Carta a uma amiga distante (Bia Machado)

Querida amiga, como vai?

Acho que posso chamá-la de Amiga, não posso? Estamos sempre tão distantes uma da outra, pela forma como vivemos a vida, pela forma como nos veem, por tantas diferenças que existem entre nós, mas ainda assim, saiba que tenho uma profunda admiração por você. Sempre acreditei que com você a vida fica mais bonita, você traz o frescor à vida que eu jamais trarei, pelo simples fato de que não fui feita para isso. Nasci da necessidade, imperiosa, de registrar, marcar, calcular, medir, economizar. Aliás, eu faço parte do tempo, das medidas, da forma das coisas, estou ali, em  cada simetria da natureza, como algo inevitável, quase uma fatalidade, ou talvez até como uma mágica… Como contariam estrelas, se eu não existisse? Imagine a vida dos humanos sem mim! Seria um verdadeiro caos. Agora, imagine a vida das pessoas sem você? Seria sem graça, seria mais triste, estaria sempre faltando alguma coisa, no mínimo o tal frescor que citei acima. Continue lendo “Carta a uma amiga distante (Bia Machado)”

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O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez

Querido diário,

Hoje é, decididamente, o dia mais feliz da minha vida. A luz chegou aos meus olhos, as carícias das palavras transbordam nos movimentos dos meus dedos, isso é tão mágico!

Oh…desculpe-me, não me apresentei, papai sempre disse-me que antes de contar sobre você a alguém precisa ao menos saber o seu nome, criar margem para o mínimo de intimidade possível à dois estranhos.   Continue lendo “O Silêncio das Palavras – Amanda Gomez”

Rabanada de Panetone – Paula Giannini

Querida menina,

Então, depois de tantos anos, hoje você veio.

O mesmo perfume adocicado. O mesmo olhar meio de lado e aquela mania de sempre, de buscar o teto repetidas vezes, como se ali se encontrassem as respostas para o que quer que fosse. O que quer que, porventura, em sua vida, estivesse fora do lugar.

Você veio.

E pelas mãos puxava sua pequena sósia. Cópia perfeita da menina magricela que um dia iluminou a vida de todos, correndo solta por aqui. Passou os dedos já não tão esguios no desenho do beiral, caçando poeiras que já não importam, do jeitinho mesmo como costumava fazer mamãe. Iguais. Tão parecidas, tanto, que até seu coração a enganou apressado, ao enxergar de passagem, o reflexo da mulher no espelho manchado do vão de entrada.

Você.

Veio.

Alguns poucos quilos mais gorda e muitos problemas mais séria, o penteado diferente e teimando em implicar com a menina. Que olhasse bem por onde andasse. Que pisasse com cuidado por onde seguisse. E que não se sentasse no chão. Continue lendo “Rabanada de Panetone – Paula Giannini”

Vida em Palavras – Vanessa Honorato

“Março, 2010.

Querido diário,

Não sei se gosto dessa casa. Ela é bonita e tal, mas é grande demais, parece um monstro que engoliu mamãe e eu. Aliás, por falar nela, ela parece mais alegre. Hoje nem precisei levar o café pra sua cama, ela mesma se serviu na cozinha. Nós duas sentadas à mesa me lembrou os velhos e bons tempos de quando papai estava com a gente. Acho que mamãe também se lembrou, porque nem mesmo terminou o café e voltou em silêncio para o quarto.

Tenho que ir, está na hora do colégio. Estou ansiosa para conhecer a escola nova e a professora. Só vou passar no quarto da mamãe para deixar um beijinho. Ela nunca diz nada, mas sei que é importante”.

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“Março, 2010.

Amada Laura,

Continue lendo “Vida em Palavras – Vanessa Honorato”

O Livro de Jonas – Iolandinha Pinheiro.

De: Raul Miranda
Para: Levi Ricúpero

Olá, amigo.

