Então é Natal! (Amanda Gomez)

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Fechei os olhos, encostei a cabeça no volante e contei mentalmente até dez. Geralmente isso nunca funcionava comigo, mas o que eu poderia fazer? Respirei fundo e chequei as horas no celular, a pontada de tristeza era imediata sempre que olhava pra ele. Um Samsung com o nome de alguma letra do alfabeto parcelado em dez vezes. A tela quebrou na primeira semana.

Estava atrasada, muito atrasada… do tipo que provavelmente meu emprego estaria ameaçado. Talvez isso fosse bom, pensei melhor, aquele trabalho estava me matando lentamente, me fazendo ter pensamentos homicidas com relação às minhas colegas de trabalho. Criaturas odiosas com delineado de gatinho, sapatilhas e tiaras turbantes. É, talvez eu só devesse relaxar no meio daquele congestionamento e agradecer por não ter que passar horas em pé, atendendo uma penca de pessoas que vão desesperadas gastar a miséria dos seus décimos terceiros em coisas fúteis.

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Biscoitos de Natal para o Ano Novo (Bia Machado)

Quando ouviu as batidas na porta, foi difícil levantar da cadeira com aquela artrite toda. Resmungou a cada passo, pois também precisava segurar as barbas longas e brancas, para que não tropeçasse nelas. Claro que já estava preparado para o hóspede que chegaria, sabendo que em poucos dias o hóspede seria ele, e não quem acabava de chegar.

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Feliz Natal – Vanessa Honorato

O primeiro natal sem Artur. Não sabia porque ainda insistia em fazer essa ceia. Não tinha vontade de nada, tampouco convidados. A mesa estava posta como sempre esteve:  abastecida com comida, bebida, enfeites coloridos de vermelho e verde, velas, guirlandas. Para quê? Qual motivo de tanto empenho se ninguém desfrutaria com ela? A taça de vinho era sua companhia agora. Gelado, encorpado, cheiroso, do jeito que ela passou a tomar todos os dias depois do trabalho. Artur fazia falta diariamente, mas em datas especiais era pior. Podia ouvir o som da sua voz desejando-lhe feliz natal, ansioso para saber o que ela havia lhe preparado de presente, já que não compravam nada, todos os natais faziam presentes diferentes preparados com suas próprias mãos.

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PAIS NOVOS (Sabrina Dalbelo)

“Odeio vocês”, gritava Lucas. “Odeio vocês”, resmungava Letícia.

Os irmãos não tinham ouvidos. Reclamavam da ordem para escovar os dentes, para arrumar a cama, para organizar as próprias coisas, de tudo.

Os pais, Renato e Marlene, não sabiam mais o que fazer. Focavam em manter um nível mínimo de paciência para dedicar orientações sobre educação e boa convivência, as quais, aparentemente, não levavam a nenhum resultado exitoso, pois os irmãos eram teimosos e birrentos.

Lucas, de sete anos, era esperto e bastante traquinas. Letícia tinha apenas cinco, mas não titubeava em retrucar os pais.

Perto do Natal, os irmãos combinaram de escrever uma carta de intenções única ao Papai Noel. O pedido era muito simples: pais novos.

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Cova de Lama (Iolanda Pinheiro)

Já moça, lembrava do tempo em que o mundo era cinza e a vida flutuava no terreno lodoso de segredos e mentiras. Quando a velha e eu nos enfurnávamos pelas manhãs atrás das covas onde os caranguejos sonhavam. Do braço de minha vó enfiado até o ombro no berço de terra mole, os dedos procurando as carapaças com a destreza das infinitas repetições. Não custava muito, e ela puxava o guaiamum arroxeado de dentro do ninho. Outros tantos se seguiam, até que enchêssemos os grandes embornais.

O que não era vendido virava almoço, jantar, café, merenda. A necessidade não escolhia sabores.

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O estranho visitante (Regina Ruth Rincon Caires)

A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê! Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?!

Gregório para um pouco… Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede… Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.

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Um presente para reconectar – Anorkinda Neide

Era noite de Natal. Depois de uma modesta e aconchegante ceia com seus pais, Letícia dormia em sua casa, saciada de carinho e bons desejos.

No meio da madrugada a moça acordou com a sensação de ver uma luz piscando. Era verde. Mas ela pensou ter sonhado.

– Não posso ter visto luz alguma se estava com os olhos fechados.

Mas, Letícia abriu os olhos e viu uma luz verde piscando. Não contou quantas vezes ela acendeu e apagou. Foi breve e parou.

