HORA ‘H’ – Juliana Calafange

Enquanto aguardava na fila, Feliciano tentava conter a ansiedade. Lembrava-se vagamente de ter lido em um livro que ela só atrapalha na hora H. Inspirar e expirar bem devagar, dizia o livro, acalma o espírito. Estava concentrado na respiração quando sentiu uma cutucada no ombro.

– É sua primeira vez? – perguntou o cara que esperava atrás dele na fila.

– É sim. Quer dizer, é a primeira vez que eu sou recolocado.

– É a minha primeira recolocação também. Estou tão nervoso. Continue lendo “HORA ‘H’ – Juliana Calafange”

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Seu nome era Ranielda – Neusa Fontolan

— Isso lá é nome de gente? A história não é sobre uma mulher?

— E é nome de mulher, sim! Você não quer ouvir a história daquela que se sentia NASCIDA PARA RICAR? Então me deixa contar. E antes de por defeito no nome dos outros, da uma olhadinha no seu, JOCA LOUVA DEUS.

— Contanto que o nascimento seja de uma endinheirada e não de uma NINHADA. Isso pra mim seria um SORTILÉGIO!

— Eu nem sei por que caio nessa sua lábia… toda vez é isso, me pede pra contar uma história e logo põe defeito. Eu não aprendo A LIÇÃO mesmo! Continue lendo “Seu nome era Ranielda – Neusa Fontolan”

Sortilégio – Iolandinha Pinheiro

Ela apareceu, pela primeira vez, no final de uma manhã de outono; trazida pelo sopro frio do vento. Não tinha pressa, nem sabia o próprio destino; apenas ia em trajetória oblíqua, entre os troncos e cipós que lhe roçavam o vestido cinza.

Quando chegou ao centro do bosque, sentiu que havia finalmente encontrado seu objetivo. Os pés descalços afundavam ansiosos na terra negra, roçavam as raízes afloradas e meio apodrecidas pela chuva. Trazia na boca o sabor magnetizante da vontade, desejo que a custo continha…

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Rebeca pegou o coração entre as mãos, controlando a vontade de vomitar. Colocou a peça sobre a tábua da cozinha e fez um corte diagonal, até separá-la em duas partes. Depois de um dia inteiro marinando, numa vasilha de azeite com especiarias, o órgão havia amolecido e ganhado um cheiro um tanto nauseante de alho, canela com açafrão e sangue velho.

A panela de barro borbulhava com o molho vermelho de tomates e pimenta caiena. Rebeca colocou na assadeira o coração com um bonequinho de madeira entre as duas metades, amarrou o órgão com um cordão e pôs no forno.

O livro que continha a estranha receita estava aberto sobre a mesa. Ela o havia achado na primeira faxina que fizera no porão da sua casa. Estava jogado no chão do cômodo, entre móveis quebrados. Não era exatamente um livro, mas um caderno com caligrafia elegante.

O marido, militar, dava treinamento de selva a cadetes, então ela gastava seus dias testando as receitas, colhendo ervas, fazendo caminhadas. Foi numa das tardes solitárias que se deparou com aquilo. Era uma espécie de simpatia para segurar gravidez, e exigia que fizesse um assado com o coração de um animal abatido pela pessoa que fosse cozinhá-lo.

Depois que foi morar na casa do bosque, descobriu que estava esperando o segundo bebê; o primeiro ela havia perdido na trigésima semana. Não considerou tentar a receita até que, perto do sexto mês, percebeu marcas de sangue em suas roupas. Relutou durante algum tempo, mas em um dia de maior solidão, saiu para a sua caminhada habitual com a pequena navalha escondida no bolso do vestido.

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Abriu seus seculares olhos e cegou, momentaneamente, com a súbita luminosidade. Alguém a convocara. Onde? Para que? As lembranças de suas muitas vidas eram como grãos de areia em um prato de porcelana, fluíam rapidamente pelo ar. O desejo de atender ao apelo era tão imperioso quanto a vontade com a qual lhe chamavam.


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A primeira dificuldade foi esculpir o pequeno boneco em forma de bebê, conforme o desenho no livro. Depois que matasse o animal, deveria arrancar o coração e temperá-lo conforme instruções, colocar a peça esculpida entre as duas metades do órgão, e assá-lo com o molho apimentado. Nas primeiras tentativas, a navalha resvalava e fazia cortes em suas mãos. Como o tempo foi ganhando habilidade, até conseguir fazer o brinquedo. Feito o boneco, precisava encontrar o coração.

