Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan

“Vem, linda boneca! Bela neneca! Querida minha!

  Leve é o vento e leve é a pluma da andorinha.

  La embaixo sob a montanha, ao sol brilhando,

  À luz da lua, na soleira já esperando,

  Minha linda senhora está, filha da mulher do rio,

  Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio.”

— Ei! – gritou “Diana”, fechando o livro com tudo e levantando-se do gramado onde estava deitada e lendo. – Estes versos são do livro O Senhor dos Anéis! – encarou o homenzinho que parou de saltitar pelo bosque para atender. Continue lendo “Homenagem ao desafio Elementais – Neusa Fontolan”

Uma História de Amizade – Menina – Ana Maria Monteiro

A menina olhou-a longamente nos olhos, sem problema, podia fazer aquele momento durar quanto tempo quisesse, o comando era seu. Por fim, a luzinha (chamemos-lhe assim) não aguentou mais e, ganhando autonomia, quebrou o silêncio: “por que me olhas assim?”; “Porque tento avaliar a tua essência: se o virtual pode ser realidade, se existes ou se és um personagem que eu crio, se és onda ou frequência, física ou ficção e essas reflexões despertam-me outras e fixar em ti o meu olhar permite-me continuar a alimentá-las e estou a gostar”.

Decidiu continuar: qual direção escolher? “– Oeste, sem dúvida.” Navegaria aquele obstáculo em forma de rio dentro de um caldeirão e aquela luzinha que emergia das águas, acompanhá-la-ia com a dança singular que usava para se mover, levitando naturalmente sobre as águas.

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Somos um círculo, dentro de um círculo… – (Sacerdotisa)

 

 

“Somos um  círculo, dentro de um círculo. Somos um infinito, dentro de outro infinito”

Tate tinha nove anos, e era uma menina diferente, olhos antigos – diziam – e todo verão viajava para o sul do estado, para passar férias com a avó.

Rubi era uma avó alegre, enérgica, cheia de vitalidade. Cultivava girassóis, rosas, margaridas e aos olhos da menina era uma verdadeira rainha, sábia e generosa.

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A doce ondina – Nicksa

O dia estava nublado, mesmo uma menina de nove anos achou estranho aquele brilho vindo do fundo do lago. Ela estava triste, nos últimos três meses não conseguira chorar, mas o dia relativamente escuro lhe trouxe à tona as tristezas acumuladas. Mariana lembrava-se da mãe como se ela ainda estivesse presente, mas quando acordou e chamou por ela, para que lhe trouxesse chá de camomila como em todas as manhãs chuvosas, a realidade lhe soou como uma bofetada e ela percebeu que nunca mais tomaria chá de camomila com a mãe. Colocou seu casaco e calçou as botas. Correu para a beira do lago no fundo de sua casa.

Foi aí que percebeu a luz.

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O Pedido – Neusa Fontolan

 

Eu sempre tive grande veneração e fascínio pelas forças da natureza. Amo os elementos e suas demonstrações de poder. Claro que tenho medo, como qualquer ser humano com instinto de sobrevivência. Além do medo sinto arrebatamento e respeito, e como não respeitar? Quem é que pode parar um vulcão ativo, um ciclone, um terremoto ou um tsunami? O que para a maioria das pessoas é uma tragédia, para mim é uma coisa linda, uma pequena demonstração do grande poder desses Deuses. ‘Deusa Terra’ – ‘Deus do Ar’ – ‘Deusa D’água’ – ‘Deus do Fogo’. É assim que os chamo, são os meus Deuses.

Então, vamos a minha pequena história.

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O Trem dos Apaixonados – Amanda Gomez

 

O som surgiu aos poucos, assim como o vibrar no chão. Pedrinhas saltavam da estrada de terra enquanto todos pararam para observar o que se aproximava. Um apito familiar e ensurdecedor ecoou como um grito de boas-vindas. A névoa de poeira, que formara uma cortina, rompeu-se assim que o trem passou, trazendo com ela toda a cacofonia das engrenagens e sua beleza caleidoscópica.

