Resistência (Mary Ann) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.
Inúteis indulgências prostituídas, a embriaguez e um céu cortante desaba sobre a ainda frágil alma.
Forte, o luto, desembainhando fitas prateadas, insiste.
O limite tortuoso de um fim lento, impenetrável, rasga minhas veias – vias que anseiam venenos mortíferos – só uma vez, antes de terminar.
Agora é tempo e tão certo, não volte atrás, pois só há um por quê.
E creia, o meu menos sempre foi além do talvez, nesse luar obscuro.
Tumulto e armadilha: raia o desconhecido para mim, descerra o dia. Sei o que foi e interessa o sim, e será: tortura, a alvorada, o que não virá?
Muito ou pouco, véu e treva, celebrações, mãos unidas – só o tempo dirá.

*Meu desafio é tentar encontrar caminho e paz, entre perdas e dúvidas. Colocar em palavras o que grita aqui dentro.

A versão da vovó

Refaço teus passos
Te recrio no que faço
Meu fim, teu começo

“Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.”

Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele levou também todas as suas roupinhas em sacolas de plástico num horário em que ela já não estava acordada.

“Ninguém vira passarinho. Cresce, garota. Deixa de ser idiota.”

Tinha talvez seis anos. Embora a prima de nove tivesse mandado o irmão calar a boca, que deixasse a prima pequena em paz, nunca mais repetiu que um dia teria asas e cantaria como um sabiá.

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Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

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A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

Primeiro você mudou de linha. Imaginando que eu não perceberia, pulou para o outro parágrafo e foi se distanciando, até ultrapassar as margens e chegar à outra página. Foi então que eu te perdi de vista.
Ouvi dizer que, durante dias a fio, você percorreu páginas e invadiu capítulos, ansioso, confuso, aparentemente sem um propósito definido. Então, decidiu que precisava encontrar a fita de cetim vermelha, que, para o seu azar, sempre avançava um pouquinho mais a cada dia, dificultando o sucesso da sua jornada. Mas você finalmente a encontrou e a escalou, alcançando a borda da capa dura. Finalmente, conquistou sua liberdade, escorregando pela lombada. Veja só que corajoso.

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Um Dia (Marília)

Eu só escuto, emociono. É tão bonito ver juventude e velhice lado-a-lado. Ela delicada, de laço no cabelo, ele de boné, quase careca. Para ambos, não importa aparência, importante é viver a experiência do momento. Aqui atrás, fico quieta para ouvir melhor minha saudade latejar. Hoje em dia meu avô não pode me levar para escola, pois não sou estudante, ele não habita terra dos vivos.        

Se pudesse dar um único recado para menina que nem ao menos sei o nome, eu diria sobre aproveitar, desfrutar da companhia que um dia o Tempo vai levar. Só vai restar lembrança, Menina. Abraça enquanto é possível. Entre esse pensamento nostálgico, escuto o senhor falar, orgulhoso: “Para chegar na escola, você pega tal ônibus, desce em tal lugar, olha para atravessar, mas se quiser, só ligar que o vovô te leva e vai buscar”.

Escapou até uma lágrima aqui! Agora os dois desceram, chegaram ao destino juntos. Eu, sozinha, bolei plano para um dia, quando já estiver mais velha, como vou querer ir embora dessa terra. Das últimas forças que restarem, vou falar assim baixinho na certeza que ele vai me escutar: Vovô, vem me buscar?

Marília

Menina-Poly (Marília)

Quis enfeitar domingo chuvoso com boas escolhas, Realmente eram. Dia frio, coberta, leitura, música. Ajeitei a poltrona, liguei Poly e ouvi no rádio sobre amor que dura janeiros até o mundo acabar.

Logo em seguida, o disco foi escolhido, as coordenadas posicionadas na rotação musical, parecia tudo bem. Porém, ao longo dos segundos estendidos minutos mais parecendo horas, ela desabou. Nós. Juntas. Poly desordenou seu ritmo exato, instabilizando movimento de braço com giro suave por velocidade sem poder controlar.

Eu, tentando ajudar, fui comandante do navio prestes a naufragar, reorganizando botões, sem sucesso. Um deles até deslocou-se do corpo dela para minhas mãos, quase dizendo: Estou cansada. Pensei: Ela não pode parar! Tentei assimilar giro, engrenar retorno, nada além da vontade por gritar: Ajuda! Vamos perder a paciente, equipe! Sozinha, fui médica sem conseguir socorrer. Liguei e desliguei, pedi, implorei: Volta! Ela pareceu entender, pois acendeu uma última vez, depois acalmou, apagou quase falando: Desculpe, não consigo mais.

