Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

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Levar, Voltar (Marília)

De tão contraditório, fazia sorrir e chorar. Tudo no mesmo objeto, naquela pessoa carregada para perto do céu, de volta à terra. Eu só observava, admirava. Você chegava naquela sala que parecia vazia, meio escura, comportava pessoas alheias ao acontecer ali na tela daquele celular.

Isso bastava. A gente se preenchia enquanto sorrisos ecoavam, olhares compartilhavam desejos sem a boca verbalizar. Tudo com hora de acabar. Porque o turno do trabalho chegava ao fim, então a rota de volta era caminhada.

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Um Dia (Marília)

Eu só escuto, emociono. É tão bonito ver juventude e velhice lado-a-lado. Ela delicada, de laço no cabelo, ele de boné, quase careca. Para ambos, não importa aparência, importante é viver a experiência do momento. Aqui atrás, fico quieta para ouvir melhor minha saudade latejar. Hoje em dia meu avô não pode me levar para escola, pois não sou estudante, ele não habita terra dos vivos.        

Se pudesse dar um único recado para menina que nem ao menos sei o nome, eu diria sobre aproveitar, desfrutar da companhia que um dia o Tempo vai levar. Só vai restar lembrança, Menina. Abraça enquanto é possível. Entre esse pensamento nostálgico, escuto o senhor falar, orgulhoso: “Para chegar na escola, você pega tal ônibus, desce em tal lugar, olha para atravessar, mas se quiser, só ligar que o vovô te leva e vai buscar”.

Escapou até uma lágrima aqui! Agora os dois desceram, chegaram ao destino juntos. Eu, sozinha, bolei plano para um dia, quando já estiver mais velha, como vou querer ir embora dessa terra. Das últimas forças que restarem, vou falar assim baixinho na certeza que ele vai me escutar: Vovô, vem me buscar?

Marília

I Love SP – Rose Hahn

A moça do balcão, embonecada no modelito laranja madura, informa que o voo vai atrasar só trinta minutos. Peço um pão de queijo. Credú! O preço está nas alturas. Faço o sinal da cruz e embarco no buzu aéreo.

O manete do motor está devidamente posicionado para as manobras de descida; o sujeito ao meu lado abana da janelinha para um senhor de poucos dentes, sentado no sofá da sala do minúsculo apartamento, espremido em meio aos prédios que abocanham o Congonhas.
Já enviei e-mail ao governador deste estado manifestando repúdio pela gabolice dos passageiros, que bisbilhotam a privacidade de lares de gente humilde e meio surda dos zunidos no céu. Clamei às autoridades a remoção do aeroporto à área digna e descampada de edifícios; aproveitei e conclamei também à redução do preço do pão de queijo.
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