Cravos vermelhos – Dona Sabe Nada

Eu a conheci quando tínhamos apenas nove anos. Éramos crianças inocentes e não tínhamos a menor noção do que o destino nos reservava.

Ela tinha um cheiro de cravo. Eu amo cravo até hoje por isso.

Ela e seu cabelo vermelho, radiante, de andar apressado e pouco assunto. Ela queria mais era brincar, pular e agir como se não houvesse amanhã. Era feliz e sabia disso.

Eu sempre fui mais tímido, perguntava menos do que ela sobre as coisas da vida, mas estava sempre à disposição dela.

Ela se lambuzava no barro e eu saía correndo para pegar um balde d’água. Ela raspava a perna na cerca e eu corria para pegar o curativo, ela cantarolava e eu assoviava ao fundo.

Ela gostava de mim. E eu gostava muito dela. Muito.

Brincávamos pela manhã e, durante o almoço, trocávamos olhares pelas janelas de nossas casas, que eram vizinhas. À tardinha, após a aula, nos reencontrávamos para um papinho. Eu ficava pouco, pois sempre tinha muita tarefa, mas ela eu não sei, pois às vezes eu a via na rua, esvoaçando a saia vermelha do uniforme, aparentemente sem compromisso.

Íamos crescendo e a vida ia nos apresentando cada vez mais atividades.

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Musa – uma das contistas

Existe uma teoria que suspeita o universo como uma bolha. Não o meu, não apenas, mas todos. Sim, outros, pois que para esta suposição, há tantos mundos no cosmos quanto bolhas em uma garrafa de espumante. Para ela, a tal teoria, meu universo, nada mais é que uma destas incomensuráveis e frágeis bolinhas, vagando errática, flutuando em um tipo de sopa cósmica, e densa o suficiente para que eu viva, inocente e desavisada, acreditando ser única, até o fim de minha existência. Ou melhor, até o fatal dia em que, outra dessas bolhas, entrando em rota de colisão com a vizinha mais próxima, eu, se fundirá a esta sem nem ao menos perceber que foi atingida, que desapareceu, que já não é, ou, que ainda é, mas outra, maior e totalmente diferente da original, de ambas. Continue lendo “Musa – uma das contistas”

O medo do irmão – Psicóloga

Foi aos sete anos que comecei a entender o que era medo. Não o medo real, de algo que existe e ameaça, mas o medo do que não existe, invenção de alguém para produzir um efeito. Ou um resultado. Medo real, só fui sentir bem mais tarde, entrada nos anos, numa situação que eu não gosto nem de lembrar.

Provavelmente era sexta ou sábado, dias em que mais ou menos tínhamos autorização para dormir mais tarde. Meus pais tinham saído e nós três, sob o cuidado desatento de nossa avó permissiva e despreocupada,  escolhemos assistir a um filme de terror na TV.  Não lembro o nome do filme, tampouco o enredo, só recordo que certo palhaço assassino era o protagonista da história.

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Homem de Palha (Colombina)

 

 

O passado nem sempre foi justo. Por conta dele, às vezes, o futuro pode ficar comprometido. Pode estar ameaçado por um passado que voltou…

 

Das sombras dos lençóis, saíam homens de roupas coloridas, calças infladas e chapéu, varando dia e noite, por quintais perdidos. Ofereciam balões e encantavam. Sorriso malicioso, sapatos enormes, andar desajeitado. Melinha se divertia…

— É perigoso essa menina deixar se enlevar assim — retrucava a avó — É muita liberdade!

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As Folhas de Alumúria – Siderada

Anna Lúcia sabia que era adotada. Descobriu sozinha olhando os velhos álbuns com capa de ursinho na parte de cima do armário. Ao contrário dos irmãos mais velhos, não havia fotos da sua mãe grávida dela, ou foto sua ainda bebê. Não bastasse este fato, sempre se sentiu deslocada na família, na escola, no mundo.

E ainda havia os sonhos. Sonhava sempre com a mesma coisa, um outro pai, uma outra mãe, em um outro lugar.Sempre que dormia passava pelo portal entre mundos: no outro lado morava com os alumurianos, e não apenas isso, era um deles. Tinha longos alheamentos, um voluntário silêncio. Coisas de menina cismarenta, ensimesmada, esquisita. Os pais eram carinhosos, pacientes, falavam que aquilo era fantasia da menina.