Como fica quem fica? Com lágrimas, desconectando fios impedindo condução elétrica, empurrando de volta ao lugar agora triste, acarinhando o objeto querido, minha-menina-toca-discos-emoções-e-corações. Você apareceu do nada, vinda de outro lugar ser meu lar artístico. Te vi perto, do lado, acesa resplandecendo tom a tom minhas músicas favoritas, além das inúmeras sortes ao ouvir no rádio tantas palavras melodiosas.

Contigo, toquei de tudo, variando humor e amor por artista no momento, todos do passado. Você foi minha companhia de relaxamento, descontração para arrumar o quarto, empolgação com cada disco novo, encantou quem te assistiu rodopiar linha por linha músicas escolhidas. Com você, a frase: Eu tenho uma vitrola deixou esta sujeita aqui ser dona tua, cuidadora duma jovem senhora com idade não revelada. Foram lançadas muitas Polyvox. Poly, só houve você.

Em nome de tudo isso, papai vai tentar resgatá-la, por favor, seja Fênix. Se não conseguir, pode ir. Caso tenha cansado, fique tranquila. Sua aposentadoria por anos de trabalho chegou, ainda que eu jamais quisesse viver este dia. Adeus? Não. Prefiro dizer pela certeza de reencontrar: Até a próxima lembrança!

Marília


P.S.: Poly, obrigada pela música de despedida! A escolha foi excelente! (De Janeiro a Janeiro, de Nando e Ana)

 

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Reflexos (Fheluany Nogueira)

 

         Hoje amanheci velhíssima, vinte e oito anos. Só que não senti, não importei, não tive vontade de voltar atrás; o que não significa também que esteja com vontade de prosseguir. Vou ficando.

         Meu WhatsApp trouxe uma mensagem. Adivinhada. Sabida. Conversa que há anos não falha. Diz palavras protocolares. Fiel, a insistir, a dizer que ainda faço anos, a convencionar-me, a balizar-me, a compromissar-me com um mundo que não me quer e a que não quero. Melhor que as pessoas se deslembrem de mim. Estou conseguindo. Há muito tempo deixei de contar presentes ou vinte amigos me cumprimentando. Perco a noção das coisas certas, cíclicas, dos calendários, das datas… Havia tempo em que eu media a minha (des)importância pelo número de e-mails, mensagens e cartões recebidos por ocasião de meus aniversários. A data me provoca sustos.

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Feliz Natal – Vanessa Honorato

O primeiro natal sem Artur. Não sabia porque ainda insistia em fazer essa ceia. Não tinha vontade de nada, tampouco convidados. A mesa estava posta como sempre esteve:  abastecida com comida, bebida, enfeites coloridos de vermelho e verde, velas, guirlandas. Para quê? Qual motivo de tanto empenho se ninguém desfrutaria com ela? A taça de vinho era sua companhia agora. Gelado, encorpado, cheiroso, do jeito que ela passou a tomar todos os dias depois do trabalho. Artur fazia falta diariamente, mas em datas especiais era pior. Podia ouvir o som da sua voz desejando-lhe feliz natal, ansioso para saber o que ela havia lhe preparado de presente, já que não compravam nada, todos os natais faziam presentes diferentes preparados com suas próprias mãos.

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Cova de Lama (Iolanda Pinheiro)

Já moça, lembrava do tempo em que o mundo era cinza e a vida flutuava no terreno lodoso de segredos e mentiras. Quando a velha e eu nos enfurnávamos pelas manhãs atrás das covas onde os caranguejos sonhavam. Do braço de minha vó enfiado até o ombro no berço de terra mole, os dedos procurando as carapaças com a destreza das infinitas repetições. Não custava muito, e ela puxava o guaiamum arroxeado de dentro do ninho. Outros tantos se seguiam, até que enchêssemos os grandes embornais.

O que não era vendido virava almoço, jantar, café, merenda. A necessidade não escolhia sabores.

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O estranho visitante (Regina Ruth Rincon Caires)

A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê! Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?!

Gregório para um pouco… Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede… Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.

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Cravos Vermelhos (Renata Rothstein)

Desço do táxi, estendo duas notas amarrotadas ao motorista, balançando a cabeça em agradecimento.
O taxista diz que as notas não valem mais, olha para mim com dó, me devolve o dinheiro, e segue seu caminho.
Respiro fundo o ar frio do fim de tarde, o que me custa uma dor violenta aos pulmões doentes. Continuo tossindo até perder o fôlego.  O enfisema vinha mesmo avançando a passos largos.
Suspiro. Olho em volta. Completamente só, outra vez. Sempre e nunca, mas ainda assim, só.
A praça. A praça hoje é tão somente uma testemunha inofensiva dos tempos suaves, de  tempos que viriam, num então outro tempo, naquele espaço, que agora parecia tão maior, lembranças encardidas.

