Passagem – Maria Santino

Arigó, de nascimento Cícero Sant’Anna, respondeu prontamente à voz surda que só ele ouviu.

— Tô indo, meu pai!

E num movimento brusco despertou. Não de todo. Na mente embaralhada pelo peso de seus oitenta e seis anos de idade, ideias soltas roçavam. Fiapos se emaranhavam cada vez mais com o nascer e morrer do dia. Quando menino e moço, acordava com o canto do galo para tirar leite da vaca, dar milho para as galinhas e estar pronto para ir com o pai e os irmãos roçar o mato da plantação. “Quem dorme até tarde é Barão. Pobre só ajunta alguma coisa, madrugando”. Era o que o pai dizia. Mas agora Arigó já não era mais menino e nem moço. A boca seca e o chiado nos ouvidos eram constantes, mesmo com os remédios para o diabetes e hipertensão. Lembrou-se de Agustina, mulher miúda que havia lhe dado três filhos — seriam seis se todos tivessem vingado —, e tateou com avidez pela cama, na escuridão do quarto, desejando encontrá-la. Nada. Levantou sentindo tontura e a vista turva, e logo a incontinência urinária o fez molhar toda a calça deixando o piso frio ser aquecido pelo mijo. “Isso não é vida.” Pensou num muxoxo triste, e perguntou-se o que havia acontecido com todo o seu vigor.
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