Incondicional – Evelyn Postali

 

Eu subo na bancada da janela lateral e espio pela fresta da cortina. O gramado é viçoso e a saída lateral do carro do meu patrão está fechada. A vizinha estende a roupa e vejo as crianças passarem com as bicicletas. Se não estivesse preso aqui já estaria lá fora, querendo seguir com elas. Já estou acordado há um bom tempo. Não vi Julia e Kadu chegarem. Eles não coçaram minha barriga. Nem me chamaram para jogar com meu brinquedo favorito. A bolinha ainda está ao lado da minha cesta. Olho para ela e não sinto a menor vontade de brincar sem eles.

Eu faço o que normalmente faço o dia inteiro. Percorro a casa reconhecendo os lugares pelo cheiro peculiar de cada parte. Subo as escadas e me deito em cima da cama dos que me amam. Cheiro os travesseiros. Vou até o ateliê e dou uma volta. O cheiro das tintas faz meu focinho coçar. Quando eu me canso, eu desço. Faço minhas necessidades na área de serviço, em cima do tapete de plástico porque fui bem treinado.

Espero na porta, sentado. Estão demorando.  Já passou da hora do almoço e ninguém ainda chegou. Eu dou uma volta pela sala e subo novamente na bancada. Espio. Enxergo o cão que sempre circula naquele horário e dou uns latidos. Ele não escuta porque está sempre do outro lado da rua. Não ouço o barulho do carro. Julia e Kadu estão demorando e eu não ganhei biscoito.

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