Quando escapou… (Sandra Godinho)

Quando escapou…

Quando escapou-lhe as lágrimas ficou mais leve.

Ele sentiu de imediato a leveza no corpo frágil de inconfessáveis segredos. Fugiram-lhe à face, simplesmente, cansadas de rolar por bochechas que se negavam a sorrir, fugiram-lhe à causa de uma maturidade cansada que deixava sulcos profundos no rosto, traços marcantes de um mapa que somente ele decifrava devido aos anos de vivência. Secaram, desapegadas de posse, descuidadas de afeto. A tristeza quando é demais, reivindica a insensibilidade como couraça, um truque usado por muitos para continuar vivendo além das perdas que sempre são demasiadas num velho de 85 anos. Já tinha velado muitos, já tinha enterrado outros tantos, as velhas carpideiras não lhe faziam frente. Queria agora tratar do presente, mas o passado sempre vinha lhe cobrar o passe. A posse. E quanto mais se distanciava, mais perdido no passado ficava. Cansado, arrancou uma flor vermelho-tinto de uma campa próxima e sentou-se no banco para viver de memórias. Um pouco apenas, não muito. Permitiu-se ficar em abandono, como se assim se redimisse dos silêncios e então

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Bomba alienígena – Sandra Godinho

Tique

Taque

Uma célula dentro do cosmos de um universo qualquer que por acaso é o meu universo de tempo e espaço só universo de dentro e fora meu universo que só se multiplica só e você pensa vou morrer eu sei que vou morrer algum dia alguma hora mas não tem que ser logo mas não tem que ser já e eu sei que uma célula se entranhou nesse cosmos que não é um cosmos qualquer mas o meu cosmos em plena surdina sem fazer alarde sem fazer barulho e se instalou e estancou lá dentro e se estratificou nos meus extremos e estremeceu e me estremeceu e eu no meu universo de tempo e espaço penso que nada está bem porque tenho noção de que a célula se desenvolve anos-luz e só e as leis da física não se aplicam à nova célula e dois seres podem ocupar o mesmo lugar no tempo e no espaço e a célula se reproduz e se desenvolve alienígena e só é um corpo estranho no meu corpo de sangue e carne e é um corpo estranho no meu corpo santo estreitado de vida que agora está alienado e aliciado para gerar outras células e dar alicerce a um ser que eu ainda não sei o que é e nem quem é e o que vai ser porque eu ainda não sei ou sei que aqui dentro é feito uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento e destruir o meu cosmos e o meu tempo e espaço e eu entro na banheira cheia de água e quero submergir e é isso eu quero ficar debaixo da água até que a água me leve não da banheira mas dos olhos que se encharcam com o ser alienígena que cresce aqui dentro sem que eu tenha qualquer controle sobre ele e o tique e taque está correndo sem parar e dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço e cresce e se desenvolve e eu não tenho mais controle sobre nada e eu pareço enlouquecer e não consigo parar de pensar que posso explodir e posso implodir e o meu cosmos não será o mesmo se eu não conseguir tirar essa célula que já não é mais uma mas um nódulo maligno que se transforma em vários nódulos que começam a viajar no meu universo sem pedir licença e eu não quero pensar mas já penso e não quero morrer mas já morro e não quero pirar mas já piro e não quero morrer sem viver mas não sei viver assim com essas células alienígenas que se apoderaram do meu corpo e do meu cosmos sem que eu possa cuspi-las fora porque já não há volta e eu penso em cortar o mal pela raiz aqui mesmo nessa banheira cheia de água que não me lava nem me leva nem me lambe só lamenta e eu lamento as lâminas lambuzadas de sangue envenenado por células malditas que foram para o laboratório para a biópsia que me condena só e eu condenada já cumpro pena por meus pecados enquanto eu aqui dentro da banheira  cheia de água me lembro de andar de mãos dadas com meus filhos sem conversa alguma só com a mão na mão e me lembro de dormir de conchinha com o marido sem nunca me separar das suas mãos grandes demais e do seu coração grande demais que nunca me deixou na mão que eu espero que agora ele segure meu mundo que está querendo sumir aqui com os olhos salivando lágrimas com a hipertensão fodida e com as ideias orbitando fora da cabeça e então o marido bate de mansinho do lado de fora e o meu cosmo invadido e em guerra se desloca até a porta e abro e ele avança dentro do meu mundo em ruína e me aperta nos braços e me aperta nas mãos grandes demais e então sei que ele companheiro vai me segurar em suas mãos grandes e não vai deixar meu mundo desmoronar nem por nada nem por tudo e então eu sei que meu universo de tempo e espaço meu universo se multiplica fora como dentro numa paz também alienígena e sei que tudo vai ficar bem.

