Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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Aritana, Santiago e um fantasma um tanto inconveniente (Bia Machado)

I

— Não sei se reparou no que a placa dizia, señorita… Señorita?

— Van Der Ley. Aritana Van Der Ley, sua criada.

O detetive achou engraçada a expressão da jovem sentada diante dele, parecendo analisá-lo de forma tão silenciosa e profunda, à espera do que ele diria.

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Para Inspirar – A Bela Adormecida (Martha Angelo)

A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante, uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas…
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — Suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — Imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.

A vida ia passando também.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve. Continue lendo “Ovos Nevados – Paula Giannini”

Francisca – Ana Maria Monteiro

A sorte de Joaquim foi aquele assalto. Não tivesse alguém assaltado a casa de Francisca e roubado o precioso mealheiro e nunca estaria prestes a celebrar os cinquenta anos de casados.

A verdade é que Joaquim desesperava por casar enquanto Francisca protelava indefinidamente porque entendia que eram ambos muito jovens e ela queria um enxoval primoroso (que dia após dia ia nascendo das suas mãos de fada), uma casa mobilada e um casamento abençoado, não só pelo padre mas também por um certo sentido místico de proteção. Por esse motivo (além do seu labor com os bordados e as rendas) estava disposta a juntar no mealheiro as mil moedas de tostão necessárias à compra da “colcha da felicidade” – e isso levava muito tempo.

Tendo regressado à estaca zero do seu mealheiro já tão adiantado, Francisca acedeu a casar sem comprar a colcha que só seria da felicidade e abençoada se fosse paga por mil moedas de tostão.

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Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan

“Vem, linda boneca! Bela neneca! Querida minha!

  Leve é o vento e leve é a pluma da andorinha.

  La embaixo sob a montanha, ao sol brilhando,

  À luz da lua, na soleira já esperando,

  Minha linda senhora está, filha da mulher do rio,

  Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio.”

— Ei! – gritou “Diana”, fechando o livro com tudo e levantando-se do gramado onde estava deitada e lendo. – Estes versos são do livro O Senhor dos Anéis! – encarou o homenzinho que parou de saltitar pelo bosque para atender. Continue lendo “Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan”

Uma História de Amizade – Menina – Ana Maria Monteiro

A menina olhou-a longamente nos olhos, sem problema, podia fazer aquele momento durar quanto tempo quisesse, o comando era seu. Por fim, a luzinha (chamemos-lhe assim) não aguentou mais e, ganhando autonomia, quebrou o silêncio: “por que me olhas assim?”; “Porque tento avaliar a tua essência: se o virtual pode ser realidade, se existes ou se és um personagem que eu crio, se és onda ou frequência, física ou ficção e essas reflexões despertam-me outras e fixar em ti o meu olhar permite-me continuar a alimentá-las e estou a gostar”.

Decidiu continuar: qual direção escolher? “– Oeste, sem dúvida.” Navegaria aquele obstáculo em forma de rio dentro de um caldeirão e aquela luzinha que emergia das águas, acompanhá-la-ia com a dança singular que usava para se mover, levitando naturalmente sobre as águas.

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Somos um círculo, dentro de um círculo… – (Sacerdotisa)

 

 

“Somos um  círculo, dentro de um círculo. Somos um infinito, dentro de outro infinito”

Tate tinha nove anos, e era uma menina diferente, olhos antigos – diziam – e todo verão viajava para o sul do estado, para passar férias com a avó.

Rubi era uma avó alegre, enérgica, cheia de vitalidade. Cultivava girassóis, rosas, margaridas e aos olhos da menina era uma verdadeira rainha, sábia e generosa.

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A doce ondina – Nicksa

O dia estava nublado, mesmo uma menina de nove anos achou estranho aquele brilho vindo do fundo do lago. Ela estava triste, nos últimos três meses não conseguira chorar, mas o dia relativamente escuro lhe trouxe à tona as tristezas acumuladas. Mariana lembrava-se da mãe como se ela ainda estivesse presente, mas quando acordou e chamou por ela, para que lhe trouxesse chá de camomila como em todas as manhãs chuvosas, a realidade lhe soou como uma bofetada e ela percebeu que nunca mais tomaria chá de camomila com a mãe. Colocou seu casaco e calçou as botas. Correu para a beira do lago no fundo de sua casa.

Foi aí que percebeu a luz.

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O Pedido – Neusa Fontolan

 

Eu sempre tive grande veneração e fascínio pelas forças da natureza. Amo os elementos e suas demonstrações de poder. Claro que tenho medo, como qualquer ser humano com instinto de sobrevivência. Além do medo sinto arrebatamento e respeito, e como não respeitar? Quem é que pode parar um vulcão ativo, um ciclone, um terremoto ou um tsunami? O que para a maioria das pessoas é uma tragédia, para mim é uma coisa linda, uma pequena demonstração do grande poder desses Deuses. ‘Deusa Terra’ – ‘Deus do Ar’ – ‘Deusa D’água’ – ‘Deus do Fogo’. É assim que os chamo, são os meus Deuses.