 

O breve momento de surpresa foi interrompido por descrença e temor por parte dos mais velhos e pela curiosidade e euforia das crianças. O majestoso trem passou, com seus vagões coloridos e empilhados de novidades; os pequenos correram acompanhando-o, ignorando os protestos dos adultos, que há muito tempo perderam a capacidade de se encantar. Uma característica que acometia a todos, assim que a infância os deixava.  As crianças seguiam acenando para os artistas que apareceram nas janelas, alguns tão empolgados que corriam por cima do trem, dando-lhes uma pequena amostra do que estava por vir. Implosões cintilantes preencheram o céu. Uma voz musical anunciou:

Alegrem-se, o Trem mágico chegou!

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Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro

A primeira vez

Aconteceu quando tinha onze anos de idade e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.

Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com  autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.  

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Dandelions (Bia Machado)

Ali, naquela colina, caminhando na direção leste ao longo da praia, vive a criatura mais apaixonada que já conheci. Quem vai até lá, no amanhecer, pode ver Artemísia deitada, observando o céu em meio aos dentes-de-leão que ela mesma plantou, séculos atrás, em uma longínqua primavera, onde também plantou hortelã, tomilho, lavanda e anis. Poderia ver, aliás, se ela assim o desejasse.

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Uma história apenas começando… – Anorkinda Neide

Uma história apenas começando…

Brilhou em sua completude o pentáculo pendurado no interior daquela aconchegante caverna. Era hora. Era noite. Pletskin preencheu seu embornal para a pequena viagem e colocou-se a caminho.

O encantamento estava ativo, até os gravetos do chão estalavam com alegria a sua passagem. Era noite de inverno. Era hora certa. No local sagrado, em terceira dimensão, ela estava invocando a magia. Na direção norte, a vasilha com sal marinho, e Pletskin sempre fora o encarregado desta bênção. Ele mesmo não sabe desde quando… Desde sempre, ele achava, nas poucas vezes que se punha a pensar nisso.

“Bons gênios do Invisível, Deuses da Terra: com este ritual dirijo-me a vós para obter aquilo que me é justo de direito! Eu posso! Eu quero! Eu ordeno! Ajudai-me a realizar um lícito desejo!”

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Diana – Priscila Pereira

Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam estavam quase em extinção. As Ondinas tomaram o poder por um momento de fraqueza do povo do fogo. Outrora poderosos, deixaram-se enganar pelo orgulho, desprezaram os demais elementos, então foram derrotados. A montanha sagrada foi apagada e os filhos do fogo caçados e mortos. Os que sobraram se esconderam e deixaram seus poderes de lado. Agora quase não havia mais chance de equilíbrio. Tudo estava molhado ou úmido.  Até a alma das pessoas juntava bolor.

Diana nasceu debaixo de um chuvisco fino, perpétuo, que impregnou seus ossos trazendo dores que nenhuma criança deveria sentir. Cresceu em meio aos fungos e musgos. Algo dentro dela se rebelando àquele tempo. As dores se intensificavam a cada ano completado. Uma ardência, como metal quente mergulhado em água gelada. Borbulhava.

Assim que completou quinze anos de dores e desespero, descobriu o motivo de tanto sofrimento. Um pouco antes do meio dia seus pais a levaram por um caminho subterrâneo até um salão escuro e abafado. Logo algumas pessoas chagaram, mais silenciosas do que a neve que caia nas montanhas. Viu que entre os presentes estava Leon e seu sangue ferveu, assim como, quando viu pela primeira vez seu sorriso, tão quente quanto deveria ser o sol. Sentia todo o corpo esquentar quando o sorriso era direcionado a ela e com o tempo passaram a ser tão frequentes quanto às chuvas. Ficou feliz com a presença dele, seria mais uma coisa que teriam em comum. Quando o último dos convidados chegou, fecharam as portas e deram início ao ritual.

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Sal & Amanda (Claudia Roberta Angst)

─ Tem certeza? Não quer pensar melhor? Olha que esse é um caminho sem volta…

Mas Amanda estava decidida. Nem mesmo um único cílio tremulava em hesitação. Nunca tivera tanta certeza na vida. Aquela era mais uma promessa de verão que cumpria sorrindo.

