Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,

Osmose lenta.

Boca entreaberta como se bebesse,

Cabeça atenta.

 

Rosto desfeito,

Rosto sem recusa onde nada se defende,

Rosto que se dá na angústia do pedido,

Rosto que as vozes atravessam.

 

Rosto derivando lentamente,

Pressentimento que os laranjais segredam,

Rosto abandonado e transparente

Que as negras noites de amor em si recebem.

 

Longos raios de frio correm sobre o mar

Em silêncio ergueram-se as paisagens

E eu toco a solidão como uma pedra.

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Chácara do Terror – Vanessa Honorato

— Então, jovem, agora que está mais calmo, pode nos explicar o que aconteceu?

Rennan está sentado numa cadeira preta, onde à sua frente encontra-se o delegado de polícia Leonardo Freitas, olhando diretamente em seus olhos, com as mãos cruzadas por cima da mesa, e ao seu lado esquerdo o policial Jonas, em frente ao computador tomando nota de tudo que é dito.

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Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

Ingredientes
5 cl de Gin – 3 cl de xarope de rosas – 1,5 cl de Triple Sec. –
2 cl de suco de limão – Gelo

Ela dormia tarde. Gostava de ter uns minutos para si. Mesmo exausta, mesmo após o dia longo e cheio de trabalho. Abria a janela e subia pelas escadas externas do prédio até a cobertura. Quase iguais às que vira em filmes durante toda a infância. Quase iguais às que um dia sonhara ter, em um prédio do outro lado do mundo, em um país distante e cheio de oportunidades. De trabalho. E já lá em cima, no topo do mundo, como gostava de dizer, fumava um cigarro apreciando a cidade envolta em névoa. O último do dia. Sem pressa. E brincava com a fumaça, fazendo bolinhas no ar, enquanto via vésper desaparecer, ofuscada pela luz do sol.
Ele acordava cedo. Gostava de ter um tempinho só seu antes de sair. Respirar fundo como aprendera quando criança. E tomar seu chá, bem quente. E com cuidado para não queimar os lábios, assoprava devagar, sem se importar com o vapor que, subindo, embaçava seus óculos. Gostava do efeito de refração da luz nas gotículas que se formavam na lente. Adorava o ar desse país. A luz. Fascinara-se logo no primeiro dia, quando chegara para nunca mais partir. Talvez por isso tivesse o hábito de se deixar assim, quase em meditação. E sem pressa alguma começava o seu dia, observando vésper desaparecer, ofuscada lentamente pela luz daquele sol.

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Para Inspirar: Maternidade (Kátia Muniz)

Quando uma mulher diz que optou por não ser mãe, eu respeito a escolha e não estendo o assunto com questionamentos ou ponderações. Nem todas nasceram para a maternidade. Carregamos o potencial de gerarmos a vida, mas nem sempre se tem a vocação.

Porém, a opção pela “não maternidade” deve ser pensada e repensada para que não haja arrependimentos futuros. Dizer “não” é uma escolha, desde que ela não venha acompanhada de culpa.

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Varal de Lembranças (Soneto e Conto) – Iolandinha Pinheiro

 

Ao longo desta tarde, uma vida passa
E leva junto lembranças de um dia
um dia de vento, vento que embaraça
os loiros cabelos da noiva que sorria

Ao longo desta tarde, a anciã recorda
se lembra e se perde entre passado e fantasia
sobre o colo, no tecido  que ela borda
as imagens daquilo o que viveu um dia

Lá fora o vento forte, balança o varal
E os lençóis flutuam sob o céu laranja
Como vestido de uma moça em esponsal

Nunca mais haverá noiva sorrindo
Nunca mais um vestido, o véu, e a franja
tudo findou, e a noite eterna vem surgindo.

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O astronauta – Elisa Ribeiro

tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano

Walter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

Vendo-o atrapalhado em despir o casaco, antecipei-me. Peguei a bagagem de mão dele e coloquei-a sobre a esteira do raio-X.

 “O que senhor trouxe nesse bolsa, pai? Chumbo? ”

“Livros, minha filha…”

“Livros, pai? O senhor trouxe mais de um livro pra ler durante a viagem? ”

“Claro! Durante a noite, enquanto você sonhava e o avião balançava, eu li um pouco de cada um…”

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Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Sofro de bondade. Nasci assim, diz minha mãe. Fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Foi quando descobri que Tia Celina, professora do pré-primário, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um marido como meu rival. Mas, não foi só isso. Existiam outros que disputavam o amor dela: meus colegas de classe. Diante da terrível descoberta de ser minha amada uma leviana, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

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Resultado Difícil de Prever (Fheluany Nogueira)

 O que quer que tivesse esperado viver naquela noite escura e fria em que saíra de casa de pijama, não era aquilo.

 

— Para o Shopping! — a mesma voz que me chamou dizendo que ele e o amigo estavam voltando do restaurante para casa. Nove horas de uma noite chuvosa. Como assim? Agora querem fazer compras? E a volta para casa? E como fico com a empresa?

— Claro que sim! —respondi. Estava dormindo quando ligaram e não me dei ao trabalho de tirar o pijama; vesti camiseta e jeans sobre ele. Ainda peguei uma jaqueta. — Tonta, eu. Por que fico encucada?

Pelo retrovisor, observava os passageiros, calados no banco de trás: um jovem, com muita acne no rosto; outro, musculado, com ar de indiferença. No Walmart, o mais moço ficou comigo no carro, talvez para assegurar que não os abandonaria. Na volta:

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Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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Para Inspirar – A Bela Adormecida (Martha Angelo)

A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante, uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas…
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — Suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — Imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.

A vida ia passando também.

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