De vidro

Que o mundo não era chato, era tudo o que queria provar. E iria. Custasse o que custasse. Levasse o tempo que levasse. Ora, não era plano… Não só. Por que é que os outros insistiam naquela história? Não havia razão para discordar, diziam. Bastava olhar para cima, para os lados, e pronto, lá estava o céu, plano, o horizonte, reto, com seus cantos e arestas simétricas de ângulos perfeitos.

Era chato.

E ponto.

Plano.

Não era.

Não para ela. Tampouco para sua imaginação. E, se plano, o seu, era provar aquilo que intuía desde sempre.  A vida era bem mais que o horizonte onde a vista alcança. Estava decidida. E iria experimentar sua teoria na próxima abertura.

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Um presente especial – Mamãe

− Mamãe, a gente pode comprar um shortinho novo pra Letícia? −Minha filha disse enquanto tomava leite e comia bolachas de chocolate no café da tarde.

− Pra Letícia? Ué, por quê? − Respondi admirada.

− Porque lá na escola ela pediu na cartinha para o Papai Noel um shortinho novo, é que o dela está rasgado e a mãe dela não tem dinheiro pra comprar outro… e como o Papai Noel não existe de verdade, né mãe, então a gente podia comprar pra ela, heim?

Desde que Isabela era pequena, ensinei sobre empatia e sobre  não ignorar a necessidade das outras pessoas e esse pedido dela me tocou o coração. 

− Claro que podemos, filhinha! Amanhã mesmo vamos sair pra comprar e vou mandar fazer um embrulho bem bonito para você entregar pra ela na segunda, tá bom? Continue lendo “Um presente especial – Mamãe”

Flora

— Como assim, Letícia?

— Não sei… aconteceu…

— Você não tava tomando remédio?

Tava! Mas às vezes eu esqueço…  

— Não acredito! Você tem certeza?

— Praticamente…  Deu positivo no exame de farmácia. Repeti ontem, te falei.  Só falta confirmar no exame de sangue.

No dia seguinte o exame de laboratório confirmou. Letícia estava na quinta semana de gravidez.

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Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga) – Para Inspirar

 

Tatá na Jaquaribe – 20  (Márcia Maria Anaga)

 

No encontro com a equipe multifuncional, composta por médicos, cardiologista, nefrologista e geriatra, assistente social e psicóloga, a família mensurou o grau da evolução da doença do avô.

Naquela linguagem única de médico, depois de muito tentarem apaziguar o impacto do comunicado pelas palavras, o geriatra finalizou: “Para o vovô não encontramos meios medicamentosos ou intervenção cirúrgica. O caso pede que deixemos na livre escolha dele se continua ou não com a hemodiálise. Para diminuição do sofrimento, o ideal seria que o entubássemos, a compressão pulmonar chegará no agudo daqui alguns dias. Tudo será decidido por ele e por vocês.

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Acalanto – Sandra Godinho

“Às 6h da manhã, eu fui acordado repentinamente de um sono profundo. Comparecer a uma execução. Ok, então eu só vou fazer a função de carrasco e, depois, a de coveiro. Por que não? Não é estranho? Você ama a batalha, mas é obrigado a atirar em pessoas indefesas. Vinte e três tiveram que ser fuzilados – entre eles, duas mulheres. Eles são inacreditáveis. Eles se recusam até mesmo a aceitar um copo de água vindo de nós.[1]

Você me leva para casa?

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Hamster – Paula Giannini

Tic.

Às quatro-e-trinta começa o giro.

Roda-gigante, roda-da-vida, um olho no sonho, o outro na tela, enquanto brilho do relógio arrebenta lhe a retina.

Bom-dia.

Mau-dia.

Não há outro jeito. Não para você. Que se a noite é curta, seu tempo é ainda menor.

No quarto ao lado as crianças dormem, graças a Deus que é pai, mas que devia ser mãe.

Mãe.

Porque pai é duro. Pai é fúria, é temor.

