Em Segurança – Catarina Cunha

Ruas limpas, com árvores frondosas, emolduram casas coloridas. Em  algum lugar o fugidio aroma de torta fresca corre entre as janelas. Pássaros, indiferentes, constroem ninhos. Uma criança passa de bicicleta acenando para o grande cão sonolento, enquanto o gato se alonga na grama fresca. Gotículas cintilam nas folhas da exuberante horta. A mulher acaricia o veludo do pêssego, respira fundo o orgulho da perfeição. Vinte e cinco graus, umidade relativa do ar 50%; pena quea vista é tão ruim. Lá fora gente estragada faz coisa feia num lugar ruim. Agente se esforça tanto para criar o mundo perfeito, sem violência, sem poluição e essa gente escrota insiste em estragar a paisagem. Por que olham tanto para nós? Continue lendo “Em Segurança – Catarina Cunha”

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Esporro – Catarina Cunha

 

— Não faça ouvido moco, moleque, com esse buraco da maldade. Não te criei ouvindo canário para vomitar urubu depois de tirar os cueiros. Vou cuspir no chão e, antes de secar, quero tua cara de cagão aqui. Não adianta dar chilique nem botar tromba que eu não tenho medo de murrinha. Se apanhar na rua de novo dos maloqueiros carunchos e borrar o pino da caçoleta saiba que o cinto vai cantar na carcunda até fazer caminho de lacraia. O quê? Fala direito estrupício! Come como são e fala como doente. Parece que tem miolo mole. Como é que é? Vai retrucar empinando as ventas? Tua mãe não te deu educação? Tinhoso como o cunhado e enxerido como a sogra. Em vez de tratar a roça pra empedrar os braços fica aí de flozô com os livros até o cu da noite gastando candeeiro. Fica assim, xôxo, com vudum de preguiça. Depois me vem com renda de trancoso e não quer levar esporro. Nada de fliquiti e toma temência. Tenho dito. Pede a bença e xispa! Continue lendo “Esporro – Catarina Cunha”

Querido inimigo, – Catarina Cunha

Sempre te conheci, nunca te amei, entre um tic-tac e outro da vida, jamais consegui te odiar.

Desde minha mais tenra infância ouvia falar de você: “Tome cuidado, minha filha, depois da porta familiar vem a rua e lá não há ninguém em quem confiar; só na família encontramos a verdade”. Passei mais de meio século acreditando nisso, mas descobri o contrário da pior forma. Você estava à espreita, escondido por laços sanguíneos questionáveis, aguardando o melhor momento para dar o bote. Não tive tempo de olhar atrás da porta cheia de poeira de mágoas, umidade depressiva e uma enorme ganância.

Talvez por ter sido criada por pais extremamente honestos e dedicados, não acreditava que pessoas como você realmente existissem fora das novelas. Um vilão sorridente e carinhoso manipulando carências alheias para suprir seus fracassos cotidianos.

Descobri também, graças a você – o que agradeço com carinho – que existem pessoas boas e confiáveis não só na família e posso contar com elas para tirar um pouco de seu sono.

Trago aqui essas palavras com um grande desejo de paz. Que o preço de teus julgamentos precipitados lhe sejam cobrados em leves prestações mensais, que os juros não lhe corroam o estômago de arrependimento e que a maldade não lhe rache o coração de vez. Eu verdadeiramente desejo-lhe vida longa diante da carga que assumistes nos ombros. Cuide bem de sua coluna e de seus joelhos porque o tempo aumenta o peso dos erros e da barriga.

Com a idade fui agraciada com o saber da empatia e, por mais que o perigo me ladeie,  os que me amam me alertem e que teu veneno me cause náuseas éticas, não gosto de carregar o mal no bolso de trás, logo eu te perdoo por existir.

Um abraço virtual daquela que dorme tranquila.

 

Beladona – Catarina Cunha

Beladona nasceu com um problema que carregou como uma cruz por toda a vida. Veio ao mundo proprietária inquestionável de beleza intoxicante; daí o nome.

Foi a bebê mais fofa da maternidade: sem ruga, amarelão, hematoma ou inchaço. Verdadeira top model do berçário. No parquinho sua companhia era disputada pelas mamães, papais, babás, bebês e até pelos cachorros. Voltava para casa toda lambida e com as bochechas amassadas. Passou a infância sendo assediada, bolinada e elogiada como uma boneca de vitrine. Lutou na adolescência por uma identidade própria. Quis ser professora, veterinária, bombeira, policial, atleta e cientista. Todo mundo achava graça nela desperdiçar tamanha lindeza. Nem pensar. Foi capa de revista infantil, modelo e, para ser atriz, bastou estar de corpo presente no estúdio para ganhar fama e fortuna. A família, orgulhosa, cobria a garota de mimos.  Eram tantos compromissos que Beladona desistiu de seus sonhos. Continue lendo “Beladona – Catarina Cunha”

Pequenos detalhes em grandes momentos – Catarina Cunha

Trabalhando oito horas por dia e estudando à noite Mônica, viúva de marido vivo, só tinha a madrugada para ver os cadernos dos filhos, fazer seus trabalhos de faculdade e administrar o lar através de bilhetes autocolantes espalhados pela casa, na geladeira: “Vitamina do Pedro às 15 horas.”, no vidro da janela do banheiro: “Também gosto de banho.”, no fogão: “Não fazer fritura para não empestear a casa nem nossos corações.”, no computador de Mila: “Filha, só uma hora de internet por dia.”, no fundo da caixa de brinquedos do caçula Pedro: “Filho, se está lendo este bilhete é porque os brinquedos estão espalhados por aí. Arrume.”, e assim por diante. Continue lendo “Pequenos detalhes em grandes momentos – Catarina Cunha”

Nascida para ricar – Catarina Cunha


Joanete veio ao mundo predestinada ao sucesso. Não esse de pobre de Bonsucesso que nasce na merda, trabalha como um jegue para morrer na beira da praia; com a aposentadoria contada para tomar uma água de coco, o remédio para artrite e pressão alta. Decididamente ela seria rica de terras a perder de vista, imóveis, móveis e veículos incontáveis. Teria empregados para tudo, de jardineiro a chapeleiro. Sim, sempre sonhou em ter esse espécime raro de profissional, só para criar os seus chapéus exclusivos e passar na cara das amigas. Continue lendo “Nascida para ricar – Catarina Cunha”

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