Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Sofro de bondade. Nasci assim, diz minha mãe. Fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Foi quando descobri que Tia Celina, professora do pré-primário, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um marido como meu rival. Mas, não foi só isso. Existiam outros que disputavam o amor dela: meus colegas de classe. Diante da terrível descoberta de ser minha amada uma leviana, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

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BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst

Era mesmo de espantar. Nem chegava a tocar a pele ou a língua e já ardia como pimenta. Feita de matéria doce, rapadura ou algo substancial e mole como um amarelo quindim. Assim era ela, tão afável como cupido em Dia dos Namorados, tão mordaz como a peixeira guardiã fiel fincada em sua cintura. Era mais do que tudo, um mistério de luzes, um universo de aparentes contradições traduzidas em palavras, ora de amor, ora de puro terror. Continue lendo “BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst”

E O PALHAÇO O QUE É? – Claudia Roberta Angst

Parecia sina ou alguma artimanha mal ajustada do destino. Os minutos começaram a desabar como uma sequência de peças de dominó, produzindo um triste, mas preciso espetáculo.

− Aqui há desesperos de todos os tons.

Tia Leninha tentava sorrir para não afligir ainda mais o pai que se debruçava sobre o leito onde jazia Diana.

− Se eu pudesse trocaria de lugar com ela.

O velho Gustavo sentou-se na cadeira encostada a cama, mantendo-se sua mão cobrindo a de  Diana. Suspirou e acertou os óculos sobre o nariz.  

− Sabe o que sua avó diria?Que ela está exatamente onde precisa estar. – falou esfregando a mão da neta como se quisesse afugentar o frio da sua pele.

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AS MULHERES DO MEU HOMEM – Claudia Roberta Angst

Paulo Sérgio não é um homem bonito, longe disso. A natureza teve lá suas implicâncias com ele. No entanto, o sujeito exibe um magnetismo nato e uma impressionante habilidade de se comunicar e impressionar quem quer que seja o seu interlocutor.

Não sei o que esse cara tem, mas é fato que atrai mulheres como abelhas em um jardim florido. Descobri a formação da colmeia de mulheres perturbadas, quando encontrei a primeira foto. Revirar os arquivos de Paulo Sérgio passou a fazer parte da minha rotina diária. Lá, também encontrei muitas outras provas de que esse homem vale muito menos do que ostenta como nobre pedigree. É somente um vira-lata! Continue lendo “AS MULHERES DO MEU HOMEM – Claudia Roberta Angst”

A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst

Algumas horas haviam escorregado pela ampulheta antes que Joana escolhesse aquele destino. Parecia-lhe muito pouco tempo, na verdade. Conversa de minutos, palavras estendidas como um tapete surrado pelas chuvas. Melhor teria sido calar, mas quando o silêncio vinha, pesava, condensando a instabilidade das possibilidades. Nada mais mutável do que uma pausa, uma brecha rasgada no turbilhão de acontecimentos.

Congestionava o entardecer com seus pensamentos. Havia neles todo tipo de devaneios tortuosos. Como se, de repente, ela visse tudo pela primeira vez. Continue lendo “A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst”

POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)

Suspeitei assim que a vi. Aqueles olhos cor de entardecer revelavam muito mais do que um simples acaso. Íris esverdeadas sombreadas por cílios tão negros e tão espessos que pareciam pesar demais. Sempre soubera que ninguém mais possuía aquele olhar. Ninguém. Até aquele momento.

− Paloma Villas-Boas Bastos.

A moça levantou-se e se dirigiu ao guichê 3 com passos pequenos e apressados. Invejei a agilidade e a urgência da juventude. Observei sua figura, mesmo de costas, parecia-me familiar. O reconhecimento atingiu-me como uma dor aguda, a mesma agonia que eu não conseguira evitar por muitos anos. .

O sobrenome poderia ser apenas coincidência, mas aqueles olhos não. Desejei  que a moça se virasse para eu então poder examinar seu rosto. Só assim descobriria a verdade em seus traços. Ela não se virou.

Terminei de juntar os papéis que havia deixado cair com a surpresa. Um rapaz, que parecia trêmulo demais para um dia de verão, ajudou-me a catar as folhas do chão. Trocamos um sorriso que me lembrou dos dias de magistério. Jovens sempre prontos a nos surpreender com inesperadas delicadezas. Continue lendo “POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)”

ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst

  • 21 de dezembro

Depois de alguns atropelos insones, a noite deita-se preguiçosa de futuros. Cansada do que ainda nem aconteceu, recolho em minhas pálpebras o peso do que virá.

Este será provavelmente um verão inesquecível, pelo bem ou pelo mal. Mal ouso pensar no sol nestes últimos dias. Fugi da praia, do mar, das calçadas coloridas pelo vai e vem dos turistas. Um mês inteiro de retiro voluntário, pois me sinto angustiada, cheia de reticências no lugar de certezas.

Sei que não sou mais uma adolescente, mas também não estou velha demais para errar. O problema é sempre o tamanho do erro cometido. Continue lendo “ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst”

Ritmo Oculto (Claudia Roberta Angst)

Possuía ares de dançarino de tango, desses que tumultuam salões inteiros e enchem de exclamações as bocas mais rubras. Uma mancha de cobre nos cabelos e palmas sempre úmidas. Seus passos descreviam um caminho incerto, mas bastante convidativo. Algo de rude sempre a lhe cobrir os olhos. Era como um vendaval passando sem tréguas, desvendando mistérios alheios. Era capaz de atingir as raízes mais fortes sem perceber porque o fazia.

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As Últimas Horas – Claudia Roberta Angst

 

É quase julho. Uma noite longa e fria. Rodrigo olha o nada pela janela, mantendo uma postura marmorizada, quase irreal. Ao lado, está Marcelo, meu melhor amigo. Este nada faz, apenas personifica o vazio.

Assim, permanecemos há horas, na insistência do silêncio. Levanto-me com a agitação febril do momento. Acendo o terceiro cigarro. Ou será o quarto? Contar os degraus do vício não facilita nada.

De repente, Rodrigo some em direção à cozinha. Gosta de saídas dramáticas, o que combina muito bem com a ocasião. Marcelo aproxima-se lentamente e deita sua cabeça loira sobre minhas pernas. Não tenho coragem de negar-lhe carinho. Hoje, não devem existir porquês. Nada faz o menor sentido.

Deslizo minha mão entre os cabelos de Marcelo. Meu menino mimado, por que teus olhos revelam tanta esperança?

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Recompensa – Claudia Roberta Angst

Sem certezas, sem promessas, sem quase forças, ela virou-se na cama. Era agora a hora de parar de sonhar? Momento de levantar e começar a chorar? Diante de tantas portas trancadas, sempre lhe restava a atitude de arrombar e invadir. Para isso, não precisaria de convite ou tapete vermelho, apenas da sua tão temida ousadia.

Debruçou coragem e força sobre os obstáculos enfileirados na sua memória. Nada lhe parecia tão intransponível assim. A menos que os seus sentimentos fossem outros ou se a lua tivesse alterado os planos mais uma vez. Se as marés surgissem ao contrário, derramando-se em retirada. Enquanto houvesse luz, haveria também sombras. E perspectivas em tons pesados a esperar sua reação. Continue lendo “Recompensa – Claudia Roberta Angst”

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