pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

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deus da mitologia – Thor {inapropriado para menores}

Segunda-feira almocei na praça de alimentação do shopping. Não estava com muito apetite, comi pouco. Cheguei cedo para pegar lugar, escolhi um buffet. Tomei um copo d’água, como o usual e deixei o restaurante.

Do lado oposto ao dali, avistei um cartaz colorido, que me chamou a atenção. O filme estampado era “Thor Ragnarok”. A semana estava difícil, resolvi apostar numa distração, mal sabia eu que aquela sessão de cinema seria a mais inusitada da minha vida.

No guichê, um rapaz moreno, de olhos grandes e brilhantes e boca rosada. A boca logo me chamou a atenção. Cheguei a pensar que estivesse inchada, de tão carnuda. Os cabelos estavam lambidos pelo excesso de gel e isso me despertou um sorriso bobo, ao qual ele respondeu com outro, mais largo do que o meu.

Puxei assunto sobre o filme porque a atenção dele me desconsertou.

Thor é um super-herói? Esse filme não tem apenas armas e lutinhas, né!?, desdenhei, me sentindo patética com a risada dele, em resposta automática. Thor é um deus da mitologia nórdica, o filme é bem legal, tenho certeza de que você vai gostar, ele disse, alcançando-me o bilhete. Pode entrar quando quiser, os trailers já começaram.

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Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

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Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio

Quando foi morar na casa da Dedé, Pipo ainda era bem pequeno, um cachorrinho com apenas algumas semanas de vida. No início, ele não sabia onde fazer o xixi e o cocô e levava bronca sempre que sujava a sala. Era muito difícil entender o que seus donos queriam que ele fizesse. E o que eles não queriam também.
Dedé comprou vários brinquedos para o filhotinho: bolinhas, ossinhos que faziam barulho e bonecos de pelúcia. Pipo adorava morder os brinquedos. Mas a sua diversão maior era morder as roupas, os móveis e as mãos da Dedé. A menina não entendia porque ele fazia aquilo.
Uma das coisas que Pipo mais gostava de fazer era sair de casa e ir para o quintal, onde havia um grande jardim, cheio de árvores. Mas sempre que saía de casa, a mãe da Dedé colocava a coleira no pescoço dele e o carregava para onde ela queria, sempre na companhia animada de Dedé. Mas Pipo não gostava da coleira.
Seu sonho era poder sair livre, correr pelo gramado e perseguir os passarinhos que sempre apareciam ali. Mas ele era novo demais para ficar livre. Dedé e a mãe dela tinham medo de que ele fosse para longe e não conseguisse mais voltar.
A verdade é que, no começo, Pipo não entendia algumas coisas que Dedé queria, e Dedé não entendia algumas coisas que o filhotinho fazia. Precisavam de algum tempo juntos para conseguirem entender um ao outro.
E foi exatamente isso o que aconteceu. Depois de alguns meses, Pipo aprendeu a não morder mais as coisas de Dedé porque entendeu que ela não gostava e que seus dentinhos afiados machucavam as mãos dela.
A menina, que tanto amava seu cãozinho, também compreendeu o seu grande desejo e, um dia, com a ajuda de sua mãe, levou Pipo a um campinho de futebol, todo cercado por uma tela, e tirou a coleira para que ele pudesse correr solto pelo gramado.
Assim, eles foram se conhecendo dia após dia, se entendendo e se respeitando. Só de olhar se olharem com carinho, já conseguem saber o que o outro está pensando. Hoje, são amigos inseparáveis.

Meu desafio: Escrever um texto infantil (é meu primeiro), daqueles que as mães leem aos filhos, com muitas ilustrações e pequenas frases em cada página (não sei desenhar mais do que bonecos palito, esse desafio eu não consigo nem tentar).

