ELE – Mara

Ele estava sorrindo pra mim. 

Não um sorriso formal daqueles que dedicamos a qualquer um por educação, mas um convidativo, acompanhado de um olhar que fez meu coração saltar dentro do peito, minhas mãos suarem, minhas bochechas esquentarem. Além de outras reações, que achei, estavam adormecidas pra sempre.  

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RALF – Glub Glub

Júlia ainda não sabia como iria convencer Guilherme, o irmão mais velho, mas mesmo assim já havia descrito o que levaria para a mostra científica da escola: Ralf, um peixinho dourado. Há poucos dias o animalzinho aquático havia somado à família quando o irmão completara treze anos. O dia fora divertido como há muito não acontecia: pai e mãe reunidos, cineminha, parque de diversões… O aniversariante quase empobreceu o pai na barraca de tiro, mas acabou acertando o alvo e levado Ralf como prêmio para casa. Agora Júlia seguia os passos de Guilherme de perto, com ouvidos e olhos atentos.

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Recomeço – Élida

Chovia pela segunda semana seguida, impedindo qualquer excursão ao ar livre para inspirar mais uma tela, fazia quase um mês que não pintava, tempo demais. Olhando pela janela, de roupão, cabelo preso em um rabo de cavalo e uma caneca cheia de café quente e cheiroso, Élida suspirava e tentava pensar em algo que espantasse seu tédio. Se ao menos houvesse algumas crianças correndo pela casa, bagunçando a ordem perfeita dos móveis, bibelôs, almofadas e quadros, ou pelo menos um cachorro, gato, passarinho… Para arrumar as crianças era tarde demais, mas para um cãozinho mão era…  quem sabe.

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Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

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