Resultado Difícil de Prever (Fheluany Nogueira)

 O que quer que tivesse esperado viver naquela noite escura e fria em que saíra de casa de pijama, não era aquilo.

 

— Para o Shopping! — a mesma voz que me chamou dizendo que ele e o amigo estavam voltando do restaurante para casa. Nove horas de uma noite chuvosa. Como assim? Agora querem fazer compras? E a volta para casa? E como fico com a empresa?

— Claro que sim! —respondi. Estava dormindo quando ligaram e não me dei ao trabalho de tirar o pijama; vesti camiseta e jeans sobre ele. Ainda peguei uma jaqueta. — Tonta, eu. Por que fico encucada?

Pelo retrovisor, observava os passageiros, calados no banco de trás: um jovem, com muita acne no rosto; outro, musculado, com ar de indiferença. No Walmart, o mais moço ficou comigo no carro, talvez para assegurar que não os abandonaria. Na volta:

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Amiga, de verdade! – Fheluany Nogueira

 

— Eee turmaa!! Voocêexxx goostaam meexxxmo doo meuuu jeito, hein?!!! – Elisa entrou no Mormaai Surf Bar, com segurança e carisma peculiares. Sentia-se candanga verdadeira, de peito e raça, como se fosse uma pioneira na construção da capital, um símbolo da força do país…

A engenheira, vinda de uma família numerosa, optou por não ter filhos, nem animais de estimação. Sua alegria, como ela mesma reiterava, estava nas amigas – como a mãe fora, era amante das festas e reuniões regadas a muito vinho ou cerveja e conversas exaltadas. Gostava da guitarra e de versos românticos. Com o grupo, tornava-se falante, contadora de casos divertidos. O modo de falar era característico: arrastava as sílabas, as palavras ficavam alongadas, salientando as vogais. Mesmo sem vê-la, era reconhecida de longe pela voz grave e fala mole.

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Homem de Palha – Fheluany Nogueira

 

 

O passado nem sempre foi justo. Por conta dele, às vezes, o futuro pode ficar comprometido. Pode estar ameaçado por um passado que voltou…

 

Das sombras dos lençóis, saíam homens de roupas coloridas, calças infladas e chapéu, varando dia e noite, por quintais perdidos. Ofereciam balões e encantavam. Sorriso malicioso, sapatos enormes, andar desajeitado. Melinha se divertia…

— É perigoso essa menina deixar se enlevar assim — retrucava a avó — É muita liberdade!

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Desforra do Bibelô – Fheluany Nogueira

 

Desforra do Bibelô

A primeira vez que estive com D foi em circunstâncias até agora não muito bem esclarecidas. Um choque descobrir que estava sendo observada quando acreditava estar só. Alguém me chamou com voz macia, filtrada destacou-se do grupo e começou a dizer:
– É Sara? É Sara? — pegou-me pelo braço, espanto. Voltei-me — era D. Ele chegou com o peito enfaixado, tinha se ferido num acidente. Ao abraçá-lo com força pude sentir ligas, esparadrapos e algodão. Aparentemente estava bem. Os anos de distância não lhe vincaram a pele macia, não lhe deformaram o talhe de galã (astro luzente, esguio, banhado de manhã); os olhos traziam o mesmo ar doce de outrora e senti por ele a mesma ternura de tempos atrás.

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O Lugar Certo (Fheluany Nogueira)

O Lugar Certo

 

 

                       — Não vou! — parei na porta, disse com um pouco de calma e muita psicologia. Dei alguns passos para frente, estaquei e repeti:

                       — Não vou! —fiquei nesse vou e não vou, reprisando a lastimável cena algumas vezes. Notei que em minha volta perdiam a paciência e senti-me empurrada para dentro do avião, um tubo de metal totalmente à mercê de dois homens, encerrados dentro de uma cabine minúscula, repleta de equipamentos estranhos e complicados.

                       Não tinha como desistir já estava dentro do avião tentando me acalmar, parar meu medo. Fiquei quietinha por uns momentos.