Resistência (Mary Ann) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.
Inúteis indulgências prostituídas, a embriaguez e um céu cortante desaba sobre a ainda frágil alma.
Forte, o luto, desembainhando fitas prateadas, insiste.
O limite tortuoso de um fim lento, impenetrável, rasga minhas veias – vias que anseiam venenos mortíferos – só uma vez, antes de terminar.
Agora é tempo e tão certo, não volte atrás, pois só há um por quê.
E creia, o meu menos sempre foi além do talvez, nesse luar obscuro.
Tumulto e armadilha: raia o desconhecido para mim, descerra o dia. Sei o que foi e interessa o sim, e será: tortura, a alvorada, o que não virá?
Muito ou pouco, véu e treva, celebrações, mãos unidas – só o tempo dirá.

*Meu desafio é tentar encontrar caminho e paz, entre perdas e dúvidas. Colocar em palavras o que grita aqui dentro.

A versão da vovó

Refaço teus passos
Te recrio no que faço
Meu fim, teu começo

“Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.”

Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele levou também todas as suas roupinhas em sacolas de plástico num horário em que ela já não estava acordada.

“Ninguém vira passarinho. Cresce, garota. Deixa de ser idiota.”

Tinha talvez seis anos. Embora a prima de nove tivesse mandado o irmão calar a boca, que deixasse a prima pequena em paz, nunca mais repetiu que um dia teria asas e cantaria como um sabiá.

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SAUDADE, PALAVRA SEM FIM (Alguém) – Desafio

Sentia a falta dele, como quem consome mais palavras do que cabem na boca, aos bocados, sem trégua. Rompia-se em saudades, em implosões contidas, subterrâneas sensações que a levavam a um ócio doentio, ao meio de todas as dúvidas que amanheciam junto a ela. Por que não falara toda a verdade quando o céu ainda estremecia em temeridade ao julgo daqueles que realmente importavam? Por que faltara com a sinceridade pontual, característica dos amantes imortais, para só então revelar o que lhe vinha definhando as fibras do bom senso, uma a uma, como cordas desgastadas de um instrumento afinado e raro? Decerto, cumpriria as inúmeras promessas, assim que fosse possível, se algum dia, fosse mesmo possível, expressar em ações tudo o que havia sido acordado entre eles, já tontos pela embriaguez passional, às portas de um romance que, logo de início, já se mostrava compassivo e dúbio.

Jazia, agora, a ilusão comum aos que se julgam destemidos e protegidos pelo amor, uma mentira costumaz que se aplicava também a ela, juíza dos próprios argumentos que saltavam como gazelas e cervos no campo caótico de seus pensamentos. A incoerência da dor, da lacuna que se abria em fendas profundas, escavadas pelos dias, que passavam mais rasos, e também pelas noites, que lhe deixavam profundas olheiras, era demasiada, concentrada em gritos que morriam sedentos na sua escassa fala.  

Pensou ser merecedora da pena mais cruel, afastar-se do amado, de desconhecê-lo, já que todos os juramentos haviam sido jogados ao lodo do esquecimento, mais cedo do que tarde, como se o amor, ali mesmo, fosse já reprovado e abatido em sacrifício. Mas quem, de fato, poderia assim julgá-la, sem rever em si os numerosos e encobertos tormentos que presenciara em vida e talvez em morte futura? Quem ousaria pronunciar-se superior aos sentimentos que ela, em prematura autoflagelação, deixava inundarem a mente, ao se entregar à febre das críticas, despetalando sonhos e desembrulhando com os dentes o presente que considerava carniça ou talvez alguma armadilha, resquício terrorista?

Nada mais importava, nem o certo, nem o errado, nem mesmo o que pensavam dela, se havia pecado em vão, se havia sido tola, ou caso apenas revelara-se humana; posto que em tudo, em cada passo, em cada olhar, em cada sorriso, ou mesmo nas lágrimas despejadas, ela se doara, sabendo que não haveria volta, sequer recompensa, talvez um olhar, um beijo, um sorriso que fosse, daquele que aninhava em seu peito, desde o princípio dos tempos, desde o todo “para sempre”, no momento crucial em que se descobrira mulher.     

Meu Desafio: Escrever períodos longos, sem julgar o excesso de palavras, clichês ou pieguice. Deixar fluir, sem criticar ou tentar remodelar o “filho”, e entregar o recém-nascido à leitura.

