De vidro – Paula Giannini

Que o mundo não era chato, era tudo o que queria provar. E iria. Custasse o que custasse. Levasse o tempo que levasse. Ora, não era plano… Não só. Por que é que os outros insistiam naquela história? Não havia razão para discordar, diziam. Bastava olhar para cima, para os lados, e pronto, lá estava o céu, plano, o horizonte, reto, com seus cantos e arestas simétricas de ângulos perfeitos.

Era chato.

E ponto.

Plano.

Não era.

Não para ela. Tampouco para sua imaginação. E, se plano, o seu, era provar aquilo que intuía desde sempre.  A vida era bem mais que o horizonte onde a vista alcança. Estava decidida. E iria experimentar sua teoria na próxima abertura.

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Hamster – Paula Giannini

Tic.

Às quatro-e-trinta começa o giro.

Roda-gigante, roda-da-vida, um olho no sonho, o outro na tela, enquanto brilho do relógio arrebenta lhe a retina.

Bom-dia.

Mau-dia.

Não há outro jeito. Não para você. Que se a noite é curta, seu tempo é ainda menor.

No quarto ao lado as crianças dormem, graças a Deus que é pai, mas que devia ser mãe.

Mãe.

Porque pai é duro. Pai é fúria, é temor.

Para que será que serve, Deus meu, deixar que seus filhos passem por tanta prova, por tanta dor? Para que será?

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Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir. Continue lendo “Distâncias – Carola Saavedra – Para Inspirar”

Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

Ingredientes
5 cl de Gin – 3 cl de xarope de rosas – 1,5 cl de Triple Sec. –
2 cl de suco de limão – Gelo

Ela dormia tarde. Gostava de ter uns minutos para si. Mesmo exausta, mesmo após o dia longo e cheio de trabalho. Abria a janela e subia pelas escadas externas do prédio até a cobertura. Quase iguais às que vira em filmes durante toda a infância. Quase iguais às que um dia sonhara ter, em um prédio do outro lado do mundo, em um país distante e cheio de oportunidades. De trabalho. E já lá em cima, no topo do mundo, como gostava de dizer, fumava um cigarro apreciando a cidade envolta em névoa. O último do dia. Sem pressa. E brincava com a fumaça, fazendo bolinhas no ar, enquanto via vésper desaparecer, ofuscada pela luz do sol.
Ele acordava cedo. Gostava de ter um tempinho só seu antes de sair. Respirar fundo como aprendera quando criança. E tomar seu chá, bem quente. E com cuidado para não queimar os lábios, assoprava devagar, sem se importar com o vapor que, subindo, embaçava seus óculos. Gostava do efeito de refração da luz nas gotículas que se formavam na lente. Adorava o ar desse país. A luz. Fascinara-se logo no primeiro dia, quando chegara para nunca mais partir. Talvez por isso tivesse o hábito de se deixar assim, quase em meditação. E sem pressa alguma começava o seu dia, observando vésper desaparecer, ofuscada lentamente pela luz daquele sol.

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Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo — como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter. Continue lendo “Para Inspirar – Os anões (Verônica Stigger)”

Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve. Continue lendo “Ovos Nevados – Paula Giannini”

Musa – Paula Giannini

Existe uma teoria que suspeita o universo como uma bolha. Não o meu, não apenas, mas todos. Sim, outros, pois que para esta suposição, há tantos mundos no cosmos quanto bolhas em uma garrafa de espumante. Para ela, a tal teoria, meu universo, nada mais é que uma destas incomensuráveis e frágeis bolinhas, vagando errática, flutuando em um tipo de sopa cósmica, e densa o suficiente para que eu viva, inocente e desavisada, acreditando ser única, até o fim de minha existência. Ou melhor, até o fatal dia em que, outra dessas bolhas, entrando em rota de colisão com a vizinha mais próxima, eu, se fundirá a esta sem nem ao menos perceber que foi atingida, que desapareceu, que já não é, ou, que ainda é, mas outra, maior e totalmente diferente da original, de ambas. Continue lendo “Musa – Paula Giannini”

Com a ponta dos dedos – Paula Giannini

Dessa forma aprendeu a descobrir o mundo desde pequena. Gostava de passar a mão na superfície lisa da mesa e subir os dedinhos pela borda do prato até circundá-lo por inteiro. Só então metia o indicador para sentir a temperatura da sopa e procurar dentro do caldo as letrinhas de macarrão acrescentadas à janta pela mãe.

Mãe! M… A… E…

– Cadê o til? –  . Não havia. E sem til, mãe não era mãe, mas mae.

E mae não era uma palavra. Mae não significava nada, e assim a sopa não tinha graça. Palavra que, aliás, também não havia, já que o fabricante da massa se esquecera de acrescentar cedilha ao C…

Não. Continue lendo “Com a ponta dos dedos – Paula Giannini”

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