Sei que você deve estar estranhando eu te mandar este e-mail, e já vou dizendo que nem precisa responder. Meu único objetivo é explicar o motivo que me levou a romper o noivado com a sua irmã. Diga que as joias são dela, foram dadas com todo o amor que sempre senti e sentirei, e que ela seja feliz com um homem bom que a mereça. Não posso mais casar com a Suzana e você vai entender tudo depois que eu lhe contar o que aconteceu.

Continue lendo “O Livro de Jonas – Iolandinha Pinheiro.”

AZUL – Juliana Calafange

Minha amada imortal,

Sinto-me tão envergonhado. Disseram-me que hoje amanheceste triste, com o olhar diferente daquele olhar vívido que sempre tiveste. E que isso foi por culpa minha, por causa das minhas atitudes. Sei que me acusas, meu amor – e tens razão em fazê-lo! Meu erro foi tremendo. Eu menti, sobre ti, sobre nós dois, e isso é algo imperdoável. Mas saiba que tudo o que fiz, o fiz por amor, desde o começo. Continue lendo “AZUL – Juliana Calafange”

Querido inimigo, – Catarina Cunha

Sempre te conheci, nunca te amei, entre um tic-tac e outro da vida, jamais consegui te odiar.

Desde minha mais tenra infância ouvia falar de você: “Tome cuidado, minha filha, depois da porta familiar vem a rua e lá não há ninguém em quem confiar; só na família encontramos a verdade”. Passei mais de meio século acreditando nisso, mas descobri o contrário da pior forma. Você estava à espreita, escondido por laços sanguíneos questionáveis, aguardando o melhor momento para dar o bote. Não tive tempo de olhar atrás da porta cheia de poeira de mágoas, umidade depressiva e uma enorme ganância.

Talvez por ter sido criada por pais extremamente honestos e dedicados, não acreditava que pessoas como você realmente existissem fora das novelas. Um vilão sorridente e carinhoso manipulando carências alheias para suprir seus fracassos cotidianos.

Descobri também, graças a você – o que agradeço com carinho – que existem pessoas boas e confiáveis não só na família e posso contar com elas para tirar um pouco de seu sono.

Trago aqui essas palavras com um grande desejo de paz. Que o preço de teus julgamentos precipitados lhe sejam cobrados em leves prestações mensais, que os juros não lhe corroam o estômago de arrependimento e que a maldade não lhe rache o coração de vez. Eu verdadeiramente desejo-lhe vida longa diante da carga que assumistes nos ombros. Cuide bem de sua coluna e de seus joelhos porque o tempo aumenta o peso dos erros e da barriga.

Com a idade fui agraciada com o saber da empatia e, por mais que o perigo me ladeie,  os que me amam me alertem e que teu veneno me cause náuseas éticas, não gosto de carregar o mal no bolso de trás, logo eu te perdoo por existir.

Um abraço virtual daquela que dorme tranquila.

 

Presenças – Renata Rothstein

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br>

Para Doutor Pedro

Caro Doutor Pedro,

Conforme o combinado, aqui vai o resumo do meu inferno em vida, na instituição para pessoas de pino frouxo em que minha amada família tão prontamente me enfurnou. .

Bom, confesso que poderia ser pior, como daquela vez que fiquei pelas ruas. Ali eu quase consegui meu objetivo, me mandar dessa para outra. Se pior ou melhor, vou dizer a verdade, tanto faz. Só que naquele pardieiro eu era obrigada a engolir onze remédios pra apagar de uma vez só, fora as vezes que uns carinhas resolviam entalar na minha garganta outras coisas, além dos malditos psicotrópicos.

É, é assim que se chamam os remedinhos pra gente como eu, como nós, sei lá mais o quê.

Queria saber como o senhor tem passado, sei que no fundo todo médico de cabeça tem seus próprios dramas, né não, doutorzinho querido?