─ Manda ver!

E assim, o som metálico ganhou ecos como relâmpagos subliminares que aos poucos reduziram o silêncio a alguns suspiros e ais de admiração ou talvez espanto.

No chão, o derrame dos cortes, da evolução de processos impostos pela impulsividade de dias intensos orientados pela relutância de não se deixar levar por simples conveniência. Não sentiu dor, nem mesmo angústia, pelo contrário, sentia a cabeça leve, livre de um peso que há muito não lhe pertencia.

─ Isso é o bastante para você, querida?

─ Mais um pouco. Vamos até o fim.

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Passageiras – Sabrina Dalbelo

O Emissário, criatura responsável pela Passagem, é o funcionário a quem incumbe a evolução dos processos. Forjado no início dos tempos, desde a primeira morte de um ser dito vivo, seu grande mister é o de depositar as almas na grande labareda da purificação e, com isso, manter o ciclo da transmutação. Ele perambula nu, não se alimenta e não pensa em nada.

Ele é apenas o ente responsável por guiar as passageiras. Não mata, não cobra, não escolhe, não ganha nem perde nada a partir do seu labor. Existe porque lhe é dado existir.

O Emissário é apenas um, ainda que não seja propriamente uno. Não tem braços, pernas, asas, membros, vontades ou posses, assim definidos. Ele tem a força suficiente para alimentar o Fogo da cura com as almas, e essa é toda a força do mundo.

O lugar onde está o Emissário é cheio de corredores vazios, desabitados, sem corpos, sem tapetes, sem janelas. Não há boas-vindas nem despedidas. Chamá-lo de purgatório seria mascará-lo com o entendimento limitador de “habitar”. Portanto, o lugar da emissão não é um lugar ao qual alguém pertença ou onde se estabeleça. É uma passagem.

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De frente… enfrente! (Fheluany Nogueira)

 

 

A cachorrinha que parece não gostar da casa, não quer saber de ninguém e vive como gente à parte, pelos cantos. E, late a noite inteira, bem de frente das pessoas, numa acusação.

— Não há mais razão para ficar com ela… — o pai vai matar a cachorra cor preta, com manchas marrons… Carrega a espingarda, segue-a por entre a fileira de tijolos no jardim. Nina não escuta o tiro, mas vê o sangue no tijolo cru; não pode olhar a espingarda. O pai matara com raiva.  E isso transformou o mundo em e cinzas.

Ninguém me ama

      Ninguém me quer

   Por isso eu vou

     Comer barata!

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A Arca das Palavras – Evelyn Postali

Terra, Continente do Norte, 2-988. Registro midiático 10950.

O objeto foi deixado a mim por alguém conhecido de minha mãe, com indicação expressa: abri-la em meu trigésimo aniversário.

Se eu não a estivesse tocando, não acreditaria. Uma arca, assim como todas as arcas da história da humanidade o foram: de madeira envelhecida e cheiro de ancestralidade; tão sólida que seria preciso muita força para arranhar sua superfície com qualquer lâmina cortante, e tão maciça quanto as ligas de metais descobertas nesse século carregado de tecnologia alienígena.

Meu monitor de pesquisa aponta para um exemplar de quercus, hoje existente apenas em algumas montanhas ao sudeste daqui. O selo é áureo, de metal raro e inexistente.

O primeiro contento é um papel caligrafado, deixado, creio, propositalmente, em cima de vários exemplares de livros, artefatos de papel não mais produzidos por nós. Tenho uma raridade nas mãos

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(A)Outra – Paula Giannini

Bateu a porta.

Finalmente em casa, arrancava tudo: roupas, sapatos, meia-calça, cinta, calcinha, sutiã, aquele aplique patético para deixar os cabelos compridos. Os cílios. Os malditos e borrados cílios postiços, ensopados de suor, grudando nos dedos a gosma negra da cola.

Maldito verão.

Melhor ligar logo a porcaria do ventilador.

Não dava.

Onde enfiara, pela glória de sua mãe, Iansã, os ainda mais malditos benjamins?

Por que, por sua mãe, por quê? Continue lendo “(A)Outra – Paula Giannini”

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