O Jardim e o Deserto – Bia Machado

A mãozinha pequenina de Alice passeia por minha barriga. Os dedinhos suaves me causam um arrepio. Ela é quem mais gosta de me acariciar, e não o faz apenas com os dedos, mas também com o olhar, ao mesmo tempo espantado e compenetrado.
“Quando meus irmãozinhos vão nascer, mamãe?”
“Em breve, Alice” eu respondo.
“Breve é muito tempo?”, o sorriso inocente, eternizado em meu mundo, tornando tudo mais suportável.

Continue lendo “O Jardim e o Deserto – Bia Machado”

Anúncios

FELIZ ANIVERSÁRIO (de Luisa Geisler) – Para inspirar

FELIZ ANIVERSÁRIO  (de Luisa Geisler)

As tias permaneceram no carro, Sofia e a mãe só buscam o bolo, questão de minutos. Saem da confeitaria, a mãe carregando, com as duas mãos, a caixa. No banco do carona, Juliana, a prima, destrava as portas. Os óculos de sol, a janela aberta e a camiseta de mangas longas da prima são incompatíveis. Juliana emagreceu muito desde a última vez que ela e Sofia viram-se.

Enquanto Sofia planeja sua entrada no banco traseiro, Juliana ― no banco da frente ― ajeita as mangas longas.

As duas tias, ambas com IMC de classificação de, no mínimo, obesidade mórbida, empurram-se para que Sofia entre no carro, no banco de trás, ao lado delas. A mãe de Sofia insiste que ela coloque o cinto de segurança. Sofia coloca-o, ajusta a postura, sente o apertão no peito. Ajusta as pernas com dificuldade no banco de trás do carro, as tias grunhem a cada movimento. Apertam-se. A mãe coloca devagar a caixa de papelão no colo de Sofia. Mal a mãe vira-se para o volante, ela enche a filha de recomendações. A caixa gelada pesa no colo da garota.

Sofia mexeria mais as pernas se pudesse, se não tivesse um metro e oitenta. Um metro e oitenta que se tornaram um metro e oitenta só de pernas. O banco vibra enquanto a mãe liga o carro e dirige-se à casa de Juliana e da tia. Juliana permanece em silêncio, mexe nas mangas, puxa-as para cima das mãos.

As tias voltam à conversa em voz alta com a mãe de Sofia. Falam da festa. O calor deixa marcas de suor nas roupas de tecido estampado, na região das axilas. Sofia concentra-se no bolo dentro da caixa: o bolo da prima é bonito, sim. Confetes coloridos cobrem o bolo, o recheio tem camadas coloridas das cores coloridas do colorido do arco-íris. O bolo tem ― conforme a atendente chama ― uns três andares de glacê magenta. O peso pressiona as pernas de Sofia, machuca. As tias falam dos salgadinhos, da festa, dos convites, da decoração da casa, telefonemas, de quem virá à festa, de quem não virá, xingam os ausentes com palavrões.

― Mas nem por isso as pessoas tinham que deixar de comparecer ― diz uma tia. ― A gente não precisa se ver só em aniversários.

Sofia imagina que a mãe se esforce para ouvir as tias com os ruídos de carro, que entram pela janela escancarada de Juliana. A mãe, dirigindo, olhando as ruas, os carros, diz:

― É que muita gente se magoou. Acham que é coisa de gente mimada.
― E não vir quer dizer o quê?

Juliana pede, sua voz baixa, pede que mudem de assunto, que falem de outra pessoa. A tia baixa a voz, volta a falar dos salgadinhos de festa, do bolo escolhido colorido com colorido colorido colorido especialmente para a festa. Reclama de um farol onde pararam.

O carro abafa-se com a espera sob o Sol, calor, bolo úmido. As pernas da tia ao lado prendem, cada vez mais, Sofia entre a porta do carro e contra a gordura da tia. Sofia sente suas pernas mergulharem no tecido adiposo, a gordura da tia abraça o raquitismo de Sofia. Sofia respira fundo, sentindo o cheiro do aromatizador de lavanda, o cheiro de rua entra pela janela. Náusea. Falta-lhe ar, falta-lhe ar, todo o ar do carro, todo o ar das janelas escancaradas é supérfluo, falta-lhe ar dentro do pulmão, ela nunca encherá o pulmão de oxigênio por completo, falta-lhe silêncio.

Sofia inspirando e expirando, repetindo para si que tudo ficaria bem, a umidade do bolo atravessando a caixa atravessando a calça jeans até as coxas magras, até os ossos.

Juliana vira o pescoço para trás, o cinto de segurança impedindo-a de virar-se inteira. Juliana olha para Sofia por trás dos óculos de sol. Os óculos de sol cobrem metade do rosto e metade da expressão. Com um sorriso literalmente amarelo, Juliana diz com a voz baixa:

― Tá tudo bem aí contigo?

Juliana voltou para casa há apenas uma semana. A umidade do bolo atravessa a caixa e atravessa a regata de Sofia, gruda na barriga. Juliana perdeu tantas aulas na universidade, talvez o semestre inteiro, talvez reprovasse por faltas. Sofia sentiu a falta da prima durante Antropologia IV, quis dormir durante todo o pós-estruturalismo.

O celular tocara num dia de calor idêntico. Sofia lembrava-se que naquele dia vestira uma jaqueta de moletom sobre o pijama e passou calor no hospital sem poder tirá-lo. Sofia não se recordava se o calor pertencia àquele dia ou ao moletom. Mas o corpo inteiro suara. Parecia a Sofia que tudo aquilo fazia anos, mas foram semanas. Sofia, de férias, meio adormecida em casa, recebendo a ligação dos tios no meio da tarde.

Sofia lembrava-se que fazia brigadeiro de panela naquela tarde.