                       Sentia a vibração do piso acarpetado e do abismo que logo haveria entre os meus pés e o verdadeiro solo. Fui me ajeitando no assento, lugarzinho apertado dos infernos… Continue lendo “O Lugar Certo (Fheluany Nogueira)”

Fada Madrinha (Fheluany Nogueira)

Fada Madrinha

 

— Nara, Nara Lúcia! Não acredito! Há quanto tempo… — uma voz máscula se aproximava. Olhando com mais atenção ela percebeu que já conhecia aquele homem, os traços eram familiares, o andar, os cabelos, os olhos.

— Raul! O que faz aqui? — o rosto da mulher se alargou em um sorriso ao reconhecer o amigo de infância.  Viu-se transportada para um passado distante. As lembranças que tinha eram de jovens felizes.

— Eu trabalho… E pelo que vejo, é você mesma que estou procurando… Diga-me que quebrou esta perna ontem na festa de Santo Antônio — indicando a perna com tala, puxou a cadeira e pedindo licença, sentou-se.

— Poxa! Um acidente ao fugir das bombinhas… Sou azarada, minha fada madrinha me abandonou. — falou, de manso e conformada.

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Paladar do Amor (Fheluany Nogueira)

 

Paladar do Amor

 

Um homem quer uma mulher. O homem é forte. É forçoso que a mulher ceda? A vida é um jogo.  Quem dá as cartas?

Déa olhou para a janela. Gosto de maio, doce gosto, gosto e torpor. Maria, noivas, mães… Tudo vige e freme, maio é denso, determinado, personalista, faz acreditar na natureza, no imponderável… Havia um magnetismo nos seus gestos que a tornava uma espécie de líder natural. Na família, todos faziam o possível para estarem ao seu lado, sentiam uma necessidade irresistível de lhe realizar os desejos. Era algo que transcendia o normal, o lógico, e se manifestava, principalmente, quando o misterioso perfume da peônia rescendia sensual e inesquecível.  Taurina, obstinada, com garra e força de vontade para alcançar os objetivos, desejos e sonhos, capaz de guardar qualquer segredo e passar as melhores orientações. Suas respostas eram repletas de sinceridade. No caso da amizade, ela era incrível para se ter ao lado.

Um batido quente-lento na porta. Déa foi abri-la com o peito fremente. Fui eu mesmo que inventei a batida ou foi o vento?

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Do Umbral – Fheluany Nogueira

Do Umbral,

 

Pai e mãe, paz nos corações! É meu maior desejo! Peço-lhes, que não se deixem prender pela tormenta e que acreditem nestas palavras. Vocês merecem saber o que me aconteceu. Luto para conseguir superar tudo, até consigo atribuir a mim mesma a violência contra meu corpo. Meu comportamento foi descompassado e doentio. As mãos de Deus ainda me acolherão, e por isso posso dizer que tento reerguer-me após as batalhas vividas. Estou me libertando…

É pai, falou-me tanto em lei da atração! “O que pensamos atraímos para nós”. É a pura verdade! Mas nada é argumento para o mal. Desculpe a enroscada em que me envolvi, jamais poderia supor que a ameaça se concretizasse. Eu provoquei muita dor. Tenho que contar os eventos que precederam tudo, para que me perdoem e não culpem a outro pelo acontecido.

A noitada havia sido de bebidas, pedras e rock, no mesmo cemitério em que, pela manhã, presenciamos um sepultamento que ostentava riqueza. Ivo e eu seguimos os acompanhantes do enterro na volta. Pedi-lhe que não haveria violência, que não usasse a faca que sempre trazia escondida na bainha presa acima do tornozelo direito. Ficamos na vigia. A casa ficara fechada, sem ninguém. Esperamos escurecer e a invadimos. O parceiro tinha muitas habilidades e abrir a porta dos fundos foi brincadeira. Fomos adentrando, com o fôlego curto; o fluxo sanguíneo mais intenso deixava os músculos mais aptos para enfrentar a situação. Nada mais nos reprimia.  As pupilas dilatadas vasculhavam todos os ângulos da mansão. Era um lugar perfeito para um bom banho e dormir em uma cama macia. Quadros, objetos valiosos, imagens religiosas e, talvez, no quarto, algumas joias ou mesmo dinheiro vivo.

