Angústia – Iolandinha Pinheiro

Sentada no corredor do hospital Helena aguardava. A cadeira era do tipo que fica enganchada em um eixo metálico junto com outras igualmente desconfortáveis. De frente para ela uma sala de exame. Do lado de dentro uma pessoa inerte, alheia a tudo, mergulhava em seu misterioso mundo mágico.

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Abraço de Natal – Elisa Ribeiro

Surpreenderam-se ao despertar, os dois ao mesmo tempo, pouco antes das sete. Haviam deitado tarde, só depois de concluir os preparativos para a noite feliz de Natal que vinham planejando, há dias, nos mínimos detalhes.

– Esquisito acordarmos tão cedo, Greg, depois de termos ido dormir tão tarde.

– Mais estranho ainda foi o sonho que nos despertou de madrugada. Está lembrada?

Pouco antes das quatro da manhã haviam despertado juntos, os dois  com o mesmo sonho. Acenderam a luz sobressaltados, tentativa de espantá-lo, não por ser assustador, mas por ser bizarro. Continue lendo “Abraço de Natal – Elisa Ribeiro”

A Lição II – Sandra Godinho

Claro que uma fatalidade podia ser vista sob mais de uma luz.
Não fosse ter perdido o torneio de futebol naquele dia nunca
teria enfrentado a vida como devia de ser. Evidente que não havia
sido talhado para o esporte, por causa da gordura e da falta de ar,
mas eu me esforçava. Sempre me esforcei. Depois, tantas boas
oportunidades apareciam que bobo seria se não as agarrasse. Nunca
me arrependi. E a vida me sorriu com uma mulher dedicada, um
casal de filhos maravilhosos, amigos e viagens para o exterior. Mas
era com meu filho que eu dividia meu tempo. Uma noite, o menino
chegou todo entusiasmado da escola e veio falar comigo:
“Pai, a professora ensinou uma coisa legal hoje.”
“O que ela ensinou?” Continue lendo “A Lição II – Sandra Godinho”

Pão do Céu – Paula Giannini

Ingredientes

  1 Xícara (chá) de leite

1 Lata de leite condensado

200 Gramas de açúcar

Pão para rabanada, fatiado

3 Ovos

2 Colheres (sopa) de canela em pó

Óleo para fritar

— Quando crescer… — Eu explicava. — Quero ser chefe de cozinha. — Como vira no restaurante em que jantamos naquele Natal. Meu pai, minha mãe, meu avô, meu irmão e eu.

Na bancada, os ingredientes já estavam arrumados. Um a um. Lado a lado. Prontos para sua função. Compor o meu preferido entre todos os doces de todo o mundo. Ou ao menos do meu mundo.

O Pão do Céu da Vovó Beatriz. Continue lendo “Pão do Céu – Paula Giannini”

Estranha Sensação – Vanessa Honorato

À meia-noite Henrique acordou com o badalo do sino da antiga Igreja que ficava perto de sua casa. Virou para o canto e tentou dormir. Ouviu um barulho vindo do andar de baixo, levantou-se e foi à cozinha, onde encontrou a torneira da pia aberta e a água escorrendo abundante. “Devo ter esquecido de fechá-la”.

O sino tocou de novo e ele olhou no relógio. “Que estranho, não passaram-se nem dez minutos, este sino deve estar com defeito”. Voltou para seu quarto e fechou os olhos, tentando ignorar os trovões que anunciavam chuva. Continue lendo “Estranha Sensação – Vanessa Honorato”

