Diana – Priscila Pereira

Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam estavam quase em extinção. As Ondinas tomaram o poder por um momento de fraqueza do povo do fogo. Outrora poderosos, deixaram-se enganar pelo orgulho, desprezaram os demais elementos, então foram derrotados. A montanha sagrada foi apagada e os filhos do fogo caçados e mortos. Os que sobraram se esconderam e deixaram seus poderes de lado. Agora quase não havia mais chance de equilíbrio. Tudo estava molhado ou úmido.  Até a alma das pessoas juntava bolor.

Diana nasceu debaixo de um chuvisco fino, perpétuo, que impregnou seus ossos trazendo dores que nenhuma criança deveria sentir. Cresceu em meio aos fungos e musgos. Algo dentro dela se rebelando àquele tempo. As dores se intensificavam a cada ano completado. Uma ardência, como metal quente mergulhado em água gelada. Borbulhava.

Assim que completou quinze anos de dores e desespero, descobriu o motivo de tanto sofrimento. Um pouco antes do meio dia seus pais a levaram por um caminho subterrâneo até um salão escuro e abafado. Logo algumas pessoas chagaram, mais silenciosas do que a neve que caia nas montanhas. Viu que entre os presentes estava Leon e seu sangue ferveu, assim como, quando viu pela primeira vez seu sorriso, tão quente quanto deveria ser o sol. Sentia todo o corpo esquentar quando o sorriso era direcionado a ela e com o tempo passaram a ser tão frequentes quanto às chuvas. Ficou feliz com a presença dele, seria mais uma coisa que teriam em comum. Quando o último dos convidados chegou, fecharam as portas e deram início ao ritual.

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Sal & Amanda (Claudia Roberta Angst)

─ Tem certeza? Não quer pensar melhor? Olha que esse é um caminho sem volta…

Mas Amanda estava decidida. Nem mesmo um único cílio tremulava em hesitação. Nunca tivera tanta certeza na vida. Aquela era mais uma promessa de verão que cumpria sorrindo.

─ Manda ver!

E assim, o som metálico ganhou ecos como relâmpagos subliminares que aos poucos reduziram o silêncio a alguns suspiros e ais de admiração ou talvez espanto.

No chão, o derrame dos cortes, da evolução de processos impostos pela impulsividade de dias intensos orientados pela relutância de não se deixar levar por simples conveniência. Não sentiu dor, nem mesmo angústia, pelo contrário, sentia a cabeça leve, livre de um peso que há muito não lhe pertencia.

─ Isso é o bastante para você, querida?

─ Mais um pouco. Vamos até o fim.

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Passageiras – Sabrina Dalbelo

O Emissário, criatura responsável pela Passagem, é o funcionário a quem incumbe a evolução dos processos. Forjado no início dos tempos, desde a primeira morte de um ser dito vivo, seu grande mister é o de depositar as almas na grande labareda da purificação e, com isso, manter o ciclo da transmutação. Ele perambula nu, não se alimenta e não pensa em nada.

Ele é apenas o ente responsável por guiar as passageiras. Não mata, não cobra, não escolhe, não ganha nem perde nada a partir do seu labor. Existe porque lhe é dado existir.

O Emissário é apenas um, ainda que não seja propriamente uno. Não tem braços, pernas, asas, membros, vontades ou posses, assim definidos. Ele tem a força suficiente para alimentar o Fogo da cura com as almas, e essa é toda a força do mundo.

O lugar onde está o Emissário é cheio de corredores vazios, desabitados, sem corpos, sem tapetes, sem janelas. Não há boas-vindas nem despedidas. Chamá-lo de purgatório seria mascará-lo com o entendimento limitador de “habitar”. Portanto, o lugar da emissão não é um lugar ao qual alguém pertença ou onde se estabeleça. É uma passagem.

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De frente… enfrente! (Fheluany Nogueira)

 

 

A cachorrinha que parece não gostar da casa, não quer saber de ninguém e vive como gente à parte, pelos cantos. E, late a noite inteira, bem de frente das pessoas, numa acusação.

— Não há mais razão para ficar com ela… — o pai vai matar a cachorra cor preta, com manchas marrons… Carrega a espingarda, segue-a por entre a fileira de tijolos no jardim. Nina não escuta o tiro, mas vê o sangue no tijolo cru; não pode olhar a espingarda. O pai matara com raiva.  E isso transformou o mundo em e cinzas.

Ninguém me ama

      Ninguém me quer

   Por isso eu vou

     Comer barata!

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A Arca das Palavras – Evelyn Postali

Terra, Continente do Norte, 2-988. Registro midiático 10950.

O objeto foi deixado a mim por alguém conhecido de minha mãe, com indicação expressa: abri-la em meu trigésimo aniversário.

Se eu não a estivesse tocando, não acreditaria. Uma arca, assim como todas as arcas da história da humanidade o foram: de madeira envelhecida e cheiro de ancestralidade; tão sólida que seria preciso muita força para arranhar sua superfície com qualquer lâmina cortante, e tão maciça quanto as ligas de metais descobertas nesse século carregado de tecnologia alienígena.

