Aninha e a fadinha – (Maria Santino)

No grande pátio da escola as crianças esperavam pela chegada dos pais, correndo de lá para cá em uma algazarra feliz que enchia o lugar de alegria. As férias de verão haviam chegado e aquele era o último dia de aula. Aninha não brincava com os outros, pois, naquele momento, algo roubava toda sua atenção. Em meio aos arbustos do pequeno jardim, na ala esquerda do pátio, uma fadinha se encontrava caída no chão.

A menina bonita, de pele morena, olhos grandes e feições suaves, se agachou próximo aos pedregulhos e observou aquela curiosa figura. A criaturinha de aproximadamente dez centímetros tinha orelhas pontiagudas, cabelos negros, pele brilhosa e alva, e usava um lindo vestido azul celeste.
 

─ Você é uma fada? – perguntou Aninha com o rosto muito próximo do ser que se mostrava enfermo.

─ Sim, você consegue me ver? – respondeu a fadinha tentando ficar em pé.

─ É claro que consigo. Você é linda! – Aninha sorriu, mas percebeu que a criaturinha de vestido azul não estava bem, e logo ficou preocupada.

─ O que houve? – o serzinho virou-se de lado e a garota ficou entristecida com o que viu. – Oh! Meu Deus! O que aconteceu com seu braço?
 

Não houve tempo para respostas, o carro da mãe de Aninha buzinou na frente dos portões da escola e rapidamente a menina correu, agindo rápido para não ser interrompida nem questionada. Pegou no porta luvas uma pequena caixa de lenços e regressou até o jardim onde a figura azul permanecia deitada. A garota, com gentileza, colocou sua nova amiguinha dentro da caixa, vedando-a cuidadosamente com a tampa.

 
─ Mamãe, mamãe, eu encontrei uma fada! – disse quando se sentou no banco do passageiro. Depois levantou a tampa da caixinha para que a mãe pudesse ver o seu achado.

─ Oh, que lindo! Um colibri. – Exclamou a mãe da menina sorrindo e ligando o carro.

─ Hã? – Fez Aninha observando a fada que dormia.

─ Um colibri, minha filha. Espere.

Momentos depois, com o carro parado próximo ao semáforo, a mulher mexeu no celular procurando uma imagem em um site de buscas para mostrar à menina. Em seguida, Aninha olhou intrigada para a figura de um lindo beija-flor azul sem entender o porquê daquela confusão. A fadinha era tão bela quanto a ave, mas a diferença, gritante.

********

Quando chegaram em casa, a garota correu para o quarto enquanto a mãe foi terminar de arrumar as malas, estavam de viagem para o sítio do avô da menina que morava em uma grande fazenda no interior da cidade. Era a primeira vez que Ana iria conhecer a casa do avô, pois enfim, os pais conseguiam acertar as férias do trabalho para que todos pudessem viajar juntos, e eles já se mostravam felizes em poder passar algum tempo naquele lugar e esquecer-se da correria da vida na cidade.

─ Você tem nome? – perguntou a criança pondo a caixa sobre a cama.

─ Claro, mas não é possível pronunciá-lo em sua língua.  Portanto, me chame de Luz Azul.

─ Luz Azul… – repetiu Aninha pensativa observando a pequenina ensaiar alguns passinhos, pois já se mostrava melhor. – O que machucou o seu braço?

─ Na verdade, a pergunta certa seria: Quem? Quem machucou o meu braço? – houve um breve silêncio, Aninha e Luz Azul ficaram observando o machucado e a criaturinha voltou a falar. – Recebi uma pedrada de um homem. Sabe, nós, as fadas, andamos por aí, neste mundo cheio de pessoas diferentes, com o propósito de espalhar beleza e bondade. Mas… é difícil… muito difícil.

─ Por quê? Por que os adultos confundem vocês com aves, como a minha mãe confundiu? – disse a garota ouvindo a mãe subir as escadas, certamente para chamá-la e seguir viagem.

─Ah! Sim, isso acontece mesmo. As pessoas crescem e tudo se torna comum, sem magia, seco… Muitas de nós são presas em gaiolas para que nossas melodias alegrem os corações humanos. Somos…

A porta foi aberta e a mãe da menina disse:

─Vem, traz o passarinho, talvez o teu avô ajude você a cuidar dele, ele tem vários pássaros em gaiolas.

Aninha olhou para Luz Azul de olhos arregalados e recebeu em troca um aceno com a cabeça como se a fada dissesse: “Não falei?”

