Múltipla Bia (Melisa Ribeiro)

Fui convidada a fazer
um texto para uma amiga,
achei melhor escrever
em forma de poesia,
o nome dela é Bianca,
mais conhecida por Bia,
mas não sou eu, reles poeta,
que falo sozinha por ela,
ela mesma é quem se narra,
nem precisei descobri-la.

Formada em pedagogia
no momento é professora,
mas em sua biografia
revela sem deixar dúvida,
entre tantas outras coisas,
que busca uma alternativa,
novos rumos, outra vida.

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O medo do irmão – Elisa Ribeiro

Foi aos sete anos que comecei a entender o que era medo. Não o medo real, de algo que existe e ameaça, mas o medo do que não existe, invenção de alguém para produzir um efeito. Ou um resultado. Medo real, só fui sentir bem mais tarde, entrada nos anos, numa situação que eu não gosto nem de lembrar.

Provavelmente era sexta ou sábado, dias em que mais ou menos tínhamos autorização para dormir mais tarde. Meus pais tinham saído e nós três, sob o cuidado desatento de nossa avó permissiva e despreocupada,  escolhemos assistir a um filme de terror na TV.  Não lembro o nome do filme, tampouco o enredo, só recordo que certo palhaço assassino era o protagonista da história.

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Aos seis, um papagaio (Melisa Ribeiro)

Naquela época eu ainda achava que podia confiar nas pessoas mais velhas, que os mais fortes protegiam os mais fracos e que tios e tias  eram uma espécie de segundos pais.

Pensava também que pequenos animais silvestres existiam para ser aprisionados em gaiolas de onde eu podia tirá-los para brincar quando quisesse. Havia me tornado fazia pouco tempo praticamente a   dona de um casal de hamsters enjaulados depois do meu irmão mais velho, a dono inicial, mudar de fase.

Quando o vi, vistoso, pousado num galho alto na goiabeira, fiquei imóvel, hipnotizada. Eu já sabia do que um papagaio era capaz. Nossa vizinha de frente na casa da cidade tinha um que falava  bastante e andava para todo lado, a ponta de uma das asas cortada,  pousado no ombro dela.

Desci do balanço e chamei: “curupaco-paco-paco!”. Levantei o braço e fiz com o polegar e o indicador aquele gesto universal de chamar animal. Ele desceu obediente para um galho mais baixo.

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O velho – MElisa Ribeiro

Sonho que se sonha só
é só um sonho que se sonha só

 mas sonho que se sonha junto

é realidade

 

Acordei suando, nervoso. Há tempos o maldito velho não me incomodava.

Olhei o relógio: vinte para as quatro da manhã. Não consegui pegar no sono de novo, medo de o pesadelo continuar. Sai da cama às seis. Só pensava na Luísa enquanto me aprontava para o colégio, precisava saber se ela também tinha sonhado.

Não consegui me concentrar nas aulas. Matemática, física, história, pior que um pesadelo. Lembrei que o transporte do colégio passava perto da casa dos meus tios, pais da Luísa, e decidi passar pessoalmente lá, melhor do que ligar.

Era quase uma da tarde quando toquei a campainha. Minha tia me recebeu.

— Ei, Pedro! Que surpresa! Aposto que veio falar com a Luísa, não é?

Disse que ela estava no quarto. Fui entrando. Eu era da casa.

Tomei um susto quando a vi. O cabelo comprido dela havia sumido e se transformado numa penugem curta rente à cabeça.

— O que aconteceu com seu cabelo, prima? – não consegui me conter, falei do cabelo antes de cumprimentá-la.

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O plano B – Elisa Ribeiro

Marina chegou ao Café onde haviam combinado se encontrar com uns vinte minutos de atraso. Nisso, nos atrasos, ela persistia a mesma desde não sabia exatamente quando, na sua muito remota infância, percebera que chegar na hora ou atrasada, pra maioria das coisas, não fazia a menor diferença.

A porta do Café estava fechada. O mundo derretia do lado de fora no calor úmido, nauseante, do centro da cidade. Marina entrou afobada, úmida de suor por baixo da blusa branca de mangas três quartos que vestia apesar do calor. Esconder os braços convinha a uma octogenária. Dentro do Café a atmosfera era diferente: ar condicionado, luz suave, música ambiente. Num instante Marina sentiu-se outra, ela mesma de novo, naquele lugar agradável escolhido para o reencontro e um café antes da viagem.

Paulo reconheceu-a mesmo sem enxergá-la direito. A elegância sem afetação, a coluna ereta, o atraso. Nada além do tempo parecia ter passado. Marina examinou o lugar até avistá-lo sentado e sorrindo num canto

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Faro – Elisa Ribeiro

Eram jovens comuns que carregavam, cada um dentro de si, um breve passado de amores sonhados ou modestamente ensaiados, de modo que começavam desse jeito comum o que mais tarde lembrariam terem sido suas vidas.