Bem, espero que o senhor realmente não seja corno, ou viado, seria uma pena, já disse e repito: acho você um tesão. Ok,sei que não tenho chance, além do mais esse tal de TDI sempre poderia pregar uma peça na gente.

Imagina, talvez fosse excitante, cada dia uma pessoa diferente na cama, na vida, na coisa toda. Vou deixar a tonta da Milla falar qualquer coisa.

Beijos,

Vitória

Doutor, não suporto mais, eu preciso morrer,

Milla.

PS: Doutor, a Milla é uma frouxa. Assinado: Vitória.

 

Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla, querida,

Sua internação faz-se necessária, por enquanto. Sei que os médicos que atendem na Casa de Saúde são muito capacitados, os melhores do país. E os remédios farão efeito, quem sabe você tenha alta antes do previsto?

Sinta-se à vontade para escrever, mesmo distante continuo sendo seu analista e confessor.

Eu estou muito bem, fique tranquila, siga à risca o que mandam fazer, você é mais forte do que imagina.

Obs: Não disse que se você colaborasse deixariam usar o notebook? risos.

Grande abraço,

Doutor Pedro.

 

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br

Para Doutor Pedro

 

Doutor Pedro, seu grande filho da puta,

Eu sabia que todos aqueles anos de tratamento, conversinha, aquele amansa idiota não iam resultar em nada.

Hoje a Kátia apareceu. Eu lutei com todas as minhas forças, minha cabeça quase explodiu, e ela ali, dizendo que queria “sair”, que precisava fazer aquelas coisas que você sabe que ela adora fazer.

Pois bem, perdi a batalha e a Kátia fez a festa. Fumou, conseguiu drogas com o pessoal da ala F, seduziu três enfermeiros nojentos que andam sempre de olho “na gente”, durante o banho. Porra, fico aqui pensando se ela vai acabar botando uma doença nesse corpo, que é nosso, não é só dela, não!

Ela é muito vulgar, diz que é assim que vai vencer na vida. Pedro, a vida é minha, não é? Sou eu – de verdade – a dona desse corpo, dessa alma?

Queria me curar e viver com você, quem sabe ser sua esposa, ter filhos.

Mas e os outros? Não sei…

Depois de aprontar todas e me deixar um lixo, Kátia se mandou, enquanto eu ouvi todo o sermão da psiquiatra do hospital.

Estou cansando.

Talvez seja melhor morrer logo, como tanto quer a imbecil da Milla.

Well, vou seguindo.

Beijo de língua,

Vitória.

 

Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla,

Como sabe, Vitória e Kátia estiveram fora por muito tempo. recebi vários e-mails da Vitória.

Precisamos rever sua terapia, Kátia está se fortalecendo, e precisamos determinar urgentemente o fim dessa personalidade, estou cuidando disso com a equipe do hospital.

Tenho receio de que o fim de Vitória e Kátia afetem sua estrutura básica, entende? Que você também “desapareça”.

Faça tudo certo, não se preocupe, em breve entrarei em contato.

Pedro.

 

Vitória Fernandes <vitoriafernandes@yahoo.com.br>

Para Pedro Arantes

 

Douto,

É o nicolas eu tô com medo a vitória quer matar a tia mila e se a tia mila morrer eu tabém morro eu quero a minha mãe, toda noite a tia mila chora muito e pede pra papai do céu levar ela logo a vitória é muito ruim ela não deixa eu ficar aqui eu quero só o meu carrinho ir pa escola e brinca mas…

Olá, Pedro Pederasta, aqui é a Vivi, chega de conversa por hoje. Nicolas, como um bom menino, vai dormir. E eu vou descansar, Kátia está quietinha, a idiota da Milla que se veja com esses médicos chatérrimos.

Adeuzinho!

Doutor, é a Milla, quando o senhor retorna? Vitória está impossível, o pobrezinho do Nicolas tenta ajudar, mas não tem forças, por favor, nos ajude!

Milla.