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Ascalapha Odorata – Fheluany Nogueira

 

Eu vou insistir sem descansar …
É uma história sem fim
Meu amor é sobrenatural
(Shakira)

Adela nunca esqueceu a verdade básica acerca da criação: o mundo não é o inimigo, tampouco é matéria inerte e muda. Enrustida e reservada, ela vivia sob um código:

— A Terra e todas as coisas vivas compartilham força vital. O universo é mais do que vemos, é uma teia de seres interligados, como irmãs e irmãos do todo.

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Ficou a Espera – Fheluany Nogueira

 

O perfume sempre foi uma armadilha, consolo ou ilusão. Como o orgasmo no amor, o tempero no alimento. Uma mentira que ajuda, a espera de um novo dia.

 

Luzia era vizinha de Ernesto desde criança. Cresceram juntos, brincaram juntos, foram para a escola juntos. Claro que faziam parte de um grande grupo, mas os olhos de um eram voltados somente para o outro. Olhos cinza-amor em verdes-brilhantes, falando-mais-que-falando. Olhos de sussurrar, aconchegantes, aconchegando, e aquelas mãos chamativas. E era doce aconfagar os cabelos até o ínfimo das pontas. Acontecendo natural, como a coisa mais esperada, definitiva de todo. E foram se aceitando de comum acordo.

 

— Essa menina foi sempre muito doente. Não sei o que você vê nela — a mãe dele implicou.

— O cheiro dela é tão bom! Luzia me faz ver o sol, as flores — respondia o rapaz.

— É uma família esquisita. Ela quer é o seu dinheiro. — e por aí seguia a ladainha de mãe ciumenta.

— Não encha, mãe! Sei o que faço.

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Nem Sempre Foi Assim (Fheluany Nogueira)

(de Fheluany Nogueira)

 A maior alegria de dona… … Eta! Perdeu-se o nome!  É recomeçar…

Dona Miúda, assim conhecida, foi a alfabetizadora de quase todos os letrados do lugar. Extremosa, severa com os pequerruchos. Tratava os alunos como aos filhos, preocupada em dar bons exemplos e ensinar valores. Nos gestos, como em tudo, produzia impressão de eficiência. Fala grave e segura, em alma de passarinho.

Cabeleira cheia e ondulada, singelo buço sombreava os lábios que se abriam em sorriso limpo. Pele clara, talvez por motivo do trabalho. E, pelo mesmo motivo, uma ligeira corcunda adquirida ao curvar-se repetidamente sobre as carteiras, para a conferência dos trabalhos. Braços longos, pés visíveis. Muito fina de corpo, a custo se equilibrava sobre pernas de cegonha. Enfim, Miúda era alta, espigada… acima da média.

Se as panelas estavam em cima do armário, media a distância, nas pontas dos pés, erguia-se e tateava-as. Então as puxava com a polpa dos dedos. Quando a mãe informava:

— A lâmpada da sala está queimada! — Sete irmãos, nenhum se movia… Continue lendo “Nem Sempre Foi Assim (Fheluany Nogueira)”

A Renascida – Fheluany Nogueira

A Renascida

 — Primeira vez —

Festa de aniversário. Minha amiga puxou a cadeira e eu bati com a cabeça no chão. Diante do susto aglomerado, a mãe dela explicou:

— Bárbara tem uma bola de sangue na cabeça, levou três dias para nascer, foi preciso apertar uma carapuça na cabeça dela e aí endireitou. O médico, depois, disse que não havia o que fazer.

— Fiz força para não nascer. A parteira puxou. — a menina emendou na tentativa de um pedido de desculpas.

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Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira

Amanhã o espaço, não o tempo. Nutrirei meu corpo mais velho, com novas comidas, da roupa limparei o pó de cada dia, a mesma sede nos olhos, mais força. Em vão cansarei o corpo — andar, correr, dançar serão veículos de minha vibração, razão de meu pão. Existir por inteiro, ser capaz de atravessar o corredor com minhas pernas, com a energia de minha mente. Poderei… Eu quero. Continue lendo “Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira”

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