Diana – Priscila Pereira

Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam estavam quase em extinção. As Ondinas tomaram o poder por um momento de fraqueza do povo do fogo. Outrora poderosos, deixaram-se enganar pelo orgulho, desprezaram os demais elementos, então foram derrotados. A montanha sagrada foi apagada e os filhos do fogo caçados e mortos. Os que sobraram se esconderam e deixaram seus poderes de lado. Agora quase não havia mais chance de equilíbrio. Tudo estava molhado ou úmido.  Até a alma das pessoas juntava bolor.

Diana nasceu debaixo de um chuvisco fino, perpétuo, que impregnou seus ossos trazendo dores que nenhuma criança deveria sentir. Cresceu em meio aos fungos e musgos. Algo dentro dela se rebelando àquele tempo. As dores se intensificavam a cada ano completado. Uma ardência, como metal quente mergulhado em água gelada. Borbulhava.

Assim que completou quinze anos de dores e desespero, descobriu o motivo de tanto sofrimento. Um pouco antes do meio dia seus pais a levaram por um caminho subterrâneo até um salão escuro e abafado. Logo algumas pessoas chagaram, mais silenciosas do que a neve que caia nas montanhas. Viu que entre os presentes estava Leon e seu sangue ferveu, assim como, quando viu pela primeira vez seu sorriso, tão quente quanto deveria ser o sol. Sentia todo o corpo esquentar quando o sorriso era direcionado a ela e com o tempo passaram a ser tão frequentes quanto às chuvas. Ficou feliz com a presença dele, seria mais uma coisa que teriam em comum. Quando o último dos convidados chegou, fecharam as portas e deram início ao ritual.

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Perfume no elevador – Priscila Pereira

Letícia voltou para casa irritada, novamente, já havia se tornado um hábito. Não suportava os clientes irritantes que atendia na perfumaria do shopping, o trabalho era mal remunerado e opressivo, sentia falta do ar puro do campo, estava cansada das frescuras do povo da cidade grande. Essa inquietação, que ela atribuía ao descontentamento com o emprego, tinha outras causas, que ela sabia muito bem, mas se recusava a dar o braço a torcer. Continue lendo “Perfume no elevador – Priscila Pereira”

Sol de inverno – Priscila Pereira

 

As manhãs de inverno, para mim, são sempre as melhores. O ar, entrando gelado para os pulmões e saindo em forma de vapor. O sol tímido, com sua luminescência dourada e sua capacidade de queimar reduzida. Morno, eu diria. Esse equilíbrio da natureza me encanta, sol de inverno é sempre o melhor.

Nesses dias minha mãe sempre coloca vários agasalhos em mim, blusas de lã, por cima do pijama, calça de moletom, meias de lã, feitas por ela mesma, casacos e cobertores, sem falar na touca e nas luvas. Nem se eu pudesse, conseguiria me mexer. Mas eu gosto assim, sinto-me protegida. Ela coloca minha cadeira no quintal, perto da goiabeira. Sinto o cheiro adocicado das goiabas, vejo os passarinhos disputando pelas frutas mais maduras, eles não se importam com a minha presença, já estão acostumados com a menina estátua que vem visitá-los todos os dias.

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Querido avô, – Priscila Pereira

O senhor se lembra da promessa que minha mãe lhe fez muitos anos atrás, de cuidar dos seus irmãos mais velhos, solteiros, quando não pudessem cuidar de si mesmos? Pois então, fico feliz em informar que ela vem cumprindo à risca essa promessa e agora que ela já não é mais uma moça, estou dando continuidade a esse compromisso. Devo enfatizar que não tem sido fácil cuidar de meus tios avós e, conhecendo seus irmãos como ninguém, o senhor há de concordar comigo.

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Obsessão – Priscila Pereira

Abrigado no interior de meu carro, observei as pessoas que passeavam pela praça, tentando imaginar de onde estariam vindo, para onde iriam, se tinham família, amigos. Olhei atentamente sua fisionomia, as mais felizes sempre me atraíam, levavam-me a pensar que conseguiram tudo o que queriam da vida, tudo o que haviam planejado.  Infelizmente não conseguia achar pessoas felizes com tanta facilidade, já passara das cinco horas da tarde e eu não havia encontrado ninguém ainda. Continue lendo “Obsessão – Priscila Pereira”

O espelho de Morfeu – Priscila Pereira

    Era a primeira noite que passava em minha nova casa. Minha primeira casa; agora sim podia me sentir adulta. Comprei um casarão antigo, já mobiliado, que precisaria de inúmeros reparos e reformas, mas ao invés de desânimo pelo trabalho e dinheiro que isso custaria, me sentia animada pela aventura.

    Escolhi um quarto que me chamou a atenção pela elegância superior. A janela estava aberta e um leve vento balançou as cortina de renda, que refletiram em um antigo espelho, curiosa, fui até lá e examinei cuidadosamente, era oval com moldura de bronze envelhecido, onde se viam figuras que deduzi se referirem ao deus grego Morfeu. Continue lendo “O espelho de Morfeu – Priscila Pereira”

O nascimento de uma mãe – Priscila Pereira

 

Quando percebi o resultado positivo no teste de gravidez, eu chorei. Não foi de alegria. Não, não foi de tristeza também. Foi de medo. Meu marido perguntou se eu não estava feliz, afinal, depois de seis anos de casados, iríamos ter nosso bebezinho. Ele não entendia. Como poderia entender? Como eu iria explicar que naquele momento eu morri? Não, não estou exagerado. Naquele instante em que vi os dois pauzinhos indicando que eu estava mesmo grávida, tudo que eu conhecia, minha identidade como mulher, meu estilo de vida, meu conforto e tranquilidade morreram. Dali pra frente eu iria ser gestada para uma vida nova e desconhecida e então, quando o bebê nascesse, eu iria nascer também. Uma mãe, novinha em folha. Continue lendo “O nascimento de uma mãe – Priscila Pereira”

Poema ao vento – Priscila Pereira

Um vento forte, cheirando a hortelã, bateu em meu rosto, esvoaçou meus cabelos e trouxe voando um pedaço de papel. Nele li um poema:

“O mesmo vento que traz a tempestade
Leva o rancor e a melancolia embora.
O mesmo vento que traz o perfume das flores
Leva embora o choro de roubados amores.
Deixe o vento soprar, abra o seu coração
Se sorte tiver, um furacão entrará
Transformará a paisagem, como após a tempestade.”

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