Em voo – (Equilibrista) – Desafio

Enquanto em queda
Livre
Não ela
Mas o buraco que se lhe abre em boca
 
A dor é tamanha
É tanta
Que não ousa gritar que é quase
O instante que já
 
No baque de dentes prontos
Momento derradeiro
O fundo do asfalto
O poço seco por que tanto anseia

Meu desafio: Escrever poesia.

Photo by Marcelo Moreira from Pexels

– A Gangue do Clube de Tricô – Iolandinha Pinheiro.

SEMPRE que lhe perguntavam o motivo de ter enveredado para uma vida de crimes, Dona Epifânia justificava

-Culpa do Epaminondas, quem mandou ele morrer?

Seu Epaminondas havia “batido as botas” uns seis meses antes, depois de cair sobre o balcão de bebidas da sua bodeguinha.

Além de morrer, Epaminondas ainda acabou dando um grande prejuízo: quebrou todo o estoque das garrafas de uma vez só. Do evento sobraram as dívidas com o fornecedor e um monte de cacos de vidro no chão.

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O confronto entre a menina e o bicho (Fheluany Nogueira)

 

 

Só diante do bicho a menina fica livre da timidez. É. Algumas pequenas fugas e o bicho para. É uma lagartixa. Não, muito grande para lagartixa. Ou um lagarto? Pequeno também para lagarto.

A menina e a lagartixa esperando o ataque. Um desafio ou uma contemplação? Para a lagartixa a menina é uma ameaça, máquina-que-atira-pedras. Que é uma lagartixa para a menina? Muito mais que uma lagartixa….

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Uma Amizade Incomum (Marília)

A cena que agora você lê começou quando Vovó estava no trem, a caminho da farmácia. No vai e vem de pessoas, sentaram-se ao seu lado uma menina de uns 5 anos e seu irmão mais velho. Estavam acompanhadas por mãe e uma bexiga que a pequena fazia questão de chamar de Amiga.

Simpática, a Menina se apresentou para Vovó, que sorriu e escutou os relatos de amizade entre uma humana e seu pedaço de plástico oxigenado por vida. Eis que, segurando a bexiga entre os dedos com toda calma e precisão, a doçura em forma de menina resolve deixar a amiga voadora se aventurar além dos limites contidos no vagão, colocando tão querida companheira vidro afora, como se assim pudesse gostar mais.

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Verdades Fingidas (C.R.Angst)

Ninguém percebe, mas ela tem um plano. Engana os sentidos para que pareça tudo tranquilo. Camufla as palavras com a delicadeza de um véu esgarçado e sem mais serventia. E ainda assim, ela não quer rasgar a ilusão da felicidade.

Ela finge que não se importa, que não regula o calendário com a ausência que traz em sua sombra. Diz que não há problema em misturar os dias, pois tem certeza de que cedo ou tarde o impasse se resolverá. E quando tudo mais for passado, isso também será parte da areia que debaixo dos seus pés desliza pela ampulheta. É o tempo dela. Só dela. A sós.

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– Flutuação – Iolanda Pinheiro

Não lembrava para onde estava indo, ou mesmo de quem era, apenas de como a chuva caia aos baldes sobre o para-brisa, e da pista escorregadia pela estrada sinuosa. Não sabia porque dirigia tão rápido naquela tempestade, mas recordava nitidamente do momento em que perdeu a direção e o carro se projetou sobre o despenhadeiro numa flutuação em câmera lenta, da luz dos faróis iluminando o céu de piche, do baque de mil e oitocentos quilos sobre o oceano, e depois, nada.
 
Acordou sufocando com a água que entrava por todos os lados. Batia no vidro com a trava metálica ao mesmo tempo que se atrapalhava tentando liberar a fivela do cinto de segurança.

