Margareth – Anorkinda Neide

 

Trabalhei alguns anos como pesquisadora, visitava casas de bairros simples a favelas, bairros remediados também. Conheci muitas pessoas interessantes, outras nem tanto e ainda outras que nem merecem ser mencionadas… Aprendi muito com algumas, recebi conselhos e receitas anotadas em folhas de caderno, de forma apressada mas cheia de carinho e doação. Também ouvi histórias, às vezes, o resumo de uma vida inteira, indiquei alguns chás pra digestão e elogiei alguns jardins floridos.

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Luz e Sombra – Renata Rothstein

Terras de Ythisi, século VII D.C.                              

Yanna caminhava resoluta pela encosta íngreme rumo ao cemitério de Tagar, sentindo o vento frio e cortante, tão frio e cortante quanto aqueles últimos tempos, feitos de surpresas e responsabilidades impostas, para as quais não havia se preparado.

Continuou a subir a montanha cada vez mais rápido, e parando subitamente ao atingir o ponto mais alto, de onde se avistava todo o grande reino de Orr – e onde ficava também o cemitério do reino.

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Doença de Família – Sabrina Dalbelo

Primeiro lugar no vestibular na Faculdade de Medicina da USP 2007. Grande mérito, resultado de igual dose de responsabilidade. Isabela Alonso entrava na faculdade como a melhor da turma e logo se tornaria a preferida do professor de anatomia, Ricardo Pádua, um reconhecido médico paulista. As investidas, após as aulas práticas sobre o sistema cardiovascular, resultaram na entrega do coração ao mestre, vinte anos mais velho. Eram companheiros frequentes nos intervalos das aulas e logo o namoro engatou.

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Um céu para Maicon

Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.  

Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava.  Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?

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SEM TONS – Claudia Angst

Nasceu totalmente desprovida de melanina, como se toda a cor da sua gente tivesse escorrido por um ralo imaginário. As raízes africanas só se revelavam nos traços fortes, nos lábios generosos, sedentos de um calcado a mais de ébano. Nada nela se escurecia, a não ser a rejeição que logo se apresentou como companheira fiel.

Coube à família, a missão de acolher a menina, criá-la em seu seio com os valores de seus ancestrais. Mas como aceitar aquele ser tão diminuto e ao mesmo tempo tão estranho a tudo que antes era familiar e natural? Todos ali se orgulhavam de ser o que eram, sem misturas que mesclassem outros tons ao padrão herdado.

Por falta de atenção ou talvez até uma ponta de ironia, batizaram a criança com o nome de Alina. No decorrer da infância, entre colegas de escola e até mesmo no convívio doméstico, a rima caiu como uma luva para que o bullying se esparramasse como praga. Era Alina, a albina.

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Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

O Caminho é o Caminhar (Fheluany Nogueira)

— Acredito em Carma, mãe! Carma é física, ação e reação. Aceitar tudo como um fardo imutável? Isso não. Se nada muda, mudo eu!

— Eu acredito, sim, no destino. É lógico, sem confundi-lo com pachorra ou acomodação. Nada acontece por acaso. Tudo é uma questão de estar na hora e no lugar certo. Coincidências, tia? Claro que não…

— É. Nada vai embora antes da hora. Aprendizado ou teimosia? Mesmo na teimosia, há uma lição. Culpar a vida, o destino e se sentar, na zona de conforto, em posição vítima é péssima escolha. Sofrimento e perda de tempo. Chega de teorias… Um exemplo prático:

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