Doença de Família – Sabrina Dalbelo

Primeiro lugar no vestibular na Faculdade de Medicina da USP 2007. Grande mérito, resultado de igual dose de responsabilidade. Isabela Alonso entrava na faculdade como a melhor da turma e logo se tornaria a preferida do professor de anatomia, Ricardo Pádua, um reconhecido médico paulista. As investidas, após as aulas práticas sobre o sistema cardiovascular, resultaram na entrega do coração ao mestre, vinte anos mais velho. Eram companheiros frequentes nos intervalos das aulas e logo o namoro engatou.

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Passageiras – Sabrina Dalbelo

O Emissário, criatura responsável pela Passagem, é o funcionário a quem incumbe a evolução dos processos. Forjado no início dos tempos, desde a primeira morte de um ser dito vivo, seu grande mister é o de depositar as almas na grande labareda da purificação e, com isso, manter o ciclo da transmutação. Ele perambula nu, não se alimenta e não pensa em nada.

Ele é apenas o ente responsável por guiar as passageiras. Não mata, não cobra, não escolhe, não ganha nem perde nada a partir do seu labor. Existe porque lhe é dado existir.

O Emissário é apenas um, ainda que não seja propriamente uno. Não tem braços, pernas, asas, membros, vontades ou posses, assim definidos. Ele tem a força suficiente para alimentar o Fogo da cura com as almas, e essa é toda a força do mundo.

O lugar onde está o Emissário é cheio de corredores vazios, desabitados, sem corpos, sem tapetes, sem janelas. Não há boas-vindas nem despedidas. Chamá-lo de purgatório seria mascará-lo com o entendimento limitador de “habitar”. Portanto, o lugar da emissão não é um lugar ao qual alguém pertença ou onde se estabeleça. É uma passagem.

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Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo

Eu a conheci quando tínhamos apenas nove anos. Éramos crianças inocentes e não tínhamos a menor noção do que o destino nos reservava.

Ela tinha um cheiro de cravo. Eu amo cravo até hoje por isso.

Ela e seu cabelo vermelho, radiante, de andar apressado e pouco assunto. Ela queria mais era brincar, pular e agir como se não houvesse amanhã. Era feliz e sabia disso.

Eu sempre fui mais tímido, perguntava menos do que ela sobre as coisas da vida, mas estava sempre à disposição dela.

Ela se lambuzava no barro e eu saía correndo para pegar um balde d’água. Ela raspava a perna na cerca e eu corria para pegar o curativo, ela cantarolava e eu assoviava ao fundo.

Ela gostava de mim. E eu gostava muito dela. Muito.

Brincávamos pela manhã e, durante o almoço, trocávamos olhares pelas janelas de nossas casas, que eram vizinhas. À tardinha, após a aula, nos reencontrávamos para um papinho. Eu ficava pouco, pois sempre tinha muita tarefa, mas ela eu não sei, pois às vezes eu a via na rua, esvoaçando a saia vermelha do uniforme, aparentemente sem compromisso.

Íamos crescendo e a vida ia nos apresentando cada vez mais atividades.

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Musa – Paula Giannini

Existe uma teoria que suspeita o universo como uma bolha. Não o meu, não apenas, mas todos. Sim, outros, pois que para esta suposição, há tantos mundos no cosmos quanto bolhas em uma garrafa de espumante. Para ela, a tal teoria, meu universo, nada mais é que uma destas incomensuráveis e frágeis bolinhas, vagando errática, flutuando em um tipo de sopa cósmica, e densa o suficiente para que eu viva, inocente e desavisada, acreditando ser única, até o fim de minha existência. Ou melhor, até o fatal dia em que, outra dessas bolhas, entrando em rota de colisão com a vizinha mais próxima, eu, se fundirá a esta sem nem ao menos perceber que foi atingida, que desapareceu, que já não é, ou, que ainda é, mas outra, maior e totalmente diferente da original, de ambas. Continue lendo “Musa – Paula Giannini”

As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.

Anna Lúcia sabia que era adotada. Descobriu sozinha olhando os velhos álbuns com capa de ursinho na parte de cima do armário. Ao contrário dos irmãos mais velhos, não havia fotos da sua mãe grávida dela, ou foto sua ainda bebê. Não bastasse este fato, sempre se sentiu deslocada na família, na escola, no mundo.

E ainda havia os sonhos. Sonhava sempre com a mesma coisa, um outro pai, uma outra mãe, em um outro lugar.Sempre que dormia passava pelo portal entre mundos: no outro lado morava com os alumurianos, e não apenas isso, era um deles. Tinha longos alheamentos, um voluntário silêncio. Coisas de menina cismarenta, ensimesmada, esquisita. Os pais eram carinhosos, pacientes, falavam que aquilo era fantasia da menina.

-Passa quando você ficar mocinha.  Continue lendo “As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.”

A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração! Continue lendo “A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali”

Back to home – Evelyn Postali

 

Bichinhos de pelúcia. Caixinha de música. Livrinho de histórias. Ela cresce até fazer-se carne e osso, até ganhar altura, até marejar os olhos pela primeira vez. É um choro de vida de contagem regressiva, ali: começo, meio e fim. Dela, não se pode escapar, nem fingir estar em outro lugar, apesar de querer. É assim que é e assim sempre será.

Balinhas de goma. Pirulitos coloridos. Biscoitos açucarados de anis. No diário de bordo, balbucios, coisas soltas, até a articulação tomar forma. Ganha corpo, mas ganha alma, essência. Coisa que humano tem, mas esquece de ver no resto de tudo. Poemas em prosa. Poemas em verso. Risos a correr, crianças a correr, balões a alcançar o infinito.

Dedos finos, movimentos ágeis, ela encanta e se encanta ao som do mar e das montanhas. Pés desnudos em ruas calçadas, casas decoradas, janelas floridas abertas e portas fechadas. O amor a toma nos braços e a leva para longe. Porque, longe é um lugar que não existe. Continue lendo “Back to home – Evelyn Postali”

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