Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan

“Vem, linda boneca! Bela neneca! Querida minha!

  Leve é o vento e leve é a pluma da andorinha.

  La embaixo sob a montanha, ao sol brilhando,

  À luz da lua, na soleira já esperando,

  Minha linda senhora está, filha da mulher do rio,

  Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio.”

— Ei! – gritou “Diana”, fechando o livro com tudo e levantando-se do gramado onde estava deitada e lendo. – Estes versos são do livro O Senhor dos Anéis! – encarou o homenzinho que parou de saltitar pelo bosque para atender. Continue lendo “Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan”

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Somos um círculo, dentro de um círculo… – (Sacerdotisa)

 

 

“Somos um  círculo, dentro de um círculo. Somos um infinito, dentro de outro infinito”

Tate tinha nove anos, e era uma menina diferente, olhos antigos – diziam – e todo verão viajava para o sul do estado, para passar férias com a avó.

Rubi era uma avó alegre, enérgica, cheia de vitalidade. Cultivava girassóis, rosas, margaridas e aos olhos da menina era uma verdadeira rainha, sábia e generosa.

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O Trem dos Apaixonados – Amanda Gomez

 

O som surgiu aos poucos, assim como o vibrar no chão. Pedrinhas saltavam da estrada de terra enquanto todos pararam para observar o que se aproximava. Um apito familiar e ensurdecedor ecoou como um grito de boas-vindas. A névoa de poeira, que formara uma cortina, rompeu-se assim que o trem passou, trazendo com ela toda a cacofonia das engrenagens e sua beleza caleidoscópica.

 

O breve momento de surpresa foi interrompido por descrença e temor por parte dos mais velhos e pela curiosidade e euforia das crianças. O majestoso trem passou, com seus vagões coloridos e empilhados de novidades; os pequenos correram acompanhando-o, ignorando os protestos dos adultos, que há muito tempo perderam a capacidade de se encantar. Uma característica que acometia a todos, assim que a infância os deixava.  As crianças seguiam acenando para os artistas que apareceram nas janelas, alguns tão empolgados que corriam por cima do trem, dando-lhes uma pequena amostra do que estava por vir. Implosões cintilantes preencheram o céu. Uma voz musical anunciou:

Alegrem-se, o Trem mágico chegou!

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Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro

A primeira vez

Aconteceu quando tinha onze anos de idade e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.

Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com  autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.  

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Diana – Priscila Pereira

Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam estavam quase em extinção. As Ondinas tomaram o poder por um momento de fraqueza do povo do fogo. Outrora poderosos, deixaram-se enganar pelo orgulho, desprezaram os demais elementos, então foram derrotados. A montanha sagrada foi apagada e os filhos do fogo caçados e mortos. Os que sobraram se esconderam e deixaram seus poderes de lado. Agora quase não havia mais chance de equilíbrio. Tudo estava molhado ou úmido.  Até a alma das pessoas juntava bolor.

Diana nasceu debaixo de um chuvisco fino, perpétuo, que impregnou seus ossos trazendo dores que nenhuma criança deveria sentir. Cresceu em meio aos fungos e musgos. Algo dentro dela se rebelando àquele tempo. As dores se intensificavam a cada ano completado. Uma ardência, como metal quente mergulhado em água gelada. Borbulhava.

Assim que completou quinze anos de dores e desespero, descobriu o motivo de tanto sofrimento. Um pouco antes do meio dia seus pais a levaram por um caminho subterrâneo até um salão escuro e abafado. Logo algumas pessoas chagaram, mais silenciosas do que a neve que caia nas montanhas. Viu que entre os presentes estava Leon e seu sangue ferveu, assim como, quando viu pela primeira vez seu sorriso, tão quente quanto deveria ser o sol. Sentia todo o corpo esquentar quando o sorriso era direcionado a ela e com o tempo passaram a ser tão frequentes quanto às chuvas. Ficou feliz com a presença dele, seria mais uma coisa que teriam em comum. Quando o último dos convidados chegou, fecharam as portas e deram início ao ritual.

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Sal & Amanda (Claudia Roberta Angst)

─ Tem certeza? Não quer pensar melhor? Olha que esse é um caminho sem volta…

Mas Amanda estava decidida. Nem mesmo um único cílio tremulava em hesitação. Nunca tivera tanta certeza na vida. Aquela era mais uma promessa de verão que cumpria sorrindo.

─ Manda ver!

E assim, o som metálico ganhou ecos como relâmpagos subliminares que aos poucos reduziram o silêncio a alguns suspiros e ais de admiração ou talvez espanto.

No chão, o derrame dos cortes, da evolução de processos impostos pela impulsividade de dias intensos orientados pela relutância de não se deixar levar por simples conveniência. Não sentiu dor, nem mesmo angústia, pelo contrário, sentia a cabeça leve, livre de um peso que há muito não lhe pertencia.

─ Isso é o bastante para você, querida?

─ Mais um pouco. Vamos até o fim.

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