ANTES DA CHUVA – Claudia Roberta Angst

Poderia continuar aqui se a história fosse outra. Foram essas as primeiras palavras que ouviu assim que se sentou. Alguém repassava a fala da protagonista com a impaciência de iniciante. Restavam ainda algumas horas antes do primeiro ato. A tensão da estreia dominava elenco e direção.

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A última chance – Elisa Ribeiro

Não era por amor que ia visitá-la, mas por compromisso. A hipótese de se tratar de amor o sentimento que o unia à esposa só durara até ele se apaixonar por Eloísa. Depois de Eloísa, só restara a coabitação, os bens em comum, os filhos. Com Eloísa entendeu e experimentou o que depois dela passou a chamar amor. E por essa experiência pagou o preço de viver pelas décadas seguintes com uma mulher que lhe inspirava culpa, pena e, às vezes, um pouco de asco.

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O lixão do abutre. O lixão da Rute. (Sabrina Dalbelo)

Na terra acinzentada onde o abutre se alimenta e depois defeca, onde o resto é despejado, a menina Rute brinca, corre pra todo lado. Lá, para onde algo que alguém não quis mais é transportado. Lá, no fedor, na lama, no chorume, onde adubo é revirado, onde o homem pisa, cata e vende até o que abutre não come.

Sabe o lixão, aquela reunião de lixo e de pessoa com fome?

Na pandemia não fecharam o lixão, porque gente, qualquer gente, pobre ou rica, sadia ou doente, faz lixo todo dia. Não importa se é idoso, grupo de risco, criança, seu filho ou minha tia. Todo mundo faz lixo de papel higiênico todo dia.

“Cata, cata, cata. Cata lixo no lixão.”

Não, não fecharam o lixão na pandemia.

Não tem máscara que esconda o vírus no lixão. Não tem máscara que esconda a gente do lixão.

Na terra acinzentada de onde os catadores tiram o sustento, todo dia chega lixo e todo dia sai lamento. No lixo, até o lixo é alimento.

Tem vírus de todo tipo no lixão, tem todo dia.

No lixão come abutre. No lixão corre e brinca a Rute.

Time Loop – Evelyn Postali

Eu caminho apressado, frenético. Não percebo a largura de minhas passadas, e sim o formato dos seixos a correr debaixo de meus pés. Pedras irregulares a mostrar o desalinho da minha vida, ou daquela que eu tinha. Molhadas da chuva, elas têm um brilho diferente. Anos de fúria e rancor aliviados por Emma com as palavras precisas, com toques gentis e momentos de afeto dividindo a mesma cama.

Meus olhos estão cansados daquela paisagem, mas preciso chegar com urgência, porque a hora do encontro já se passou em cinco minutos e ela pode não esperar.

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O irmão da Maria Theresa – Fernanda Caleffi Barbetta

Quando eu nasci, ninguém sabia meu nome. Eu era o irmão da Maria Theresa. E isso era informação que bastava. Só depois, bem depois, foi que eu me tornei o Nelsinho.
Na época do meu nascimento, 25 anos atrás, minha irmã já era a Maria Theresa, com agá, famosa lá pras bandas do Mato Grosso. Eu, quando deu, fui embora. Vim pra São Paulo. Se era pra ser um ninguém, que fosse na cidade grande. Não demorou muito, eu arrumei um emprego nos Correios, e foi então que eu ganhei até apelido. Hoje eu sou o Nelsinho Carteiro. E muita gente sabe meu nome.

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Vingança e paixão – Capitulo 1 – Priscila Pereira

A primeira coisa que Júlia viu, ao entrar na igreja de braço dado com o pai, foi a cabeleira ruiva de seu futuro marido. Agradeceu pelo véu que cobria seu rosto e ocultava sua expressão de surpresa. Via o patriarca espiando, tentando descobrir o que pensava. “Como ele pôde escolher um homem ruivo?”, quase deixou escapar. À medida que se aproximava do carcereiro que a manteria, segundo sua família, segura e estável, como uma dama deve passar o resto de seus dias, conseguiu notar as sobrancelhas fartas, cor de cobre, franzidas, dando um ar de revolta a um rosto nada amigável.

O forte odor de inúmeras espécies de flores, agrupadas sem algum senso de elegância, aumentava a dor de cabeça que começara logo após ouvir a sentença: “Júlia, querida, seu pai arrumou para você um ótimo pretendente. Jovem, rico e saudável. Arrume suas coisas, meu bem, o casamento será no domingo”. E a música que jorrava do órgão, quase trincando as vidraças, só servia para abafar sua voz interior que berrava: “foge!”.

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A Fábrica de Sonhos – Anorkinda Neide

A Fábrica de Sonhos

Está fechada.

Inimaginável, diziam alguns, os mais otimistas, que foram pêgos de surpresa diante do cancelamento das atividades de sua principal produtora de matéria-prima. E agora? Como ser feliz sem sonhos?
Eles, os otimistas, não conseguiram se conformar. Como que do dia para a noite, numa breve distração e num piscar de olhos tudo mudou? Como continuar vendo luz no fim dos túneis de agora em diante?

