No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

Apenas lembro de ter caído em um interminável buraco, desejando descobrir quem o havia cavado. Da noite anterior, recordo que estava sentado de frente para o balcão de um bar, como todas aquelas garrafinhas de conteúdo colorido pedindo “beba-me”. Senti os pelos do braço arrepiarem após dar a partida no carro. Precisei desviar de um animal branco, de porte pequeno, que atravessou com pressa as extremidades da estrada e, depois disso, recordo apenas de estar caindo em um buraco sem fim. Talvez aquela fosse minha sentença por dirigir embriagado: a solidão.

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Dos Amores Divididos e Multiplicados (Regina Ruth Rincon Caires)

Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
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O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)

(Para a minha amiga secreta, Priscila, com o desejo de que cumpra os seus sonhos, em 2019 e sempre.)

Priscila adormeceu tranquilamente sem imaginar o que o sono lhe traria.

Sonhou que era noite de Natal e ela, quase criança no sonho, caminhava por uma rua deserta e mal iluminada, levando nos braços o seu gatinho branco malhado de preto, pequenino também ele, num estranho encontro entre quandos diferentes, juntos num tempo em que ele não existia ainda e ela estava ainda longe da mulher que mais tarde veio a ser.

Mas nos sonhos tudo é possível e raramente se estranham estas incongruências e por isso mesmo a situação parecia-lhe normalíssima. Até que o tareco se assustou. Continue lendo “O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)”

BALANÇO – Juliana Calafange

De olhos fechados eu inspirava, expirava, inspirava, expirava. E assim fui suavemente me entregando ao balanço. Leve. Volátil. Doce. A morte deve ser assim.

Embalado pelo mar da tranquilidade, abri os olhos devagar. Santa Maria, Pinta e Nina navegavam soltas pelo teto e meus sentidos lentamente percebiam a fria superfície sobre a qual meu corpo boiava, barriga para cima, braços abertos a espera de um abraço. Há muito tempo que eu singrava apenas por águas sujas, imundas, viscosas. Merecia aquele momento de conforto plácido. Algumas pessoas certamente condenariam minha extravagância, diriam que não tenho mais idade para brincadeiras lisérgicas. Mas o céu estava estrelado e a moça que me ofereceu o chá era tão bonita… Pra onde ela foi? Saiu correndo, dizendo sempre que estava atrasada. Isso não tinha mais importância agora. Tudo estava finalmente em ordem. Continue lendo “BALANÇO – Juliana Calafange”

Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)

A vida bolorenta nas vielas de barro e cheirando a chorume continuava, como sempre, a mesma merda, depois da morte de Julinho Esmola.

Miséria chama miséria e a necessidade de pobre é aquela coisa – nunca tem fim.

Quando depois de trinta meses de trabalho, bico, aperta aqui e esse mês paga-se a água, no outro paga-se a luz e vamos que vamos, “Deus vai ajudar, eu tenho fé!”, aí quando finalmente o puto do economicamente desfavorecido consegue adquirir o que precisava, e pobre de verdade sabe que supérfluo é só em sonho, e mesmo assim nem sabe direito o que é sonhar, vem uma chuva e leva tudo. Triste.

É. Nada é mole, todo mundo diz que não tem nada, mas quando vem a tragédia, diz que perdeu tudo. Perder tudo quando não se tem nada é rotina lá nos becos por onde caminhava a exuberante Magá – a Magali Batista – morena formosa de lábios de mil promessas e curvas perigosas, sonho de consumo da bandidagem local, e de fora também, e dos pais de família respeitáveis que não perdiam uma missa sequer, nos domingos pela manhã. Continue lendo “Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)”

O velho – MElisa Ribeiro

Sonho que se sonha só
é só um sonho que se sonha só

 mas sonho que se sonha junto

é realidade

 

Acordei suando, nervoso. Há tempos o maldito velho não me incomodava.

Olhei o relógio: vinte para as quatro da manhã. Não consegui pegar no sono de novo, medo de o pesadelo continuar. Sai da cama às seis. Só pensava na Luísa enquanto me aprontava para o colégio, precisava saber se ela também tinha sonhado.

Não consegui me concentrar nas aulas. Matemática, física, história, pior que um pesadelo. Lembrei que o transporte do colégio passava perto da casa dos meus tios, pais da Luísa, e decidi passar pessoalmente lá, melhor do que ligar.

Era quase uma da tarde quando toquei a campainha. Minha tia me recebeu.

— Ei, Pedro! Que surpresa! Aposto que veio falar com a Luísa, não é?

Disse que ela estava no quarto. Fui entrando. Eu era da casa.

Tomei um susto quando a vi. O cabelo comprido dela havia sumido e se transformado numa penugem curta rente à cabeça.

— O que aconteceu com seu cabelo, prima? – não consegui me conter, falei do cabelo antes de cumprimentá-la.

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SHERLOCK – Juliana Calafange

Seu Egydio sempre gostou de histórias de mistério. Desde menino, devorava tudo que era livro de Agatha Christie, Alan Poe, Conan Doyle, Simenon e companhia.