Tique

Taque

 

 

 

A vida como ela não é – Sandra Godinho

Cocó… Cocó…Cocó…Cocó…

O barulho começou de madrugada. Nos meandros das sombras, como uma péssima dose de filme noir. Ou policial. Ou o raio que o parta. O fato foi que ele surgiu com tal magnitude que não me deixou mais dormir. E me aporrinhou o juízo. E eu me senti explodir. E vi minha vida sendo entupida de outras vidas. Uma galinha. Do vizinho. Ainda sem ovo amarelinho, com sorte. Praguejei. A gente pensa que conhece tudo, que vai fugir e ficar livre, mas não fica porque o destino é pior que praga de gafanhoto. E te segue feito sombra, mesmo durante a noite que já se findava. O marido ao lado, roncando com a boca aberta, baba saindo pelo canto da boca e se esparramando pelo travesseiro. Nem piscava. Só. Eu, no meio do quarto escuro. Eu e a galinha.

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Entre o ser e o sonhar – Sandra Godinho

 

Pobre Maria. Eu disse a mim mesma assim que senti o filete de sangue descendo pela coxa. Não sabe que o mundo te engasga com promessas de amor? Não sabe que são poucos que o receberão? Não sabe que a vida é feita de tragédias? Um covarde batendo na mulher, um vagabundo satisfeito com o incesto cometido, um patrão avançando em lençóis emaranhados no meio da noite, o cheiro de sexo incapaz de devolver a insipidez anterior. Não era ingênua. Tentei a todo custo parecer limpa, para não chamar a atenção da patroa. E assexuada, para não chamar a cobiça que já se estampava na face do patrão toda vez que cruzava a sala com balde e escovão. Limpar a sujeira que pairava nos cômodos. Um incômodo. Nem toda sujeira era fácil de sair. Continue lendo “Entre o ser e o sonhar – Sandra Godinho”

A Ajuda – Sandra Godinho

De: Lea Bernardi (leabernardi@hotmail.com)

Enviado: terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Assunto: Lucca

Para: Paulo Gomes (paulo.gomes@outlook.com)

 

Olá, Paulo!

Se você está lendo esse e-mail é porque a curiosidade se tornou maior que o ódio, o que é  bom. Sinal de que a raiva decantou depois de dez anos de silêncio absoluto. Já era hora. De seguir com nossas vidas patéticas. De seguir com nossas mágoas. E, por mais que você tenha pensado que nunca mais iria ouvir falar de mim ou de seu filho, cá estamos. Aliás, cá estou. A pedir ajuda. Não pense que é fácil me despir do orgulho, mas acabo de assassinar meu amor-próprio. Querendo ou não, você é o pai do Lucca, ainda que nunca tenha se importado com ele realmente. Agora não é mais menino, mas um adolescente rebelde em vias de ser expulso da escola. A terceira vez. Não para em instituição alguma, o menino virou um monstro. E desde que me casei com Ângelo me chama de puta. Exatamente como você.

Aguardo retorno.

Lea

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O Jogo de Damas – Sandra Godinho

O tabuleiro.

Mais de dois milhões de pessoas na praia preparam-se para a virada. No palco, montado em frente ao Copacabana Palace, Cidade Negra. Negra como o véu da última noite do ano. Belo. O maior espetáculo do planeta. Anita, com seu ‘Vai Malandra’. A última noite do ano é uma cadela no cio. É uma lacuna a ser preenchida com outras formas. Na areia, copos de plástico se erguem cheios de cidra e cevada para espantar o sono. E o grito, que quer escapar. O mijo também escapa. O alívio é sentido no calcanhar. Cálido. Casto. Feito de urgências. O rio amarelo escorrendo. Nojento. Nojenta. Não há banheiro químico que chegue. Só chega o foguetório espocando. E os rojões que explodem os latidos dos cães na vizinhança na espera infinita que, de repente, finda. 5, 4, 3, 2, 1. Começou! Continue lendo “O Jogo de Damas – Sandra Godinho”

A Lição II – Sandra Godinho

Claro que uma fatalidade podia ser vista sob mais de uma luz.
Não fosse ter perdido o torneio de futebol naquele dia nunca
teria enfrentado a vida como devia de ser. Evidente que não havia
sido talhado para o esporte, por causa da gordura e da falta de ar,
mas eu me esforçava. Sempre me esforcei. Depois, tantas boas
oportunidades apareciam que bobo seria se não as agarrasse. Nunca
me arrependi. E a vida me sorriu com uma mulher dedicada, um
casal de filhos maravilhosos, amigos e viagens para o exterior. Mas
era com meu filho que eu dividia meu tempo. Uma noite, o menino
chegou todo entusiasmado da escola e veio falar comigo:
“Pai, a professora ensinou uma coisa legal hoje.”
“O que ela ensinou?” Continue lendo “A Lição II – Sandra Godinho”

Nó de Rendeira – Sandra Godinho

Dona Firmina, que já não tinha as mãos firmes, arrastou com dificuldade a cadeira para junto da janela, buscando na claridade a guia dos olhos. Olheiras azuis, córneas esbranquiçadas, insones de dias, preocupadas a encarar o corpo que apodrecia a cada segundo e com a missão que ainda não cumprira. Ela desejava a luz branca, o céu, o teto da santidade humana o qual ainda não podia encontrar, mesmo a natureza expulsando-a da terra com a pressa que nunca teve razão de ser.

