INSÔNIA ∣ Juliana Calafange

Alice olhou o relógio, duas da manhã. Numa noite normal já estaria dormindo há horas. Nunca foi de dormir tarde, nem na juventude – quando ia a festas sempre voltava cedo pra casa. Imagine se o velho ia deixar filha moça chegar em casa depois das dez! Talvez por isso estivesse passando por essa situação só agora, na maturidade.

– Nem tão madura assim… – pensou Alice – Trinta e cinco anos na cara, e com esse medo todo do escuro!

Na verdade, não era medo do escuro, ela sabia. Era medo do silêncio, do vazio, da solidão.

– Se ao menos a TV estivesse funcionando. Tinha que quebrar justo hoje que o Rodolfo viajou?

Era a primeira noite que Alice passava só em casa, sem Rodolfo. Na verdade, era a primeira vez que passava a noite só em casa, ponto. Sempre tivera a presença dos pais, às vezes só da mãe, às vezes só de algum empregado. E depois que casou, Rodolfo estava sempre lá, do seu lado da cama, roncando e roubando-lhe a coberta, todas as noites. O que não impedia Alice de se sentir solitária, às vezes. Mas sozinha, sozinha, uma noite inteira, ela nunca tinha ficado. E só agora se dava conta. Continue lendo “INSÔNIA ∣ Juliana Calafange”

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Coisas da Vida – Neusa Fontolan  

— Está passando o filme ‘BALEIAS E DRAGÕES’ no centro comunitário hoje. Vamos ver? – disse Sonia aos amigos.

— Ué? Você não tem um super-compromisso hoje? Às vezes até penso que está tentando descobrir ‘OS SEGREDOS DA VIDA E MORTE’! – Maria respondeu admirada.

— Sabe muito bem que o compromisso de hoje eu não perco por nada! Eu falei de ver o filme depois, quando voltar. E não estou querendo desvendar segredo nenhum.

— Você ‘DEVIA JOGAR SQUASH, SONIA’, prefiro ao invés do filme – disse Maria que só pensava em squash, depois que eles acharam um par de raquetes e uma bola no lixão. Continue lendo “Coisas da Vida – Neusa Fontolan  “

Segredos de Vida e Morte – Amanda Gomez

A vida era perfeita, ela gostava de correr pela campo verde e cheio de flores. O vento batia em seus cachos dourados e fazia seu vestido de babados rodopiar. Sua risada era contagiante…assim como a dele. Costumavam juntar as mãos e adoravam o belíssimo contraste que elas faziam. A risada das duas crianças era o único som naquele momento. Até que outro, rápido e seco, sobressaiu-se. Continue lendo “Segredos de Vida e Morte – Amanda Gomez”

Baleias e dragões – Elisa Ribeiro

 

Dois garotos andavam de skate uns cem metros adiante. Vi-os assim que sai pelo portão da casa da Duda. Passaria necessariamente por eles a caminho de casa.

– Tem certeza  que não quer almoçar com a gente, Julinha ? Depois minha mãe te deixa em casa.

– Precisa, não, Duda. É pertinho, eu vou andando.

– Obrigada por tudo, amiga – abraçou-me, emocionada.  – Você salvou minha vida mais uma vez – completou no mesmo tom dramático. Continue lendo “Baleias e dragões – Elisa Ribeiro”

O espelho de Morfeu – Priscila Pereira

    Era a primeira noite que passava em minha nova casa. Minha primeira casa; agora sim podia me sentir adulta. Comprei um casarão antigo, já mobiliado, que precisaria de inúmeros reparos e reformas, mas ao invés de desânimo pelo trabalho e dinheiro que isso custaria, me sentia animada pela aventura.

    Escolhi um quarto que me chamou a atenção pela elegância superior. A janela estava aberta e um leve vento balançou as cortina de renda, que refletiram em um antigo espelho, curiosa, fui até lá e examinei cuidadosamente, era oval com moldura de bronze envelhecido, onde se viam figuras que deduzi se referirem ao deus grego Morfeu. Continue lendo “O espelho de Morfeu – Priscila Pereira”