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Resenha: Todo mundo adora Saturno, de Fal Azevedo – por Amana

A prosa da Fal eu já conhecia desde antes do Orkut. Da época dos blogs, não sei se alguém se lembra. Os blogs já vinham desde antes, mas a febre mesmo foi entre 2000 e 2001. O meu primeiro se chamou “Roteiro Adaptado”. Por quê? A minha filosofia era a seguinte: a vida era isso, um roteiro adaptado por nós. Nada original, haha, mas eu assistia a filmes e lia livros o triplo ou o quádruplo naquela época, então pegava pôsteres de filmes e eles ilustravam o assunto dos meus posts. E foi então que um belo dia a Fal deixou um comentário lá: “Oi! Não sei quem você é, mas parece que te conheço faz um tempão”.

E assim conheci o Drops da Fal.

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Anatomia de uma loucura – Sandra Godinho

 

Juliana não podia entender o mal que tinha me causado com aquele beijo. Eu era um psicólogo que, assim como os padres, tinha de manter uma certa postura e, assim como os padres, tinha um dever a cumprir nessa sociedade condenada à danação. Demônios todo mundo tinha e eu, assim como todo mundo, tinha os meus. Era um homem que amava demais as mulheres, por causa disso não podia focar numa só.  Não era um desajustado, apenas um cafajeste. Por isso o beijo foi inapropriado e não pela relação médico-paciente.

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aos 7, 14, 21… (Fheluany Nogueira)

Mário não estava em casa. Coisa que a incomodou. Ao mesmo tempo, sentiu alívio, coisa que a incomodou mais ainda.

Aí ouviu a mensagem na secretária eletrônica:  meu bem, continuo às voltas com “você sabe quem”. Agora o publicitário dela quer que eu fique para tirar mais fotos — e ensine a modelo a segurar o violão, a dedilhar os acordes na posição correta… É chato, mas me pagam por hora… Depois, que talvez demore um pouco, pode ser que a gente saia para jantar. Uma turma grande. Cuide-se.

Lina telefonou para o estúdio, foi atendida por um voicemail, deixou recado. Estava pensando no que fazer, quando ele ligou de volta:

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O Brilho Verde Da Escuridão – Iolandinha Pinheiro

Sentado e de cabeça baixa, já havia respondido à mesma pergunta pela quarta ou quinta vez.  Não adiantava falar que não sabia, ninguém acreditava em mim. Na sala ao lado eu ouvia os gritos do pai dela. Minha mãe chorava e fazia ligações. Eu só queria ir para casa e tentar dormir. Eram tempos estranhos aqueles.

– Vamos lá, Lucas! Conte de novo. Onde vocês dois estavam?

Era uma resposta difícil de dar, porque na última vez que eu a havia visto, Isabel estava alguns metros abaixo da superfície da água e depois simplesmente sumiu. Fiquei aguardando por uns dois minutos enquanto as minhas esperanças se afogavam junto com ela, e gritando o seu nome, mas minha amiga não retornou. Corri para a casa onde morava e avisei ao seu pai. Em pouco tempo ele e outras pessoas mergulhavam no ribeirão e procuravam pelas margens sem encontrar Isabel.

No meio daquela gritaria eu me desligava e só ouvia um zumbido agudo que abafava todas as vozes ao redor. Quando a polícia chegou eu fui levado junto com o pai da menina, e umas outras pessoas foram buscar minha mãe.

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A PÓS ─ Claudia Roberta Angst

Às vezes, tudo o que você quer é um abraço. Um aconchego morno, um acalmar de sentidos, um toque pacificador. Não mais, não menos. Apenas isso: terminar nos braços da morte. Sim, estou falando dela, da famigerada e derradeira passagem nesta vida. Da indesejada das gentes, como diria o poeta.

Conheci Marina Morena ainda na adolescência. Rindo do quê? O nome dela é esse mesmo, o que posso fazer? Não inventei, ela já veio com ele como acessório. Lembra algo? Claro, eu também quando a vejo tenho vontade de sair cantando Marina Morena você se pintou. Voltemos ao samba do tempo e ao rebolado de minha vida. Que sempre foi dona do mais perfeito gingado nas redondezas. Tem as curvas perfeitas para o encaixe das minhas mãos.

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Ciúme – Elisa Ribeiro

Quando era Maria Helena a primeira a despertar, abria só o olho direito, o outro, mantinha fechado. Virava-se, então, para o lado esquerdo da cama, aquele onde o marido não estava, e aproveitava para pensar um pouco na vida, sossegada.

Paulo achava um milagre gostar tanto da mulher. Após tantos anos, ainda admirá-la apaixonado. Enquanto a olhava deitada, imaginava como ela acordaria. Se o abraçaria daquele jeito, com todo o corpo, ainda entorpecida, o transe do sono ainda não completamente dissipado, ou se saltaria da cama direto paro o banho, agitada.

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