Para que será que serve, Deus meu, deixar que seus filhos passem por tanta prova, por tanta dor? Para que será? Continue lendo “Hamster – Paula Giannini”

O Jardim e o Deserto – Bia Machado

A mãozinha pequenina de Alice passeia por minha barriga. Os dedinhos suaves me causam um arrepio. Ela é quem mais gosta de me acariciar, e não o faz apenas com os dedos, mas também com o olhar, ao mesmo tempo espantado e compenetrado.
“Quando meus irmãozinhos vão nascer, mamãe?”
“Em breve, Alice” eu respondo.
“Breve é muito tempo?”, o sorriso inocente, eternizado em meu mundo, tornando tudo mais suportável.

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FELIZ ANIVERSÁRIO (de Luisa Geisler) – Para inspirar

FELIZ ANIVERSÁRIO  (de Luisa Geisler)

As tias permaneceram no carro, Sofia e a mãe só buscam o bolo, questão de minutos. Saem da confeitaria, a mãe carregando, com as duas mãos, a caixa. No banco do carona, Juliana, a prima, destrava as portas. Os óculos de sol, a janela aberta e a camiseta de mangas longas da prima são incompatíveis. Juliana emagreceu muito desde a última vez que ela e Sofia viram-se.

Enquanto Sofia planeja sua entrada no banco traseiro, Juliana ― no banco da frente ― ajeita as mangas longas.

As duas tias, ambas com IMC de classificação de, no mínimo, obesidade mórbida, empurram-se para que Sofia entre no carro, no banco de trás, ao lado delas. A mãe de Sofia insiste que ela coloque o cinto de segurança. Sofia coloca-o, ajusta a postura, sente o apertão no peito. Ajusta as pernas com dificuldade no banco de trás do carro, as tias grunhem a cada movimento. Apertam-se. A mãe coloca devagar a caixa de papelão no colo de Sofia. Mal a mãe vira-se para o volante, ela enche a filha de recomendações. A caixa gelada pesa no colo da garota.

Sofia mexeria mais as pernas se pudesse, se não tivesse um metro e oitenta. Um metro e oitenta que se tornaram um metro e oitenta só de pernas. O banco vibra enquanto a mãe liga o carro e dirige-se à casa de Juliana e da tia. Juliana permanece em silêncio, mexe nas mangas, puxa-as para cima das mãos.

As tias voltam à conversa em voz alta com a mãe de Sofia. Falam da festa. O calor deixa marcas de suor nas roupas de tecido estampado, na região das axilas. Sofia concentra-se no bolo dentro da caixa: o bolo da prima é bonito, sim. Confetes coloridos cobrem o bolo, o recheio tem camadas coloridas das cores coloridas do colorido do arco-íris. O bolo tem ― conforme a atendente chama ― uns três andares de glacê magenta. O peso pressiona as pernas de Sofia, machuca. As tias falam dos salgadinhos, da festa, dos convites, da decoração da casa, telefonemas, de quem virá à festa, de quem não virá, xingam os ausentes com palavrões.

― Mas nem por isso as pessoas tinham que deixar de comparecer ― diz uma tia. ― A gente não precisa se ver só em aniversários.

Sofia imagina que a mãe se esforce para ouvir as tias com os ruídos de carro, que entram pela janela escancarada de Juliana. A mãe, dirigindo, olhando as ruas, os carros, diz:

― É que muita gente se magoou. Acham que é coisa de gente mimada.
― E não vir quer dizer o quê?

Juliana pede, sua voz baixa, pede que mudem de assunto, que falem de outra pessoa. A tia baixa a voz, volta a falar dos salgadinhos de festa, do bolo escolhido colorido com colorido colorido colorido especialmente para a festa. Reclama de um farol onde pararam.

O carro abafa-se com a espera sob o Sol, calor, bolo úmido. As pernas da tia ao lado prendem, cada vez mais, Sofia entre a porta do carro e contra a gordura da tia. Sofia sente suas pernas mergulharem no tecido adiposo, a gordura da tia abraça o raquitismo de Sofia. Sofia respira fundo, sentindo o cheiro do aromatizador de lavanda, o cheiro de rua entra pela janela. Náusea. Falta-lhe ar, falta-lhe ar, todo o ar do carro, todo o ar das janelas escancaradas é supérfluo, falta-lhe ar dentro do pulmão, ela nunca encherá o pulmão de oxigênio por completo, falta-lhe silêncio.

