Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

A Arca das Palavras – Evelyn Postali

Terra, Continente do Norte, 2-988. Registro midiático 10950.

O objeto foi deixado a mim por alguém conhecido de minha mãe, com indicação expressa: abri-la em meu trigésimo aniversário.

Se eu não a estivesse tocando, não acreditaria. Uma arca, assim como todas as arcas da história da humanidade o foram: de madeira envelhecida e cheiro de ancestralidade; tão sólida que seria preciso muita força para arranhar sua superfície com qualquer lâmina cortante, e tão maciça quanto as ligas de metais descobertas nesse século carregado de tecnologia alienígena.

Meu monitor de pesquisa aponta para um exemplar de quercus, hoje existente apenas em algumas montanhas ao sudeste daqui. O selo é áureo, de metal raro e inexistente.

O primeiro contento é um papel caligrafado, deixado, creio, propositalmente, em cima de vários exemplares de livros, artefatos de papel não mais produzidos por nós. Tenho uma raridade nas mãos

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Algarve – Evelyn Postali

(Para Ana Maria Monteiro, minha amiga secreta. Dezembro, 2018)

De mansas correntes, e azuis e verdes inesquecíveis, se fazia a paisagem. Ana admirava tudo, parada na beira da praia. Com o olhar fixo no balanço das ondas, voltava a ter quinze anos e o mundo podia ser carregado nos braços outra vez.

A água límpida tocou-lhe os pés, agora lisos e de uma juventude invejável. Mexeu os dedos e moveu-os, para frente e para trás, um de cada vez, sentindo a textura da areia. Cada grãozinho contava um pedacinho de alguma vida e as conchas, aqui e ali, murmuravam segredos nem tão secretos assim. O mundo é grande, o tempo é longo, a vida é curta. Continue lendo “Algarve – Evelyn Postali”

A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração! Continue lendo “A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali”

Back to home – Evelyn Postali

 

Bichinhos de pelúcia. Caixinha de música. Livrinho de histórias. Ela cresce até fazer-se carne e osso, até ganhar altura, até marejar os olhos pela primeira vez. É um choro de vida de contagem regressiva, ali: começo, meio e fim. Dela, não se pode escapar, nem fingir estar em outro lugar, apesar de querer. É assim que é e assim sempre será.

Balinhas de goma. Pirulitos coloridos. Biscoitos açucarados de anis. No diário de bordo, balbucios, coisas soltas, até a articulação tomar forma. Ganha corpo, mas ganha alma, essência. Coisa que humano tem, mas esquece de ver no resto de tudo. Poemas em prosa. Poemas em verso. Risos a correr, crianças a correr, balões a alcançar o infinito.

Dedos finos, movimentos ágeis, ela encanta e se encanta ao som do mar e das montanhas. Pés desnudos em ruas calçadas, casas decoradas, janelas floridas abertas e portas fechadas. O amor a toma nos braços e a leva para longe. Porque, longe é um lugar que não existe. Continue lendo “Back to home – Evelyn Postali”

Promessa ~ Evelyn Postali

 

ooh I need
the darkness,
the sweetness,
the sadness,
the weakness,
ooh I need this.
Need a lullabye,
a kiss goodnight,
angel, sweet love of my life
ooh I need this¹

Irmãos caríssimos, reunimo-nos com alegria para participarmos nesta celebração…

Sorrisos em faces serenas. Sorrisos e alegria. Lágrimas caindo dos olhos dos mais emotivos. Vestidos, cores, fraques. Gravatas combinando com os ternos. Sapatos, brilhos, flores. Música suave e pacífica. Música… Música para embalar o sonho que a vida tornou real. Todas as atenções voltadas para os noivos. Os amantes. Não existe outra cerimônia mais tocante para dois seres do que esta. O casamento é sempre um momento único para dois corações que se amam.

Eles deixavam tudo isso aparecer. Seu amor, sua dor, seu querer. Sem pudor, sem rancor, sem qualquer outra culpa.

Senhor nosso Deus, que, desde a criação do gênero humano, quereis a união do homem e da mulher, uni pelo vínculo santo do amor estes vossos servos…

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Paredes Silenciosas – Evelyn Postali

“Todas as coisas têm fim. O mal do homem é pensar que pode ser eterno. Só eternizamos momentos.”

 

Alexandre Melo retornou da DH transtornado. Precisavam esperar pelo escrivão e o mandado. Patrícia Fraga viu o parceiro reclamar o tempo todo. Ela sabia com exatidão o que se passava na cabeça dele.

Encontraram a casa do pedreiro, porém não sabiam se Rosana Nogueira ainda respirava. A locatária identificou Rafael Soares, como seu inquilino. Abriu as portas de sua casa e da casa dos fundos para a busca e apreensão depois da explicação de Patrícia sobre o motivo de estarem aí.

A mulher, já nos seus setenta anos, precisou ser medicada. O nervosismo pela situação a fez gaguejar e acentuou a dificuldade de ficar de pé. Suas mãos tremiam, mal conseguindo segurar o copo com água.

— Vem uns caras para arrebentar a parede — o delegado informou, jogando o chiclete de um lado para outro. Caminhou pelo pequeno espaço consumindo as últimas fagulhas de ânimo.

— Quantas horas mais para ter uma maldita ordem judicial? O juiz, por acaso, sabe o que encontramos todos os dias nesse maldito trabalho?

— Os peritos recolheram todo o equipamento de vídeo encontrado — explicou a parceira. — Recolheram a impressora. Encontramos digitais, mas não sabemos se são das vítimas. Não há nada, nenhum objeto ou roupa além das que estão no armário e que, é bem provável, sejam dele. Precisamos conectar tudo para sustentar muito bem a acusação.

