Um céu para Maicon – Elisa Ribeiro

Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.  

Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava.  Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?

Continue lendo “Um céu para Maicon – Elisa Ribeiro”

Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,

Osmose lenta.

Boca entreaberta como se bebesse,

Cabeça atenta.

 

Rosto desfeito,

Rosto sem recusa onde nada se defende,

Rosto que se dá na angústia do pedido,

Rosto que as vozes atravessam.

 

Rosto derivando lentamente,

Pressentimento que os laranjais segredam,

Rosto abandonado e transparente

Que as negras noites de amor em si recebem.

 

Longos raios de frio correm sobre o mar

Em silêncio ergueram-se as paisagens

E eu toco a solidão como uma pedra.

Continue lendo “Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)”

O astronauta – Elisa Ribeiro

tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano

Walter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

Vendo-o atrapalhado em despir o casaco, antecipei-me. Peguei a bagagem de mão dele e coloquei-a sobre a esteira do raio-X.

 “O que senhor trouxe nesse bolsa, pai? Chumbo? ”

“Livros, minha filha…”

“Livros, pai? O senhor trouxe mais de um livro pra ler durante a viagem? ”

“Claro! Durante a noite, enquanto você sonhava e o avião balançava, eu li um pouco de cada um…”

Continue lendo “O astronauta – Elisa Ribeiro”

Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro

A primeira vez

Aconteceu quando tinha onze anos de idade e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.

Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com  autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.  

Continue lendo “Luz de mil lâmpadas – Elisa Ribeiro”

Múltipla Bia (Elisa Ribeiro)

Fui convidada a fazer
um texto para uma amiga,
achei melhor escrever
em forma de poesia,
o nome dela é Bianca,
mais conhecida por Bia,
mas não sou eu, reles poeta,
que falo sozinha por ela,
ela mesma é quem se narra,
nem precisei descobri-la.

Formada em pedagogia
no momento é professora,
mas em sua biografia
revela sem deixar dúvida,
entre tantas outras coisas,
que busca uma alternativa,
novos rumos, outra vida.

Continue lendo “Múltipla Bia (Elisa Ribeiro)”

O medo do irmão – Elisa Ribeiro

Foi aos sete anos que comecei a entender o que era medo. Não o medo real, de algo que existe e ameaça, mas o medo do que não existe, invenção de alguém para produzir um efeito. Ou um resultado. Medo real, só fui sentir bem mais tarde, entrada nos anos, numa situação que eu não gosto nem de lembrar.

Provavelmente era sexta ou sábado, dias em que mais ou menos tínhamos autorização para dormir mais tarde. Meus pais tinham saído e nós três, sob o cuidado desatento de nossa avó permissiva e despreocupada,  escolhemos assistir a um filme de terror na TV.  Não lembro o nome do filme, tampouco o enredo, só recordo que certo palhaço assassino era o protagonista da história.

Continue lendo “O medo do irmão – Elisa Ribeiro”

Aos seis, um papagaio (Elisa Ribeiro)

Naquela época eu ainda achava que podia confiar nas pessoas mais velhas, que os mais fortes protegiam os mais fracos e que tios e tias  eram uma espécie de segundos pais.

Pensava também que pequenos animais silvestres existiam para ser aprisionados em gaiolas de onde eu podia tirá-los para brincar quando quisesse. Havia me tornado fazia pouco tempo praticamente a   dona de um casal de hamsters enjaulados depois do meu irmão mais velho, a dono inicial, mudar de fase.

Quando o vi, vistoso, pousado num galho alto na goiabeira, fiquei imóvel, hipnotizada. Eu já sabia do que um papagaio era capaz. Nossa vizinha de frente na casa da cidade tinha um que falava  bastante e andava para todo lado, a ponta de uma das asas cortada,  pousado no ombro dela.

Desci do balanço e chamei: “curupaco-paco-paco!”. Levantei o braço e fiz com o polegar e o indicador aquele gesto universal de chamar animal. Ele desceu obediente para um galho mais baixo.

Continue lendo “Aos seis, um papagaio (Elisa Ribeiro)”

O velho – Elisa Ribeiro

 

Acordei suando, nervoso. Há tempos o maldito velho não me incomodava.

Olhei o relógio: vinte para as quatro da manhã. Não consegui pegar no sono de novo, medo de o pesadelo continuar. Sai da cama às seis. Só pensava na Luísa enquanto me aprontava para o colégio, precisava saber se ela também tinha sonhado.

Não consegui me concentrar nas aulas. Matemática, física, história, pior que um pesadelo. Lembrei que o transporte do colégio passava perto da casa dos meus tios, pais da Luísa, e decidi passar pessoalmente lá, melhor do que ligar.

Era quase uma da tarde quando toquei a campainha. Minha tia me recebeu.

— Ei, Pedro! Que surpresa! Aposto que veio falar com a Luísa, não é?

Disse que ela estava no quarto. Fui entrando. Eu era da casa.

Tomei um susto quando a vi. O cabelo comprido dela havia sumido e se transformado numa penugem curta rente à cabeça.

— O que aconteceu com seu cabelo, prima? – não consegui me conter, falei do cabelo antes de cumprimentá-la.

Continue lendo “O velho – Elisa Ribeiro”

O plano B – Elisa Ribeiro

Marina chegou ao Café onde haviam combinado se encontrar com uns vinte minutos de atraso. Nisso, nos atrasos, ela persistia a mesma desde não sabia exatamente quando, na sua muito remota infância, percebera que chegar na hora ou atrasada, pra maioria das coisas, não fazia a menor diferença.

A porta do Café estava fechada. O mundo derretia do lado de fora no calor úmido, nauseante, do centro da cidade. Marina entrou afobada, úmida de suor por baixo da blusa branca de mangas três quartos que vestia apesar do calor. Esconder os braços convinha a uma octogenária. Dentro do Café a atmosfera era diferente: ar condicionado, luz suave, música ambiente. Num instante Marina sentiu-se outra, ela mesma de novo, naquele lugar agradável escolhido para o reencontro e um café antes da viagem.

Paulo reconheceu-a mesmo sem enxergá-la direito. A elegância sem afetação, a coluna ereta, o atraso. Nada além do tempo parecia ter passado. Marina examinou o lugar até avistá-lo sentado e sorrindo num canto

Continue lendo “O plano B – Elisa Ribeiro”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