-Passa quando você ficar mocinha.  Continue lendo “As Folhas de Alumúria – Siderada”

A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali

Felixiana morava numa casinha no pé do morro da Benedita, beijando o céu, perto do córrego do Boca. Um lugar nada propício para alguém que viajava o mundo nas páginas dos livros juntados no lixão.

Livros jogados fora, cujas imagens encantavam e conseguiam movimentar aquela vida mínima quando a roubavam da cama feita de estacas e a levavam para passear, dissipando a agonia da vida dura de filha de catadora e estudante assídua da escola pública do bairro.

— Onde já se viu jogar livro fora? Gente mais sem coração! Continue lendo “A Árvore Que Emoldurava A Lua – Evelyn Postali”

E O PALHAÇO O QUE É? (Red Diana)

Parecia sina ou alguma artimanha mal ajustada do destino. Os minutos começaram a desabar como uma sequência de peças de dominó, produzindo um triste, mas preciso espetáculo.

− Aqui há desesperos de todos os tons.

Tia Leninha tentava sorrir para não afligir ainda mais o pai que se debruçava sobre o leito onde jazia Diana.

− Se eu pudesse trocaria de lugar com ela.

O velho Gustavo sentou-se na cadeira encostada a cama, mantendo-se sua mão cobrindo a de  Diana. Suspirou e acertou os óculos sobre o nariz.  

− Sabe o que sua avó diria?Que ela está exatamente onde precisa estar. – falou esfregando a mão da neta como se quisesse afugentar o frio da sua pele.

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Em Segurança – Borboleta Celofane

Ruas limpas, com árvores frondosas, emolduram casas coloridas. Em  algum lugar o fugidio aroma de torta fresca corre entre as janelas. Pássaros, indiferentes, constroem ninhos. Uma criança passa de bicicleta acenando para o grande cão sonolento, enquanto o gato se alonga na grama fresca. Gotículas cintilam nas folhas da exuberante horta. A mulher acaricia o veludo do pêssego, respira fundo o orgulho da perfeição. Vinte e cinco graus, umidade relativa do ar 50%; pena quea vista é tão ruim. Lá fora gente estragada faz coisa feia num lugar ruim. Agente se esforça tanto para criar o mundo perfeito, sem violência, sem poluição e essa gente escrota insiste em estragar a paisagem. Por que olham tanto para nós? Continue lendo “Em Segurança – Borboleta Celofane”

Back to home – Evelyn Postali

 

Bichinhos de pelúcia. Caixinha de música. Livrinho de histórias. Ela cresce até fazer-se carne e osso, até ganhar altura, até marejar os olhos pela primeira vez. É um choro de vida de contagem regressiva, ali: começo, meio e fim. Dela, não se pode escapar, nem fingir estar em outro lugar, apesar de querer. É assim que é e assim sempre será.

Balinhas de goma. Pirulitos coloridos. Biscoitos açucarados de anis. No diário de bordo, balbucios, coisas soltas, até a articulação tomar forma. Ganha corpo, mas ganha alma, essência. Coisa que humano tem, mas esquece de ver no resto de tudo. Poemas em prosa. Poemas em verso. Risos a correr, crianças a correr, balões a alcançar o infinito.

Dedos finos, movimentos ágeis, ela encanta e se encanta ao som do mar e das montanhas. Pés desnudos em ruas calçadas, casas decoradas, janelas floridas abertas e portas fechadas. O amor a toma nos braços e a leva para longe. Porque, longe é um lugar que não existe. Continue lendo “Back to home – Evelyn Postali”

Quando escapou… (Teresa Simões)

Quando escapou…

Quando escapou-lhe as lágrimas ficou mais leve.