Quando se conheceram, entretanto, deu-se de pronto entre eles algo que antes  nunca haviam sentido. Uma atração fulminante, pressão que impelia um ao outro como se algo ou alguém de fora os juntasse, dessa forma a descreveram.

Havia também amizade e carinho, mas muito mais que afeição, atava-os  uma urgência, uma aflição  que a ambos enfeitiçava e  fazia crer ser a tal abstração a que se chamava paixão o que de fato os ligava.

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Carne Fraca – Elisa Ribeiro

Sentada no deck da piscina, as palmeiras entre ela e o mar, observou o marido sair de dentro d´água.

O cabelo louro, fino, escorrendo em torno das orelhas de abano, as pernas magras espetadas no calção folgado. À luz fraca do sol já quase desmaiado, pareceu-lhe mais amarelo do que a areia. Lembrou-se do mingau de aveia cinzento que ele tomara no café da manhã e dos melancólicos legumes cozidos comidos no almoço algumas horas atrás. Impossível ter músculos fortes ou a pele corada com aquele tipo de escolhas à mesa, era um fato.

Havia lido em algum lugar que à medida que o tempo passava os cônjuges tendiam a se tornar  parecidos. Agora que estavam casados preferia acreditar que aquilo fosse verdade. Oxalá  ele se tornasse parecido com ela, não o contrário.

Talvez fosse o bebê que trazia na barriga. Já ouvira dizer que às vezes a gravidez faz a mulher enjoar do marido. Sacudiu a cabeça para espalhar esses pensamentos. Era sua lua de mel, precisava sentir-se feliz. Derramou mais um pouco de cerveja no copo.

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Presente do passado – Elisa Ribeiro

De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

 

Querida filha,

Como você não atende minhas ligações nem responde minhas mensagens, resolvi tentar por restabelecer nosso contato por e-mail. É até bom, escrevo em português bem melhor do que falo atualmente.

Sei que a sua mágoa é grande. Entendo e respeito isso, mas não vou desistir e  peço, mais uma vez, uma chance.

Eu estaria sendo hipócrita se dissesse me arrepender das decisões que tomei no passado. Fiz o que podia fazer com os recursos que dispunha e a maturidade que eu tinha na época. Mas eu não gosto de falar do passado. O que me interessa agora é ter um futuro com você.

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Abraço de Natal – Elisa Ribeiro

Surpreenderam-se ao despertar, os dois ao mesmo tempo, pouco antes das sete. Haviam deitado tarde, só depois de concluir os preparativos para a noite feliz de Natal que vinham planejando, há dias, nos mínimos detalhes.

– Esquisito acordarmos tão cedo, Greg, depois de termos ido dormir tão tarde.

– Mais estranho ainda foi o sonho que nos despertou de madrugada. Está lembrada?

Pouco antes das quatro da manhã haviam despertado juntos, os dois  com o mesmo sonho. Acenderam a luz sobressaltados, tentativa de espantá-lo, não por ser assustador, mas por ser bizarro. Continue lendo “Abraço de Natal – Elisa Ribeiro”

A segunda natureza de Adriano – Elisa Ribeiro

 

Os olhos levemente estrábicos de Letícia brilharam ao ver sua imagem refletida no espelho. Vestido novo, cabelo arrumado, maquiagem perfeita. A festa era em uma embarcação, navegando pelo lago Paranoá noite adentro. Fazia tempo que estava sozinha, estava na hora de encontrar um novo parceiro.

Marcou com as amigas mais cedo num bar ao lado do ancoradouro. Tomava uma Margarita quando o coração disparou. O despertar de um antigo medo. Percebeu que não teria coragem de navegar sequer por uma hora, ainda que na tranquilidade daquele lago em noite de ventos calmos. Continue lendo “A segunda natureza de Adriano – Elisa Ribeiro”

Baleias e dragões – Elisa Ribeiro

 

Dois garotos andavam de skate uns cem metros adiante. Vi-os assim que sai pelo portão da casa da Duda. Passaria necessariamente por eles a caminho de casa.

– Tem certeza  que não quer almoçar com a gente, Julinha ? Depois minha mãe te deixa em casa.

– Precisa, não, Duda. É pertinho, eu vou andando.

– Obrigada por tudo, amiga – abraçou-me, emocionada.  – Você salvou minha vida mais uma vez – completou no mesmo tom dramático. Continue lendo “Baleias e dragões – Elisa Ribeiro”

Ninhada – Elisa Ribeiro

 

Era um sábado quando ela apareceu na quadra onde morávamos. Vagou por um tempo até escolher a sombra do pequizeiro na frente da nossa casa para descansar. Era feia, mal cuidada e parecia adoentada.

Sei que era sábado porque não era dia de escola. Fiquei observando da janela do meu quarto o jeito como ela perambulou pela rua antes de escolher a nossa casa, a única da rua onde não havia cachorro no quintal. Eu só tinha tempo de ficar assim, à toa pela manhã, nos dias em que não tinha escola. Continue lendo “Ninhada – Elisa Ribeiro”

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