O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)

(Para a minha amiga secreta, Priscila, com o desejo de que cumpra os seus sonhos, em 2019 e sempre.)

Priscila adormeceu tranquilamente sem imaginar o que o sono lhe traria.

Sonhou que era noite de Natal e ela, quase criança no sonho, caminhava por uma rua deserta e mal iluminada, levando nos braços o seu gatinho branco malhado de preto, pequenino também ele, num estranho encontro entre quandos diferentes, juntos num tempo em que ele não existia ainda e ela estava ainda longe da mulher que mais tarde veio a ser.

Mas nos sonhos tudo é possível e raramente se estranham estas incongruências e por isso mesmo a situação parecia-lhe normalíssima. Até que o tareco se assustou. Continue lendo “O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)”

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Gostava de andar por ali – Ana Maria Monteiro

Gostava de andar por ali. Pouco lhe importava qual o café onde finalmente se sentava a ler o seu jornal, ou o cinema onde passaria duas horas, ou até mesmo o filme que iria ver.

O que ele gostava mesmo era de andar por ali.

Andar por ali e entregar-se ao seu passatempo favorito: não fazer absolutamente nada.

Era um bom homem – ser mau requer algum empenho.
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Mónica (Ana Maria Monteiro)

 

Vi-a pela primeira vez no centro comercial Apolo 70 em Setembro de 1992, na loja de animais que existia na cave. Olhou para mim com aquele olhar infinito de cão bebé e as nossas vidas tomaram um novo rumo a partir desse instante. Era arraçada de podengo (mãe pura e devassa e pai incógnito e aproveitador) e linda.

Eu não sei se o cão é o melhor amigo de homem. É uma frase feita que contém em si o vazio habitual de todas as frases feitas, que perdem o conteúdo graças à sua repetição banal e sem sentido.

A minha cadela morreu. Continue lendo “Mónica (Ana Maria Monteiro)”

Zorro – Ana Maria Monteiro

Recordo-me que crescia feliz, como quase todas as crianças crescem, sem nunca pensar nisso. Queria ser grande, ser como “os grandes”. Todos queríamos, nessa época em que ser criança era sinónimo de “não ter voto na matéria”, estar calado à mesa, cumprimentar qualquer desconhecido amigo do pai ou da mãe, com a maior cortesia; enfim, tudo era “uma seca”, um deserto que todos tínhamos de atravessar para chegar à tão desejada idade adulta, aquela em que, aparentemente, tudo era permitido. Eu nem sonhava que vivia em ditadura. Não sabia o que isso era, nunca tinha ouvido a palavra, mas se alguém ma tivesse explicado, certamente teria pensado que os ditadores do mundo eram os pais, todos os pais que conhecia.

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Mudam-se os tempos – Ana Maria Monteiro

Sucedeu há uns anos.
Vem-me hoje à memória a propósito do dia da mulher.
É, no entanto, uma associação de ideias algo estranha. Mas conto a história na mesma.

Depois de uma longa estada em Madrid, onde estivera destacado por uns meses, regressava a casa, comodamente instalado num desses compartimentos de que, à época, estavam dotadas as carruagens de primeira classe daqueles comboios. Eu viajava junto à janela, de costas para a paisagem que, assim, surgia como uma permanente e um tanto monótona surpresa e ele, de frente para mim, também à janela, cujo cenário ignorava completamente, imerso que se encontrava na leitura do jornal, dava-me a estranha e um pouco incómoda sensação de o conhecer. Este “dejá vù” inicial foi adquirindo contornos de realidade até que já sabia perfeitamente identificar a sua origem. A probabilidade de não estar enganado era nula, pensava eu enquanto a certeza continuava a instalar-se em mim, de forma tão garantida que deve ter-se tornado quase palpável. Ele, pelo menos, sentiu algo e reagiu. Com o seu ar fora de moda, soergueu ligeiramente o olhar e fitou-me arqueando muito ao de leve a sobrancelha direita, numa expressão que me embaraçou e intimidou um pouco. Tinha um ar grave e respeitável, no seu fato antiquado e de bom corte que cobria um corpo rechonchudo. O chapéu de coco, completamente fora de propósito noutra criatura qualquer, acentuava-lhe o todo.

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Gestação – Ana Maria Monteiro

Estarmos juntos era-nos tão natural quanto o existirmos. Nem imaginávamos que pudesse ser diferente.

Tudo era perfeito. E o nosso conhecimento mútuo, de tão intrínseco, dispensava o diálogo – compreendíamo-nos por osmose, ambos solutos e solventes.

Brincávamos muito. Éramos felizes, até por nem sabermos o que isso fosse.

Naquele dia…

Não, não naquele dia; não existiam dias, tudo era o momento.

Naquele momento ele apercebeu um movimento de que não me tinha dado conta.

“Vamos?”- foi o desafio sem palavras. Continue lendo “Gestação – Ana Maria Monteiro”

História de amor – Ana Maria Monteiro

Daniel era um rapaz em torno de quem as raparigas volteavam como borboletas entontecidas. O caso não era para menos, nem de admirar: filho do homem mais rico lá da terra (embora esse pai tivesse um passado algo obscuro que ninguém questionava por razões óbvias), ele era o “homem perfeito”. Logo a começar, pela vasta herança que lhe calharia, mas como se tal não fosse suficiente, ele era alto, bonito e galante como os actores dos filmes americanos por quem todas as raparigas lá da terra suspiravam. Continue lendo “História de amor – Ana Maria Monteiro”

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