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Carlos era um viúvo sem filhos quando conheceu Rebeca. Ficou encantado com a moça exuberante, charmosa e cheia de admiradores. Os quinze anos de diferença entre os dois não impediram a paixão que os consumiu e que o fez pedi-la em casamento no terceiro mês de namoro. Os problemas começaram a surgir ainda no primeiro ano. A moça não se adaptava à vida de casada, queria ainda frequentar as festas com as amigas e dançar com rapazes da mesma idade. Quando engravidou a primeira vez, Carlos achou que tudo aquilo acabaria. Mas sempre que voltava de suas viagens a trabalho ouvia o zum-zum-zum pela cidade falando dos encontros da esposa com um primo, nas casinhas que ficavam por trás da linha do trem. Numa de suas viagens foi dispensado antes do dia de costume. Comprou umas roupinhas para o bebê e voltou para casa.

Era meio da tarde quando chegou. Não havia ninguém na sala ou na cozinha, foi seguindo as vozes até o quarto. Escancarou a porta com força e encontrou o quarto cheio. A mãe de Rebeca, uma tia, o médico e a vizinha estavam lá. Sobre a cama estava o feto morto de seu filho, em um mar de sangue entre os lençóis de linho, e sua esposa, pálida e silenciosa, olhando para a janela. Carlos se sentiu um monstro em ter pensado mal de Rebeca. Ficou com ela até que dormisse. No dia seguinte pediu licença no Exército. Estava sempre por perto, cobrindo-a de carinhos.

Mesmo com toda a atenção do marido, Rebeca vivia pelos cantos, triste, chorando; se lamentando pela perda do bebê. Tudo fazia com que ela se lembrasse da sua morte, principalmente o quartinho, todo decorado, que havia montado para esperar o filho.

Foi por isso que, quando recebeu o convite para treinar os jovens cadetes numa área isolada da mata bem longe dali, Carlos aceitou, achando que a vida nova iria fazer Rebeca melhorar. Para que não ficasse tão sozinha, trouxe para casa um cãozinho, já passando de filhote para cão adulto; um vira-latinha simpático e cheio de energia, de pelos amarelos e olhos castanhos, chamado Edgar.

As coisas iam sem sobressaltos, até que Rebeca voltou a engravidar. Aí vieram os temores, as sombras, os sonhos, as visões… Quando Carlos percebeu que a mulher havia se interessado por um antigo caderno de culinária, achou que ali poderia ser a solução para os receios e a depressão dela.

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Todas as sextas-feiras, depois de fazer suas tarefas domésticas, Rebeca e Edgar saíam pelas veredas do bosque em busca de uma presa. Na primeira vez, andaram até um sitio, perto da casa deles, onde eram criados coelhinhos brancos para abate. Na maior parte do tempo, eles ficavam presos, mas um ou outro escapava das gaiolas e ficava deambulando perto dos limites do sítio. Demorou para escolher um, eram todos tão lindos! Quando definiu qual seria, pegou uma pedra e a jogou.

Logo, Rebeca aprendeu que quanto menores fossem os animais, menos pedaços asquerosos de coração ela teria de comer; assim foram gatos, coelhos, cães… Esperava, com ansiedade, que o dia de parir chegasse logo, para poder abandonar aquela dieta. Já estava com oito meses de gravidez quando coisas estranhas começaram a acontecer.

Por volta das oito horas, era comum que o casal se recolhesse e Edgar ficasse da cozinha para o quintal, até dormir perto da macieira quando não estava muito frio.

Ultimamente, porém, o cachorro latia durante muitas horas. Quando Rebeca saía até o quintal para ver o que estava acontecendo, não havia nada lá fora, apenas o cachorro rosnando e saltando como se estivesse acuando um inimigo invisível. Depois de uma semana, ela já estava exausta e decidiu recolher o cachorro no porão todas as noites.

O tempo andava anormalmente frio. O vento gelado dava uma impressão de morte, sibilando entre os lençóis e os galhos da macieira como um uivo de desamparo e dor. Edgar não gostava mais de passear. Ficava vigiando a porta da casa e rosnando para o nada.

Faltava ainda um coração antes do grande dia, mas Rebeca se sentia fraca e pesada demais para arrumar algum. Foi então que ela se lembrou do seu cão.

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Depois que chegou à velha casa, descobriu porque estava ali. Mantinha uma certa distância para poder observar: o homem, a moça grávida e o cão amarelo.