 

De Pedro Arantes <pedroarantespsiquiatria@gmail.com>

Para Milla Vieira

 

Milla:

Aqui é o doutor Pedro.E os outros.

Como notou, nós fugimos ao controle. Você, Milla, anda muito deprimida. Vitória cada vez mais arredia. Nicolas, sempre o moleque medroso. Kátia, vulgar e insubmissa – e eu, um psiquiatra fracassado, que não encontrei a cura para nossa própria loucura.

Receitei uma dose extra para evitar que Vitória atrapalhe tudo. Milla, a arma está carregada, na gaveta da escrivaninha. Você resolverá tudo: um tiro e o fim, para todos nós.

 

Milla Vieira <millavieira5@rocketmail.com>

Para Doutor Pedro

 

Doutor,

Aqui é a Milla. Sinto que será o melhor para todos. Irei até o fim. Não tenho “sentido” Vitória por perto. O remédio terá funcionado?

Adeus…doutor, socorro, minha cabeça está doendo muito!

Olá Milla, Nicolas e Doutor Pedro,

Vocês nunca passaram de fracotes covardes. Sendo assim, tomo as rédeas da situação, de vez. Vida que segue, vocês terão apenas que obedecer, fazer o que mando, e tudo dará certo. Confiem, crianças.

Hoje fujo do manicômio. Vida nova, suporto vocês na minha cabeça, e por fora, serei só eu.

Ah, sim, descobri um jeito de enfraquecer a cretina da Kátia, essa não vai mais atrapalhar, por um bom tempo.

Com carinho eterno,

Milla, Pedro, Nicolas e Kátia.

ad aeternum, Vitória.

 

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CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo

Minha Sacerdotisa,

Tenho pensado em tudo o que ocorreu. Estou ciente de que passaste a viver em meio ao horror e no isolamento. Todavia, não posso deixar de reconhecer a mulher que eras. Creio que essa fêmea desejável ainda exista por detrás desses muros petrificados que te rondam e por debaixo dessas serpentes perniciosas que te prendem à monstruosidade.

Persisto firme na minha decisão de condenar-te ao vazio, pois ainda não suporto que tanta beleza, como a tua, fosse conferida pelos deuses a uma mera mortal.

Poseidon começou a me falar de ti e eu não sei quem eu passei a odiar mais, se ele ou tu.

Não pude acreditar que vocês dois cederam à tentação justamente embaixo de meu próprio teto, na minha casa sagrada. Até aquele momento, tu me idolatravas e ele me desejava. Pouco depois, eu já não tinha mais nada. Feriu-me a honra tamanha traição, sobremaneira porque banhada a suor carnal de ambos. Continue lendo “CARTA A UMA MULHER MAIS BONITA DO QUE EU – Sabrina Dalbelo”

ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst

  • 21 de dezembro

Depois de alguns atropelos insones, a noite deita-se preguiçosa de futuros. Cansada do que ainda nem aconteceu, recolho em minhas pálpebras o peso do que virá.

Este será provavelmente um verão inesquecível, pelo bem ou pelo mal. Mal ouso pensar no sol nestes últimos dias. Fugi da praia, do mar, das calçadas coloridas pelo vai e vem dos turistas. Um mês inteiro de retiro voluntário, pois me sinto angustiada, cheia de reticências no lugar de certezas.

Sei que não sou mais uma adolescente, mas também não estou velha demais para errar. O problema é sempre o tamanho do erro cometido. Continue lendo “ESCREVO-ME SEM RIMAS – Claudia Roberta Angst”

Presente do passado – Elisa Ribeiro

De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

 

Querida filha,

Como você não atende minhas ligações nem responde minhas mensagens, resolvi tentar por restabelecer nosso contato por e-mail. É até bom, escrevo em português bem melhor do que falo atualmente.

Sei que a sua mágoa é grande. Entendo e respeito isso, mas não vou desistir e  peço, mais uma vez, uma chance.

