pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

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O confronto entre a menina e o bicho (Fheluany Nogueira)

 

 

Só diante do bicho a menina fica livre da timidez. É. Algumas pequenas fugas e o bicho para. É uma lagartixa. Não, muito grande para lagartixa. Ou um lagarto? Pequeno também para lagarto.

A menina e a lagartixa esperando o ataque. Um desafio ou uma contemplação? Para a lagartixa a menina é uma ameaça, máquina-que-atira-pedras. Que é uma lagartixa para a menina? Muito mais que uma lagartixa….

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A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

Primeiro você mudou de linha. Imaginando que eu não perceberia, pulou para o outro parágrafo e foi se distanciando, até ultrapassar as margens e chegar à outra página. Foi então que eu te perdi de vista.
Ouvi dizer que, durante dias a fio, você percorreu páginas e invadiu capítulos, ansioso, confuso, aparentemente sem um propósito definido. Então, decidiu que precisava encontrar a fita de cetim vermelha, que, para o seu azar, sempre avançava um pouquinho mais a cada dia, dificultando o sucesso da sua jornada. Mas você finalmente a encontrou e a escalou, alcançando a borda da capa dura. Finalmente, conquistou sua liberdade, escorregando pela lombada. Veja só que corajoso.

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Reflexos (Fheluany Nogueira)

 

         Hoje amanheci velhíssima, vinte e oito anos. Só que não senti, não importei, não tive vontade de voltar atrás; o que não significa também que esteja com vontade de prosseguir. Vou ficando.

         Meu WhatsApp trouxe uma mensagem. Adivinhada. Sabida. Conversa que há anos não falha. Diz palavras protocolares. Fiel, a insistir, a dizer que ainda faço anos, a convencionar-me, a balizar-me, a compromissar-me com um mundo que não me quer e a que não quero. Melhor que as pessoas se deslembrem de mim. Estou conseguindo. Há muito tempo deixei de contar presentes ou vinte amigos me cumprimentando. Perco a noção das coisas certas, cíclicas, dos calendários, das datas… Havia tempo em que eu media a minha (des)importância pelo número de e-mails, mensagens e cartões recebidos por ocasião de meus aniversários. A data me provoca sustos.

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Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga) – Para Inspirar

 

Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga)

 

No encontro com a equipe multifuncional, composta por médicos, cardiologista, nefrologista e geriatra, assistente social e psicóloga, a família mensurou o grau da evolução da doença do avô.

Naquela linguagem única de médico, depois de muito tentarem apaziguar o impacto do comunicado pelas palavras, o geriatra finalizou: “Para o vovô não encontramos meios medicamentosos ou intervenção cirúrgica. O caso pede que deixemos na livre escolha dele se continua ou não com a hemodiálise. Para diminuição do sofrimento, o ideal seria que o entubássemos, a compressão pulmonar chegará no agudo daqui alguns dias. Tudo será decidido por ele e por vocês.

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O Jardim e o Deserto – Bia Machado

A mãozinha pequenina de Alice passeia por minha barriga. Os dedinhos suaves me causam um arrepio. Ela é quem mais gosta de me acariciar, e não o faz apenas com os dedos, mas também com o olhar, ao mesmo tempo espantado e compenetrado.
“Quando meus irmãozinhos vão nascer, mamãe?”
“Em breve, Alice” eu respondo.
“Breve é muito tempo?”, o sorriso inocente, eternizado em meu mundo, tornando tudo mais suportável.

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Um céu para Maicon – Elisa Ribeiro

Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.  

Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava.  Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?

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Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

O Caminho é o Caminhar (Fheluany Nogueira)

— Acredito em Carma, mãe! Carma é física, ação e reação. Aceitar tudo como um fardo imutável? Isso não. Se nada muda, mudo eu!

— Eu acredito, sim, no destino. É lógico, sem confundi-lo com pachorra ou acomodação. Nada acontece por acaso. Tudo é uma questão de estar na hora e no lugar certo. Coincidências, tia? Claro que não…

— É. Nada vai embora antes da hora. Aprendizado ou teimosia? Mesmo na teimosia, há uma lição. Culpar a vida, o destino e se sentar, na zona de conforto, em posição vítima é péssima escolha. Sofrimento e perda de tempo. Chega de teorias… Um exemplo prático:

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Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve. Continue lendo “Ovos Nevados – Paula Giannini”

Francisca – Ana Maria Monteiro

A sorte de Joaquim foi aquele assalto. Não tivesse alguém assaltado a casa de Francisca e roubado o precioso mealheiro e nunca estaria prestes a celebrar os cinquenta anos de casados.