Sempre que os três saíam, ela entrava na casa. Mudava algumas coisas de lugar, levava às narinas geladas as roupas que estavam no cesto, sentia a vida. Desejava o quarto do bebê, uma mãe, fotos suas no álbum que folheava com seus dedinhos roxos. Saía antes que chegassem. Logo, estaria com eles para sempre… Para sempre.

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Era a última sexta-feira daquele mês e Rebeca acordou extremamente cansada.

Esperou o marido ir trabalhar e andou, com muita dificuldade, até a cozinha. Sabia o que precisava fazer. O cão estava lá fora, latindo e rosnando como sempre. Pegou a faca e se lamentou de não ter colocado uma corda para atá-lo à coluna da varanda.

Quando abriu a porta, não acreditou no que via. O cachorro latia cheio de ódio. Na sua frente, pálida como um cadáver, cabelos lisos e grandes olhos verdes, havia uma menina.

E então a garota olhou para ela:

– Você chamou por mim, e eu vim atender…

Rebeca ficou tão apavorada que soltou a faca que havia trazido para sacrificar Edgar. Foi andando de costas até a cozinha, procurando o caderno de culinária para jogá-lo ao fogo. A menina a seguia, calmamente, sem que os próprios pés tocassem o chão.

O fôlego da mulher faltava, as dores começaram a avisar que o momento havia chegado. Não havia mais escolha. Deitou-se sobre o chão frio e esperou que a natureza fizesse a sua parte.

A menina chegava cada vez mais perto e já tocava sua mão com os dedinhos gelados.

– Você está aqui para me matar?

– Não…

– Você veio pegar o meu bebê?

– Eu não… Ele veio – respondeu a menina, apontando para o cão que, naquele momento, entrava pela porta.

– Edgar…

O cachorro estava três vezes maior que o tamanho original. As presas em sua boca haviam crescido. As garras das patas dianteiras arranhavam o piso da cozinha, causando um ruído desagradável e assustador.

Rebeca olhava para a menina e o demônio a sua frente sem saber o que fazer. As dores aumentavam e era hora de trazer o bebê ao mundo.

À medida em que a criança nascia, a imagem da menina ia se dissipando. Antes de perder os sentidos, Rebeca ainda teve tempo de perguntar.

– Mas, afinal, quem é você?

– Sou sua filha, mamãe. Você me chamou e eu vim.

E então a menina sumiu.

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Carlos demorou além do normal naquela sexta. Um dos cadetes havia sido picado por uma aranha e, mesmo tendo sido levado para o hospital, em poucas horas estava morto, O corpo estava completamente inchado e a pele, arroxeada no local da ferida, criava pústulas e ameaçava rachar. Ninguém nunca tinha visto uma reação tão violenta ao veneno de aranha como aquela. Só depois de ter providenciado o transporte do corpo do garoto para o quartel, e terminado de escrever o relatório, foi que pegou o jipe oficial para voltar para casa.

Andava muito preocupado com o estado mental da esposa, e tinha um grande receio que ela fizesse alguma loucura com ela própria ou com o filho.

Os vizinhos haviam se queixado de ter visto Rebeca furtando seus animais, e só não fizeram nada porque ele pagava sempre pelos prejuízos. O que mais assustava Carlos, no entanto, era a insistência da esposa em afirmar que o cãozinho que ele havia trazido para ela ainda estava lá. Edgar havia morrido duas semanas depois que ele o havia trazido. Mas ela dizia que o pobre cão estava lá e não a deixava dormir, de tanto que latia.

Já havia decidido que ia voltar com a esposa para a cidade e ia internar Rebeca. Não podia deixar o bebê nas suas mãos.

Quando finalmente chegou em casa, tudo estava revirado. Havia uma mancha enorme de sangue no chão da cozinha e panelas caídas por todos os lados.

Foi andando lentamente até o quarto. Rebeca estava lá, sentada na cadeira de balanço, amamentando um lindo bebê careca.

Aliviado, Carlos pediu para pegar a criança. Era uma menina de sobrancelhas ruivas e grandes olhos verdes. Sobre a cômoda branca, onde estavam guardadas as roupinhas da filha, o velho caderno de receitas.

Ausência – Amanda Gomez

Acordei sobressaltada, havia terra em meu rosto e boa parte do meu corpo estava coberto por ela. Tentei conter o pânico, não era a primeira vez, nem mesmo seria a última.