Então, vamos a minha pequena história.

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Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro

A primeira vez

Aconteceu quando tinha onze anos de idade e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.

Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com  autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.  

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Uma história apenas começando… – Anorkinda Neide

Uma história apenas começando…

Brilhou em sua completude o pentáculo pendurado no interior daquela aconchegante caverna. Era hora. Era noite. Pletskin preencheu seu embornal para a pequena viagem e colocou-se a caminho.

O encantamento estava ativo, até os gravetos do chão estalavam com alegria a sua passagem. Era noite de inverno. Era hora certa. No local sagrado, em terceira dimensão, ela estava invocando a magia. Na direção norte, a vasilha com sal marinho, e Pletskin sempre fora o encarregado desta bênção. Ele mesmo não sabe desde quando… Desde sempre, ele achava, nas poucas vezes que se punha a pensar nisso.

“Bons gênios do Invisível, Deuses da Terra: com este ritual dirijo-me a vós para obter aquilo que me é justo de direito! Eu posso! Eu quero! Eu ordeno! Ajudai-me a realizar um lícito desejo!”

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Passageiras – Sabrina Dalbelo

O Emissário, criatura responsável pela Passagem, é o funcionário a quem incumbe a evolução dos processos. Forjado no início dos tempos, desde a primeira morte de um ser dito vivo, seu grande mister é o de depositar as almas na grande labareda da purificação e, com isso, manter o ciclo da transmutação. Ele perambula nu, não se alimenta e não pensa em nada.

Ele é apenas o ente responsável por guiar as passageiras. Não mata, não cobra, não escolhe, não ganha nem perde nada a partir do seu labor. Existe porque lhe é dado existir.

O Emissário é apenas um, ainda que não seja propriamente uno. Não tem braços, pernas, asas, membros, vontades ou posses, assim definidos. Ele tem a força suficiente para alimentar o Fogo da cura com as almas, e essa é toda a força do mundo.

O lugar onde está o Emissário é cheio de corredores vazios, desabitados, sem corpos, sem tapetes, sem janelas. Não há boas-vindas nem despedidas. Chamá-lo de purgatório seria mascará-lo com o entendimento limitador de “habitar”. Portanto, o lugar da emissão não é um lugar ao qual alguém pertença ou onde se estabeleça. É uma passagem.

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A Arca das Palavras – Evelyn Postali

Terra, Continente do Norte, 2-988. Registro midiático 10950.

O objeto foi deixado a mim por alguém conhecido de minha mãe, com indicação expressa: abri-la em meu trigésimo aniversário.

Se eu não a estivesse tocando, não acreditaria. Uma arca, assim como todas as arcas da história da humanidade o foram: de madeira envelhecida e cheiro de ancestralidade; tão sólida que seria preciso muita força para arranhar sua superfície com qualquer lâmina cortante, e tão maciça quanto as ligas de metais descobertas nesse século carregado de tecnologia alienígena.

Meu monitor de pesquisa aponta para um exemplar de quercus, hoje existente apenas em algumas montanhas ao sudeste daqui. O selo é áureo, de metal raro e inexistente.

O primeiro contento é um papel caligrafado, deixado, creio, propositalmente, em cima de vários exemplares de livros, artefatos de papel não mais produzidos por nós. Tenho uma raridade nas mãos

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Coleção de Um Coveiro – Thaís Lemes Pereira

–  Bem-vinda, sua idolatra! – eu disse, quando escutei o rangido da porta e senti o vento entrar. Minhas mãos ainda tremiam, mas a garrafa de conhaque vazia em cima da mesa mostrava que não era de frio. – Ainda é dia, vejo que se adiantou.

Acendi um cigarro. Lancei prazerosamente a fumaça e lembrei das recomendações médicas para que não bebesse e não fumasse. Soltando uma gargalhada afoita, sobreveio uma tosse. Não me faria diferença nenhuma!

– Aceita? – estendi a mão com o cigarro e a observei balançar a cabeça de forma negativa. – Acho que sei o motivo de ter chegado tão cedo…

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Nada Existe (Nem o Título) – Thaís Lemes Pereira

A vida não é perfeita, mas também não é ruim. Espera. Contentamento é uma das primeiras coisas que aprendi que não podemos ter. Sou feliz? Bem, eu tenho um emprego, estudo como qualquer garota da minha idade, existe minha mãe. Calma, comecei tudo errado de novo, penso mentalmente, respiro e retorno do início, Isa, para começar: defina felicidade…

***

Naquele dia, fui dormir com a última frase dita pelo professor na cabeça.

***

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Dos Amores Divididos e Multiplicados (Regina Ruth Rincon Caires)

Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
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Flor-de-Capitão (Regina Ruth Rincon Caires)

O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do chão. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas.
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O mendigo do Viaduto do Chá (Regina Ruth Rincon Caires)

A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.

Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

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