Ele sentiu de imediato a leveza no corpo frágil de inconfessáveis segredos. Fugiram-lhe à face, simplesmente, cansadas de rolar por bochechas que se negavam a sorrir, fugiram-lhe à causa de uma maturidade cansada que deixava sulcos profundos no rosto, traços marcantes de um mapa que somente ele decifrava devido aos anos de vivência. Secaram, desapegadas de posse, descuidadas de afeto. A tristeza quando é demais, reivindica a insensibilidade como couraça, um truque usado por muitos para continuar vivendo além das perdas que sempre são demasiadas num velho de 85 anos. Já tinha velado muitos, já tinha enterrado outros tantos, as velhas carpideiras não lhe faziam frente. Queria agora tratar do presente, mas o passado sempre vinha lhe cobrar o passe. A posse. E quanto mais se distanciava, mais perdido no passado ficava. Cansado, arrancou uma flor vermelho-tinto de uma campa próxima e sentou-se no banco para viver de memórias. Um pouco apenas, não muito. Permitiu-se ficar em abandono, como se assim se redimisse dos silêncios e então

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Com a ponta dos dedos – Paula Giannini

Dessa forma aprendeu a descobrir o mundo desde pequena. Gostava de passar a mão na superfície lisa da mesa e subir os dedinhos pela borda do prato até circundá-lo por inteiro. Só então metia o indicador para sentir a temperatura da sopa e procurar dentro do caldo as letrinhas de macarrão acrescentadas à janta pela mãe.

Mãe! M… A… E…

– Cadê o til? –  . Não havia. E sem til, mãe não era mãe, mas mae.

E mae não era uma palavra. Mae não significava nada, e assim a sopa não tinha graça. Palavra que, aliás, também não havia, já que o fabricante da massa se esquecera de acrescentar cedilha ao C…

Não. Continue lendo “Com a ponta dos dedos – Paula Giannini”

BALANÇO – Juliana Calafange

De olhos fechados eu inspirava, expirava, inspirava, expirava. E assim fui suavemente me entregando ao balanço. Leve. Volátil. Doce. A morte deve ser assim.

Embalado pelo mar da tranquilidade, abri os olhos devagar. Santa Maria, Pinta e Nina navegavam soltas pelo teto e meus sentidos lentamente percebiam a fria superfície sobre a qual meu corpo boiava, barriga para cima, braços abertos a espera de um abraço. Há muito tempo que eu singrava apenas por águas sujas, imundas, viscosas. Merecia aquele momento de conforto plácido. Algumas pessoas certamente condenariam minha extravagância, diriam que não tenho mais idade para brincadeiras lisérgicas. Mas o céu estava estrelado e a moça que me ofereceu o chá era tão bonita… Pra onde ela foi? Saiu correndo, dizendo sempre que estava atrasada. Isso não tinha mais importância agora. Tudo estava finalmente em ordem. Continue lendo “BALANÇO – Juliana Calafange”

Desforra do Bibelô – Fheluany Nogueira

 

Desforra do Bibelô

A primeira vez que estive com D foi em circunstâncias até agora não muito bem esclarecidas. Um choque descobrir que estava sendo observada quando acreditava estar só. Alguém me chamou com voz macia, filtrada destacou-se do grupo e começou a dizer:
– É Sara? É Sara? — pegou-me pelo braço, espanto. Voltei-me — era D. Ele chegou com o peito enfaixado, tinha se ferido num acidente. Ao abraçá-lo com força pude sentir ligas, esparadrapos e algodão. Aparentemente estava bem. Os anos de distância não lhe vincaram a pele macia, não lhe deformaram o talhe de galã (astro luzente, esguio, banhado de manhã); os olhos traziam o mesmo ar doce de outrora e senti por ele a mesma ternura de tempos atrás.

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Aos seis, um papagaio

Naquela época eu ainda achava que podia confiar nas pessoas mais velhas, que os mais fortes protegiam os mais fracos e que tios e tias  eram uma espécie de segundos pais.

Pensava também que pequenos animais silvestres existiam para ser aprisionados em gaiolas de onde eu podia tirá-los para brincar quando quisesse. Havia me tornado fazia pouco tempo praticamente a   dona de um casal de hamsters enjaulados depois do meu irmão mais velho, a dono inicial, mudar de fase.

Quando o vi, vistoso, pousado num galho alto na goiabeira, fiquei imóvel, hipnotizada. Eu já sabia do que um papagaio era capaz. Nossa vizinha de frente na casa da cidade tinha um que falava  bastante e andava para todo lado, a ponta de uma das asas cortada,  pousado no ombro dela.

Desci do balanço e chamei: “curupaco-paco-paco!”. Levantei o braço e fiz com o polegar e o indicador aquele gesto universal de chamar animal. Ele desceu obediente para um galho mais baixo.

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Conquistas Aleivosas – Vanessa Honorato

A vida é feita de momentos. Hoje pode-se estar bem, amanhã, apenas pelo capricho do destino, tudo pode mudar.