Lá vem a Ventania – Renata Rothstein

E lá vem a ventania
Venta como ela quer
De onde veio? não sei
Sussurrou que lá de longe…
Será que do pólo norte?
Sei lá eu onde isso fica!
Veio assim, não sei de onde
Carregando gente bem forte
Danada a tal de ventania
Carrega o que ela quiser
Carrega caminhão carrega barco
Carrega até vaca e o mais que vier
Ventinho vindo tão ágil e ligeiro
Para ver quem voa primeiro
Ele às vezes carrega mulher
Mulher braba e encrenqueira
Que o sujeito já ‘num’ quer
Danado de um vento bravo
Que já vem fazendo favor
Está já a dona Serafina livre
De todo e qualquer perigo
Saiu voando pelo vento
O chato do Bastos, seu marido
Vento sem tempo e sem idade
Leva embora o chapéu do doutor
E dá cabo até na vaidade
E essa agora, distinto amigo
O danado já derrubou
Segura a saia, dona Maria!
Que o vento já arribou
Sua saia levantada
Acredite no que lhe digo
e digo porque sou amigo
Só não viu foi quem não olhou
Mas concorde comigo, lhe digo
O mesmo vento que destrói
É o mesmo que traz as “flor”!
O mundo girando ao relento
Eu só por só querer ser só
Girando e girando com o vento
Mundo lento mundo lento…
Ligeiro vento ligeiro mesmo
É o vento ventando verdade
Durando apenas um momento
Venha sempre de onde vier
Soprando por onde quiser
Só não diga que vai embora
Sem que eu diga o que é que é!
Lentos somos nós no mundo
Porém linda a vida é
E nisso é que acredito
E por isso eu sigo cantando
O vento vai assobiando e
Só não canta quem não quer
Eu canto acompanho o vento
Não desisto insisto e tento
Tenho a minha galhardia
Portanto já estou na estrada
Assim que mal clareia o dia
Me leva p’ra onde ele vai
Me leva pra onde ele quer
Eu sigo com a ventania
A minha vida é a montaria
E eu sigo é com a minha fé!
Renata Rothstein

Sobre Mistérios, Um Gato Amarelo, e Borboletas – Iolandinha Pinheiro

A menina mais excêntrica que já andou pela Alameda dos Pinheiros era uma albina de olhos cor de rosa. Assim como veio, foi embora, e muito se falou sobre ela nos anos seguintes.

Alice apareceu na porta da confeitaria como uma pequena assombração vestida de azul. Do cabelo às pernas compridas, calçadas em meias grossas e sapatos pesados, ela era toda branca, exceto pelos olhos de coelho e pela boca carmesim.

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Fome de Amélia – Juliana Calafange

 

Ela era magra, magra, magra, de marré marré marré. Era assim desde menina, o vento vai te levar, de tão magra, vara verde! Ninguém sabia como doía. Por dentro era Amélia, generosa e doce Amélia, que ninguém gostava, que ninguém sabia. Desde que os pais morreram emagreceu e ninguém mais gostou dela. Na escola, no parque, na igreja, até a família zombava. A tia, aquela sapa gorda e infeliz da tia, dizia, ainda bem que teus pais não estão aqui pra ver que você virou a ‘Miss Somália’. A tia ria, e ela chorava e todos da família riam mais ainda, viviam sempre a repetir, magra, magra, magra de ruim que é, desdenha da comida, ingrata que você é! Continue lendo “Fome de Amélia – Juliana Calafange”

Mudam-se os tempos – Ana Maria Monteiro

Sucedeu há uns anos.
Vem-me hoje à memória a propósito do dia da mulher.
É, no entanto, uma associação de ideias algo estranha. Mas conto a história na mesma.

Depois de uma longa estada em Madrid, onde estivera destacado por uns meses, regressava a casa, comodamente instalado num desses compartimentos de que, à época, estavam dotadas as carruagens de primeira classe daqueles comboios. Eu viajava junto à janela, de costas para a paisagem que, assim, surgia como uma permanente e um tanto monótona surpresa e ele, de frente para mim, também à janela, cujo cenário ignorava completamente, imerso que se encontrava na leitura do jornal, dava-me a estranha e um pouco incómoda sensação de o conhecer. Este “dejá vù” inicial foi adquirindo contornos de realidade até que já sabia perfeitamente identificar a sua origem. A probabilidade de não estar enganado era nula, pensava eu enquanto a certeza continuava a instalar-se em mim, de forma tão garantida que deve ter-se tornado quase palpável. Ele, pelo menos, sentiu algo e reagiu. Com o seu ar fora de moda, soergueu ligeiramente o olhar e fitou-me arqueando muito ao de leve a sobrancelha direita, numa expressão que me embaraçou e intimidou um pouco. Tinha um ar grave e respeitável, no seu fato antiquado e de bom corte que cobria um corpo rechonchudo. O chapéu de coco, completamente fora de propósito noutra criatura qualquer, acentuava-lhe o todo.