Meu monitor de pesquisa aponta para um exemplar de quercus, hoje existente apenas em algumas montanhas ao sudeste daqui. O selo é áureo, de metal raro e inexistente.

O primeiro contento é um papel caligrafado, deixado, creio, propositalmente, em cima de vários exemplares de livros, artefatos de papel não mais produzidos por nós. Tenho uma raridade nas mãos

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(A)Outra – Paula Giannini

Bateu a porta.

Finalmente em casa, arrancava tudo: roupas, sapatos, meia-calça, cinta, calcinha, sutiã, aquele aplique patético para deixar os cabelos compridos. Os cílios. Os malditos e borrados cílios postiços, ensopados de suor, grudando nos dedos a gosma negra da cola.

Maldito verão.

Melhor ligar logo a porcaria do ventilador.

Não dava.

Onde enfiara, pela glória de sua mãe, Iansã, os ainda mais malditos benjamins?

Por que, por sua mãe, por quê? Continue lendo “(A)Outra – Paula Giannini”

Coleção de Um Coveiro – Thaís Lemes Pereira

–  Bem-vinda, sua idolatra! – eu disse, quando escutei o rangido da porta e senti o vento entrar. Minhas mãos ainda tremiam, mas a garrafa de conhaque vazia em cima da mesa mostrava que não era de frio. – Ainda é dia, vejo que se adiantou.

Acendi um cigarro. Lancei prazerosamente a fumaça e lembrei das recomendações médicas para que não bebesse e não fumasse. Soltando uma gargalhada afoita, sobreveio uma tosse. Não me faria diferença nenhuma!

– Aceita? – estendi a mão com o cigarro e a observei balançar a cabeça de forma negativa. – Acho que sei o motivo de ter chegado tão cedo…

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Nada Existe (Nem o Título) – Thaís Lemes Pereira

A vida não é perfeita, mas também não é ruim. Espera. Contentamento é uma das primeiras coisas que aprendi que não podemos ter. Sou feliz? Bem, eu tenho um emprego, estudo como qualquer garota da minha idade, existe minha mãe. Calma, comecei tudo errado de novo, penso mentalmente, respiro e retorno do início, Isa, para começar: defina felicidade…

***

Naquele dia, fui dormir com a última frase dita pelo professor na cabeça.

***

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No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

Apenas lembro de ter caído em um interminável buraco, desejando descobrir quem o havia cavado. Da noite anterior, recordo que estava sentado de frente para o balcão de um bar, como todas aquelas garrafinhas de conteúdo colorido pedindo “beba-me”. Senti os pelos do braço arrepiarem após dar a partida no carro. Precisei desviar de um animal branco, de porte pequeno, que atravessou com pressa as extremidades da estrada e, depois disso, recordo apenas de estar caindo em um buraco sem fim. Talvez aquela fosse minha sentença por dirigir embriagado: a solidão.

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Dos Amores Divididos e Multiplicados (Regina Ruth Rincon Caires)

Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
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Flor-de-Capitão (Regina Ruth Rincon Caires)

O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do chão. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas.
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O mendigo do Viaduto do Chá (Regina Ruth Rincon Caires)

A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.

Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

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Dores e Amores (Regina Ruth Rincon Caires)

Ajeitada na velha cadeira, na calçada da pequena hospedaria que administra, Carminda observa a noite que cai. O costumeiro xale a lhe cobrir os ombros, os pés metidos em sapatos de pano, aspecto que em nada lembra a menina cheia de ideias que fora um dia. Desolada, de cabelos brancos, opacos, olha o movimento rotineiro das pessoas da vila. Em intervalos longos, os carros passam. Lentos. Mas, mesmo assim, a poeira da rua pouco cascalhada incomoda os olhos. Acende um cigarro, contrariando a ordem médica. Não quer saber. Havia atingido um tempo em que apenas atendia as próprias vontades. As mais simples. Para as outras, já não havia espaço.

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Múltipla Bia (Elisa Ribeiro)

Fui convidada a fazer
um texto para uma amiga,
achei melhor escrever
em forma de poesia,
o nome dela é Bianca,
mais conhecida por Bia,
mas não sou eu, reles poeta,
que falo sozinha por ela,
ela mesma é quem se narra,
nem precisei descobri-la.

Formada em pedagogia
no momento é professora,
mas em sua biografia
revela sem deixar dúvida,
entre tantas outras coisas,
que busca uma alternativa,
novos rumos, outra vida.