Sofia inspirando e expirando, repetindo para si que tudo ficaria bem, a umidade do bolo atravessando a caixa atravessando a calça jeans até as coxas magras, até os ossos.

Juliana vira o pescoço para trás, o cinto de segurança impedindo-a de virar-se inteira. Juliana olha para Sofia por trás dos óculos de sol. Os óculos de sol cobrem metade do rosto e metade da expressão. Com um sorriso literalmente amarelo, Juliana diz com a voz baixa:

― Tá tudo bem aí contigo?

Juliana voltou para casa há apenas uma semana. A umidade do bolo atravessa a caixa e atravessa a regata de Sofia, gruda na barriga. Juliana perdeu tantas aulas na universidade, talvez o semestre inteiro, talvez reprovasse por faltas. Sofia sentiu a falta da prima durante Antropologia IV, quis dormir durante todo o pós-estruturalismo.

O celular tocara num dia de calor idêntico. Sofia lembrava-se que naquele dia vestira uma jaqueta de moletom sobre o pijama e passou calor no hospital sem poder tirá-lo. Sofia não se recordava se o calor pertencia àquele dia ou ao moletom. Mas o corpo inteiro suara. Parecia a Sofia que tudo aquilo fazia anos, mas foram semanas. Sofia, de férias, meio adormecida em casa, recebendo a ligação dos tios no meio da tarde.

Sofia lembrava-se que fazia brigadeiro de panela naquela tarde.

Chamaram Sofia e a mãe ao hospital. Sofia sujou o pijama, vestiu a jaqueta de moletom. Os tios deveriam estar em viagem, mas sentiram-se culpados de deixar Juliana sozinha. A família deveria viajar em conjunto, como sempre fizera. Voltaram. Na sala de espera, as lágrimas emolduravam os discursos de “e se…”, jogando as culpas em todos os lugares e pessoas. Sofia baixou a cabeça quando os pais perguntavam a ela por que Felipe, o namorado de Juliana, não atendia aos telefonemas deles. O médico acalmava-os, afastava as preocupações, deixassem Felipe de lado, o pior já passara, Juliana estava bem, estava ali.

Quando eram pequenas, Sofia e Juliana gostavam de dançar atrás da casa, perto da árvore. A tia derrubaria a laranjeira para aumentar a garagem. Juliana chorou trancada no quarto ao saber da laranjeira.

Juliana sempre foi sensível demais.

O farol abre. Sofia sorri. O carro vibra com o movimento do motor, movimento das ruas. O cheiro de suor que vem das tias e dela mesma não a incomoda. O mormaço do carro, a umidade que Sofia lança na camiseta regata dela, em sua testa, em torno de seu cabelo loiro preso num curto rabo-de-cavalo, nada daquilo a incomoda. O bolo pesa no colo. Juliana acabou de perguntar se está tudo bem lá, com Sofia, com Sofia e Juliana, a sensível Juliana, sem Felipe, mas com Sofia e Juliana e Sofia sorri:

― Tudo ótimo.

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O motivo da escolha 

Pensei que seria interessante conhecer o trabalho de uma escritora tão jovem e já premiada.

Sobre a Autora

Luisa Geisler, jovem escritora gaúcha venceu, aos 19 anos, o Prêmio Sesc de Literatura de 2010, na categoria conto, pelo seu livro Contos de Mentira (2010), também finalista do Prêmio Jabuti, no mesmo ano. Em 2011, ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance com Quiçá (2011). Além desses dois livros premiados, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014). Dentre as escritoras brasileiras contemporâneas, Geisler é uma das poucas que teve grandioso destaque ainda tão jovem.

Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir. Continue lendo “Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar”

Interligado ( Homenagem ao desafio Era uma vez um personagem)- Neusa Maria Fontolan

—Pode parar! — gritou “RALF”, já sem paciência, para “Margareth”.

