RENOVAÇÃO – Juliana Calafange

Nascida na capital da província, Akili fora para a aldeia ainda moça, para se casar com o filho do soba[1] local. Ao longo de trinta anos foi esposa dedicada, teve três meninos saudáveis e fez-se útil à sua comunidade, ajudando na lavra e também ensinando o português para as crianças, pois a maioria na aldeia só conhecia o dialeto macua. E esse era seu maior encantamento, ajudar as crianças a descobrir as veredas do idioma e da literatura, que para ela não havia arte maior no mundo. Foi pelas letras que Akili criou raízes na pequena comunidade. Os livros a ajudaram a superar momentos difíceis e foram testemunhas das suas alegrias naquele lugar. A aldeia passou a ser o seu lar, onde sentia-se respeitada e amada, onde podia viver cercada de juventude e histórias, longe dos conflitos políticos da capital. Continue lendo “RENOVAÇÃO – Juliana Calafange”

BALANÇO – Juliana Calafange

De olhos fechados eu inspirava, expirava, inspirava, expirava. E assim fui suavemente me entregando ao balanço. Leve. Volátil. Doce. A morte deve ser assim.

Embalado pelo mar da tranquilidade, abri os olhos devagar. Santa Maria, Pinta e Nina navegavam soltas pelo teto e meus sentidos lentamente percebiam a fria superfície sobre a qual meu corpo boiava, barriga para cima, braços abertos a espera de um abraço. Há muito tempo que eu singrava apenas por águas sujas, imundas, viscosas. Merecia aquele momento de conforto plácido. Algumas pessoas certamente condenariam minha extravagância, diriam que não tenho mais idade para brincadeiras lisérgicas. Mas o céu estava estrelado e a moça que me ofereceu o chá era tão bonita… Pra onde ela foi? Saiu correndo, dizendo sempre que estava atrasada. Isso não tinha mais importância agora. Tudo estava finalmente em ordem. Continue lendo “BALANÇO – Juliana Calafange”

SHERLOCK – Juliana Calafange

Seu Egydio sempre gostou de histórias de mistério. Desde menino, devorava tudo que era livro de Agatha Christie, Alan Poe, Conan Doyle, Simenon e companhia.

Chegou a fazer curso pra detetive, mas quando viu que era muito arriscado e pouco lucrativo, desistiu da carreira. Acabou fazendo concurso público e virou funcionário conformado do Departamento de Procedimentos Disciplinares e Desenvolvimento de Pessoas do Ministério da Agropecuária.

Mesmo assim, nunca deixou seu hobby de lado. Investigava a vida dos colegas, dos chefes, até do pessoal da limpeza. Xeretava gavetas, correspondências, lixeiras, a fim de encontrar algo que fosse suspeito. Um dia, encarou uma das faxineiras, que acabou confessando, aos gritos:

– Matei meu marido sim! Aquele filho da puta me batia e me traía, envenenei ele com chumbinho e não me arrependo, viu seu Egydio! Mas o senhor não pode fazer nada, foi a mais de 30 anos e já “mescreveu”[1]! Continue lendo “SHERLOCK – Juliana Calafange”

ARDÊNCIA – Juliana Calafange

Noite alta, madrugada ainda, a mulher abriu os olhos e logo reconheceu a necessidade encalacrada na garganta. Precisava falar da sua covardia. Nunca lhe ocorrera falar sobre isso, pois lhe causava vergonha. Sempre. Mas é que hoje aquela covardia estava ardendo muito, mais do que já ardera antes. Hoje ela inflamava e urgia.

Geralmente chegava quando a mulher estava vazia e distraída, quando não havia ninguém por perto. Quando a mulher olhava em volta e percebia que a estrada era fria e seca, e infértil, e mesmo assim insistia em trilhá-la. Nessas ocasiões é que a covardia da mulher gritava o seu nome.

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AZUL – Juliana Calafange

Minha amada imortal,

Sinto-me tão envergonhado. Disseram-me que hoje amanheceste triste, com o olhar diferente daquele olhar vívido que sempre tiveste. E que isso foi por culpa minha, por causa das minhas atitudes. Sei que me acusas, meu amor – e tens razão em fazê-lo! Meu erro foi tremendo. Eu menti, sobre ti, sobre nós dois, e isso é algo imperdoável. Mas saiba que tudo o que fiz, o fiz por amor, desde o começo. Continue lendo “AZUL – Juliana Calafange”

ANNUS FAUSTUS – Juliana Calafange

Dizem que a primeira coisa que a gente faz na virada do ano é o que a gente vai fazer o ano novo inteiro. Espero que isso não seja verdade.

Já imagino o mundo cheio de gente bêbada, vestida de branco, vagando pelas ruas, ao som dos fogos de artifício, uma versão tosca de The Walking Dead… Se isso fosse verdade, a maioria das pessoas iria passar o ano todo pulando ondinhas num pé só e comendo romãs e lentilhas!

Lentilhas.

Devem ter sido as lentilhas. Depois de toda uma semana de orgias etílicas, comendo a comida requentada do Natal, neste calor tropical dos infernos, ingerir lentilhas só poderia ser má ideia. Quem foi o imbecil que inventou essa tradição? Alguém que mora no hemisfério norte, sem dúvidas. Lá o clima dessa época é mais propício a se comer lentilhas.

