Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

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A COPA DE 1970 (de Lenise M. Resende) – Para Inspirar

Armando era um bom homem, muito amado pela família e amigos. Depois de sofrer três enfartes, precisava se cuidar e evitar emoções muito fortes.

Só que durante a Copa do Mundo não era fácil evitar emoções. Nos dias de jogos do Brasil, a família se preocupava, e a esposa acompanhava as partidas atenta as reações dele.

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Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga) – Para Inspirar

 

Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga)

 

No encontro com a equipe multifuncional, composta por médicos, cardiologista, nefrologista e geriatra, assistente social e psicóloga, a família mensurou o grau da evolução da doença do avô.

Naquela linguagem única de médico, depois de muito tentarem apaziguar o impacto do comunicado pelas palavras, o geriatra finalizou: “Para o vovô não encontramos meios medicamentosos ou intervenção cirúrgica. O caso pede que deixemos na livre escolha dele se continua ou não com a hemodiálise. Para diminuição do sofrimento, o ideal seria que o entubássemos, a compressão pulmonar chegará no agudo daqui alguns dias. Tudo será decidido por ele e por vocês.

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FELIZ ANIVERSÁRIO (de Luisa Geisler) – Para inspirar

FELIZ ANIVERSÁRIO  (de Luisa Geisler)

As tias permaneceram no carro, Sofia e a mãe só buscam o bolo, questão de minutos. Saem da confeitaria, a mãe carregando, com as duas mãos, a caixa. No banco do carona, Juliana, a prima, destrava as portas. Os óculos de sol, a janela aberta e a camiseta de mangas longas da prima são incompatíveis. Juliana emagreceu muito desde a última vez que ela e Sofia viram-se.

Enquanto Sofia planeja sua entrada no banco traseiro, Juliana ― no banco da frente ― ajeita as mangas longas.

As duas tias, ambas com IMC de classificação de, no mínimo, obesidade mórbida, empurram-se para que Sofia entre no carro, no banco de trás, ao lado delas. A mãe de Sofia insiste que ela coloque o cinto de segurança. Sofia coloca-o, ajusta a postura, sente o apertão no peito. Ajusta as pernas com dificuldade no banco de trás do carro, as tias grunhem a cada movimento. Apertam-se. A mãe coloca devagar a caixa de papelão no colo de Sofia. Mal a mãe vira-se para o volante, ela enche a filha de recomendações. A caixa gelada pesa no colo da garota.

Sofia mexeria mais as pernas se pudesse, se não tivesse um metro e oitenta. Um metro e oitenta que se tornaram um metro e oitenta só de pernas. O banco vibra enquanto a mãe liga o carro e dirige-se à casa de Juliana e da tia. Juliana permanece em silêncio, mexe nas mangas, puxa-as para cima das mãos.

As tias voltam à conversa em voz alta com a mãe de Sofia. Falam da festa. O calor deixa marcas de suor nas roupas de tecido estampado, na região das axilas. Sofia concentra-se no bolo dentro da caixa: o bolo da prima é bonito, sim. Confetes coloridos cobrem o bolo, o recheio tem camadas coloridas das cores coloridas do colorido do arco-íris. O bolo tem ― conforme a atendente chama ― uns três andares de glacê magenta. O peso pressiona as pernas de Sofia, machuca. As tias falam dos salgadinhos, da festa, dos convites, da decoração da casa, telefonemas, de quem virá à festa, de quem não virá, xingam os ausentes com palavrões.

― Mas nem por isso as pessoas tinham que deixar de comparecer ― diz uma tia. ― A gente não precisa se ver só em aniversários.

Sofia imagina que a mãe se esforce para ouvir as tias com os ruídos de carro, que entram pela janela escancarada de Juliana. A mãe, dirigindo, olhando as ruas, os carros, diz:

― É que muita gente se magoou. Acham que é coisa de gente mimada.
― E não vir quer dizer o quê?

Juliana pede, sua voz baixa, pede que mudem de assunto, que falem de outra pessoa. A tia baixa a voz, volta a falar dos salgadinhos de festa, do bolo escolhido colorido com colorido colorido colorido especialmente para a festa. Reclama de um farol onde pararam.

O carro abafa-se com a espera sob o Sol, calor, bolo úmido. As pernas da tia ao lado prendem, cada vez mais, Sofia entre a porta do carro e contra a gordura da tia. Sofia sente suas pernas mergulharem no tecido adiposo, a gordura da tia abraça o raquitismo de Sofia. Sofia respira fundo, sentindo o cheiro do aromatizador de lavanda, o cheiro de rua entra pela janela. Náusea. Falta-lhe ar, falta-lhe ar, todo o ar do carro, todo o ar das janelas escancaradas é supérfluo, falta-lhe ar dentro do pulmão, ela nunca encherá o pulmão de oxigênio por completo, falta-lhe silêncio.

Sofia inspirando e expirando, repetindo para si que tudo ficaria bem, a umidade do bolo atravessando a caixa atravessando a calça jeans até as coxas magras, até os ossos.

Juliana vira o pescoço para trás, o cinto de segurança impedindo-a de virar-se inteira. Juliana olha para Sofia por trás dos óculos de sol. Os óculos de sol cobrem metade do rosto e metade da expressão. Com um sorriso literalmente amarelo, Juliana diz com a voz baixa:

― Tá tudo bem aí contigo?

