Iberê – Renata Rothstein

Mais um dia chegava ao fim, naquele distante Brasil. Tão distante, quanto belo e sofrido. 
Na terra das chuvas o pouco era sempre muito, pra bem, ou pra mal.
Misto de cor, dor e beleza, que fugia a qualquer compreensão. 
Até mesmo os destinos, mais que noutro lugar qualquer, pareciam seguir um roteiro escrito por mãos sábias e um tanto cruéis, invariavelmente misteriosas.
Iberê trazia no rosto as marcas do tempo, da vida, assim como o solo dos caminhos ficam sulcados pelas muitas águas ou pelas muitas secas, rugas precoces que contavam histórias de força, de luta e superação.
De perdas, muitas – mas o sangue guerreiro de seus antepassados, os sobreviventes mundurukus, correria até o fim em suas veias, quisesse ele, ou não.

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Versos trocados – Fernanda Caleffi Barbetta

Um barulho na janela tirou minha atenção da leitura. Dali de onde eu estava, na poltrona, espichei um pouco o pescoço e consegui ver que era uma espécie de pássaro em pé sobre o parapeito, do lado de fora. Deixei o livro de lado e fui até lá. Era um pombo quase todo branco, não fosse pelas penas negras na cauda e algumas manchinhas na cabeça. Assim que percebeu que eu o examinava, começou a bater a cabecinha no vidro, insistentemente, uma, duas, três, quatro vezes.
Com as mãos sobre a boca, fui me afastando, um pouco mais a cada golpe seco sobre a vidraça, o tec tec me afligindo, não sei se pelo inusitado da situação ou pela possibilidade dele estar se machucando com aquele ato repetido. Continue lendo “Versos trocados – Fernanda Caleffi Barbetta”

Carpe diem – Claudia Roberta Angst

Que novidade é essa? Todas as janelas estão abertas, mas as portas uma a uma são trancadas. Pessoas isoladas, mentes fechadas, entradas lacradas e bloqueadas.

Sinto medo e tristeza. Depois, passa. Como tudo passa, sem deixar aviso ou alternativa. Apenas passa.

Clarinha anda de lá para cá, e de cá para todos os outros cantos, como um daqueles robozinhos de brinquedo que batem em uma parede e retornam em linha reta. Imagino o impacto seco dos pensamentos a impulsionando de volta a uma rota imaginária. Sigo o som de suas pegadas no chão, que já deve estar acumulando riscos e poeira, mesmo com a rotina desvairada de faxina.

─ Por Deus, menina, sossega!

Viro a cabeça ao ouvir a voz de Amadeu. Parece indeciso, talvez se equilibrando sobre a tênue linha que separa a tolerância herdada do acúmulo dos anos e a impaciência da falta de perspectivas.

Pressinto uma tempestade… Há cheiro de chuva no ar. Que delícia! Um dos meus aromas preferidos na vida.

─ Mas, pai, não está vendo o que está acontecendo?

─ Trancado aqui, fica difícil ver ou saber de qualquer coisa.  

Meu Amadeu, sempre irônico e pouco habilidoso com as palavras. Sútil como um paquiderme afoito em loja de delicados cristais.

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De volta ao paraíso – Amana

O prédio agora era uma construção tão desfigurada pelo tempo e pela desgraça, tanto quanto ele mesmo era. As estantes empoeiradas, os livros há tanto tempo fechados. Há quantos anos não eram mais tocados pelas mãos de leitores ávidos pelas histórias neles oferecidas? Mãos como as dele.

Antes da fatalidade lia muito, sedento por histórias a lhe proporcionar momentos em lugares inimagináveis, para onde ele talvez jamais fosse. Quando poderia estar no mar, caçando Moby Dick? Ou na selva, com Mogli? Ou na Inglaterra coberta pela névoa, cuidando de um jardim secreto?