Naquele momento Aninha sabia que algo deveria ser feito, e por esse motivo, partiu levando Luz Azul consigo a caminho da casa do avô. No decorrer da viagem a garota observava aquilo que a mãe chamava de pássaro, dormir enquanto refletia por longos momentos nas palavras que ouviu. O peito de Aninha começou a ficar comprimido, como se pudesse sentir o desespero de estar presa sem ter feito nada.  Sentia as lágrimas chegarem ao imaginar várias fadinhas aprisionadas, chorando entristecidas.

********

Quando o avô os encontrou na passagem perto da casa, a menina já não podia mais se conter. Assim que o carro parou, ela correu em direção a varanda e ficou assustada com o que viu. Em várias gaiolas, tristes e com as cores desbotadas, diversas fadinhas pediam ajuda em um coro uníssono:

“Liberte-nos!” “Liberte-nos!” 

A menina agiu apressada, e com a ajuda de um banquinho, abriu quantas gaiolas conseguiu até ser impedida por alguém e levada para o quarto.

Minutos depois, Aninha se debruçou em uma janela para olhar a beleza das flores no campo, indiferente das palavras de reprovação que a mãe falava do lado de fora do quarto.

******

─ Você fez uma boa ação, Aninha. Obrigada! – disse Luz Azul, voando de um modo torto, e ainda assim, muito belo, passando bem próximo ao rosto da menina morena que ria satisfeita. – Serei eternamente grata a você, minha amiga.

─ Eu nunca vou me esquecer de você, Luz Azul!

─ Vai sim. Todos crescem e se esquecem de olhar a beleza da vida. Mas isso é natural aos humanos. Lembre-se, Aninha, seja sempre boa.
 

As férias de Aninha duraram pouco, mas a mensagem deixada por Luz Azul persistiu a vida toda. E mesmo quando Ana ficou velhinha, jamais deixou de ver fadinhas.

9 comentários em “Aninha e a fadinha – (Maria Santino)

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  1. Também nunca entendi porque prendem seres alados em gaiolas. Isso deveria ser proibido. É o egoísmo em sua maior expressão. Que triste. Muito bonito o seu conto da fadinha. Um texto com uma mensagem pró ambiente. Quem sabe um dia as pessoas se tornam mais humanas. Beijos.

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  2. Uma história que brinca, educa e encanta. Para vivenciar essa magia é preciso acreditar no potencial das crianças como ouvintes e leitoras, capazes de imaginar e criar. Esse olhar para as potencialidades das crianças manifesta o seu compromisso, Maria, em motivá-las para uma leitura crítica, e que corresponda às necessidades de bem viver; além de divertir, distrair… Que pena que vovô e mamãe não aproveitaram a lição, não é mesmo…!

    O estilo traz certa simplicidade que consegue passar a ternura de que o conto precisava; a narrativa é sensível, mas consegue não resvalar para o sentimental ou para o piegas. Uma façanha e tanto, cheia de empatia.

    Parabéns. Beijo.

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  3. Ahh que fofo! Amei o seu conto, Maria! Muito doce e lindo, com uma mensagem muito bonita! É verdade, a infância é uma época mágica, seria ótimo se pudéssemos guardar toda a magia!!
    Parabéns pelo conto!
    ❤️💖

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  4. Que conto mais lindo!! Não sei pq o aprisionamento de aves em gaiolas não é proibido, se é um grande maltrato com os pobres animais… Uma pena que os adultos deixem de sonhar e sentir a magia do mundo… Bjs ❤

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  5. Que graça de conto. Muito bem narrado e com uma linda mensagem. Queria escrever um dia um assim. Um beijo, querida. E parabéns pelo texto sob medida.

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  6. Olá, Maria!
    É com grande alegria que volto a ler um conto seu aqui no blog. E é com alegria maior ainda ler esse texto singelo, simples e sensível acerca do encantamento de um coração puro, ainda sem conhecer as mazelas humanas. Seu texto fala de preservação, dos animais e do homem, da beleza da natureza e das virtudes humanas. Amei, estava com saudades de seus escritos! Beijos

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  7. Lindo conto, Maria!
    Já pensou em transformá-lo em um livro infantil? O mundo precisa de mensagens como esta, e elas precisam ser espalhadas aos quatro ventos!
    Parabéns pelo trabalho!
    Beijos!

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  8. Querida Maria,

    Seu conto é lindo e triste, embora não pareça. Pássaros ou fadas, seres com asas não foram feitos para viver engaiolados…

    Lindo.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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