Aquilo que se impusera – Elisa Ribeiro

Sentou-se no tapete em frente à janela. As pernas dobradas, as mãos sobre os joelhos, os olhos da gata da vizinha nos seus. Fechou-os. Pensou em si mesma como uma fruta em ponto de tombar ao chão de madura ou uma hortaliça em fim de ciclo na terra. Usava essa imagem para fazer-se imóvel, o... Continuar Lendo →

JARDIM – Juliana Calafange

Do telhado do edifício mais alto, eu olhava para o jardim de petúnias lá embaixo. O ar estava pesado, nem parecia primavera. Me sentia feliz, mas o termômetro e o barômetro confirmavam que as coisas estavam bem acima do normal. Puxei a Rolleiflex para fotografar o derradeiro frescor da vida, mas antes que eu pudesse... Continuar Lendo →

O Velho – Fernanda Caleffi Barbetta

(Fabíola vai até a cozinha, onde a mãe lava a louça) Fabíola – O que o Tião queria a essa hora?Mãe – Tião?Fabíola – É. Ele não tava na sala com o pai?Mãe – Era o velho. (Fabíola senta-se à mesa) Fabíola – Que velho?Mãe – Parece que encontraram um corpo.Fabíola – Corpo, que corpo?Mãe... Continuar Lendo →

Meninas e lobos – Elisa Ribeiro

Quatro da manhã em ponto, o instante em que os espíritos voltavam aos corpos, riu de sua própria desgraça.  O cheiro nauseante a despertara, os olhos muito abertos, não voltaria a dormir, nem adiantava continuar deitada. O cheiro era uma alucinação olfativa, pesadelo recursivo, sem imagens, já estava acostumada. Sempre vinha acompanhado do ranger fantasmático... Continuar Lendo →

Delírio – Evelyn Postali

“Que pode uma criatura senão Entre criaturas amar” Amar o ser deitado ao lado E, no silêncio da madrugada, A rua inteira acordar? Voltando para casa do turno da noite, Mauro pensava em Jussara e no filho pequeno. Àquelas horas, estavam dormindo na casa mais humilde da rua, um puxado de uma água, do lado... Continuar Lendo →

Quem quer? (Vanessa Honorato)

O sol brilhava forte no interior amazonense. A camisa de Jandir estava molhada nas costas e axilas, sinal de um longo dia de trabalho capinando entre as becas da pequena lavoura de mandioca, de onde tirava o sustento de sua família. Jandir pegou o cantil pendurado na lateral de seu corpo e sorveu um gole... Continuar Lendo →

Sopa Paraguaia – Paula Giannini

Ingredientes 2/3 de copo (250 ml) de óleo  2 Cebolas médias em fatias finas  2 Ovos levemente batidos  500 ml de leite  250 g de Flocão de Milho  Colher rasa (de sopa) de fermento em pó  Xícaras de queijo picado em cubos (minas ou meia cura)   Queijo ralado (parmesão)  Sal e pimenta do reino a... Continuar Lendo →

Encarnado – Elisa Ribeiro

O espelho trincou do nada. Trinta anos pendurado na parede, trinta e um precisamente, desde que se instalara naquele sala e dois quartos. Não acreditava em maus presságios. Olhos exagerados, rugas e sarda apagadas, polvilhou no rosto o pó translúcido, última etapa da maquiagem; o batom, só na hora de sair de casa. A flacidez... Continuar Lendo →

Café com canela – de Paula Giannini

Ingredientes1 colher (chá) canela1 xícara de açúcar demerara  Café Era cor de ouro. O céu de fim de tarde lambendo as mesas, o silêncio momentâneo do mundo às seis prometendo algo que há tempos desconhecia. Alento. Paz. Um algo qualquer que calasse aquela mão que se enfiara em seu peito e que se fechara crispando... Continuar Lendo →

#Jorge – Evelyn Postali

Depois de #longajornadanoiteadentro, vou #embuscadotempoperdido uma vez procrastinada a segunda-feira. Eu brinco comigo mesmo arrumando os livros na bancada frontal. — Bom dia, Jorge! Deu folga para o barbeador? Meu patrão, não é dos piores. Também não é de ficar #esperandoGodot. Quer as prateleiras todas organizadas, já que os sonhos depositados no seu insuportável e... Continuar Lendo →

O pegador – Fernanda Caleffi Barbetta

A Marinalva chegou com a saia curta e o olhar longo, espichado para onde eu estava. Atrás do balcão, meu corpo estremeceu. “Hoje vou beber todas, Túlio”, disse o Marreco, batendo a mão espalmada no tampo de madeira melecado de whisky barato. “Já sei, uma coca-cola”, falei, um olho nele o outro na Marinalva, talvez... Continuar Lendo →

Pecado (Amana)

Um olhar indiferente sem querer que fosse assim. Puro fingimento. E naquele olhar disfarçar a urgência, o desejo, a promessa de um pecado a fazer do amor uma ferida na alma, cada vez mais profunda. A pulsação acelerada, sem a necessidade do toque, era a sensação a cada encontro. E era como se todos próximos... Continuar Lendo →

Dias de Chuva – Iolandinha Pinheiro

Dias de Chuva Caminho pela chuva, e vejo a praçaPor onde uma criança anda descalçaSeguindo pelo vento, achando graçaDos barcos de papel, em uma valsaDançando quase juntos sobre o rioValentes, enfrentando o aguaceiroVoando sob o duro meio fioAté se desmancharem por inteiroAli se encerrou, breve destinoDos dois pequenos barcos pelo mundoNascer e já morrer em... Continuar Lendo →

Chove (Renata Rothstein)

Chove E eu, que já não sei chorar Deságuo desato e derramo Nas ruas de cetim, o sonho Último, escasso, quase laço No fim, eu sei, melhor assim Canções ao breu. E eu? Luar Parte é perda, parte é ganhar Parto - calo, e violo as regras E cega, mutilo, sigo as setas Todo inverso,... Continuar Lendo →

O gavião antenado

Minha amada Amora, Vovó já pede desculpas pela cafona cacofonia. Mas depois de certo tempo a gente perde os pudores literais e literários. Hoje é aniversário de seu pai, mas ele só recebeu o melhor presente cinco dias depois, quando você nasceu. Desde então o mundo anda complicadinho. Triste coincidência. Vou tentar explicar. Assim que... Continuar Lendo →

A linha tênue – Evelyn Postali

Arrastava a corda pelo chão. Descalça, sequer incomodava-se com a grama espinhenta, a brotar da terra por todos os lados, como lanças esperando pela queda de algum desavisado, estalando ao toque dos pés, crepitando como as labaredas da pequena fogueira a queimar parte da mobília e das roupas. As sombras da noite já mergulhavam sobre... Continuar Lendo →

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