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Vício silencioso – Juliana Calafange

São vinte um dias do segundo mês da terceira década do milênio, e há algo muito estranho acontecendo. Desde o ano passado, o silêncio parece ter desaparecido. Falo do silêncio propriamente dito. Não é aquele silêncio de quando a gente acampava no mato, som de insetos, grilos, corujas. Falo do silêncio mesmo, total. Um silêncio que já era raro, principalmente na cidade, onde tudo parece ter sido feito pra fazer barulho: os carros, ônibus, caminhões, fábricas, televisores, afiadores de facas, vendedores de vassouras, de pamonha, compradores de ferro velho, sinos de igrejas, cachorros, gatos e pássaros de gaiola, panelas na cozinha, descargas de banheiro, janelas de alumínio abrindo e fechando, secadores de cabelos, aspiradores de pó, telefones fixos e móveis com diversos toques polifônicos, o vendedor de algodão doce, ou de qualquer outra coisa. Obras da prefeitura, para a melhoria da urbe, ou simplesmente obras particulares, residenciais, pequenos consertos, barulho constante, sete dias por semana. Domingos e feriados não são poupados, pois sempre há o churrasco de família, a festinha de criança, o bar com pagode ao vivo, os parafusos e as furadeiras, os pregos e os martelos, a TV ligada no programa de auditório, os jovens e adolescentes falando alto ou ouvindo em volume alto seus “sons” do momento. Os bebês e crianças a testarem seus pulmões.

A princípio pareceu a todos nós uma coisa normal, natural e necessária. Os velhos reclamando do barulho dos vizinhos e os vizinhos usando os instrumentos mais barulhentos: martelo, serra, marreta, bombas; as mulheres com seus tamancos de madeira, vassouras, gritos estridentes e enciumados! Os homens com suas últimas palavras, seu futebol fanático. Fodas cada vez mais escandalosas, gatas miando no cio, cachorros enclausurados clamando por sua liberdade, música que só agrada a uns poucos e precisa ser ouvida por todos, festas, oficinas mecânicas, aeroportos, estações de trem, de metrô.

Tudo aconteceu aos poucos, é claro. Ninguém percebeu a princípio. Foi tudo muito gradual. As pessoas se incomodavam e mantinham a pose de quem não se importa, pose de quem se adaptou, uma vez que adaptar-se era o lema do momento; porém no fundo sentiam que alguma coisa estava além da conta. Mas também iam se acostumando gradualmente com o barulho, sabendo que não havia muito a fazer, que era uma coisa maior que a vontade de todos, era uma onda quase natural, um processo global, cultural, impossível de conter.

Até que começaram a surgir os primeiros sinais de que a coisa era séria. Séria para toda a humanidade. Foi no dia em que se viu a primeira propaganda comercial de um pedaço de silêncio.

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Mechanismo – Iolandinha Pinheiro

 

O INÍCIO

Em 1940, um dia antes do embarque dos jovens selecionados para as batalhas da segunda guerra mundial, o melhor amigo de Benjamin Schuartzmann organizou uma noitada de despedida com muita bebida e dança. Durante a festa, o jovem aspirante foi esnobado pela loira Elizabeth Rivers, o que o fez beber além da conta e perder o trem para o quartel. Por sorte do rapaz, havia outro comboio com o mesmo destino, partindo uma hora depois e Benjamin conseguiu lugar no último vagão, onde também viajava um curioso senhor usando uma exótica roupa colorida, que se distraía mexendo em um relógio dourado.

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O Preço

Ela estava chegando… Ele havia tido aquele sonho outra vez:  A moça vinha subindo pela areia da sepultura. Separando a terra negra e úmida até chegar à superfície. Andando, pálida e suja, mas resoluta em direção a ele… Emmanoel Olhou para o relógio com aflição. Ia por dentro da velha casa em passos ligeiros, verificando cada tranca, uma, duas, três vezes…. Encheu as frestas das janelas emparedadas com retalhos encharcados no barro mole. Por fim, e não restando mais nada a fazer, trancou-se na pequena despensa da cozinha e esperou.

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a maior metáfora fui eu (Sabrina Dalbelo)

Ao vivo e, ao evocar os meus demônios, eu ofertarei meus medos, meus filhos e meu saco de moedas.

Não posso te prometer um final luxuoso, nem aplausos, mas te darei meu nome e tudo o que dele fizeram.

Não tenho lembranças nem crenças. As verdades, as abandonei todas.

Trilhei um caminho torto e indigno de registro em medalhas.

Tenho o que sobrou da minha alma como legado.

Tudo isso dá uma palavra só, tão pequena que foi a minha imensidão.

Doença de Família – Sabrina Dalbelo

Primeiro lugar no vestibular na Faculdade de Medicina da USP 2007. Grande mérito, resultado de igual dose de responsabilidade. Isabela Alonso entrava na faculdade como a melhor da turma e logo se tornaria a preferida do professor de anatomia, Ricardo Pádua, um reconhecido médico paulista. As investidas, após as aulas práticas sobre o sistema cardiovascular, resultaram na entrega do coração ao mestre, vinte anos mais velho. Eram companheiros frequentes nos intervalos das aulas e logo o namoro engatou.