Eu estaria sendo hipócrita se dissesse me arrepender das decisões que tomei no passado. Fiz o que podia fazer com os recursos que dispunha e a maturidade que eu tinha na época. Mas eu não gosto de falar do passado. O que me interessa agora é ter um futuro com você.

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Do Umbral – Fheluany Nogueira

Do Umbral,

 

Pai e mãe, paz nos corações! É meu maior desejo! Peço-lhes, que não se deixem prender pela tormenta e que acreditem nestas palavras. Vocês merecem saber o que me aconteceu. Luto para conseguir superar tudo, até consigo atribuir a mim mesma a violência contra meu corpo. Meu comportamento foi descompassado e doentio. As mãos de Deus ainda me acolherão, e por isso posso dizer que tento reerguer-me após as batalhas vividas. Estou me libertando…

É pai, falou-me tanto em lei da atração! “O que pensamos atraímos para nós”. É a pura verdade! Mas nada é argumento para o mal. Desculpe a enroscada em que me envolvi, jamais poderia supor que a ameaça se concretizasse. Eu provoquei muita dor. Tenho que contar os eventos que precederam tudo, para que me perdoem e não culpem a outro pelo acontecido.

A noitada havia sido de bebidas, pedras e rock, no mesmo cemitério em que, pela manhã, presenciamos um sepultamento que ostentava riqueza. Ivo e eu seguimos os acompanhantes do enterro na volta. Pedi-lhe que não haveria violência, que não usasse a faca que sempre trazia escondida na bainha presa acima do tornozelo direito. Ficamos na vigia. A casa ficara fechada, sem ninguém. Esperamos escurecer e a invadimos. O parceiro tinha muitas habilidades e abrir a porta dos fundos foi brincadeira. Fomos adentrando, com o fôlego curto; o fluxo sanguíneo mais intenso deixava os músculos mais aptos para enfrentar a situação. Nada mais nos reprimia.  As pupilas dilatadas vasculhavam todos os ângulos da mansão. Era um lugar perfeito para um bom banho e dormir em uma cama macia. Quadros, objetos valiosos, imagens religiosas e, talvez, no quarto, algumas joias ou mesmo dinheiro vivo.

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Querido avô, – Priscila Pereira

O senhor se lembra da promessa que minha mãe lhe fez muitos anos atrás, de cuidar dos seus irmãos mais velhos, solteiros, quando não pudessem cuidar de si mesmos? Pois então, fico feliz em informar que ela vem cumprindo à risca essa promessa e agora que ela já não é mais uma moça, estou dando continuidade a esse compromisso. Devo enfatizar que não tem sido fácil cuidar de meus tios avós e, conhecendo seus irmãos como ninguém, o senhor há de concordar comigo.

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A Ajuda – Sandra Godinho

De: Lea Bernardi (leabernardi@hotmail.com)

Enviado: terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Assunto: Lucca

Para: Paulo Gomes (paulo.gomes@outlook.com)

 

Olá, Paulo!

Se você está lendo esse e-mail é porque a curiosidade se tornou maior que o ódio, o que é  bom. Sinal de que a raiva decantou depois de dez anos de silêncio absoluto. Já era hora. De seguir com nossas vidas patéticas. De seguir com nossas mágoas. E, por mais que você tenha pensado que nunca mais iria ouvir falar de mim ou de seu filho, cá estamos. Aliás, cá estou. A pedir ajuda. Não pense que é fácil me despir do orgulho, mas acabo de assassinar meu amor-próprio. Querendo ou não, você é o pai do Lucca, ainda que nunca tenha se importado com ele realmente. Agora não é mais menino, mas um adolescente rebelde em vias de ser expulso da escola. A terceira vez. Não para em instituição alguma, o menino virou um monstro. E desde que me casei com Ângelo me chama de puta. Exatamente como você.

Aguardo retorno.

Lea

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