Chegou a fazer curso pra detetive, mas quando viu que era muito arriscado e pouco lucrativo, desistiu da carreira. Acabou fazendo concurso público e virou funcionário conformado do Departamento de Procedimentos Disciplinares e Desenvolvimento de Pessoas do Ministério da Agropecuária.

Mesmo assim, nunca deixou seu hobby de lado. Investigava a vida dos colegas, dos chefes, até do pessoal da limpeza. Xeretava gavetas, correspondências, lixeiras, a fim de encontrar algo que fosse suspeito. Um dia, encarou uma das faxineiras, que acabou confessando, aos gritos:

– Matei meu marido sim! Aquele filho da puta me batia e me traía, envenenei ele com chumbinho e não me arrependo, viu seu Egydio! Mas o senhor não pode fazer nada, foi a mais de 30 anos e já “mescreveu”[1]! Continue lendo “SHERLOCK – Juliana Calafange”

UM CONTO DE VINGANÇA- Vanessa Honorato

Clara abriu lentamente os olhos. Suas mãos tocaram o chão forrado por folhas secas e frias. Estava em um bosque estranho. A noite era sombria, iluminada precariamente pela Lua que brilhava no céu.
Ainda tonta, ela sentou-se, tentando relembrar o que tinha acontecido. Mas suas lembranças estavam atrapalhadas, como um filme borrado. Tudo que recordava era de um homem de olhos vermelhos com um machado nas mãos.

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A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst

Algumas horas haviam escorregado pela ampulheta antes que Joana escolhesse aquele destino. Parecia-lhe muito pouco tempo, na verdade. Conversa de minutos, palavras estendidas como um tapete surrado pelas chuvas. Melhor teria sido calar, mas quando o silêncio vinha, pesava, condensando a instabilidade das possibilidades. Nada mais mutável do que uma pausa, uma brecha rasgada no turbilhão de acontecimentos.

Congestionava o entardecer com seus pensamentos. Havia neles todo tipo de devaneios tortuosos. Como se, de repente, ela visse tudo pela primeira vez. Continue lendo “A Solidão do Vinho – Claudia Roberta Angst”

Fada Madrinha (Fheluany Nogueira)

Fada Madrinha

 

— Nara, Nara Lúcia! Não acredito! Há quanto tempo… — uma voz máscula se aproximava. Olhando com mais atenção ela percebeu que já conhecia aquele homem, os traços eram familiares, o andar, os cabelos, os olhos.

— Raul! O que faz aqui? — o rosto da mulher se alargou em um sorriso ao reconhecer o amigo de infância.  Viu-se transportada para um passado distante. As lembranças que tinha eram de jovens felizes.

— Eu trabalho… E pelo que vejo, é você mesma que estou procurando… Diga-me que quebrou esta perna ontem na festa de Santo Antônio — indicando a perna com tala, puxou a cadeira e pedindo licença, sentou-se.

— Poxa! Um acidente ao fugir das bombinhas… Sou azarada, minha fada madrinha me abandonou. — falou, de manso e conformada.

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Agora ou Nunca – Vanessa Honorato

Eu estava lá, sentado na primeira fileira depois dos padrinhos, do lado do corredor, quando as portas da Igreja abriram-se e o noivo entrou. Ele usava smoking preto, camisa branca, gravata borboleta. Seus cabelos eram grisalhos e encontrava-se um pouco acima do peso. Ao seu lado estava sua mãe, já idosa, usando um vestido de seda longo, azul. Ele me notou e encarou-me por alguns segundos, pela sua expressão, pareceu não aprovar minha presença. Pararam no altar enquanto todos os padrinhos entravam e as portas foram novamente fechadas.

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ARDÊNCIA – Juliana Calafange

Noite alta, madrugada ainda, a mulher abriu os olhos e logo reconheceu a necessidade encalacrada na garganta. Precisava falar da sua covardia. Nunca lhe ocorrera falar sobre isso, pois lhe causava vergonha. Sempre. Mas é que hoje aquela covardia estava ardendo muito, mais do que já ardera antes. Hoje ela inflamava e urgia.

Geralmente chegava quando a mulher estava vazia e distraída, quando não havia ninguém por perto. Quando a mulher olhava em volta e percebia que a estrada era fria e seca, e infértil, e mesmo assim insistia em trilhá-la. Nessas ocasiões é que a covardia da mulher gritava o seu nome.

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Regras do Mercado- Iolandinha Pinheiro

Histórias que se cruzam.

A família havia acabado de almoçar e as mulheres foram lavar a louça enquanto contavam piadas na cozinha. De súbito, ouviram gritos e alguém dando pontapés na madeira lá fora. Calaram-se de imediato, naquele lugar de tantas baixas e bombardeios, a morte nem sempre avisava, mas elas souberam, pelo tipo de abordagem, que daquela vez era ela que batia à porta.