Juliana voltou para casa há apenas uma semana. A umidade do bolo atravessa a caixa e atravessa a regata de Sofia, gruda na barriga. Juliana perdeu tantas aulas na universidade, talvez o semestre inteiro, talvez reprovasse por faltas. Sofia sentiu a falta da prima durante Antropologia IV, quis dormir durante todo o pós-estruturalismo.

O celular tocara num dia de calor idêntico. Sofia lembrava-se que naquele dia vestira uma jaqueta de moletom sobre o pijama e passou calor no hospital sem poder tirá-lo. Sofia não se recordava se o calor pertencia àquele dia ou ao moletom. Mas o corpo inteiro suara. Parecia a Sofia que tudo aquilo fazia anos, mas foram semanas. Sofia, de férias, meio adormecida em casa, recebendo a ligação dos tios no meio da tarde.

Sofia lembrava-se que fazia brigadeiro de panela naquela tarde.

Chamaram Sofia e a mãe ao hospital. Sofia sujou o pijama, vestiu a jaqueta de moletom. Os tios deveriam estar em viagem, mas sentiram-se culpados de deixar Juliana sozinha. A família deveria viajar em conjunto, como sempre fizera. Voltaram. Na sala de espera, as lágrimas emolduravam os discursos de “e se…”, jogando as culpas em todos os lugares e pessoas. Sofia baixou a cabeça quando os pais perguntavam a ela por que Felipe, o namorado de Juliana, não atendia aos telefonemas deles. O médico acalmava-os, afastava as preocupações, deixassem Felipe de lado, o pior já passara, Juliana estava bem, estava ali.

Quando eram pequenas, Sofia e Juliana gostavam de dançar atrás da casa, perto da árvore. A tia derrubaria a laranjeira para aumentar a garagem. Juliana chorou trancada no quarto ao saber da laranjeira.

Juliana sempre foi sensível demais.

O farol abre. Sofia sorri. O carro vibra com o movimento do motor, movimento das ruas. O cheiro de suor que vem das tias e dela mesma não a incomoda. O mormaço do carro, a umidade que Sofia lança na camiseta regata dela, em sua testa, em torno de seu cabelo loiro preso num curto rabo-de-cavalo, nada daquilo a incomoda. O bolo pesa no colo. Juliana acabou de perguntar se está tudo bem lá, com Sofia, com Sofia e Juliana, a sensível Juliana, sem Felipe, mas com Sofia e Juliana e Sofia sorri:

― Tudo ótimo.

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O motivo da escolha 

Pensei que seria interessante conhecer o trabalho de uma escritora tão jovem e já premiada.

Sobre a Autora

Luisa Geisler, jovem escritora gaúcha venceu, aos 19 anos, o Prêmio Sesc de Literatura de 2010, na categoria conto, pelo seu livro Contos de Mentira (2010), também finalista do Prêmio Jabuti, no mesmo ano. Em 2011, ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance com Quiçá (2011). Além desses dois livros premiados, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014). Dentre as escritoras brasileiras contemporâneas, Geisler é uma das poucas que teve grandioso destaque ainda tão jovem.

Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir. Continue lendo “Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar”

Para inspirar – SERVO FIEL (MÉRCIA FERREIRA)

Ibraim abandonou o carro que apresentara problemas na estrada, e decidiu seguir a pé, sozinho, naquela madrugada fria e cinzenta, portando apenas uma lanterna. Já havia percorrido cerca de dois quilômetros, quando, em meio ao asfalto da rodovia, encontrou uma mancha enorme de sangue. Ele ajoelhou, conferindo que a poça de sangue que encontrara era fresca. O medo tomou conta do seu corpo magro, fazendo arrepiar todos os pelos do seu ser. Sua mente o incitava a correr dali. Quem quer que tivesse feito aquilo, poderia estar ali ainda, de campana, no mato. Mas suas pernas pareciam barras de chumbo, pesando e o impedindo de correr.

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Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,

Osmose lenta.

Boca entreaberta como se bebesse,

Cabeça atenta.

 

Rosto desfeito,

Rosto sem recusa onde nada se defende,

Rosto que se dá na angústia do pedido,

Rosto que as vozes atravessam.

 

Rosto derivando lentamente,

Pressentimento que os laranjais segredam,

Rosto abandonado e transparente

Que as negras noites de amor em si recebem.

 

Longos raios de frio correm sobre o mar

Em silêncio ergueram-se as paisagens

E eu toco a solidão como uma pedra.

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Para Inspirar: Maternidade (Kátia Muniz)

Quando uma mulher diz que optou por não ser mãe, eu respeito a escolha e não estendo o assunto com questionamentos ou ponderações. Nem todas nasceram para a maternidade. Carregamos o potencial de gerarmos a vida, mas nem sempre se tem a vocação.

Porém, a opção pela “não maternidade” deve ser pensada e repensada para que não haja arrependimentos futuros. Dizer “não” é uma escolha, desde que ela não venha acompanhada de culpa.

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Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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Para Inspirar – A Bela Adormecida (Martha Angelo)

A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante, uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas…
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — Suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — Imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.

A vida ia passando também.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

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