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A Ghost-writer – Sandra Godinho

(Inspirada por Catarina Cunha)

Segunda-feira, 31 de julho de 2017, 9:47hs

…Ele me agarrou pelo quadril e me puxou para perto de si, encaixando suas pernas entre as minhas coxas. Pude sentir seu hálito quente, seu perfume almiscarado, sua barba rala roçando meu rosto. Enfiei meus dedos por seus cabelos e o puxei para perto da minha boca que procurava a dele. Suas mãos apertaram meus seios, que se encaixaram em concha, segurando-os, puxando delicadamente meus mamilos com os dedos enquanto mordiscava meu pescoço. Ele sorriu com malícia, brincando com a língua experiente, circulando, deixando-me louca, indo e voltando, acompanhada por gemidos de prazer que iam ficando cada vez mais intensos à medida que ele descia pelo abdômen até chegar ao clitóris…

Essa semana escrevo uma novela erótica. Cinquenta tons de cinza, Cinquenta tons mais escuros, Cinquenta tons de liberdade fizeram uma legião de perseguidores. Os livros sumiram nas prateleiras em poucas semanas. Erótico vendia, erótico arregimentava leitores, erótico dava projeção. Sadomasoquismo nem se fala. O mundo andava doente. Eu também, gripe forte, quase pneumonia. Amoxilina custava os olhos da cara. Já tinha lido que uma professora sem qualquer pretensão literária ganhava um salário de marajá com seus escritos pornográficos no Wattpad. E agora vai publicar a obra impressa porque uma editora se interessou. Houve quem se interessou, acreditam? Inveja era uma farpa engenhosa que abafava mentes brilhantes e as não tão brilhantes. Mas seguiria o mesmo caminho se eu desse sorte… Continue lendo “A Ghost-writer – Sandra Godinho”

Ossos Largos – Paula Giannini

(de Paula Giannini)

—  Essa menina nasceu com os ossos largos.

A mãe alardeava às amigas, para o desespero de Amanda. O parto, normal, durara 12 horas de inominável agonia.

Dona Tilda era uma heroína, com direito a aplausos e piadinhas sobre a menina que nascera com 6 quilos e 900 gramas.

 Quase um recorde. Dissera o médico.

Quase um rinoceronte. As amigas retrucavam baixinho pelas costas, em um tom certeiro o suficiente para que a mãe não escutasse. Continue lendo “Ossos Largos – Paula Giannini”

Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira

Amanhã o espaço, não o tempo. Nutrirei meu corpo mais velho, com novas comidas, da roupa limparei o pó de cada dia, a mesma sede nos olhos, mais força. Em vão cansarei o corpo — andar, correr, dançar serão veículos de minha vibração, razão de meu pão. Existir por inteiro, ser capaz de atravessar o corredor com minhas pernas, com a energia de minha mente. Poderei… Eu quero. Continue lendo “Corra, Alícia, corra – Fheluany Nogueira”

A caçada – Sandra Godinho

 

Tempo fechando. Sol sem rasgar nuvem, chuva branca arriando no céu. Diacho de inverno trazendo desgraça, dificultando peixe. Família minguando de bucho vazio, só na farinha com água. As águas invadindo as terras, os bichos fugindo pros igapós, os peixes sem morder anzol. Ariscos, homens e animais na terra disconforme. Mais um avanço do chuveiro, a mata se afoga nas águas. Nem a maromba aguenta, matando boi, vaca, boiada inteira. O cachorro pirento, já é um quase nada. Nem dá mais sinal de onça, anta, calango. Sem sinal de vida, no morre-não-morre. Canarana alta triscando a canela, dificultando passo.

Continue lendo “A caçada – Sandra Godinho”

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