Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo

Eu a conheci quando tínhamos apenas nove anos. Éramos crianças inocentes e não tínhamos a menor noção do que o destino nos reservava.

Ela tinha um cheiro de cravo. Eu amo cravo até hoje por isso.

Ela e seu cabelo vermelho, radiante, de andar apressado e pouco assunto. Ela queria mais era brincar, pular e agir como se não houvesse amanhã. Era feliz e sabia disso.

Eu sempre fui mais tímido, perguntava menos do que ela sobre as coisas da vida, mas estava sempre à disposição dela.

Ela se lambuzava no barro e eu saía correndo para pegar um balde d’água. Ela raspava a perna na cerca e eu corria para pegar o curativo, ela cantarolava e eu assoviava ao fundo.

Ela gostava de mim. E eu gostava muito dela. Muito.

Brincávamos pela manhã e, durante o almoço, trocávamos olhares pelas janelas de nossas casas, que eram vizinhas. À tardinha, após a aula, nos reencontrávamos para um papinho. Eu ficava pouco, pois sempre tinha muita tarefa, mas ela eu não sei, pois às vezes eu a via na rua, esvoaçando a saia vermelha do uniforme, aparentemente sem compromisso.

Íamos crescendo e a vida ia nos apresentando cada vez mais atividades.

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O Bom Rei nos ensinou tudo – Sabrina Dalbelo

No meu mundo temos ofícios, responsabilidades e afazeres. Todos somos treinados para cumprir as ordens reais.

O Rei é bom e lhe obedecemos com alegria e esperança. Ele nos ensina tudo!

Quando realizamos nosso trabalho de forma satisfatória, nosso supremo nos concede o luxo da comida, da moradia, da confraternização e o da própria luz.

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CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo

Minha Sacerdotisa,

Tenho pensado em tudo o que ocorreu. Estou ciente de que passaste a viver em meio ao horror e no isolamento. Todavia, não posso deixar de reconhecer a mulher que eras. Creio que essa fêmea desejável ainda exista por detrás desses muros petrificados que te rondam e por debaixo dessas serpentes perniciosas que te prendem à monstruosidade.

Persisto firme na minha decisão de condenar-te ao vazio, pois ainda não suporto que tanta beleza, como a tua, fosse conferida pelos deuses a uma mera mortal.

Poseidon começou a me falar de ti e eu não sei quem eu passei a odiar mais, se ele ou tu.

Não pude acreditar que vocês dois cederam à tentação justamente embaixo de meu próprio teto, na minha casa sagrada. Até aquele momento, tu me idolatravas e ele me desejava. Pouco depois, eu já não tinha mais nada. Feriu-me a honra tamanha traição, sobremaneira porque banhada a suor carnal de ambos. Continue lendo “CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo”

vou tentar nascer hoje – Sabrina Dalbelo

É ano novo. É hoje. Vou tentar nascer hoje.

Na semana passada, em outra cidade, tentei, mas logo sucumbi.

Na verdade, era pra ter nascido há doze anos, desde que alguém me puxou de dentro da mulher que me carregava, revelando minha pele, meus ossos e carne ao mundo, e desde que o ar se assoprou para dentro de mim, forte, de uma vez, rasgando meus pulmões, de rompante.

O ar me inundou naquele dia, mas eu nunca estive tão sozinho.

Se nascer é simplesmente respirar, talvez eu esteja vivo desde aquele dia. Mas… isso não importa. Eu não considero ter nascido de verdade.

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Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo

Envolto a um coração amargurado em que não brota nada, como solo árido, constante e frívolo, o corpo vagueia como zumbi sem destino. Coração seco não dá pernas firmes para o sujeito. Coração duro abatuma sentimento. Vê-se um corpo sem semente, em que não brota nada.

Lá no solo do sertão, dizem, não brota nada também. Mas não é por falta de sentimento, é porque a água se esqueceu de escorrer por lá. Não é culpa do corpo que não tenha água, só é culpa do corpo a falta de sentimento. Continue lendo “Da água que rega o corpo – Sabrina Dalbelo”

A poesia, o sangue e o lixão – Sabrina Dalbelo

Ela amanheceu poesia. Estava inchada mas o sangue rimava com cor e com vida. Pedia aos céus uma estrela para encher sua casa de alegria. Sentir-se dentro de um balde vermelho e ardido não era de todo ruim. Em um canto da sala uma bela arte profana. Uma estátua de uma figura feminina de pernas abertas e cabeça tombada, em gozo. Ela olhava para a estatueta e pensava no próximo mês e na menstruação que, queria, não viesse. Pelo outro lado da rua o lixeiro passava em rasante, casa por casa. Os recolhedores corriam. Os recolhe-dores corriam. Eles corriam e jogavam os restos de coisas na caçamba. Jogavam restos de pessoas, restos de casas e sonhos desfeitos. Continue lendo “A poesia, o sangue e o lixão – Sabrina Dalbelo”

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