Com dificuldades levantei, nada parecia ter mudado – escuridão, frio e a ausência. Observei a montanha que eu tão desesperadamente tentava escalar e senti um enorme cansaço, não parecia uma boa ideia fazer tudo de novo. A vontade era voltar para debaixo daquela mesma terra e esquecer. Continue lendo “Ausência – Amanda Gomez”

Joca Louva Deus – Renata Rothstein

Da vida, lembrava muito pouco. Quase nada, perto daquele troca-troca alucinógeno e alucinante em que vivia, desde muito cedo.

Olhava com ares de nada para seu interlocutor e, balbuciando palavras quase ininteligíveis, ia explicando como fora parar ali, olhos perdidos no espaço, um espaço só dele, quase perfeito – não fossem as dores, muitas, e o sempre regresso ao mundo da semiconsciência.

Morria, vivia, renascia. E seguia.

Olhava para o sujeito à sua frente, e pensava: “Seria um anjo? Teria morrido?” Não, se fosse um anjo, com aquele semblante de paz, a essas horas ele já estaria no Paraíso, e ele não acreditava nisso. Continue lendo “Joca Louva Deus – Renata Rothstein”

Multiplicação do Amor – Vanessa Honorato

Às vezes eu me pergunto, se existe uma responsabilidade maior que outra. Sei que muitas pessoas, quando têm interesses, tratam tudo ao seu redor como sendo seu, mas, quando sabem que não terão vantagem alguma (ou terão desvantagens), simplesmente ignoram, mentindo para si mesmas que não tem nada a ver com a história.

Tudo na vida, mais cedo ou tarde, pode mudar. As responsabilidades pela vida de outros, podem acabar interferindo na sua própria.

Eu vivia em um apartamento pequeno, trabalhava duro para manter uma vida estável e sem dívidas. Até as moedinhas do meu bolso eram contadas para o fechamento do mês, de modo que não faltasse nada para nenhum membro da minha família. Continue lendo “Multiplicação do Amor – Vanessa Honorato”

Ninhada – Elisa Ribeiro

 

Era um sábado quando ela apareceu na quadra onde morávamos. Vagou por um tempo até escolher a sombra do pequizeiro na frente da nossa casa para descansar. Era feia, mal cuidada e parecia adoentada.

Sei que era sábado porque não era dia de escola. Fiquei observando da janela do meu quarto o jeito como ela perambulou pela rua antes de escolher a nossa casa, a única da rua onde não havia cachorro no quintal. Eu só tinha tempo de ficar assim, à toa pela manhã, nos dias em que não tinha escola. Continue lendo “Ninhada – Elisa Ribeiro”

Os olhos de Maria – Rose Hahn

O diagnóstico precoce, e o avanço esfomeado da doença, não desvaneceram a minha determinação e a alegria de viver. Passei dois anos enxergando manchas esbranquiçadas, enquanto seguia titubeando pelas paredes e confiante na lista de espera.  A nebulosidade do meu olhar enxergava as cores do arco-íris impressas nas recordações da mente.

Quando abri os olhos, vi um mundo desconhecido. Agora só tenho olhares para a negritude da sua alma.

Continue lendo “Os olhos de Maria – Rose Hahn”

A Renascida – Fheluany Nogueira

A Renascida

 — Primeira vez —

Festa de aniversário. Minha amiga puxou a cadeira e eu bati com a cabeça no chão. Diante do susto aglomerado, a mãe dela explicou:

— Bárbara tem uma bola de sangue na cabeça, levou três dias para nascer, foi preciso apertar uma carapuça na cabeça dela e aí endireitou. O médico, depois, disse que não havia o que fazer.

— Fiz força para não nascer. A parteira puxou. — a menina emendou na tentativa de um pedido de desculpas.

Continue lendo “A Renascida – Fheluany Nogueira”

Nascida para ricar – Catarina Cunha


Joanete veio ao mundo predestinada ao sucesso. Não esse de pobre de Bonsucesso que nasce na merda, trabalha como um jegue para morrer na beira da praia; com a aposentadoria contada para tomar uma água de coco, o remédio para artrite e pressão alta. Decididamente ela seria rica de terras a perder de vista, imóveis, móveis e veículos incontáveis. Teria empregados para tudo, de jardineiro a chapeleiro. Sim, sempre sonhou em ter esse espécime raro de profissional, só para criar os seus chapéus exclusivos e passar na cara das amigas. Continue lendo “Nascida para ricar – Catarina Cunha”

Cama de Rosas – Evelyn Postali

 

Quase amanhecia quando estacionou o carro em frente à garagem da residência. Não se preocupou em guardá-lo. E estava cansada demais para esperar.

