, ele não sabia onde fazer o xixi e o cocô e levava bronca sempre que sujava a sala. Era muito difícil entender o que seus donos queriam que ele fizesse. E o que eles não queriam também.
Dedé comprou vários brinquedos para o filhotinho: bolinhas, ossinhos que faziam barulho e bonecos de pelúcia. Pipo adorava morder os brinquedos. Mas a sua diversão maior era morder as roupas, os móveis e as mãos da Dedé. A menina não entendia porque ele fazia aquilo.

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Resistência (Mary Ann) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.

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SAUDADE, PALAVRA SEM FIM (Alguém) – Desafio

Sentia a falta dele, como quem consome mais palavras do que cabem na boca, aos bocados, sem trégua. Rompia-se em saudades, em implosões contidas, subterrâneas sensações que a levavam a um ócio doentio, ao meio de todas as dúvidas que amanheciam junto a ela. Por que não falara toda a verdade quando o céu ainda estremecia em temeridade ao julgo daqueles que realmente importavam? Por que faltara com a sinceridade pontual, característica dos amantes imortais, para só então revelar o que lhe vinha definhando as fibras do bom senso, uma a uma, como cordas desgastadas de um instrumento afinado e raro? Decerto, cumpriria as inúmeras promessas, assim que fosse possível, se algum dia, fosse mesmo possível, expressar em ações tudo o que havia sido acordado entre eles, já tontos pela embriaguez passional, às portas de um romance que, logo de início, já se mostrava compassivo e dúbio.

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Em voo – Paula Giannini

Enquanto em queda
Livre
Não ela
Mas o buraco que se lhe abre em boca
 
A dor é tamanha
É tanta
Que não ousa gritar que é quase
O instante que já
 
No baque de dentes prontos
Momento derradeiro
O fundo do asfalto
O poço seco por que tanto anseia

Meu desafio: Escrever poesia.

Photo by Marcelo Moreira from Pexels

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