Passou com dificuldade pela janela, nadou, já quase sem ar, em direção à superfície, e então sentiu um tentáculo enrolando-se pela perna esquerda e a puxando para baixo. Os pulmões lutavam por ar, e a consciência ia falhando. Agora o corpo todo estava tolhido, e algo pesado comprimia seu peito. Estava morrendo.

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Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

Quero-queros passeiam como se nada se passasse
atenta aos meus passos, circundo os ninhos
não quero que pese sobre meus ombros
a culpa pelos ovos partidos.

Ante os coletivos que circulam solitários
vejo brotar marmitas em esquinas que não existem
(cada um sobrevive como pode)
nenhum carro para
eu, a pé, hesito em correr o risco
— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
que alguém mais nobre a faça por mim.

Conforta-me a grama onde meus pés afundam
sou grata porque meus pais já partiram
minha geração assiste soturna
a descontinuidade da sorte
que tivemos até aqui.

Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

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Levar, Voltar (Marília)

De tão contraditório, fazia sorrir e chorar. Tudo no mesmo objeto, naquela pessoa carregada para perto do céu, de volta à terra. Eu só observava, admirava. Você chegava naquela sala que parecia vazia, meio escura, comportava pessoas alheias ao acontecer ali na tela daquele celular.

Isso bastava. A gente se preenchia enquanto sorrisos ecoavam, olhares compartilhavam desejos sem a boca verbalizar. Tudo com hora de acabar. Porque o turno do trabalho chegava ao fim, então a rota de volta era caminhada.

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O Preço

Ela estava chegando… Ele havia tido aquele sonho outra vez:  A moça vinha subindo pela areia da sepultura. Separando a terra negra e úmida até chegar à superfície. Andando, pálida e suja, mas resoluta em direção a ele… Emmanoel Olhou para o relógio com aflição. Ia por dentro da velha casa em passos ligeiros, verificando cada tranca, uma, duas, três vezes…. Encheu as frestas das janelas emparedadas com retalhos encharcados no barro mole. Por fim, e não restando mais nada a fazer, trancou-se na pequena despensa da cozinha e esperou.

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A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

Primeiro você mudou de linha. Imaginando que eu não perceberia, pulou para o outro parágrafo e foi se distanciando, até ultrapassar as margens e chegar à outra página. Foi então que eu te perdi de vista.
Ouvi dizer que, durante dias a fio, você percorreu páginas e invadiu capítulos, ansioso, confuso, aparentemente sem um propósito definido. Então, decidiu que precisava encontrar a fita de cetim vermelha, que, para o seu azar, sempre avançava um pouquinho mais a cada dia, dificultando o sucesso da sua jornada. Mas você finalmente a encontrou e a escalou, alcançando a borda da capa dura. Finalmente, conquistou sua liberdade, escorregando pela lombada. Veja só que corajoso.

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a maior metáfora fui eu (Sabrina Dalbelo)

Ao vivo e, ao evocar os meus demônios, eu ofertarei meus medos, meus filhos e meu saco de moedas.

Não posso te prometer um final luxuoso, nem aplausos, mas te darei meu nome e tudo o que dele fizeram.

Não tenho lembranças nem crenças. As verdades, as abandonei todas.

Trilhei um caminho torto e indigno de registro em medalhas.

Tenho o que sobrou da minha alma como legado.

Tudo isso dá uma palavra só, tão pequena que foi a minha imensidão.

A poesia do outro (Fernanda Caleffi Barbetta)

Não vejo graça em ler o que escrevo.
Gostoso é pousar os olhos nos escritos do outro.
Igual comida que a gente mesmo faz,
não tem sabor,
falta tempero.
O problema é que ler o outro
às vezes me dá gastura.
Quando a coisa é boa mesmo
dá uma sensação amarga de desejar ter escrito aquilo
e não poder mais.
Plágio é crime.
Outro dia, pedi ao meu amigo poeta
que escrevesse uma poesia minha
com a letra dele.
Em um papel branquinho,
com uma caligrafia rebuscada,
copiou os meus versos,
reproduziu minhas rimas.
Quando li,
deu aquela gastura,
a sensação amarga de não ter eu
aquela letra linda.

 

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