ANTES DA CHUVA – Claudia Roberta Angst

Poderia continuar aqui se a história fosse outra. Foram essas as primeiras palavras que ouviu assim que se sentou. Alguém repassava a fala da protagonista com a impaciência de iniciante. Restavam ainda algumas horas antes do primeiro ato. A tensão da estreia dominava elenco e direção. Cansado, após responder as perguntas pouco criativas de uma... Continuar Lendo →

A PÓS ─ Claudia Roberta Angst

Às vezes, tudo o que você quer é um abraço. Um aconchego morno, um acalmar de sentidos, um toque pacificador. Não mais, não menos. Apenas isso: terminar nos braços da morte. Sim, estou falando dela, da famigerada e derradeira passagem nesta vida. Da indesejada das gentes, como diria o poeta. Conheci Marina Morena ainda na adolescência. Rindo... Continuar Lendo →

ENCONTRO MARCADO – (desafio) – Claudia Angst

Observa os gestos, o modo como ele inclina o corpo enquanto acende outro cigarro. Sente uma curiosidade desconcertante por aqueles olhos que desconhecem fronteiras. Ele apenas olha, impaciente, sem conseguir camuflar a voracidade de predador. Olha. Insistentemente, salivando intenções. O xale desliza pelos ombros, descobrindo os seios. A nudez embranquece a cena criada, espalhando pontos... Continuar Lendo →

À ESPERA DELE – desafio – Claudia Angst

Esperava por ele, ansiosa, quase febril. Desejava apenas se acomodar entre os dias. Vigiava as horas fazendo atrito entre os ponteiros. Voltas e voltas de interrogações. Mas sabia que ele viria conforme o prometido.Ela sempre sorria assim que ele se anunciava, logo ao amanhecer ou nos momentos mais tardios. Ele vinha, chegava e se instalava.... Continuar Lendo →

Carpe diem – Claudia Roberta Angst

Que novidade é essa? Todas as janelas estão abertas, mas as portas uma a uma são trancadas. Pessoas isoladas, mentes fechadas, entradas lacradas e bloqueadas. Sinto medo e tristeza. Depois, passa. Como tudo passa, sem deixar aviso ou alternativa. Apenas passa. Clarinha anda de lá para cá, e de cá para todos os outros cantos,... Continuar Lendo →

CONTO DE OUTRO NATAL – C.R.Angst

Mais um Natal. O mesmo Natal? Procuro em vão por novidades a minha volta.  A árvore parece cada vez mais mirrada, exilada no canto da sala. As luzes, com seu pisca-pisca irritante, que na infância pareciam estrelas cadentes, agora se revelam meros vagalumes decadentes. No chão, o vazio de promessas. Limpo, quase reluzente. Reajo ao... Continuar Lendo →

Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Sofro de bondade. Nasci assim, diz minha mãe. Fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos. Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Foi quando descobri que Tia Celina, professora do pré-primário, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um marido como meu rival. Mas, não... Continuar Lendo →

BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst

Era mesmo de espantar. Nem chegava a tocar a pele ou a língua e já ardia como pimenta. Feita de matéria doce, rapadura ou algo substancial e mole como um amarelo quindim. Assim era ela, tão afável como cupido em Dia dos Namorados, tão mordaz como a peixeira guardiã fiel fincada em sua cintura. Era... Continuar Lendo →

E O PALHAÇO O QUE É? – Claudia Roberta Angst

Parecia sina ou alguma artimanha mal ajustada do destino. Os minutos começaram a desabar como uma sequência de peças de dominó, produzindo um triste, mas preciso espetáculo. − Aqui há desesperos de todos os tons. Tia Leninha tentava sorrir para não afligir ainda mais o pai que se debruçava sobre o leito onde jazia Diana.... Continuar Lendo →

A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst

Algumas horas haviam escorregado pela ampulheta antes que Joana escolhesse aquele destino. Parecia-lhe muito pouco tempo, na verdade. Conversa de minutos, palavras estendidas como um tapete surrado pelas chuvas. Melhor teria sido calar, mas quando o silêncio vinha, pesava, condensando a instabilidade das possibilidades. Nada mais mutável do que uma pausa, uma brecha rasgada no... Continuar Lendo →

POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)

Suspeitei assim que a vi. Aqueles olhos cor de entardecer revelavam muito mais do que um simples acaso. Íris esverdeadas sombreadas por cílios tão negros e tão espessos que pareciam pesar demais. Sempre soubera que ninguém mais possuía aquele olhar. Ninguém. Até aquele momento. − Paloma Villas-Boas Bastos. A moça levantou-se e se dirigiu ao... Continuar Lendo →

ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst

21 de dezembro Depois de alguns atropelos insones, a noite deita-se preguiçosa de futuros. Cansada do que ainda nem aconteceu, recolho em minhas pálpebras o peso do que virá. Este será provavelmente um verão inesquecível, pelo bem ou pelo mal. Mal ouso pensar no sol nestes últimos dias. Fugi da praia, do mar, das calçadas... Continuar Lendo →

Ritmo Oculto (Claudia Roberta Angst)

Possuía ares de dançarino de tango, desses que tumultuam salões inteiros e enchem de exclamações as bocas mais rubras. Uma mancha de cobre nos cabelos e palmas sempre úmidas. Seus passos descreviam um caminho incerto, mas bastante convidativo. Algo de rude sempre a lhe cobrir os olhos. Era como um vendaval passando sem tréguas, desvendando... Continuar Lendo →

As Últimas Horas – Claudia Roberta Angst

  É quase julho. Uma noite longa e fria. Rodrigo olha o nada pela janela, mantendo uma postura marmorizada, quase irreal. Ao lado, está Marcelo, meu melhor amigo. Este nada faz, apenas personifica o vazio. Assim, permanecemos há horas, na insistência do silêncio. Levanto-me com a agitação febril do momento. Acendo o terceiro cigarro. Ou... Continuar Lendo →

Recompensa – Claudia Roberta Angst

Sem certezas, sem promessas, sem quase forças, ela virou-se na cama. Era agora a hora de parar de sonhar? Momento de levantar e começar a chorar? Diante de tantas portas trancadas, sempre lhe restava a atitude de arrombar e invadir. Para isso, não precisaria de convite ou tapete vermelho, apenas da sua tão temida ousadia.... Continuar Lendo →

Tio Chico – Claudia Roberta Angst

Chamava-se Francisco. Como o santo, como o papa, como o rio. Não carregava alcunha alguma. Seus olhos cinzentos confundiam-se com o céu coberto daquela tarde. Se alguém prestasse atenção, notaria neles o tormento de uma tempestade em formação. Francisco nunca sorria. Achava desperdício mostrar os dentes. Mesmo porque alguns deles já lhe faltavam pelo gastar... Continuar Lendo →

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