Depois da cadeira colocada no lugar de costume, arrastou o cavalete de madeira, deitando a almofada cilíndrica em seu encaixe no topo. Depois, alcançou o pique, o molde em papelão que guardava o desenho da renda. O caminho de mesa ficaria bonito na mesa de jantar, relíquia de rendeira velha. Continue lendo “Nó de Rendeira – Sandra Godinho”

Nana nenê – Sandra Godinho

 

Nana nenê

Que a cuca vem pegar

Papai foi na roça

Mamãe volta já

 

O nascimento dela era uma novidade, o primeiro filho, o primeiro sopro, o primeiro sono. Quis enxergar nela as marcas que insistimos em procurar nos recém-nascidos que a fazia nossa. A marca de nascença, o nariz de um, a boca de outro, no choro estridente que não cessava. Chorava e estendia os braços em agonia para que a protegesse, aliviando-a da dor, da cólica, do casulo que agora lhe faltava, do desabrigo que tão cedo a atormentava, aquela primeira casa feita de calor e carne. Continue lendo “Nana nenê – Sandra Godinho”

A Ghost-writer – Sandra Godinho

(Inspirada por Catarina Cunha)

Segunda-feira, 31 de julho de 2017, 9:47hs

…Ele me agarrou pelo quadril e me puxou para perto de si, encaixando suas pernas entre as minhas coxas. Pude sentir seu hálito quente, seu perfume almiscarado, sua barba rala roçando meu rosto. Enfiei meus dedos por seus cabelos e o puxei para perto da minha boca que procurava a dele. Suas mãos apertaram meus seios, que se encaixaram em concha, segurando-os, puxando delicadamente meus mamilos com os dedos enquanto mordiscava meu pescoço. Ele sorriu com malícia, brincando com a língua experiente, circulando, deixando-me louca, indo e voltando, acompanhada por gemidos de prazer que iam ficando cada vez mais intensos à medida que ele descia pelo abdômen até chegar ao clitóris…

Essa semana escrevo uma novela erótica. Cinquenta tons de cinza, Cinquenta tons mais escuros, Cinquenta tons de liberdade fizeram uma legião de perseguidores. Os livros sumiram nas prateleiras em poucas semanas. Erótico vendia, erótico arregimentava leitores, erótico dava projeção. Sadomasoquismo nem se fala. O mundo andava doente. Eu também, gripe forte, quase pneumonia. Amoxilina custava os olhos da cara. Já tinha lido que uma professora sem qualquer pretensão literária ganhava um salário de marajá com seus escritos pornográficos no Wattpad. E agora vai publicar a obra impressa porque uma editora se interessou. Houve quem se interessou, acreditam? Inveja era uma farpa engenhosa que abafava mentes brilhantes e as não tão brilhantes. Mas seguiria o mesmo caminho se eu desse sorte… Continue lendo “A Ghost-writer – Sandra Godinho”

A Lição – Sandra Godinho

(* Conto escrito por Sandra Godinho, baseado num post do Facebook)

– Benção, vó!

– Deus te abençoe, Miguel. Agora vá caçar o que fazer.

Assim era minha avó: curta e pragmática. Não se deitava em afagos ou cortesias. Não perdia tempo com o que não fosse necessário. Também não perdia ocasião de ensinar.  Com ela aprendi que paciência é uma virtude para poucos. Um ensinamento que durou cinquenta anos até ser aprendido e nasceu graças ao sentimento forte, intenso e dedicado que ela nutria por sua vizinha. Deixe-me explicar. Continue lendo “A Lição – Sandra Godinho”

A caçada – Sandra Godinho

 

Tempo fechando. Sol sem rasgar nuvem, chuva branca arriando no céu. Diacho de inverno trazendo desgraça, dificultando peixe. Família minguando de bucho vazio, só na farinha com água. As águas invadindo as terras, os bichos fugindo pros igapós, os peixes sem morder anzol. Ariscos, homens e animais na terra disconforme. Mais um avanço do chuveiro, a mata se afoga nas águas. Nem a maromba aguenta, matando boi, vaca, boiada inteira. O cachorro pirento, já é um quase nada. Nem dá mais sinal de onça, anta, calango. Sem sinal de vida, no morre-não-morre. Canarana alta triscando a canela, dificultando passo.

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