Agora cá estou e não adianta reclamar. Continue lendo “ANNUS FAUSTUS – Juliana Calafange”

INSÔNIA ∣ Juliana Calafange

Alice olhou o relógio, duas da manhã. Numa noite normal já estaria dormindo há horas. Nunca foi de dormir tarde, nem na juventude – quando ia a festas sempre voltava cedo pra casa. Imagine se o velho ia deixar filha moça chegar em casa depois das dez! Talvez por isso estivesse passando por essa situação só agora, na maturidade.

– Nem tão madura assim… – pensou Alice – Trinta e cinco anos na cara, e com esse medo todo do escuro!

Na verdade, não era medo do escuro, ela sabia. Era medo do silêncio, do vazio, da solidão.

– Se ao menos a TV estivesse funcionando. Tinha que quebrar justo hoje que o Rodolfo viajou?

Era a primeira noite que Alice passava só em casa, sem Rodolfo. Na verdade, era a primeira vez que passava a noite só em casa, ponto. Sempre tivera a presença dos pais, às vezes só da mãe, às vezes só de algum empregado. E depois que casou, Rodolfo estava sempre lá, do seu lado da cama, roncando e roubando-lhe a coberta, todas as noites. O que não impedia Alice de se sentir solitária, às vezes. Mas sozinha, sozinha, uma noite inteira, ela nunca tinha ficado. E só agora se dava conta. Continue lendo “INSÔNIA ∣ Juliana Calafange”

UM REI NO PURGATÓRIO – Juliana Calafange

Virgulino Ferreira da Silva, aqui na Terra conhecido como o Lampião, Governador do Sertão, estava lá no Purgatório, fazendo a tal retrospectiva de sua vida, ponderando seus atos malvados e virtuosos, na expectativa de ser aceito no Paraíso, nos braços de São Pedro e do Padinho Padre Cícero.

Tudo ainda estava muito confuso em sua cabeça. Sabe como é, nesses casos, o tempo na cabeça do cabra corre bem mais devagar do que para nós aqui na Terra. Mesmo que para nós já tenham se passado muitos anos, no etéreo as coisas andam mais lentas. A pessoa fica meio perdida, demora pra se acostumar com o ocorrido e com a nova condição de morto.

Virgulino, no caso, ainda sentia a dor das balas que o tinham matado, fazia pouquíssimo tempo que tinha compreendido a sua morte, pois ficara muito tempo atordoado, sem entender direito o que tinha se passado em Angicos.

Ele só lembrava do rosto da Maria assustada, olhando pra ele, ele ensanguentado com aquela dor aguda no peito. Depois, só o escuro, e depois do escuro, a luz, e depois, a notícia de que estava no Purgatório… Foi um anjo que lhe sussurrou no ouvido: “Virgulino… Virgulino… Agora teu acerto é com Deus…” Ele não acreditou, reclamou, gemeu, gritou, berrou, urrou, mas acabou se lembrando de tudo e agora estava lá, tentando aceitar as coisas e se arrepender, pra poder morar ao lado do Senhor. Continue lendo “UM REI NO PURGATÓRIO – Juliana Calafange”

HORA ‘H’ – Juliana Calafange

Enquanto aguardava na fila, Feliciano tentava conter a ansiedade. Lembrava-se vagamente de ter lido em um livro que ela só atrapalha na hora H. Inspirar e expirar bem devagar, dizia o livro, acalma o espírito. Estava concentrado na respiração quando sentiu uma cutucada no ombro.

– É sua primeira vez? – perguntou o cara que esperava atrás dele na fila.

– É sim. Quer dizer, é a primeira vez que eu sou recolocado.

– É a minha primeira recolocação também. Estou tão nervoso. Continue lendo “HORA ‘H’ – Juliana Calafange”

Fome de Amélia – Juliana Calafange

 

Ela era magra, magra, magra, de marré marré marré. Era assim desde menina, o vento vai te levar, de tão magra, vara verde! Ninguém sabia como doía. Por dentro era Amélia, generosa e doce Amélia, que ninguém gostava, que ninguém sabia. Desde que os pais morreram emagreceu e ninguém mais gostou dela. Na escola, no parque, na igreja, até a família zombava. A tia, aquela sapa gorda e infeliz da tia, dizia, ainda bem que teus pais não estão aqui pra ver que você virou a ‘Miss Somália’. A tia ria, e ela chorava e todos da família riam mais ainda, viviam sempre a repetir, magra, magra, magra de ruim que é, desdenha da comida, ingrata que você é! Continue lendo “Fome de Amélia – Juliana Calafange”

Meu grito – Juliana Calafange

Precisava pular do peito e sair correndo. Urgia ganhar liberdade e ser ele mesmo, um grito com personalidade. Pulsava como uma borboleta querendo sair de seu casulo, como um jato de esperma tentando furar a camisinha, como um pássaro lutando para quebrar a casca do ovo. E depois de um esforço hercúleo, ganhou livre-arbítrio, me escapou da garganta, pulou dele mesmo, me fugiu da boca. Um grito rouco, profundo, histérico, grotesco. E tão logo conquistou o espaço externo do âmago e do corpo, saiu desembestado, atravessou as ruas, ultrapassou as paredes, se perdeu na multidão e me deixou sozinha, louca, muda e nua. Daquela janela do décimo primeiro andar eu procurava por ele e ele me ignorava, desaparecia no tempo e nas ondas sonoras, até deixar de ser meu e se tornar um grito da cidade. Continue lendo “Meu grito – Juliana Calafange”

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