Fortuna – Maria Santino

Faltava um quarto de hora pro meio dia, o sol ardia no firmamento, e Zezé na barraca de peixe, brincalhão e bondoso que só ele, cedia duas tainhas para o preto velho e coxo que ninguém queria perto. Continue lendo “Fortuna – Maria Santino”

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Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira

Amanhã o espaço, não o tempo. Nutrirei meu corpo mais velho, com novas comidas, da roupa limparei o pó de cada dia, a mesma sede nos olhos, mais força. Em vão cansarei o corpo — andar, correr, dançar serão veículos de minha vibração, razão de meu pão. Existir por inteiro, ser capaz de atravessar o corredor com minhas pernas, com a energia de minha mente. Poderei… Eu quero. Continue lendo “Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira”

A caçada – Sandra Godinho

 

Tempo fechando. Sol sem rasgar nuvem, chuva branca arriando no céu. Diacho de inverno trazendo desgraça, dificultando peixe. Família minguando de bucho vazio, só na farinha com água. As águas invadindo as terras, os bichos fugindo pros igapós, os peixes sem morder anzol. Ariscos, homens e animais na terra disconforme. Mais um avanço do chuveiro, a mata se afoga nas águas. Nem a maromba aguenta, matando boi, vaca, boiada inteira. O cachorro pirento, já é um quase nada. Nem dá mais sinal de onça, anta, calango. Sem sinal de vida, no morre-não-morre. Canarana alta triscando a canela, dificultando passo.

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História de amor – Ana Maria Monteiro

Daniel era um rapaz em torno de quem as raparigas volteavam como borboletas entontecidas. O caso não era para menos, nem de admirar: filho do homem mais rico lá da terra (embora esse pai tivesse um passado algo obscuro que ninguém questionava por razões óbvias), ele era o “homem perfeito”. Logo a começar, pela vasta herança que lhe calharia, mas como se tal não fosse suficiente, ele era alto, bonito e galante como os actores dos filmes americanos por quem todas as raparigas lá da terra suspiravam. Continue lendo “História de amor – Ana Maria Monteiro”

Pirulito de açúcar – Paula Giannini

(de Paula Giannini)

Da primeira vez que aconteceu, ainda não sabia, mas já estava grávida. O marido embarcava em um ônibus caindo aos pedaços e logo mandaria buscá-la. Entre as promessas e os sonhos de uma vida melhor para os filhos que um dia sonhavam em ter, a esperança de comida à mesa todos os dias. E foi assim, ao se despedir de seu amor, que seus olhos se encheram de água e sua boca foi surpreendida por um inesperado sabor.

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Pequenas dúvidas sobre Lurdinha – Bia Machado

Desde que Lurdinha se suicidara, a pequena cidade de Santa Cruz não sabia mais o que era sossego. Ninguém conseguia se decidir: a alma da moça que tinha sido abandonada no altar e se enforcara com o próprio véu agora deveria ser considerada santa milagreira ou fantasma? Se eu não tivesse visto como tudo aconteceu, não teria acreditado. Convenhamos, o que vou contar é coisa de novela. Mas eu vi.

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Poema ao vento – Priscila Pereira

Um vento forte, cheirando a hortelã, bateu em meu rosto, esvoaçou meus cabelos e trouxe voando um pedaço de papel. Nele li um poema:

“O mesmo vento que traz a tempestade
Leva o rancor e a melancolia embora.
O mesmo vento que traz o perfume das flores
Leva embora o choro de roubados amores.
Deixe o vento soprar, abra o seu coração
Se sorte tiver, um furacão entrará
Transformará a paisagem, como após a tempestade.”

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Meu grito – Juliana Calafange

Precisava pular do peito e sair correndo. Urgia ganhar liberdade e ser ele mesmo, um grito com personalidade. Pulsava como uma borboleta querendo sair de seu casulo, como um jato de esperma tentando furar a camisinha, como um pássaro lutando para quebrar a casca do ovo. E depois de um esforço hercúleo, ganhou livre-arbítrio, me escapou da garganta, pulou dele mesmo, me fugiu da boca. Um grito rouco, profundo, histérico, grotesco. E tão logo conquistou o espaço externo do âmago e do corpo, saiu desembestado, atravessou as ruas, ultrapassou as paredes, se perdeu na multidão e me deixou sozinha, louca, muda e nua. Daquela janela do décimo primeiro andar eu procurava por ele e ele me ignorava, desaparecia no tempo e nas ondas sonoras, até deixar de ser meu e se tornar um grito da cidade. Continue lendo “Meu grito – Juliana Calafange”

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