vou tentar nascer hoje – Sabrina Dalbelo

É ano novo. É hoje. Vou tentar nascer hoje.

Na semana passada, em outra cidade, tentei, mas logo sucumbi.

Na verdade, era pra ter nascido há doze anos, desde que alguém me puxou de dentro da mulher que me carregava, revelando minha pele, meus ossos e carne ao mundo, e desde que o ar se assoprou para dentro de mim, forte, de uma vez, rasgando meus pulmões, de rompante.

O ar me inundou naquele dia, mas eu nunca estive tão sozinho.

Se nascer é simplesmente respirar, talvez eu esteja vivo desde aquele dia. Mas… isso não importa. Eu não considero ter nascido de verdade.

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Café – Evelyn Postali

Você nunca sabe o que esperar das pessoas. Aquele, por exemplo, vem de vez em quando, pede um café cortado, não diz bom dia, nem obrigado. Entra mudo, sai calado. Aquelas duas, na mesa do canto, vêm ao cinema, param para o lanche e discutem o filme até a exaustão. Nesse universo da cafeteria, aparece de tudo um pouco.

E essa que está falando com você sou eu, analisando a clientela da cafeteria. Todos os dias os tipos mais estranhos sentam-se para um café.

Esse aí, sentado à minha frente, com olhar fixo nos meus cabelos é o Roberto. Ele vem aqui todos os dias, praticamente no mesmo horário. E, quase sempre, sou eu quem serve o café para ele. Eu preparo o pedido com cuidado porque ele segue cada ação minha até a xícara ser colocada à sua frente. Não quero que nada dê errado, especialmente porque ele me trata muito bem. É gentil, educado e simpático. Diferente de outros exemplares estúpidos. Eles sentam como se tivessem direito de deixar sair pelos poros a falta total de respeito e cuidado para com quem os serve.

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Ponche de Maçã – Paula Giannini

Ingredientes

Comprar 1 litro de Sidra espumante para o ponche, que a Maria adora.

2 litros de guaraná.

1 cacho de uvas.

E maçãs 5.  3, grandes para cortar em cubos de gelo a gosto

 

Comprar uma agenda nova que a velha desapareceu.

E flores para Maria. Amarelas, suas preferidas.

Comprar fita vermelha para um laço bem bonito. Dourada.

E lentilha. Hoje é ano novo e na televisão disseram que isso dá sorte.

Passar na feira.

Trazer frutas.

Bananas. Maçãs.

E uvas para a Maria, que ela adora.

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Ascalapha Odorata – Fheluany Nogueira

 

Eu vou insistir sem descansar …
É uma história sem fim
Meu amor é sobrenatural
(Shakira)

Adela nunca esqueceu a verdade básica acerca da criação: o mundo não é o inimigo, tampouco é matéria inerte e muda. Enrustida e reservada, ela vivia sob um código:

— A Terra e todas as coisas vivas compartilham força vital. O universo é mais do que vemos, é uma teia de seres interligados, como irmãs e irmãos do todo.

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O Jogo de Damas – Sandra Godinho

O tabuleiro.

Mais de dois milhões de pessoas na praia preparam-se para a virada. No palco, montado em frente ao Copacabana Palace, Cidade Negra. Negra como o véu da última noite do ano. Belo. O maior espetáculo do planeta. Anita, com seu ‘Vai Malandra’. A última noite do ano é uma cadela no cio. É uma lacuna a ser preenchida com outras formas. Na areia, copos de plástico se erguem cheios de cidra e cevada para espantar o sono. E o grito, que quer escapar. O mijo também escapa. O alívio é sentido no calcanhar. Cálido. Casto. Feito de urgências. O rio amarelo escorrendo. Nojento. Nojenta. Não há banheiro químico que chegue. Só chega o foguetório espocando. E os rojões que explodem os latidos dos cães na vizinhança na espera infinita que, de repente, finda. 5, 4, 3, 2, 1. Começou! Continue lendo “O Jogo de Damas – Sandra Godinho”

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