Um pequeno conto de Natal (Sandra Werneck)

À minha amiga secreta – Maria Santino

Um pequeno conto de Natal à Maria

Eu quero uma espada a laser de Natal. Miguelzinho insistiu com Maria num balbucio que ganhava ares de incômodo. Maria relutava, não por ser adepta do politicamente correto, mas porque o velho pai necessitava de descanso. E espadas bramindo pelos ares fatalmente causariam rebuliço e estragos. Já antevia adornos e quinquilharias espatifadas pelo chão e o desassossego de quem necessitava de calmaria.

Eu quero uma espada a laser de Natal. Diz para o Papai Noel. O filho insistia. Não. Não. E não. Maria também, em balbucios que iam ganhando corpo, depois iam ganhando certeza, depois iam ganhando a destemperança de mães desafiadas. O avô não podia, tinha de se aliviar dos desatinos dos jovens, da teimosia de quem tem no momento a urgência de tudo, de quem acha que é preciso viver antes que as lembranças se eternizem em fotografias, antes que a saudade preencha os cômodos, causando incômodo na alma que nunca se preenche. O avô precisava de paz. Ponto final.

Mãe, eu quero uma espada a laser no Natal. Pelo amor de Deus, Miguel, para com isso que vai acordar seu avô. O velho, estendido na cama feito camada de poeira, fingia dormir, fingia viver nesse mundo isolado por morte. Teimoso, ele se levantou, caminhando lento para os lados da filha. Maria, acabe com essa lenga-lenga de uma vez, disse ao mesmo tempo que o gato preto lhe roçava as pernas, um pedido que mais pareceu ultimato. O achego do gato era coisa rara, especialmente depois de Maria ter adotado outro bichano. Edgar agora só saia do telhado quando o carinho era garantido e a atenção redobrada. Também queria carinho. Calmo, o velho se desmanchava, alisando o dorso do animal com saudades das coisas distantes. A juventude era uma delas. A alegria era outra. Ele teimava, em delírio. Em vontades. A paz só vinha com felicidade.

Miguel passou o ano sonhando com o presente cobiçado. Até que chegou o Natal. Maria se esmerava em novas receitas ao fogão, barrigando condimentos e vapores para fazer sua mágica enquanto o pequeno Miguel tinha a certeza de que Papai Noel não lhe faria desfeita. Seus pulmões queimavam com a expectativa. Quando amanheceu o dia, a primeira coisa que Miguel fez foi circular a árvore de Natal em busca de um certo pacote. Pontudo. Polêmico. Apocalíptico. Não o encontrou debaixo da árvore.

Então seus ombros murcharam feito flor gasta dos dias, as pernas tolheram os movimentos, a ideia fugiu, sem entender a afronta do velho barbudo. O avô chegou por trás do garoto, de mansinho. Sapeca.

– Sabe que o papai Noel deixou algo para você no meu quarto?

– Sério, vô?

– Com uma condição.

– Qual vô?

– Que eu te ensine a lutar. São as maiores espadas a laser que eu já vi.

E se puseram a brincar, dois garotos sem urgências de tempo, dois garotos na trilha da teimosia. Maria sorriu com a cena rara. A melhor receita era aquela que não se desfazia com os anos.

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