Além do tempo – (Queluz)

I

O mesmo sonho recorrente, desde que Manuela partira. Uma linda mulher vinha ao seu encontro, chamando-o pelo nome, como se o conhecesse há tempos. Ela sorria e o abraçava, alegre, dizendo: “Eu ainda estou aqui! Sou eu, a sua Manuela!”

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Luz e Sombra – Renata Rothstein

Terras de Ythisi, século VII D.C.                              

Yanna caminhava resoluta pela encosta íngreme rumo ao cemitério de Tagar, sentindo o vento frio e cortante, tão frio e cortante quanto aqueles últimos tempos, feitos de surpresas e responsabilidades impostas, para as quais não havia se preparado.

Continuou a subir a montanha cada vez mais rápido, e parando subitamente ao atingir o ponto mais alto, de onde se avistava todo o grande reino de Orr – e onde ficava também o cemitério do reino.

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Doença de Família – Sabrina Dalbelo

Primeiro lugar no vestibular na Faculdade de Medicina da USP 2007. Grande mérito, resultado de igual dose de responsabilidade. Isabela Alonso entrava na faculdade como a melhor da turma e logo se tornaria a preferida do professor de anatomia, Ricardo Pádua, um reconhecido médico paulista. As investidas, após as aulas práticas sobre o sistema cardiovascular, resultaram na entrega do coração ao mestre, vinte anos mais velho. Eram companheiros frequentes nos intervalos das aulas e logo o namoro engatou.

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SEM TONS – Alina

Nasceu totalmente desprovida de melanina, como se toda a cor da sua gente tivesse escorrido por um ralo imaginário. As raízes africanas só se revelavam nos traços fortes, nos lábios generosos, sedentos de um calcado a mais de ébano. Nada nela se escurecia, a não ser a rejeição que logo se apresentou como companheira fiel.

Coube à família, a missão de acolher a menina, criá-la em seu seio com os valores de seus ancestrais. Mas como aceitar aquele ser tão diminuto e ao mesmo tempo tão estranho a tudo que antes era familiar e natural? Todos ali se orgulhavam de ser o que eram, sem misturas que mesclassem outros tons ao padrão herdado.

Por falta de atenção ou talvez até uma ponta de ironia, batizaram a criança com o nome de Alina. No decorrer da infância, entre colegas de escola e até mesmo no convívio doméstico, a rima caiu como uma luva para que o bullying se esparramasse como praga. Era Alina, a albina.

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Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

Ingredientes
5 cl de Gin – 3 cl de xarope de rosas – 1,5 cl de Triple Sec. –
2 cl de suco de limão – Gelo

Ela dormia tarde. Gostava de ter uns minutos para si. Mesmo exausta, mesmo após o dia longo e cheio de trabalho. Abria a janela e subia pelas escadas externas do prédio até a cobertura. Quase iguais às que vira em filmes durante toda a infância. Quase iguais às que um dia sonhara ter, em um prédio do outro lado do mundo, em um país distante e cheio de oportunidades. De trabalho. E já lá em cima, no topo do mundo, como gostava de dizer, fumava um cigarro apreciando a cidade envolta em névoa. O último do dia. Sem pressa. E brincava com a fumaça, fazendo bolinhas no ar, enquanto via vésper desaparecer, ofuscada pela luz do sol.
Ele acordava cedo. Gostava de ter um tempinho só seu antes de sair. Respirar fundo como aprendera quando criança. E tomar seu chá, bem quente. E com cuidado para não queimar os lábios, assoprava devagar, sem se importar com o vapor que, subindo, embaçava seus óculos. Gostava do efeito de refração da luz nas gotículas que se formavam na lente. Adorava o ar desse país. A luz. Fascinara-se logo no primeiro dia, quando chegara para nunca mais partir. Talvez por isso tivesse o hábito de se deixar assim, quase em meditação. E sem pressa alguma começava o seu dia, observando vésper desaparecer, ofuscada lentamente pela luz daquele sol.

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Varal de Lembranças (Soneto e Conto) – Iolandinha Pinheiro

 

Ao longo desta tarde, uma vida passa
E leva junto lembranças de um dia
um dia de vento, vento que embaraça
os loiros cabelos da noiva que sorria

Ao longo desta tarde, a anciã recorda
se lembra e se perde entre passado e fantasia
sobre o colo, no tecido  que ela borda
as imagens daquilo o que viveu um dia

Lá fora o vento forte, balança o varal
E os lençóis flutuam sob o céu laranja
Como vestido de uma moça em esponsal

Nunca mais haverá noiva sorrindo
Nunca mais um vestido, o véu, e a franja
tudo findou, e a noite eterna vem surgindo.