– Acho que imaginei. Foi isso.

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Cravos Vermelhos (Renata Rothstein)

Desço do táxi, estendo duas notas amarrotadas ao motorista, balançando a cabeça em agradecimento.
O taxista diz que as notas não valem mais, olha para mim com dó, me devolve o dinheiro, e segue seu caminho.
Respiro fundo o ar frio do fim de tarde, o que me custa uma dor violenta aos pulmões doentes. Continuo tossindo até perder o fôlego.  O enfisema vinha mesmo avançando a passos largos.
Suspiro. Olho em volta. Completamente só, outra vez. Sempre e nunca, mas ainda assim, só.
A praça. A praça hoje é tão somente uma testemunha inofensiva dos tempos suaves, de  tempos que viriam, num então outro tempo, naquele espaço, que agora parecia tão maior, lembranças encardidas.

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A imponderabilidade de tudo – Ana Maria Monteiro

Sobre o corpo da menina deitada, jazem agora todos os sonhos que nem chegou a sonhar e os futuros que não irão acontecer, cada dia, cada momento, cada natal.

São tantos! Quem dira? Quem diria, ao chorá-la no agora, a que distância lhe estaria no futuro – ou talvez não.

Morreu na véspera de natal, de forma estúpida, como a morte de qualquer criança, inesperada, inevitável e ainda estragou a festa a toda a gente, e muitos pensaram nisso por momentos, quase envergonhados com essa racionalidade que permitiram que se insinuasse em meio à tragédia e à dor que sentiam, tão reais. Mas é a vida em cada um a impor-se, a chamar ao “aqui e agora”.

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CONTO DE OUTRO NATAL – C.R.Angst

Mais um Natal. O mesmo Natal?

Procuro em vão por novidades a minha volta.  A árvore parece cada vez mais mirrada, exilada no canto da sala. As luzes, com seu pisca-pisca irritante, que na infância pareciam estrelas cadentes, agora se revelam meros vagalumes decadentes.

No chão, o vazio de promessas. Limpo, quase reluzente.

Reajo ao calendário como criança à espera do Papai Noel. Ansiosa demais para contar os dias, apontando ausências que não me cabem mais. Adormeço sonhos com cantigas e promessas.  Penso em escrever cartas, talvez bilhetes. Bobagem!  Sei que nunca serão lidos.

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De vidro – Paula Giannini

Que o mundo não era chato, era tudo o que queria provar. E iria. Custasse o que custasse. Levasse o tempo que levasse. Ora, não era plano… Não só. Por que é que os outros insistiam naquela história? Não havia razão para discordar, diziam. Bastava olhar para cima, para os lados, e pronto, lá estava o céu, plano, o horizonte, reto, com seus cantos e arestas simétricas de ângulos perfeitos.

Era chato.

E ponto.

Plano.

Não era.

Não para ela. Tampouco para sua imaginação. E, se plano, o seu, era provar aquilo que intuía desde sempre.  A vida era bem mais que o horizonte onde a vista alcança. Estava decidida. E iria experimentar sua teoria na próxima abertura.

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Um presente especial – Priscila Pereira

− Mamãe, a gente pode comprar um shortinho novo pra Letícia? −Minha filha disse enquanto tomava leite e comia bolachas de chocolate no café da tarde.

− Pra Letícia? Ué, por quê? − Respondi admirada.

− Porque lá na escola ela pediu na cartinha para o Papai Noel um shortinho novo, é que o dela está rasgado e a mãe dela não tem dinheiro pra comprar outro… e como o Papai Noel não existe de verdade, né mãe, então a gente podia comprar pra ela, heim?

Desde que Isabela era pequena, ensinei sobre empatia e sobre  não ignorar a necessidade das outras pessoas e esse pedido dela me tocou o coração. 

− Claro que podemos, filhinha! Amanhã mesmo vamos sair pra comprar e vou mandar fazer um embrulho bem bonito para você entregar pra ela na segunda, tá bom? Continue lendo “Um presente especial – Priscila Pereira”

Flora – Elisa Ribeiro

— Como assim, Letícia?

— Não sei! Aconteceu.

— Você não tava tomando remédio?

Tava! Mas às vezes eu esqueço…  

— Não acredito! Você tem certeza?

— Praticamente. Deu positivo no exame de farmácia. Repeti ontem, te falei.  Só falta confirmar no exame de sangue.

No dia seguinte o exame de laboratório confirmou. Letícia estava na quinta semana de gravidez.

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