Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

Continue lendo “Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela”

Viagem Arriscada (Grimm) Desafio As Contistas

Naquela época as crianças ainda brincavam na rua. Era costume juntar a molecada para jogar bola sem medo ou preocupação. Mas isso não significava que não havia perigo. Foi em um dia nublado e sem graça que Renata teve a ideia de chamar seu irmão Gabriel para ir de bicicleta à casa de seus avós. Eles moravam em uma pequena cidade interiorana e os avós das crianças viviam em uma fazenda à cerca de quatro quilômetros de distância, já eram acostumados a percorrer este caminho.

— Por favor, mamãe. Estou com saudade da vovó. — Choramingou Gabriel.

Continue lendo “Viagem Arriscada (Grimm) Desafio As Contistas”

pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

Continue lendo “pASSADO é pASSADO (1971)”

deus da mitologia – Sabrina Dalbelo {inapropriado para menores}

Segunda-feira almocei na praça de alimentação do shopping. Não estava com muito apetite, comi pouco. Cheguei cedo para pegar lugar, escolhi um buffet. Tomei um copo d’água, como o usual e deixei o restaurante.

Do lado oposto ao dali, avistei um cartaz colorido, que me chamou a atenção. O filme estampado era “Thor Ragnarok”. A semana estava difícil, resolvi apostar numa distração, mal sabia eu que aquela sessão de cinema seria a mais inusitada da minha vida.

Continue lendo “deus da mitologia – Sabrina Dalbelo {inapropriado para menores}”

Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

Continue lendo “Gritos silenciosos – Psicopata”

Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio

Quando foi morar na casa da Dedé, Pipo ainda era bem pequeno, um cachorrinho com apenas algumas semanas de vida. No início, ele não sabia onde fazer o xixi e o cocô e levava bronca sempre que sujava a sala. Era muito difícil entender o que seus donos queriam que ele fizesse. E o que eles não queriam também.
Dedé comprou vários brinquedos para o filhotinho: bolinhas, ossinhos que faziam barulho e bonecos de pelúcia. Pipo adorava morder os brinquedos. Mas a sua diversão maior era morder as roupas, os móveis e as mãos da Dedé. A menina não entendia porque ele fazia aquilo.

Continue lendo “Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio”

Resistência (Renata Rothstein) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.

Continue lendo “Resistência (Renata Rothstein) – desafio”

A versão da vovó

Refaço teus passos
Te recrio no que faço
Meu fim, teu começo

“Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.”

Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele levou também todas as suas roupinhas em sacolas de plástico num horário em que ela já não estava acordada.

“Ninguém vira passarinho. Cresce, garota. Deixa de ser idiota.”

Tinha talvez seis anos. Embora a prima de nove tivesse mandado o irmão calar a boca, que deixasse a prima pequena em paz, nunca mais repetiu que um dia teria asas e cantaria como um sabiá.

Continue lendo “A versão da vovó”

SAUDADE, PALAVRA SEM FIM – Claudia Roberta Angst

Sentia a falta dele, como quem consome mais palavras do que cabem na boca, aos bocados, sem trégua. Rompia-se em saudades, em implosões contidas, subterrâneas sensações que a levavam a um ócio doentio, ao meio de todas as dúvidas que amanheciam junto a ela. Por que não falara toda a verdade quando o céu ainda estremecia em temeridade ao julgo daqueles que realmente importavam? Por que faltara com a sinceridade pontual, característica dos amantes imortais, para só então revelar o que lhe vinha definhando as fibras do bom senso, uma a uma, como cordas desgastadas de um instrumento afinado e raro? Decerto, cumpriria as inúmeras promessas, assim que fosse possível, se algum dia, fosse mesmo possível, expressar em ações tudo o que havia sido acordado entre eles, já tontos pela embriaguez passional, às portas de um romance que, logo de início, já se mostrava compassivo e dúbio.

Continue lendo “SAUDADE, PALAVRA SEM FIM – Claudia Roberta Angst”

Em voo – Paula Giannini

Enquanto em queda
Livre
Não ela
Mas o buraco que se lhe abre em boca
 
A dor é tamanha
É tanta
Que não ousa gritar que é quase
O instante que já
 
No baque de dentes prontos
Momento derradeiro
O fundo do asfalto
O poço seco por que tanto anseia

Meu desafio: Escrever poesia.

Photo by Marcelo Moreira from Pexels

– A Gangue do Clube de Tricô – Iolandinha Pinheiro.

SEMPRE que lhe perguntavam o motivo de ter enveredado para uma vida de crimes, Dona Epifânia justificava

-Culpa do Epaminondas, quem mandou ele morrer?

Seu Epaminondas havia “batido as botas” uns seis meses antes, depois de cair sobre o balcão de bebidas da sua bodeguinha.

Além de morrer, Epaminondas ainda acabou dando um grande prejuízo: quebrou todo o estoque das garrafas de uma vez só. Do evento sobraram as dívidas com o fornecedor e um monte de cacos de vidro no chão.

Continue lendo “– A Gangue do Clube de Tricô – Iolandinha Pinheiro.”