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O astronauta – Elisa Ribeiro

tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano

Walter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

Vendo-o atrapalhado em despir o casaco, antecipei-me. Peguei a bagagem de mão dele e coloquei-a sobre a esteira do raio-X.

 “O que senhor trouxe nesse bolsa, pai? Chumbo? ”

“Livros, minha filha…”

“Livros, pai? O senhor trouxe mais de um livro pra ler durante a viagem? ”

“Claro! Durante a noite, enquanto você sonhava e o avião balançava, eu li um pouco de cada um…”

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Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Sofro de bondade. Nasci assim, diz minha mãe. Fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Foi quando descobri que Tia Celina, professora do pré-primário, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um marido como meu rival. Mas, não foi só isso. Existiam outros que disputavam o amor dela: meus colegas de classe. Diante da terrível descoberta de ser minha amada uma leviana, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

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Resultado Difícil de Prever (Fheluany Nogueira)

 O que quer que tivesse esperado viver naquela noite escura e fria em que saíra de casa de pijama, não era aquilo.

 

— Para o Shopping! — a mesma voz que me chamou dizendo que ele e o amigo estavam voltando do restaurante para casa. Nove horas de uma noite chuvosa. Como assim? Agora querem fazer compras? E a volta para casa? E como fico com a empresa?

— Claro que sim! —respondi. Estava dormindo quando ligaram e não me dei ao trabalho de tirar o pijama; vesti camiseta e jeans sobre ele. Ainda peguei uma jaqueta. — Tonta, eu. Por que fico encucada?

Pelo retrovisor, observava os passageiros, calados no banco de trás: um jovem, com muita acne no rosto; outro, musculado, com ar de indiferença. No Walmart, o mais moço ficou comigo no carro, talvez para assegurar que não os abandonaria. Na volta:

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Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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Para Inspirar – A Bela Adormecida (Martha Angelo)

A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante, uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas…
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — Suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — Imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.

A vida ia passando também.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve. Continue lendo “Ovos Nevados – Paula Giannini”

Francisca – Ana Maria Monteiro

A sorte de Joaquim foi aquele assalto. Não tivesse alguém assaltado a casa de Francisca e roubado o precioso mealheiro e nunca estaria prestes a celebrar os cinquenta anos de casados.

A verdade é que Joaquim desesperava por casar enquanto Francisca protelava indefinidamente porque entendia que eram ambos muito jovens e ela queria um enxoval primoroso (que dia após dia ia nascendo das suas mãos de fada), uma casa mobilada e um casamento abençoado, não só pelo padre mas também por um certo sentido místico de proteção. Por esse motivo (além do seu labor com os bordados e as rendas) estava disposta a juntar no mealheiro as mil moedas de tostão necessárias à compra da “colcha da felicidade” – e isso levava muito tempo.

Tendo regressado à estaca zero do seu mealheiro já tão adiantado, Francisca acedeu a casar sem comprar a colcha que só seria da felicidade e abençoada se fosse paga por mil moedas de tostão.

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Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan

“Vem, linda boneca! Bela neneca! Querida minha!

  Leve é o vento e leve é a pluma da andorinha.

  La embaixo sob a montanha, ao sol brilhando,

  À luz da lua, na soleira já esperando,

  Minha linda senhora está, filha da mulher do rio,

  Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio.”

— Ei! – gritou “Diana”, fechando o livro com tudo e levantando-se do gramado onde estava deitada e lendo. – Estes versos são do livro O Senhor dos Anéis! – encarou o homenzinho que parou de saltitar pelo bosque para atender. Continue lendo “Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan”

Uma História de Amizade – Menina – Ana Maria Monteiro

A menina olhou-a longamente nos olhos, sem problema, podia fazer aquele momento durar quanto tempo quisesse, o comando era seu. Por fim, a luzinha (chamemos-lhe assim) não aguentou mais e, ganhando autonomia, quebrou o silêncio: “por que me olhas assim?”; “Porque tento avaliar a tua essência: se o virtual pode ser realidade, se existes ou se és um personagem que eu crio, se és onda ou frequência, física ou ficção e essas reflexões despertam-me outras e fixar em ti o meu olhar permite-me continuar a alimentá-las e estou a gostar”.

Decidiu continuar: qual direção escolher? “– Oeste, sem dúvida.” Navegaria aquele obstáculo em forma de rio dentro de um caldeirão e aquela luzinha que emergia das águas, acompanhá-la-ia com a dança singular que usava para se mover, levitando naturalmente sobre as águas.

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