Por pensar desta forma, todo ano Jörg aproveita suas férias ao máximo, da maneira que mais gosta: viajando. A cada ano, um país. Cada país, uma aventura diferente.

Aos dezoito anos, com o auxílio de sua mãe, Jörg foi obrigado a dirigir a empresa da família. Não decepcionou a memória do pai. Tornou-se um responsável empresário.

Aos trinta e três anos, depois de viajar para vários países, chegara a hora de aventurar-se pelo Brasil. Um homem sempre muito bem informado, tomou conhecimento de que o país, que já fora tão conhecido mundialmente pelo futebol, estava em crise. Vários escândalos, dentre eles um impeachment presidencial, acabou chamando a atenção do rapaz.

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– Presságio – Iolandinha Pinheiro

Moro numa pequena cidade sem parentes ou amigos. Escolhi viver desta forma. Ergui uma casa distante da vila, uma espécie de retiro voluntário na floresta tendo como vizinhos apenas os animais e as plantas. Nem por isso tive algum dia de tranquilidade na vida, e nem poderia, pois não o mereço.

O nobre leitor acredita em fantasmas? Se a mim fosse feita esta pergunta talvez respondesse que não, mas apenas para não parecer louco diante de meu interlocutor. Estaria mentindo. Eu acredito em fantasmas. A minha convicção se formou a partir de quando ainda era bem jovem, quando aos vinte e um anos candidatei-me ao cargo de faroleiro que havia ficado vago após a morte do meu antecessor.
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Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)

A vida bolorenta nas vielas de barro e cheirando a chorume continuava, como sempre, a mesma merda, depois da morte de Julinho Esmola.

Miséria chama miséria e a necessidade de pobre é aquela coisa – nunca tem fim.

Quando depois de trinta meses de trabalho, bico, aperta aqui e esse mês paga-se a água, no outro paga-se a luz e vamos que vamos, “Deus vai ajudar, eu tenho fé!”, aí quando finalmente o puto do economicamente desfavorecido consegue adquirir o que precisava, e pobre de verdade sabe que supérfluo é só em sonho, e mesmo assim nem sabe direito o que é sonhar, vem uma chuva e leva tudo. Triste.

É. Nada é mole, todo mundo diz que não tem nada, mas quando vem a tragédia, diz que perdeu tudo. Perder tudo quando não se tem nada é rotina lá nos becos por onde caminhava a exuberante Magá – a Magali Batista – morena formosa de lábios de mil promessas e curvas perigosas, sonho de consumo da bandidagem local, e de fora também, e dos pais de família respeitáveis que não perdiam uma missa sequer, nos domingos pela manhã. Continue lendo “Magali Batista, Magá (Renata Rothstein)”

ALICE E PLATÃO – Claudia Roberta Angst

Acordou assim, sem perceber direito o dia. Uma névoa bloqueava seus pensamentos. Sonhara novamente com a mesma cena. Sempre a mesma e lenta cena. Despertando suada e quase sem fôlego, encostou-se na cabeceira da cama e recobrou a consciência aos poucos.

No sonho, havia marcado o encontro, secreto como deveria e só poderia ser. Desistira das horas plausíveis para acertar local e humor. Vestida de Alice procurava por tocas mágicas, coelhos apressados e chapeleiros malucos. Nada achava, é claro.

No desenrolar da odisseia onírica, Mirna carregava rosas brancas, mas logo reconhecia o próprio sangue sobre elas.  As pétalas desfaziam-se em suas mãos como uma areia infindável na ampulheta. Espinhos ficavam cravados na sua palma como mistérios sem dias. Um deserto de intenções que simplesmente não aconteciam. Mirna esperava que as cenas agregassem, no momento certo, os primeiros acordes de uma música especial. No entanto, a cenografia falhava, o sonoplasta desistia de acrescentar aqueles compassos ao ritmo da sua vida e tudo se embaralhava novamente. Continue lendo “ALICE E PLATÃO – Claudia Roberta Angst”

Promessa ~ Evelyn Postali

 

ooh I need
the darkness,
the sweetness,
the sadness,
the weakness,
ooh I need this.
Need a lullabye,
a kiss goodnight,
angel, sweet love of my life
ooh I need this¹

Irmãos caríssimos, reunimo-nos com alegria para participarmos nesta celebração…

Sorrisos em faces serenas. Sorrisos e alegria. Lágrimas caindo dos olhos dos mais emotivos. Vestidos, cores, fraques. Gravatas combinando com os ternos. Sapatos, brilhos, flores. Música suave e pacífica. Música… Música para embalar o sonho que a vida tornou real. Todas as atenções voltadas para os noivos. Os amantes. Não existe outra cerimônia mais tocante para dois seres do que esta. O casamento é sempre um momento único para dois corações que se amam.

