Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo

Eu a conheci quando tínhamos apenas nove anos. Éramos crianças inocentes e não tínhamos a menor noção do que o destino nos reservava.

Ela tinha um cheiro de cravo. Eu amo cravo até hoje por isso.

Ela e seu cabelo vermelho, radiante, de andar apressado e pouco assunto. Ela queria mais era brincar, pular e agir como se não houvesse amanhã. Era feliz e sabia disso.

Eu sempre fui mais tímido, perguntava menos do que ela sobre as coisas da vida, mas estava sempre à disposição dela.

Ela se lambuzava no barro e eu saía correndo para pegar um balde d’água. Ela raspava a perna na cerca e eu corria para pegar o curativo, ela cantarolava e eu assoviava ao fundo.

Ela gostava de mim. E eu gostava muito dela. Muito.

Brincávamos pela manhã e, durante o almoço, trocávamos olhares pelas janelas de nossas casas, que eram vizinhas. À tardinha, após a aula, nos reencontrávamos para um papinho. Eu ficava pouco, pois sempre tinha muita tarefa, mas ela eu não sei, pois às vezes eu a via na rua, esvoaçando a saia vermelha do uniforme, aparentemente sem compromisso.

Íamos crescendo e a vida ia nos apresentando cada vez mais atividades.

Continue lendo “Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo”
Anúncios

Musa – Paula Giannini

Existe uma teoria que suspeita o universo como uma bolha. Não o meu, não apenas, mas todos. Sim, outros, pois que para esta suposição, há tantos mundos no cosmos quanto bolhas em uma garrafa de espumante. Para ela, a tal teoria, meu universo, nada mais é que uma destas incomensuráveis e frágeis bolinhas, vagando errática, flutuando em um tipo de sopa cósmica, e densa o suficiente para que eu viva, inocente e desavisada, acreditando ser única, até o fim de minha existência. Ou melhor, até o fatal dia em que, outra dessas bolhas, entrando em rota de colisão com a vizinha mais próxima, eu, se fundirá a esta sem nem ao menos perceber que foi atingida, que desapareceu, que já não é, ou, que ainda é, mas outra, maior e totalmente diferente da original, de ambas. Continue lendo “Musa – Paula Giannini”

As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.

Anna Lúcia sabia que era adotada. Descobriu sozinha olhando os velhos álbuns com capa de ursinho na parte de cima do armário. Ao contrário dos irmãos mais velhos, não havia fotos da sua mãe grávida dela, ou foto sua ainda bebê. Não bastasse este fato, sempre se sentiu deslocada na família, na escola, no mundo.

E ainda havia os sonhos. Sonhava sempre com a mesma coisa, um outro pai, uma outra mãe, em um outro lugar.Sempre que dormia passava pelo portal entre mundos: no outro lado morava com os alumurianos, e não apenas isso, era um deles. Tinha longos alheamentos, um voluntário silêncio. Coisas de menina cismarenta, ensimesmada, esquisita. Os pais eram carinhosos, pacientes, falavam que aquilo era fantasia da menina.

-Passa quando você ficar mocinha.  Continue lendo “As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.”

A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração! Continue lendo “A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali”

E O PALHAÇO O QUE É? – Claudia Roberta Angst

Parecia sina ou alguma artimanha mal ajustada do destino. Os minutos começaram a desabar como uma sequência de peças de dominó, produzindo um triste, mas preciso espetáculo.

− Aqui há desesperos de todos os tons.

Tia Leninha tentava sorrir para não afligir ainda mais o pai que se debruçava sobre o leito onde jazia Diana.

− Se eu pudesse trocaria de lugar com ela.

O velho Gustavo sentou-se na cadeira encostada a cama, mantendo-se sua mão cobrindo a de  Diana. Suspirou e acertou os óculos sobre o nariz.  

− Sabe o que sua avó diria?Que ela está exatamente onde precisa estar. – falou esfregando a mão da neta como se quisesse afugentar o frio da sua pele.

Continue lendo “E O PALHAÇO O QUE É? – Claudia Roberta Angst”

Em Segurança – Catarina Cunha

Ruas limpas, com árvores frondosas, emolduram casas coloridas. Em  algum lugar o fugidio aroma de torta fresca corre entre as janelas. Pássaros, indiferentes, constroem ninhos. Uma criança passa de bicicleta acenando para o grande cão sonolento, enquanto o gato se alonga na grama fresca. Gotículas cintilam nas folhas da exuberante horta. A mulher acaricia o veludo do pêssego, respira fundo o orgulho da perfeição. Vinte e cinco graus, umidade relativa do ar 50%; pena quea vista é tão ruim. Lá fora gente estragada faz coisa feia num lugar ruim. Agente se esforça tanto para criar o mundo perfeito, sem violência, sem poluição e essa gente escrota insiste em estragar a paisagem. Por que olham tanto para nós? Continue lendo “Em Segurança – Catarina Cunha”

Back to home – Evelyn Postali

 

Bichinhos de pelúcia. Caixinha de música. Livrinho de histórias. Ela cresce até fazer-se carne e osso, até ganhar altura, até marejar os olhos pela primeira vez. É um choro de vida de contagem regressiva, ali: começo, meio e fim. Dela, não se pode escapar, nem fingir estar em outro lugar, apesar de querer. É assim que é e assim sempre será.

Balinhas de goma. Pirulitos coloridos. Biscoitos açucarados de anis. No diário de bordo, balbucios, coisas soltas, até a articulação tomar forma. Ganha corpo, mas ganha alma, essência. Coisa que humano tem, mas esquece de ver no resto de tudo. Poemas em prosa. Poemas em verso. Risos a correr, crianças a correr, balões a alcançar o infinito.

Dedos finos, movimentos ágeis, ela encanta e se encanta ao som do mar e das montanhas. Pés desnudos em ruas calçadas, casas decoradas, janelas floridas abertas e portas fechadas. O amor a toma nos braços e a leva para longe. Porque, longe é um lugar que não existe. Continue lendo “Back to home – Evelyn Postali”

Quando escapou… (Sandra Godinho)

Quando escapou…

Quando escapou-lhe as lágrimas ficou mais leve.

Ele sentiu de imediato a leveza no corpo frágil de inconfessáveis segredos. Fugiram-lhe à face, simplesmente, cansadas de rolar por bochechas que se negavam a sorrir, fugiram-lhe à causa de uma maturidade cansada que deixava sulcos profundos no rosto, traços marcantes de um mapa que somente ele decifrava devido aos anos de vivência. Secaram, desapegadas de posse, descuidadas de afeto. A tristeza quando é demais, reivindica a insensibilidade como couraça, um truque usado por muitos para continuar vivendo além das perdas que sempre são demasiadas num velho de 85 anos. Já tinha velado muitos, já tinha enterrado outros tantos, as velhas carpideiras não lhe faziam frente. Queria agora tratar do presente, mas o passado sempre vinha lhe cobrar o passe. A posse. E quanto mais se distanciava, mais perdido no passado ficava. Cansado, arrancou uma flor vermelho-tinto de uma campa próxima e sentou-se no banco para viver de memórias. Um pouco apenas, não muito. Permitiu-se ficar em abandono, como se assim se redimisse dos silêncios e então

Continue lendo “Quando escapou… (Sandra Godinho)”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