 “ELE” a fez ficar “Além do tempo” de aula, desafiando a “Luz e Sombra” do entardecer. “Outras Mulheres” já haviam estado nesta mesma situação que, agora, Margareth se encontrava, mas acabou dando em nada. Ralf sentia que essa aluna seria motivo de orgulho, ela era talentosa, e por esta razão ele era duro com ela. Tinha que ter “Pulso” firme.

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Para inspirar – SERVO FIEL (MÉRCIA FERREIRA)

Ibraim abandonou o carro que apresentara problemas na estrada, e decidiu seguir a pé, sozinho, naquela madrugada fria e cinzenta, portando apenas uma lanterna. Já havia percorrido cerca de dois quilômetros, quando, em meio ao asfalto da rodovia, encontrou uma mancha enorme de sangue. Ele ajoelhou, conferindo que a poça de sangue que encontrara era fresca. O medo tomou conta do seu corpo magro, fazendo arrepiar todos os pelos do seu ser. Sua mente o incitava a correr dali. Quem quer que tivesse feito aquilo, poderia estar ali ainda, de campana, no mato. Mas suas pernas pareciam barras de chumbo, pesando e o impedindo de correr.

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Margareth – Anorkinda Neide

 

Trabalhei alguns anos como pesquisadora, visitava casas de bairros simples a favelas, bairros remediados também. Conheci muitas pessoas interessantes, outras nem tanto e ainda outras que nem merecem ser mencionadas… Aprendi muito com algumas, recebi conselhos e receitas anotadas em folhas de caderno, de forma apressada mas cheia de carinho e doação. Também ouvi histórias, às vezes, o resumo de uma vida inteira, indiquei alguns chás pra digestão e elogiei alguns jardins floridos.

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ELE – Mara

Ele estava sorrindo pra mim. 

Não um sorriso formal daqueles que dedicamos a qualquer um por educação, mas um convidativo, acompanhado de um olhar que fez meu coração saltar dentro do peito, minhas mãos suarem, minhas bochechas esquentarem. Além de outras reações, que achei, estavam adormecidas pra sempre.  

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RALF – Glub Glub

Júlia ainda não sabia como iria convencer Guilherme, o irmão mais velho, mas mesmo assim já havia descrito o que levaria para a mostra científica da escola: Ralf, um peixinho dourado. Há poucos dias o animalzinho aquático havia somado à família quando o irmão completara treze anos. O dia fora divertido como há muito não acontecia: pai e mãe reunidos, cineminha, parque de diversões… O aniversariante quase empobreceu o pai na barraca de tiro, mas acabou acertando o alvo e levado Ralf como prêmio para casa. Agora Júlia seguia os passos de Guilherme de perto, com ouvidos e olhos atentos.

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Recomeço – Élida

Chovia pela segunda semana seguida, impedindo qualquer excursão ao ar livre para inspirar mais uma tela, fazia quase um mês que não pintava, tempo demais. Olhando pela janela, de roupão, cabelo preso em um rabo de cavalo e uma caneca cheia de café quente e cheiroso, Élida suspirava e tentava pensar em algo que espantasse seu tédio. Se ao menos houvesse algumas crianças correndo pela casa, bagunçando a ordem perfeita dos móveis, bibelôs, almofadas e quadros, ou pelo menos um cachorro, gato, passarinho… Para arrumar as crianças era tarde demais, mas para um cãozinho mão era…  quem sabe.

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Luz e Sombra – Renata Rothstein

Terras de Ythisi, século VII D.C.                              

Yanna caminhava resoluta pela encosta íngreme rumo ao cemitério de Tagar, sentindo o vento frio e cortante, tão frio e cortante quanto aqueles últimos tempos, feitos de surpresas e responsabilidades impostas, para as quais não havia se preparado.

Continuou a subir a montanha cada vez mais rápido, e parando subitamente ao atingir o ponto mais alto, de onde se avistava todo o grande reino de Orr – e onde ficava também o cemitério do reino.

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