Pequenos detalhes em grandes momentos – Catarina Cunha

Trabalhando oito horas por dia e estudando à noite Mônica, viúva de marido vivo, só tinha a madrugada para ver os cadernos dos filhos, fazer seus trabalhos de faculdade e administrar o lar através de bilhetes autocolantes espalhados pela casa, na geladeira: “Vitamina do Pedro às 15 horas.”, no vidro da janela do banheiro: “Também gosto de banho.”, no fogão: “Não fazer fritura para não empestear a casa nem nossos corações.”, no computador de Mila: “Filha, só uma hora de internet por dia.”, no fundo da caixa de brinquedos do caçula Pedro: “Filho, se está lendo este bilhete é porque os brinquedos estão espalhados por aí. Arrume.”, e assim por diante. Continue lendo “Pequenos detalhes em grandes momentos – Catarina Cunha”

Recompensa – Claudia Roberta Angst

Sem certezas, sem promessas, sem quase forças, ela virou-se na cama. Era agora a hora de parar de sonhar? Momento de levantar e começar a chorar? Diante de tantas portas trancadas, sempre lhe restava a atitude de arrombar e invadir. Para isso, não precisaria de convite ou tapete vermelho, apenas da sua tão temida ousadia.

Debruçou coragem e força sobre os obstáculos enfileirados na sua memória. Nada lhe parecia tão intransponível assim. A menos que os seus sentimentos fossem outros ou se a lua tivesse alterado os planos mais uma vez. Se as marés surgissem ao contrário, derramando-se em retirada. Enquanto houvesse luz, haveria também sombras. E perspectivas em tons pesados a esperar sua reação. Continue lendo “Recompensa – Claudia Roberta Angst”

Nem Sempre Foi Assim (Fheluany Nogueira)

(de Fheluany Nogueira)

 A maior alegria de dona… … Eta! Perdeu-se o nome!  É recomeçar…

Dona Miúda, assim conhecida, foi a alfabetizadora de quase todos os letrados do lugar. Extremosa, severa com os pequerruchos. Tratava os alunos como aos filhos, preocupada em dar bons exemplos e ensinar valores. Nos gestos, como em tudo, produzia impressão de eficiência. Fala grave e segura, em alma de passarinho.

Cabeleira cheia e ondulada, singelo buço sombreava os lábios que se abriam em sorriso limpo. Pele clara, talvez por motivo do trabalho. E, pelo mesmo motivo, uma ligeira corcunda adquirida ao curvar-se repetidamente sobre as carteiras, para a conferência dos trabalhos. Braços longos, pés visíveis. Muito fina de corpo, a custo se equilibrava sobre pernas de cegonha. Enfim, Miúda era alta, espigada… acima da média.

Se as panelas estavam em cima do armário, media a distância, nas pontas dos pés, erguia-se e tateava-as. Então as puxava com a polpa dos dedos. Quando a mãe informava:

— A lâmpada da sala está queimada! — Sete irmãos, nenhum se movia… Continue lendo “Nem Sempre Foi Assim (Fheluany Nogueira)”

O Espeleólogo – Paula Giannini

(de Paula Giannini)

Quando crescesse, queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar o seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos.

– Agora você já é quase um homem.

E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô, um local provisório, de onde, assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra.

Coisa para gente muito rica.

Coisa para os heróis. Continue lendo “O Espeleólogo – Paula Giannini”

02 de fevereiro – Renata Rothstein

*Os acontecimentos a seguir são inteiramente verídicos, aconteceram em 2013, e só, porque até hoje não tive coragem de repetir o feito, na mesma data.

Não obstante, essa praia faz parte da minha vida, do meu ser, da minha história*

Ontem, dia 02 de fevereiro, resolvi que tinha que ir a praia, rezar e tals. Não, não levei oferendas.

Pensei: hum, para onde vou assim, digamos, rapidinho?! La respuesta, rápida e rasteira, como minha sandália dourada: “Esbarra em Guaratiba” .

Explico: o Esbarra é uma piada interna, pois o local em questão (belíssimo, diga-se de passagem), chama-se Barra de Guaratiba, e como o que mais se faz por lá é encontrar gente conhecida, desconhecida, e até aquele primo que você não via desde a Primeira Comunhão em 1988, saquei essa do Esbarra. Sou demais, eu sei.