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A imponderabilidade de tudo – Ana Maria Monteiro

Sobre o corpo da menina deitada, jazem agora todos os sonhos que nem chegou a sonhar e os futuros que não irão acontecer, cada dia, cada momento, cada natal.

São tantos! Quem dira? Quem diria, ao chorá-la no agora, a que distância lhe estaria no futuro – ou talvez não.

Morreu na véspera de natal, de forma estúpida, como a morte de qualquer criança, inesperada, inevitável e ainda estragou a festa a toda a gente, e muitos pensaram nisso por momentos, quase envergonhados com essa racionalidade que permitiram que se insinuasse em meio à tragédia e à dor que sentiam, tão reais. Mas é a vida em cada um a impor-se, a chamar ao “aqui e agora”.

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CONTO DE OUTRO NATAL – C.R.Angst

Mais um Natal. O mesmo Natal?

Procuro em vão por novidades a minha volta.  A árvore parece cada vez mais mirrada, exilada no canto da sala. As luzes, com seu pisca-pisca irritante, que na infância pareciam estrelas cadentes, agora se revelam meros vagalumes decadentes.

No chão, o vazio de promessas. Limpo, quase reluzente.

Reajo ao calendário como criança à espera do Papai Noel. Ansiosa demais para contar os dias, apontando ausências que não me cabem mais. Adormeço sonhos com cantigas e promessas.  Penso em escrever cartas, talvez bilhetes. Bobagem!  Sei que nunca serão lidos.

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De vidro – Paula Giannini

Que o mundo não era chato, era tudo o que queria provar. E iria. Custasse o que custasse. Levasse o tempo que levasse. Ora, não era plano… Não só. Por que é que os outros insistiam naquela história? Não havia razão para discordar, diziam. Bastava olhar para cima, para os lados, e pronto, lá estava o céu, plano, o horizonte, reto, com seus cantos e arestas simétricas de ângulos perfeitos.

Era chato.

E ponto.

Plano.

Não era.

Não para ela. Tampouco para sua imaginação. E, se plano, o seu, era provar aquilo que intuía desde sempre.  A vida era bem mais que o horizonte onde a vista alcança. Estava decidida. E iria experimentar sua teoria na próxima abertura.

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Um presente especial – Priscila Pereira

− Mamãe, a gente pode comprar um shortinho novo pra Letícia? −Minha filha disse enquanto tomava leite e comia bolachas de chocolate no café da tarde.

− Pra Letícia? Ué, por quê? − Respondi admirada.

− Porque lá na escola ela pediu na cartinha para o Papai Noel um shortinho novo, é que o dela está rasgado e a mãe dela não tem dinheiro pra comprar outro… e como o Papai Noel não existe de verdade, né mãe, então a gente podia comprar pra ela, heim?

Desde que Isabela era pequena, ensinei sobre empatia e sobre  não ignorar a necessidade das outras pessoas e esse pedido dela me tocou o coração. 

− Claro que podemos, filhinha! Amanhã mesmo vamos sair pra comprar e vou mandar fazer um embrulho bem bonito para você entregar pra ela na segunda, tá bom? Continue lendo “Um presente especial – Priscila Pereira”

Flora – Elisa Ribeiro

— Como assim, Letícia?

— Não sei! Aconteceu.

— Você não tava tomando remédio?

Tava! Mas às vezes eu esqueço…  

— Não acredito! Você tem certeza?

— Praticamente. Deu positivo no exame de farmácia. Repeti ontem, te falei.  Só falta confirmar no exame de sangue.

No dia seguinte o exame de laboratório confirmou. Letícia estava na quinta semana de gravidez.

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Acalanto – Sandra Godinho

“Às 6h da manhã, eu fui acordado repentinamente de um sono profundo. Comparecer a uma execução. Ok, então eu só vou fazer a função de carrasco e, depois, a de coveiro. Por que não? Não é estranho? Você ama a batalha, mas é obrigado a atirar em pessoas indefesas. Vinte e três tiveram que ser fuzilados – entre eles, duas mulheres. Eles são inacreditáveis. Eles se recusam até mesmo a aceitar um copo de água vindo de nós.[1]

Você me leva para casa?

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