O confronto entre a menina e o bicho (Fheluany Nogueira)

 

 

Só diante do bicho a menina fica livre da timidez. É. Algumas pequenas fugas e o bicho para. É uma lagartixa. Não, muito grande para lagartixa. Ou um lagarto? Pequeno também para lagarto.

A menina e a lagartixa esperando o ataque. Um desafio ou uma contemplação? Para a lagartixa a menina é uma ameaça, máquina-que-atira-pedras. Que é uma lagartixa para a menina? Muito mais que uma lagartixa….

Continue lendo “O confronto entre a menina e o bicho (Fheluany Nogueira)”

Uma Amizade Incomum (Marília)

A cena que agora você lê começou quando Vovó estava no trem, a caminho da farmácia. No vai e vem de pessoas, sentaram-se ao seu lado uma menina de uns 5 anos e seu irmão mais velho. Estavam acompanhadas por mãe e uma bexiga que a pequena fazia questão de chamar de Amiga.

Simpática, a Menina se apresentou para Vovó, que sorriu e escutou os relatos de amizade entre uma humana e seu pedaço de plástico oxigenado por vida. Eis que, segurando a bexiga entre os dedos com toda calma e precisão, a doçura em forma de menina resolve deixar a amiga voadora se aventurar além dos limites contidos no vagão, colocando tão querida companheira vidro afora, como se assim pudesse gostar mais.

Páginas: 1 2

Verdades Fingidas (C.R.Angst)

Ninguém percebe, mas ela tem um plano. Engana os sentidos para que pareça tudo tranquilo. Camufla as palavras com a delicadeza de um véu esgarçado e sem mais serventia. E ainda assim, ela não quer rasgar a ilusão da felicidade.

Ela finge que não se importa, que não regula o calendário com a ausência que traz em sua sombra. Diz que não há problema em misturar os dias, pois tem certeza de que cedo ou tarde o impasse se resolverá. E quando tudo mais for passado, isso também será parte da areia que debaixo dos seus pés desliza pela ampulheta. É o tempo dela. Só dela. A sós.

Páginas: 1 2

– Flutuação – Iolanda Pinheiro

Não lembrava para onde estava indo, ou mesmo de quem era, apenas de como a chuva caia aos baldes sobre o para-brisa, e da pista escorregadia pela estrada sinuosa. Não sabia porque dirigia tão rápido naquela tempestade, mas recordava nitidamente do momento em que perdeu a direção e o carro se projetou sobre o despenhadeiro numa flutuação em câmera lenta, da luz dos faróis iluminando o céu de piche, do baque de mil e oitocentos quilos sobre o oceano, e depois, nada.
 
Acordou sufocando com a água que entrava por todos os lados. Batia no vidro com a trava metálica ao mesmo tempo que se atrapalhava tentando liberar a fivela do cinto de segurança.

Passou com dificuldade pela janela, nadou, já quase sem ar, em direção à superfície, e então sentiu um tentáculo enrolando-se pela perna esquerda e a puxando para baixo. Os pulmões lutavam por ar, e a consciência ia falhando. Agora o corpo todo estava tolhido, e algo pesado comprimia seu peito. Estava morrendo.

Páginas: 1 2

Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

Quero-queros passeiam como se nada se passasse
atenta aos meus passos, circundo os ninhos
não quero que pese sobre meus ombros
a culpa pelos ovos partidos.

Ante os coletivos que circulam solitários
vejo brotar marmitas em esquinas que não existem
(cada um sobrevive como pode)
nenhum carro para
eu, a pé, hesito em correr o risco
— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
que alguém mais nobre a faça por mim.

Conforta-me a grama onde meus pés afundam
sou grata porque meus pais já partiram
minha geração assiste soturna
a descontinuidade da sorte
que tivemos até aqui.

Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

Continue lendo “Por um tempo (Elisa Ribeiro)”

Levar, Voltar (Marília)

De tão contraditório, fazia sorrir e chorar. Tudo no mesmo objeto, naquela pessoa carregada para perto do céu, de volta à terra. Eu só observava, admirava. Você chegava naquela sala que parecia vazia, meio escura, comportava pessoas alheias ao acontecer ali na tela daquele celular.

Isso bastava. A gente se preenchia enquanto sorrisos ecoavam, olhares compartilhavam desejos sem a boca verbalizar. Tudo com hora de acabar. Porque o turno do trabalho chegava ao fim, então a rota de volta era caminhada.

Páginas: 1 2

O Preço

Ela estava chegando… Ele havia tido aquele sonho outra vez:  A moça vinha subindo pela areia da sepultura. Separando a terra negra e úmida até chegar à superfície. Andando, pálida e suja, mas resoluta em direção a ele… Emmanoel Olhou para o relógio com aflição. Ia por dentro da velha casa em passos ligeiros, verificando cada tranca, uma, duas, três vezes…. Encheu as frestas das janelas emparedadas com retalhos encharcados no barro mole. Por fim, e não restando mais nada a fazer, trancou-se na pequena despensa da cozinha e esperou.

Continue lendo “O Preço”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