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Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

Resultado Difícil de Prever (Fheluany Nogueira)

 O que quer que tivesse esperado viver naquela noite escura e fria em que saíra de casa de pijama, não era aquilo.

 

— Para o Shopping! — a mesma voz que me chamou dizendo que ele e o amigo estavam voltando do restaurante para casa. Nove horas de uma noite chuvosa. Como assim? Agora querem fazer compras? E a volta para casa? E como fico com a empresa?

— Claro que sim! —respondi. Estava dormindo quando ligaram e não me dei ao trabalho de tirar o pijama; vesti camiseta e jeans sobre ele. Ainda peguei uma jaqueta. — Tonta, eu. Por que fico encucada?

Pelo retrovisor, observava os passageiros, calados no banco de trás: um jovem, com muita acne no rosto; outro, musculado, com ar de indiferença. No Walmart, o mais moço ficou comigo no carro, talvez para assegurar que não os abandonaria. Na volta:

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Para Inspirar – A Bela Adormecida (Martha Angelo)

A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante, uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas…
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — Suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — Imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.

A vida ia passando também.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

De frente… enfrente! (Fheluany Nogueira)

 

 

A cachorrinha que parece não gostar da casa, não quer saber de ninguém e vive como gente à parte, pelos cantos. E, late a noite inteira, bem de frente das pessoas, numa acusação.

— Não há mais razão para ficar com ela… — o pai vai matar a cachorra cor preta, com manchas marrons… Carrega a espingarda, segue-a por entre a fileira de tijolos no jardim. Nina não escuta o tiro, mas vê o sangue no tijolo cru; não pode olhar a espingarda. O pai matara com raiva.  E isso transformou o mundo em e cinzas.

Ninguém me ama

      Ninguém me quer

   Por isso eu vou

     Comer barata!

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(A)Outra – Paula Giannini

Bateu a porta.

Finalmente em casa, arrancava tudo: roupas, sapatos, meia-calça, cinta, calcinha, sutiã, aquele aplique patético para deixar os cabelos compridos. Os cílios. Os malditos e borrados cílios postiços, ensopados de suor, grudando nos dedos a gosma negra da cola.

Maldito verão.

Melhor ligar logo a porcaria do ventilador.

Não dava.

Onde enfiara, pela glória de sua mãe, Iansã, os ainda mais malditos benjamins?

Por que, por sua mãe, por quê? Continue lendo “(A)Outra – Paula Giannini”

Algarve – Evelyn Postali

(Para Ana Maria Monteiro, minha amiga secreta. Dezembro, 2018)

De mansas correntes, e azuis e verdes inesquecíveis, se fazia a paisagem. Ana admirava tudo, parada na beira da praia. Com o olhar fixo no balanço das ondas, voltava a ter quinze anos e o mundo podia ser carregado nos braços outra vez.

A água límpida tocou-lhe os pés, agora lisos e de uma juventude invejável. Mexeu os dedos e moveu-os, para frente e para trás, um de cada vez, sentindo a textura da areia. Cada grãozinho contava um pedacinho de alguma vida e as conchas, aqui e ali, murmuravam segredos nem tão secretos assim. O mundo é grande, o tempo é longo, a vida é curta. Continue lendo “Algarve – Evelyn Postali”

RENOVAÇÃO – Juliana Calafange

Nascida na capital da província, Akili fora para a aldeia ainda moça, para se casar com o filho do soba[1] local. Ao longo de trinta anos foi esposa dedicada, teve três meninos saudáveis e fez-se útil à sua comunidade, ajudando na lavra e também ensinando o português para as crianças, pois a maioria na aldeia só conhecia o dialeto macua. E esse era seu maior encantamento, ajudar as crianças a descobrir as veredas do idioma e da literatura, que para ela não havia arte maior no mundo. Foi pelas letras que Akili criou raízes na pequena comunidade. Os livros a ajudaram a superar momentos difíceis e foram testemunhas das suas alegrias naquele lugar. A aldeia passou a ser o seu lar, onde sentia-se respeitada e amada, onde podia viver cercada de juventude e histórias, longe dos conflitos políticos da capital. Continue lendo “RENOVAÇÃO – Juliana Calafange”

A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração! Continue lendo “A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali”

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