Cova de Lama (Iolanda Pinheiro)

Já moça, lembrava do tempo em que o mundo era cinza e a vida flutuava no terreno lodoso de segredos e mentiras. Quando a velha e eu nos enfurnávamos pelas manhãs atrás das covas onde os caranguejos sonhavam. Do braço de minha vó enfiado até o ombro no berço de terra mole, os dedos procurando as carapaças com a destreza das infinitas repetições. Não custava muito, e ela puxava o guaiamum arroxeado de dentro do ninho. Outros tantos se seguiam, até que enchêssemos os grandes embornais.

O que não era vendido virava almoço, jantar, café, merenda. A necessidade não escolhia sabores.

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Varal de Lembranças (Soneto e Conto) – Iolandinha Pinheiro

 

Ao longo desta tarde, uma vida passa
E leva junto lembranças de um dia
um dia de vento, vento que embaraça
os loiros cabelos da noiva que sorria

Ao longo desta tarde, a anciã recorda
se lembra e se perde entre passado e fantasia
sobre o colo, no tecido  que ela borda
as imagens daquilo o que viveu um dia

Lá fora o vento forte, balança o varal
E os lençóis flutuam sob o céu laranja
Como vestido de uma moça em esponsal

Nunca mais haverá noiva sorrindo
Nunca mais um vestido, o véu, e a franja
tudo findou, e a noite eterna vem surgindo.

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Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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A Casa dos Mil Lamentos- Iolandinha Pinheiro

A primeira criança a sumir se chamava Pedro. Aconteceu numa tarde de agosto enquanto a sua mãe estendia os lençóis secos no varal para tirar o mofo. O vento estava forte e os tecidos leves voavam e cobriam seu rosto ao serem retirados do cesto. Um minuto de distração e  a mulher parou de ouvir as risadas do garotinho que corria pelo terreiro. Pensou, a princípio, que o menino tivesse entrado na casa. Chamou, gritou, procurou pelas veredas, bateu nas portas dos vizinhos. Nada.

O lugar era pequeno, todos se conheciam.  Alguns amigos formaram equipes de busca pela mata e outros procuraram pelas estradas vicinais. A última pista que tiveram da criança foi o caminhãozinho colorido que estava com o menino no instante do desaparecimento. O brinquedo foi encontrado próximo à margem do rio. Dois homens mergulharam na esperança de encontrar o corpo, mas nem sinal do Pedrinho.

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História de Fantasma – Iolandinha Pinheiro.

 

SANTA BÁRBARA
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Das coisas que me lembro, do tempo em que trabalhei em Santa Bárbara, nada me abalou mais do que a terrível história de Esther, e das implicações decorrentes por tomar conhecimento destes fatos.

Na época eu era médica no hospital psiquiátrico da cidade, construído em um penhasco que se inclinava sobre o mar. Era uma construção antiga com paredes de tijolo duplo, que, como soube posteriormente, antes de ser transformado em hospital, havia sido um mosteiro jesuíta.

A vista que tínhamos da enfermaria feminina era um espetáculo, e, por isso mesmo, sempre abríamos os folhos das suas largas janelas para que as nossas pacientes, e nós mesmas pudéssemos aproveitar a paisagem azul que se estendia à nossa frente.

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As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.

Anna Lúcia sabia que era adotada. Descobriu sozinha olhando os velhos álbuns com capa de ursinho na parte de cima do armário. Ao contrário dos irmãos mais velhos, não havia fotos da sua mãe grávida dela, ou foto sua ainda bebê. Não bastasse este fato, sempre se sentiu deslocada na família, na escola, no mundo.

E ainda havia os sonhos. Sonhava sempre com a mesma coisa, um outro pai, uma outra mãe, em um outro lugar.Sempre que dormia passava pelo portal entre mundos: no outro lado morava com os alumurianos, e não apenas isso, era um deles. Tinha longos alheamentos, um voluntário silêncio. Coisas de menina cismarenta, ensimesmada, esquisita. Os pais eram carinhosos, pacientes, falavam que aquilo era fantasia da menina.

-Passa quando você ficar mocinha.  Continue lendo “As Folhas de Alumúria – Iolandinha Pinheiro.”

– Presságio – Iolandinha Pinheiro

Moro numa pequena cidade sem parentes ou amigos. Escolhi viver desta forma. Ergui uma casa distante da vila, uma espécie de retiro voluntário na floresta tendo como vizinhos apenas os animais e as plantas. Nem por isso tive algum dia de tranquilidade na vida, e nem poderia, pois não o mereço.

O nobre leitor acredita em fantasmas? Se a mim fosse feita esta pergunta talvez respondesse que não, mas apenas para não parecer louco diante de meu interlocutor. Estaria mentindo. Eu acredito em fantasmas. A minha convicção se formou a partir de quando ainda era bem jovem, quando aos vinte e um anos candidatei-me ao cargo de faroleiro que havia ficado vago após a morte do meu antecessor.
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Las Contreras – Iolandinha Pinheiro

A família da viúva Anahy Contreras chegou no início da estação das chuvas, um mês depois de recebermos a carta do antigo morador da “Las Piedras” pedindo ao meu pai para aguardar as mulheres e mostrar tudo da propriedade vendida.

Como eu e Pedrito não sabíamos coisa alguma sobre as novas vizinhas, passamos todos os dias que antecederam a chegada delas ouvindo atrás das portas e conversando sobre detalhes inventados por nós mesmos.

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