A verdade é que Joaquim desesperava por casar enquanto Francisca protelava indefinidamente porque entendia que eram ambos muito jovens e ela queria um enxoval primoroso (que dia após dia ia nascendo das suas mãos de fada), uma casa mobilada e um casamento abençoado, não só pelo padre mas também por um certo sentido místico de proteção. Por esse motivo (além do seu labor com os bordados e as rendas) estava disposta a juntar no mealheiro as mil moedas de tostão necessárias à compra da “colcha da felicidade” – e isso levava muito tempo.

Tendo regressado à estaca zero do seu mealheiro já tão adiantado, Francisca acedeu a casar sem comprar a colcha que só seria da felicidade e abençoada se fosse paga por mil moedas de tostão.

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A Casa dos Mil Lamentos- Iolandinha Pinheiro

A primeira criança a sumir se chamava Pedro. Aconteceu numa tarde de agosto enquanto a sua mãe estendia os lençóis secos no varal para tirar o mofo. O vento estava forte e os tecidos leves voavam e cobriam seu rosto ao serem retirados do cesto. Um minuto de distração e  a mulher parou de ouvir as risadas do garotinho que corria pelo terreiro. Pensou, a princípio, que o menino tivesse entrado na casa. Chamou, gritou, procurou pelas veredas, bateu nas portas dos vizinhos. Nada.

O lugar era pequeno, todos se conheciam.  Alguns amigos formaram equipes de busca pela mata e outros procuraram pelas estradas vicinais. A última pista que tiveram da criança foi o caminhãozinho colorido que estava com o menino no instante do desaparecimento. O brinquedo foi encontrado próximo à margem do rio. Dois homens mergulharam na esperança de encontrar o corpo, mas nem sinal do Pedrinho.

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Dandelions (Bia Machado)

Ali, naquela colina, caminhando na direção leste ao longo da praia, vive a criatura mais apaixonada que já conheci. Quem vai até lá, no amanhecer, pode ver Artemísia deitada, observando o céu em meio aos dentes-de-leão que ela mesma plantou, séculos atrás, em uma longínqua primavera, onde também plantou hortelã, tomilho, lavanda e anis. Poderia ver, aliás, se ela assim o desejasse.

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No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

Apenas lembro de ter caído em um interminável buraco, desejando descobrir quem o havia cavado. Da noite anterior, recordo que estava sentado de frente para o balcão de um bar, como todas aquelas garrafinhas de conteúdo colorido pedindo “beba-me”. Senti os pelos do braço arrepiarem após dar a partida no carro. Precisei desviar de um animal branco, de porte pequeno, que atravessou com pressa as extremidades da estrada e, depois disso, recordo apenas de estar caindo em um buraco sem fim. Talvez aquela fosse minha sentença por dirigir embriagado: a solidão.

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Dos Amores Divididos e Multiplicados (Regina Ruth Rincon Caires)

Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
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Carta a uma amiga distante (Bia Machado)

Querida amiga, como vai?

Acho que posso chamá-la de Amiga, não posso? Estamos sempre tão distantes uma da outra, pela forma como vivemos a vida, pela forma como nos veem, por tantas diferenças que existem entre nós, mas ainda assim, saiba que tenho uma profunda admiração por você. Sempre acreditei que com você a vida fica mais bonita, você traz o frescor à vida que eu jamais trarei, pelo simples fato de que não fui feita para isso. Nasci da necessidade, imperiosa, de registrar, marcar, calcular, medir, economizar. Aliás, eu faço parte do tempo, das medidas, da forma das coisas, estou ali, em  cada simetria da natureza, como algo inevitável, quase uma fatalidade, ou talvez até como uma mágica… Como contariam estrelas, se eu não existisse? Imagine a vida dos humanos sem mim! Seria um verdadeiro caos. Agora, imagine a vida das pessoas sem você? Seria sem graça, seria mais triste, estaria sempre faltando alguma coisa, no mínimo o tal frescor que citei acima. Continue lendo “Carta a uma amiga distante (Bia Machado)”

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