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Amiga, de verdade! – Fheluany Nogueira

 

— Eee turmaa!! Voocêexxx goostaam meexxxmo doo meuuu jeito, hein?!!! – Elisa entrou no Mormaai Surf Bar, com segurança e carisma peculiares. Sentia-se candanga verdadeira, de peito e raça, como se fosse uma pioneira na construção da capital, um símbolo da força do país…

A engenheira, vinda de uma família numerosa, optou por não ter filhos, nem animais de estimação. Sua alegria, como ela mesma reiterava, estava nas amigas – como a mãe fora, era amante das festas e reuniões regadas a muito vinho ou cerveja e conversas exaltadas. Gostava da guitarra e de versos românticos. Com o grupo, tornava-se falante, contadora de casos divertidos. O modo de falar era característico: arrastava as sílabas, as palavras ficavam alongadas, salientando as vogais. Mesmo sem vê-la, era reconhecida de longe pela voz grave e fala mole.

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Os frágeis fios da confiança (Anorkinda Neide)

Alina sempre passeava pelos bosques de cristal à tarde, logo depois que o sol atingia o meio do céu. Na verdade, ela precisava buscar um pouco da água límpida da Fonte Matriz para as purificações do fim do dia, mas ela considerava aquela tarefa um passeio, um deleite, até para não zangar-se de ser sempre ela a fazer isso e não alguma de suas cinco irmãs mais velhas.

A mocinha apegou-se àqueles caminhos repletos de vida e de detalhes. As cores mudavam a cada vez que ela por ali passava, seja devido à umidade do ar, ora mais baixa, ora mais alta, seja pela quantidade de nuvens no céu a filtrar a luz solar que se permitia esgueirar por entre as copas das árvores ou mesmo devido ao humor de Alina, havia momentos em que tudo era mais colorido e brilhante, dias felizes ou o bosque recebia tons pasteis insípidos quando a menina chateava-se.

Alina havia completado na véspera quatorze anos de idade e por isso tudo estava radiantemente belo e feliz a sua volta. Ela tinha certeza de que o bosque comemorava com ela daquela paz e alegria de se tornar mocinha e parar de ser tratada como bebê pelas irmãs e pelos vizinhos da aldeia. A moça estava cheia de expectativas para sua vida adulta que ainda demoraria a chegar, mas estava a cada dia mais próxima, ela já podia vislumbrar no horizonte.

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Carta a uma amiga distante (Bia Machado)

Querida amiga, como vai?

Acho que posso chamá-la de Amiga, não posso? Estamos sempre tão distantes uma da outra, pela forma como vivemos a vida, pela forma como nos veem, por tantas diferenças que existem entre nós, mas ainda assim, saiba que tenho uma profunda admiração por você. Sempre acreditei que com você a vida fica mais bonita, você traz o frescor à vida que eu jamais trarei, pelo simples fato de que não fui feita para isso. Nasci da necessidade, imperiosa, de registrar, marcar, calcular, medir, economizar. Aliás, eu faço parte do tempo, das medidas, da forma das coisas, estou ali, em  cada simetria da natureza, como algo inevitável, quase uma fatalidade, ou talvez até como uma mágica… Como contariam estrelas, se eu não existisse? Imagine a vida dos humanos sem mim! Seria um verdadeiro caos. Agora, imagine a vida das pessoas sem você? Seria sem graça, seria mais triste, estaria sempre faltando alguma coisa, no mínimo o tal frescor que citei acima. Continue lendo “Carta a uma amiga distante (Bia Machado)”

Luz (Renata Rothstein)

Caminho. Meu passo – tão invisível quanto solene sela sua autoridade na manhã que nasce, explosão de cores e esperanças.
A porta a ponte o muro e o mundo abrem seus ansiosos olhos, e pouco a pouco exigem, permutam falaciosos sonhos banhados no ouro perdido do que já foi – e embora exaurida estendo minhas mãos sem rumo para tatear a sensibilidade, em tudo que não há. Arrumo e aprumo a lente e o chão, impostos pela impossibilidade que contrariando meu desejo mais oculto, a tudo invade.
Arde em mim a realidade, enfim.
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Um pequeno conto de Natal (Sandra Werneck)

À minha amiga secreta – Maria Santino

Um pequeno conto de Natal à Maria

Eu quero uma espada a laser de Natal. Miguelzinho insistiu com Maria num balbucio que ganhava ares de incômodo. Maria relutava, não por ser adepta do politicamente correto, mas porque o velho pai necessitava de descanso. E espadas bramindo pelos ares fatalmente causariam rebuliço e estragos. Já antevia adornos e quinquilharias espatifadas pelo chão e o desassossego de quem necessitava de calmaria.

Eu quero uma espada a laser de Natal. Diz para o Papai Noel. O filho insistia. Não. Não. E não. Maria também, em balbucios que iam ganhando corpo, depois iam ganhando certeza, depois iam ganhando a destemperança de mães desafiadas. O avô não podia, tinha de se aliviar dos desatinos dos jovens, da teimosia de quem tem no momento a urgência de tudo, de quem acha que é preciso viver antes que as lembranças se eternizem em fotografias, antes que a saudade preencha os cômodos, causando incômodo na alma que nunca se preenche. O avô precisava de paz. Ponto final. Continue lendo “Um pequeno conto de Natal (Sandra Werneck)”

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