O silêncio foi interrompido pelo estalado dos tiros. Rajadas sucessivas cortavam o ar espalhando pedaços de louça, fazendo buracos nas paredes de barro e nos móveis. Um pequeno aquário se espatifou deixando cair o peixinho sobre a mesa. Entre cacos de vidro e pequenas poças de água, o animalzinho se debatia num ritmo cada vez mais fraco.
Depois que a poeira sentou, alguns dos homens procuraram sobreviventes pela casa.

– E então?
– Todos mortos.

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Recado para Papai – Vanessa Honorato

P4i, tô te escrevendo esta carta porque quero que o senhor saiba o que aconteceu naquele dia. Os mano e eu tava no busão, a gente tava feliz, gritando, cantando o hino do Timão, quando apareceu aquele frutinha. Pô pai, ele tava usando aquela camisa verde e era oficial, não era de camelô igual a minha! A gente era em cinco, começamos a zoar o cara.

V0u te contar uma coisa, velho, o frutinha era valente. Mandamos que tirasse aquela coisa verde e parasse de bancar o papagaio, mas ele num abaixou a cabeça, continuou mascando seu chiclete e rindo. Zeca foi se aborrecendo com aquilo, levantou e empurrou o cara. Ele caiu sentado num dos bancos e já bateu em pé de novo. O motorista parou. Continue lendo “Recado para Papai – Vanessa Honorato”

POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)

Suspeitei assim que a vi. Aqueles olhos cor de entardecer revelavam muito mais do que um simples acaso. Íris esverdeadas sombreadas por cílios tão negros e tão espessos que pareciam pesar demais. Sempre soubera que ninguém mais possuía aquele olhar. Ninguém. Até aquele momento.

− Paloma Villas-Boas Bastos.

A moça levantou-se e se dirigiu ao guichê 3 com passos pequenos e apressados. Invejei a agilidade e a urgência da juventude. Observei sua figura, mesmo de costas, parecia-me familiar. O reconhecimento atingiu-me como uma dor aguda, a mesma agonia que eu não conseguira evitar por muitos anos. .

O sobrenome poderia ser apenas coincidência, mas aqueles olhos não. Desejei  que a moça se virasse para eu então poder examinar seu rosto. Só assim descobriria a verdade em seus traços. Ela não se virou.

Terminei de juntar os papéis que havia deixado cair com a surpresa. Um rapaz, que parecia trêmulo demais para um dia de verão, ajudou-me a catar as folhas do chão. Trocamos um sorriso que me lembrou dos dias de magistério. Jovens sempre prontos a nos surpreender com inesperadas delicadezas. Continue lendo “POR AQUELE OLHAR (Claudia Roberta Angst)”

O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez

Querido diário,

Hoje é, decididamente, o dia mais feliz da minha vida. A luz chegou aos meus olhos, as carícias das palavras transbordam nos movimentos dos meus dedos, isso é tão mágico!

Oh…desculpe-me, não me apresentei, papai sempre disse-me que antes de contar sobre você a alguém precisa ao menos saber o seu nome, criar margem para o mínimo de intimidade possível à dois estranhos.   Continue lendo “O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez”

Do Umbral – Fheluany Nogueira

Do Umbral,

 

Pai e mãe, paz nos corações! É meu maior desejo! Peço-lhes, que não se deixem prender pela tormenta e que acreditem nestas palavras. Vocês merecem saber o que me aconteceu. Luto para conseguir superar tudo, até consigo atribuir a mim mesma a violência contra meu corpo. Meu comportamento foi descompassado e doentio. As mãos de Deus ainda me acolherão, e por isso posso dizer que tento reerguer-me após as batalhas vividas. Estou me libertando…

É pai, falou-me tanto em lei da atração! “O que pensamos atraímos para nós”. É a pura verdade! Mas nada é argumento para o mal. Desculpe a enroscada em que me envolvi, jamais poderia supor que a ameaça se concretizasse. Eu provoquei muita dor. Tenho que contar os eventos que precederam tudo, para que me perdoem e não culpem a outro pelo acontecido.

A noitada havia sido de bebidas, pedras e rock, no mesmo cemitério em que, pela manhã, presenciamos um sepultamento que ostentava riqueza. Ivo e eu seguimos os acompanhantes do enterro na volta. Pedi-lhe que não haveria violência, que não usasse a faca que sempre trazia escondida na bainha presa acima do tornozelo direito. Ficamos na vigia. A casa ficara fechada, sem ninguém. Esperamos escurecer e a invadimos. O parceiro tinha muitas habilidades e abrir a porta dos fundos foi brincadeira. Fomos adentrando, com o fôlego curto; o fluxo sanguíneo mais intenso deixava os músculos mais aptos para enfrentar a situação. Nada mais nos reprimia.  As pupilas dilatadas vasculhavam todos os ângulos da mansão. Era um lugar perfeito para um bom banho e dormir em uma cama macia. Quadros, objetos valiosos, imagens religiosas e, talvez, no quarto, algumas joias ou mesmo dinheiro vivo.

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