Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

Quero-queros passeiam como se nada se passasse
atenta aos meus passos, circundo os ninhos
não quero que pese sobre meus ombros
a culpa pelos ovos partidos.

Ante os coletivos que circulam solitários
vejo brotar marmitas em esquinas que não existem
(cada um sobrevive como pode)
nenhum carro para
eu, a pé, hesito em correr o risco
— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
que alguém mais nobre a faça por mim.

Conforta-me a grama onde meus pés afundam
sou grata porque meus pais já partiram
minha geração assiste soturna
a descontinuidade da sorte
que tivemos até aqui.

Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

Continue lendo “Por um tempo (Elisa Ribeiro)”

Flora – Elisa Ribeiro

— Como assim, Letícia?

— Não sei! Aconteceu.

— Você não tava tomando remédio?

Tava! Mas às vezes eu esqueço…  

— Não acredito! Você tem certeza?

— Praticamente. Deu positivo no exame de farmácia. Repeti ontem, te falei.  Só falta confirmar no exame de sangue.

No dia seguinte o exame de laboratório confirmou. Letícia estava na quinta semana de gravidez.

Continue lendo “Flora – Elisa Ribeiro”

Um céu para Maicon – Elisa Ribeiro

Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.  

Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava.  Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?

Continue lendo “Um céu para Maicon – Elisa Ribeiro”

Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,

Osmose lenta.

Boca entreaberta como se bebesse,

Cabeça atenta.

 

Rosto desfeito,

Rosto sem recusa onde nada se defende,

Rosto que se dá na angústia do pedido,

Rosto que as vozes atravessam.

 

Rosto derivando lentamente,

Pressentimento que os laranjais segredam,

Rosto abandonado e transparente

Que as negras noites de amor em si recebem.

 

Longos raios de frio correm sobre o mar

Em silêncio ergueram-se as paisagens

E eu toco a solidão como uma pedra.

Continue lendo “Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)”

O astronauta – Elisa Ribeiro

tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano

Walter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

Vendo-o atrapalhado em despir o casaco, antecipei-me. Peguei a bagagem de mão dele e coloquei-a sobre a esteira do raio-X.

 “O que senhor trouxe nesse bolsa, pai? Chumbo? ”

“Livros, minha filha…”

“Livros, pai? O senhor trouxe mais de um livro pra ler durante a viagem? ”

“Claro! Durante a noite, enquanto você sonhava e o avião balançava, eu li um pouco de cada um…”

Continue lendo “O astronauta – Elisa Ribeiro”

Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro

A primeira vez

Aconteceu quando tinha onze anos de idade e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.

Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com  autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.  

Continue lendo “Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro”

Múltipla Bia (Elisa Ribeiro)

Fui convidada a fazer
um texto para uma amiga,
achei melhor escrever
em forma de poesia,
o nome dela é Bianca,
mais conhecida por Bia,
mas não sou eu, reles poeta,
que falo sozinha por ela,
ela mesma é quem se narra,
nem precisei descobri-la.

Formada em pedagogia
no momento é professora,
mas em sua biografia
revela sem deixar dúvida,
entre tantas outras coisas,
que busca uma alternativa,
novos rumos, outra vida.

Continue lendo “Múltipla Bia (Elisa Ribeiro)”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