Olho as roupas no tanque, que devem ser jogadas delicadamente na máquina, penso no mercado – hoje é dia de promoção de carnes e laticínios, quem tem criança em casa, eu sei, super me entende! Continue lendo “02 de fevereiro – Renata Rothstein”

Uma Prece Para Maria

O fim da tarde se aproximava sonolento, e os últimos visitantes caminhavam entre as sepulturas, produzindo um som crocante do atrito dos seus sapatos com o piso de dolomitas. Em poucos minutos tudo estaria esvaziado, os funcionários desligariam a energia e fechariam o grande portão de lanças negras, e apenas eu continuaria lá, sentada no banco de madeira e ferro, sob a vigilância dos salgueiros centenários.

Continue lendo “Uma Prece Para Maria”

Devia jogar squash, Sônia – Evelyn Postali

A primeira impressão nunca é a que fica, mas isso não poderia se tratar de Osvaldo. Cinco anos antes, quando chegou, a concorrência impusera um ritmo intenso em nossas ações. Era preciso correr atrás das matérias. Nada nos era dado de mãos beijadas.

 

— Osvaldo dos Santos Telles — apresentou-se, depositando a valise sobre a mesa vazia ao meu lado.

— Sônia Vitali. Seja bem-vindo. — Estendi a mão e ele apenas balançou a cabeça, vistoriando o espaço com os olhos, girando sobre seu eixo como um daqueles galos fincados em uma vara para indicar a direção do vento.

— Nada mal para um cargo de chefia. Muito em breve serei aquele que ocupará a cadeira principal. — Apontou para a sala de Macedo.

— Disputaremos a vaga, então — eu disse, já indignada com a falta de educação e também convencida de poder baixar a crista daquele exemplar macho de ego exposto em último grau.

 

Foi assim que tudo começou e tudo piorou. Cinco anos de agonia, esquivando-me dos truques de Osvaldo, das armadilhas em que metia o grupo daquele escritório. Alguém devia pará-lo, mas não surgia oportunidade derradeira. Continue lendo “Devia jogar squash, Sônia – Evelyn Postali”

Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo

Envolto a um coração amargurado em que não brota nada, como solo árido, constante e frívolo, o corpo vagueia como zumbi sem destino. Coração seco não dá pernas firmes para o sujeito. Coração duro abatuma sentimento. Vê-se um corpo sem semente, em que não brota nada.

Lá no solo do sertão, dizem, não brota nada também. Mas não é por falta de sentimento, é porque a água se esqueceu de escorrer por lá. Não é culpa do corpo que não tenha água, só é culpa do corpo a falta de sentimento. Continue lendo “Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo”

Mampituba – Rose Hahn

– Mãe, onde fica Mampituba?

Ela olhou pela janela. Os postes na estrada viajavam apressados. Estavam a pelo menos 200 quilômetros de distância do rio que divide os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, subindo em direção a Serra Gaúcha. Pensava de onde diachos o guri ouvira falar do rio Mampituba, quando a atenção desviou-se para a gritaria no fundo do ônibus. Continue lendo “Mampituba – Rose Hahn”

Zorro – Ana Maria Monteiro

Recordo-me que crescia feliz, como quase todas as crianças crescem, sem nunca pensar nisso. Queria ser grande, ser como “os grandes”. Todos queríamos, nessa época em que ser criança era sinónimo de “não ter voto na matéria”, estar calado à mesa, cumprimentar qualquer desconhecido amigo do pai ou da mãe, com a maior cortesia; enfim, tudo era “uma seca”, um deserto que todos tínhamos de atravessar para chegar à tão desejada idade adulta, aquela em que, aparentemente, tudo era permitido. Eu nem sonhava que vivia em ditadura. Não sabia o que isso era, nunca tinha ouvido a palavra, mas se alguém ma tivesse explicado, certamente teria pensado que os ditadores do mundo eram os pais, todos os pais que conhecia.

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Nana nenê – Sandra Godinho

 

Nana nenê

Que a cuca vem pegar

Papai foi na roça

Mamãe volta já

 

O nascimento dela era uma novidade, o primeiro filho, o primeiro sopro, o primeiro sono. Quis enxergar nela as marcas que insistimos em procurar nos recém-nascidos que a fazia nossa. A marca de nascença, o nariz de um, a boca de outro, no choro estridente que não cessava. Chorava e estendia os braços em agonia para que a protegesse, aliviando-a da dor, da cólica, do casulo que agora lhe faltava, do desabrigo que tão cedo a atormentava, aquela primeira casa feita de calor e carne. Continue lendo “Nana nenê – Sandra Godinho”

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