Eles deixavam tudo isso aparecer. Seu amor, sua dor, seu querer. Sem pudor, sem rancor, sem qualquer outra culpa.

Senhor nosso Deus, que, desde a criação do gênero humano, quereis a união do homem e da mulher, uni pelo vínculo santo do amor estes vossos servos…

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Bomba alienígena – Sandra Godinho

Tique

Taque

Uma célula dentro do cosmos de um universo qualquer que por acaso é o meu universo de tempo e espaço só universo de dentro e fora meu universo que só se multiplica só e você pensa vou morrer eu sei que vou morrer algum dia alguma hora mas não tem que ser logo mas não tem que ser já e eu sei que uma célula se entranhou nesse cosmos que não é um cosmos qualquer mas o meu cosmos em plena surdina sem fazer alarde sem fazer barulho e se instalou e estancou lá dentro e se estratificou nos meus extremos e estremeceu e me estremeceu e eu no meu universo de tempo e espaço penso que nada está bem porque tenho noção de que a célula se desenvolve anos-luz e só e as leis da física não se aplicam à nova célula e dois seres podem ocupar o mesmo lugar no tempo e no espaço e a célula se reproduz e se desenvolve alienígena e só é um corpo estranho no meu corpo de sangue e carne e é um corpo estranho no meu corpo santo estreitado de vida que agora está alienado e aliciado para gerar outras células e dar alicerce a um ser que eu ainda não sei o que é e nem quem é e o que vai ser porque eu ainda não sei ou sei que aqui dentro é feito uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento e destruir o meu cosmos e o meu tempo e espaço e eu entro na banheira cheia de água e quero submergir e é isso eu quero ficar debaixo da água até que a água me leve não da banheira mas dos olhos que se encharcam com o ser alienígena que cresce aqui dentro sem que eu tenha qualquer controle sobre ele e o tique e taque está correndo sem parar e dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço e cresce e se desenvolve e eu não tenho mais controle sobre nada e eu pareço enlouquecer e não consigo parar de pensar que posso explodir e posso implodir e o meu cosmos não será o mesmo se eu não conseguir tirar essa célula que já não é mais uma mas um nódulo maligno que se transforma em vários nódulos que começam a viajar no meu universo sem pedir licença e eu não quero pensar mas já penso e não quero morrer mas já morro e não quero pirar mas já piro e não quero morrer sem viver mas não sei viver assim com essas células alienígenas que se apoderaram do meu corpo e do meu cosmos sem que eu possa cuspi-las fora porque já não há volta e eu penso em cortar o mal pela raiz aqui mesmo nessa banheira cheia de água que não me lava nem me leva nem me lambe só lamenta e eu lamento as lâminas lambuzadas de sangue envenenado por células malditas que foram para o laboratório para a biópsia que me condena só e eu condenada já cumpro pena por meus pecados enquanto eu aqui dentro da banheira  cheia de água me lembro de andar de mãos dadas com meus filhos sem conversa alguma só com a mão na mão e me lembro de dormir de conchinha com o marido sem nunca me separar das suas mãos grandes demais e do seu coração grande demais que nunca me deixou na mão que eu espero que agora ele segure meu mundo que está querendo sumir aqui com os olhos salivando lágrimas com a hipertensão fodida e com as ideias orbitando fora da cabeça e então o marido bate de mansinho do lado de fora e o meu cosmo invadido e em guerra se desloca até a porta e abro e ele avança dentro do meu mundo em ruína e me aperta nos braços e me aperta nas mãos grandes demais e então sei que ele companheiro vai me segurar em suas mãos grandes e não vai deixar meu mundo desmoronar nem por nada nem por tudo e então eu sei que meu universo de tempo e espaço meu universo se multiplica fora como dentro numa paz também alienígena e sei que tudo vai ficar bem.

Tique

Taque

 

 

 

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