Cruzou o jardim, passando em frente ao canteiro de rosas. A estação mostrava a exuberância nas cores e formas.

Ao entrar, encontrou a casa iluminada. Aquilo lhe pareceu incomum; não havia deixado as luzes todas ligadas, mas a memória andava falhando também com as vivências do hoje. A médica lhe dissera que teria que viver um dia de cada vez e aguardar com paciência. Tudo se tornaria mais claro com o tempo. Algumas lembranças viriam por primeiro, mas tudo voltaria a ser como era. E aquilo lhe incomodava demais: voltar a ser como antes, mesmo não lembrando. Continue lendo “Cama de Rosas – Evelyn Postali”

O nascimento de uma mãe – Priscila Pereira

 

Quando percebi o resultado positivo no teste de gravidez, eu chorei. Não foi de alegria. Não, não foi de tristeza também. Foi de medo. Meu marido perguntou se eu não estava feliz, afinal, depois de seis anos de casados, iríamos ter nosso bebezinho. Ele não entendia. Como poderia entender? Como eu iria explicar que naquele momento eu morri? Não, não estou exagerado. Naquele instante em que vi os dois pauzinhos indicando que eu estava mesmo grávida, tudo que eu conhecia, minha identidade como mulher, meu estilo de vida, meu conforto e tranquilidade morreram. Dali pra frente eu iria ser gestada para uma vida nova e desconhecida e então, quando o bebê nascesse, eu iria nascer também. Uma mãe, novinha em folha. Continue lendo “O nascimento de uma mãe – Priscila Pereira”

A poesia, o sangue e o lixão – Sabrina Dalbelo

Ela amanheceu poesia. Estava inchada mas o sangue rimava com cor e com vida. Pedia aos céus uma estrela para encher sua casa de alegria. Sentir-se dentro de um balde vermelho e ardido não era de todo ruim. Em um canto da sala uma bela arte profana. Uma estátua de uma figura feminina de pernas abertas e cabeça tombada, em gozo. Ela olhava para a estatueta e pensava no próximo mês e na menstruação que, queria, não viesse. Pelo outro lado da rua o lixeiro passava em rasante, casa por casa. Os recolhedores corriam. Os recolhe-dores corriam. Eles corriam e jogavam os restos de coisas na caçamba. Jogavam restos de pessoas, restos de casas e sonhos desfeitos. Continue lendo “A poesia, o sangue e o lixão – Sabrina Dalbelo”

Pãozinho perfumado – Paula Giannini

(de Paula Giannini)

A primeira coisa que sentiu foi dor. Duas bolas de ping-pong brotavam, em brasa, bem ali, dentro de seus mamilos. Não dava! Não para dormir de bruços, sua posição preferida. Com a cabeça de lado e os braços estendidos sob o peso do corpo, das pernas. A mão espalmada sob as coxas. Mas não. A dor não permitiria que se deitasse assim. Precisava virar, encontrar posição para o conforto, mas não para o sono. Continue lendo “Pãozinho perfumado – Paula Giannini”

Gestação – Ana Maria Monteiro

Estarmos juntos era-nos tão natural quanto o existirmos. Nem imaginávamos que pudesse ser diferente.

Tudo era perfeito. E o nosso conhecimento mútuo, de tão intrínseco, dispensava o diálogo – compreendíamo-nos por osmose, ambos solutos e solventes.

Brincávamos muito. Éramos felizes, até por nem sabermos o que isso fosse.

Naquele dia…

Não, não naquele dia; não existiam dias, tudo era o momento.

Naquele momento ele apercebeu um movimento de que não me tinha dado conta.

“Vamos?”- foi o desafio sem palavras. Continue lendo “Gestação – Ana Maria Monteiro”

A Lição – Sandra Godinho

(* Conto escrito por Sandra Godinho)

– Benção, vó!

– Deus te abençoe, Miguel. Agora vá caçar o que fazer.

Assim era minha avó: curta e pragmática. Não se deitava em afagos ou cortesias. Não perdia tempo com o que não fosse necessário. Também não perdia ocasião de ensinar.  Com ela aprendi que paciência é uma virtude para poucos. Um ensinamento que durou cinquenta anos até ser aprendido e nasceu graças ao sentimento forte, intenso e dedicado que ela nutria por sua vizinha. Deixe-me explicar. Continue lendo “A Lição – Sandra Godinho”

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