— E o jeito é fazer de acordo com a lei. Não dá para burlar isso, Alexandre — Monteiro tentou argumentar de forma serena. O medo, porém, mantinha-se firme ao lado de todos, cutucando as entranhas. Ao abrirem aquelas paredes, sabiam o que encontrariam. — O escrivão já deve estar vindo.

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Teresinha dos anéis de Saturno – Evelyn Postali

 

Teresinha mora sozinha na casa marrom da esquina, onde o vento faz a curva e vai bater na casa amarela, do outro lado da rua de chão batido e de canteiros de amor-perfeito.

— Seu Lino, abra a porta! Tem selo voando aqui fora!

— O que foi, Teresinha?

— Tem selo pra tudo que é lado.

— Joguei fora. Cansei de guardar.

— O senhor pode colecionar coisa mais fácil. Eu coleciono anéis de vento, de pó de estrela do céu de Saturno.

— Você é maluca, isso sim! Continue lendo “Teresinha dos anéis de Saturno – Evelyn Postali”

Café – Evelyn Postali

Você nunca sabe o que esperar das pessoas. Aquele, por exemplo, vem de vez em quando, pede um café cortado, não diz bom dia, nem obrigado. Entra mudo, sai calado. Aquelas duas, na mesa do canto, vêm ao cinema, param para o lanche e discutem o filme até a exaustão. Nesse universo da cafeteria, aparece de tudo um pouco.

E essa que está falando com você sou eu, analisando a clientela da cafeteria. Todos os dias os tipos mais estranhos sentam-se para um café.

Esse aí, sentado à minha frente, com olhar fixo nos meus cabelos é o Roberto. Ele vem aqui todos os dias, praticamente no mesmo horário. E, quase sempre, sou eu quem serve o café para ele. Eu preparo o pedido com cuidado porque ele segue cada ação minha até a xícara ser colocada à sua frente. Não quero que nada dê errado, especialmente porque ele me trata muito bem. É gentil, educado e simpático. Diferente de outros exemplares estúpidos. Eles sentam como se tivessem direito de deixar sair pelos poros a falta total de respeito e cuidado para com quem os serve.

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Incondicional – Evelyn Postali

 

Eu subo na bancada da janela lateral e espio pela fresta da cortina. O gramado é viçoso e a saída lateral do carro do meu patrão está fechada. A vizinha estende a roupa e vejo as crianças passarem com as bicicletas. Se não estivesse preso aqui já estaria lá fora, querendo seguir com elas. Já estou acordado há um bom tempo. Não vi Julia e Kadu chegarem. Eles não coçaram minha barriga. Nem me chamaram para jogar com meu brinquedo favorito. A bolinha ainda está ao lado da minha cesta. Olho para ela e não sinto a menor vontade de brincar sem eles.

Eu faço o que normalmente faço o dia inteiro. Percorro a casa reconhecendo os lugares pelo cheiro peculiar de cada parte. Subo as escadas e me deito em cima da cama dos que me amam. Cheiro os travesseiros. Vou até o ateliê e dou uma volta. O cheiro das tintas faz meu focinho coçar. Quando eu me canso, eu desço. Faço minhas necessidades na área de serviço, em cima do tapete de plástico porque fui bem treinado.

Espero na porta, sentado. Estão demorando.  Já passou da hora do almoço e ninguém ainda chegou. Eu dou uma volta pela sala e subo novamente na bancada. Espio. Enxergo o cão que sempre circula naquele horário e dou uns latidos. Ele não escuta porque está sempre do outro lado da rua. Não ouço o barulho do carro. Julia e Kadu estão demorando e eu não ganhei biscoito.

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Devia jogar squash, Sônia – Evelyn Postali

A primeira impressão nunca é a que fica, mas isso não poderia se tratar de Osvaldo. Cinco anos antes, quando chegou, a concorrência impusera um ritmo intenso em nossas ações. Era preciso correr atrás das matérias. Nada nos era dado de mãos beijadas.

 

— Osvaldo dos Santos Telles — apresentou-se, depositando a valise sobre a mesa vazia ao meu lado.

— Sônia Vitali. Seja bem-vindo. — Estendi a mão e ele apenas balançou a cabeça, vistoriando o espaço com os olhos, girando sobre seu eixo como um daqueles galos fincados em uma vara para indicar a direção do vento.

— Nada mal para um cargo de chefia. Muito em breve serei aquele que ocupará a cadeira principal. — Apontou para a sala de Macedo.

— Disputaremos a vaga, então — eu disse, já indignada com a falta de educação e também convencida de poder baixar a crista daquele exemplar macho de ego exposto em último grau.

 

Foi assim que tudo começou e tudo piorou. Cinco anos de agonia, esquivando-me dos truques de Osvaldo, das armadilhas em que metia o grupo daquele escritório. Alguém devia pará-lo, mas não surgia oportunidade derradeira. Continue lendo “Devia jogar squash, Sônia – Evelyn Postali”

Cama de Rosas – Evelyn Postali

 

Quase amanhecia quando estacionou o carro em frente à garagem da residência. Não se preocupou em guardá-lo. E estava cansada demais para esperar.

Cruzou o jardim, passando em frente ao canteiro de rosas. A estação mostrava a exuberância nas cores e formas.

Ao entrar, encontrou a casa iluminada. Aquilo lhe pareceu incomum; não havia deixado as luzes todas ligadas, mas a memória andava falhando também com as vivências do hoje. A médica lhe dissera que teria que viver um dia de cada vez e aguardar com paciência. Tudo se tornaria mais claro com o tempo. Algumas lembranças viriam por primeiro, mas tudo voltaria a ser como era. E aquilo lhe incomodava demais: voltar a ser como antes, mesmo não lembrando. Continue lendo “Cama de Rosas – Evelyn Postali”

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