I Love SP – Rose Hahn

A moça do balcão, embonecada no modelito laranja madura, informa que o voo vai atrasar só trinta minutos. Peço um pão de queijo. Credú! O preço está nas alturas. Faço o sinal da cruz e embarco no buzu aéreo.

O manete do motor está devidamente posicionado para as manobras de descida; o sujeito ao meu lado abana da janelinha para um senhor de poucos dentes, sentado no sofá da sala do minúsculo apartamento, espremido em meio aos prédios que abocanham o Congonhas.
Já enviei e-mail ao governador deste estado manifestando repúdio pela gabolice dos passageiros, que bisbilhotam a privacidade de lares de gente humilde e meio surda dos zunidos no céu. Clamei às autoridades a remoção do aeroporto à área digna e descampada de edifícios; aproveitei e conclamei também à redução do preço do pão de queijo.
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A mulher do quarto ao lado – Rose Hahn

Flora passeou a mão ornada de dedos longos e finos nos cabelos amarelados, de corte retrô; pinçou fios avulsos atrás da orelha enfeitada com enormes argolas douradas – um tanto desproporcionais no rosto arredondado e miúdo. O suspiro de hálito quente esquadrinhou o quarto habitado por livros e mais livros, amontoados em prateleiras gigantes, jogados na cabeceira, disputando espaço com as roupas no armário.

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Devoção – Rose Hahn

A vidinha pachorrenta entrou cambaleante no mês de abril. Aguardo o milagre da profundidade empanturrando-me de chocolate. Os botões do suéter xadrez estão gastos do ruminar melancólico de uma existência imponderável. Amizades rasas, casamento raso, tal qual o prato raso remexido de garfadas apáticas. O menino Jesus bem que podia me inspirar com esse negócio de ressureição.
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Mampituba – Rose Hahn

– Mãe, onde fica Mampituba?

Ela olhou pela janela. Os postes na estrada viajavam apressados. Estavam a pelo menos 200 quilômetros de distância do rio que divide os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, subindo em direção a Serra Gaúcha. Pensava de onde diachos o guri ouvira falar do rio Mampituba, quando a atenção desviou-se para a gritaria no fundo do ônibus. Continue lendo “Mampituba – Rose Hahn”

Os olhos de Maria – Rose Hahn

O diagnóstico precoce, e o avanço esfomeado da doença, não desvaneceram a minha determinação e a alegria de viver. Passei dois anos enxergando manchas esbranquiçadas, enquanto seguia titubeando pelas paredes e confiante na lista de espera.  A nebulosidade do meu olhar enxergava as cores do arco-íris impressas nas recordações da mente.

Quando abri os olhos, vi um mundo desconhecido. Agora só tenho olhares para a negritude da sua alma.

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