Chamaram Sofia e a mãe ao hospital. Sofia sujou o pijama, vestiu a jaqueta de moletom. Os tios deveriam estar em viagem, mas sentiram-se culpados de deixar Juliana sozinha. A família deveria viajar em conjunto, como sempre fizera. Voltaram. Na sala de espera, as lágrimas emolduravam os discursos de “e se…”, jogando as culpas em todos os lugares e pessoas. Sofia baixou a cabeça quando os pais perguntavam a ela por que Felipe, o namorado de Juliana, não atendia aos telefonemas deles. O médico acalmava-os, afastava as preocupações, deixassem Felipe de lado, o pior já passara, Juliana estava bem, estava ali.

Quando eram pequenas, Sofia e Juliana gostavam de dançar atrás da casa, perto da árvore. A tia derrubaria a laranjeira para aumentar a garagem. Juliana chorou trancada no quarto ao saber da laranjeira.

Juliana sempre foi sensível demais.

O farol abre. Sofia sorri. O carro vibra com o movimento do motor, movimento das ruas. O cheiro de suor que vem das tias e dela mesma não a incomoda. O mormaço do carro, a umidade que Sofia lança na camiseta regata dela, em sua testa, em torno de seu cabelo loiro preso num curto rabo-de-cavalo, nada daquilo a incomoda. O bolo pesa no colo. Juliana acabou de perguntar se está tudo bem lá, com Sofia, com Sofia e Juliana, a sensível Juliana, sem Felipe, mas com Sofia e Juliana e Sofia sorri:

― Tudo ótimo.

***********************

O motivo da escolha 

Pensei que seria interessante conhecer o trabalho de uma escritora tão jovem e já premiada.

Sobre a Autora

Luisa Geisler, jovem escritora gaúcha venceu, aos 19 anos, o Prêmio Sesc de Literatura de 2010, na categoria conto, pelo seu livro Contos de Mentira (2010), também finalista do Prêmio Jabuti, no mesmo ano. Em 2011, ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance com Quiçá (2011). Além desses dois livros premiados, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014). Dentre as escritoras brasileiras contemporâneas, Geisler é uma das poucas que teve grandioso destaque ainda tão jovem.

Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir. Continue lendo “Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar”

Interligado ( Homenagem ao desafio Era uma vez um personagem)- Neusa Maria Fontolan

—Pode parar! — gritou “RALF”, já sem paciência, para “Margareth”.

 “ELE” a fez ficar “Além do tempo” de aula, desafiando a “Luz e Sombra” do entardecer. “Outras Mulheres” já haviam estado nesta mesma situação que, agora, Margareth se encontrava, mas acabou dando em nada. Ralf sentia que essa aluna seria motivo de orgulho, ela era talentosa, e por esta razão ele era duro com ela. Tinha que ter “Pulso” firme.

Continue lendo “Interligado ( Homenagem ao desafio Era uma vez um personagem)- Neusa Maria Fontolan”

Para inspirar – SERVO FIEL (MÉRCIA FERREIRA)

Ibraim abandonou o carro que apresentara problemas na estrada, e decidiu seguir a pé, sozinho, naquela madrugada fria e cinzenta, portando apenas uma lanterna. Já havia percorrido cerca de dois quilômetros, quando, em meio ao asfalto da rodovia, encontrou uma mancha enorme de sangue. Ele ajoelhou, conferindo que a poça de sangue que encontrara era fresca. O medo tomou conta do seu corpo magro, fazendo arrepiar todos os pelos do seu ser. Sua mente o incitava a correr dali. Quem quer que tivesse feito aquilo, poderia estar ali ainda, de campana, no mato. Mas suas pernas pareciam barras de chumbo, pesando e o impedindo de correr.

Continue lendo “Para inspirar – SERVO FIEL (MÉRCIA FERREIRA)”

Margareth – Anorkinda Neide

 

Trabalhei alguns anos como pesquisadora, visitava casas de bairros simples a favelas, bairros remediados também. Conheci muitas pessoas interessantes, outras nem tanto e ainda outras que nem merecem ser mencionadas… Aprendi muito com algumas, recebi conselhos e receitas anotadas em folhas de caderno, de forma apressada mas cheia de carinho e doação. Também ouvi histórias, às vezes, o resumo de uma vida inteira, indiquei alguns chás pra digestão e elogiei alguns jardins floridos.

Continue lendo “Margareth – Anorkinda Neide”

ELE – Mara

Ele estava sorrindo pra mim. 

Não um sorriso formal daqueles que dedicamos a qualquer um por educação, mas um convidativo, acompanhado de um olhar que fez meu coração saltar dentro do peito, minhas mãos suarem, minhas bochechas esquentarem. Além de outras reações, que achei, estavam adormecidas pra sempre.  

Continue lendo “ELE – Mara”

RALF – Glub Glub

Júlia ainda não sabia como iria convencer Guilherme, o irmão mais velho, mas mesmo assim já havia descrito o que levaria para a mostra científica da escola: Ralf, um peixinho dourado. Há poucos dias o animalzinho aquático havia somado à família quando o irmão completara treze anos. O dia fora divertido como há muito não acontecia: pai e mãe reunidos, cineminha, parque de diversões… O aniversariante quase empobreceu o pai na barraca de tiro, mas acabou acertando o alvo e levado Ralf como prêmio para casa. Agora Júlia seguia os passos de Guilherme de perto, com ouvidos e olhos atentos.

Continue lendo “RALF – Glub Glub”

Recomeço – Élida

Chovia pela segunda semana seguida, impedindo qualquer excursão ao ar livre para inspirar mais uma tela, fazia quase um mês que não pintava, tempo demais. Olhando pela janela, de roupão, cabelo preso em um rabo de cavalo e uma caneca cheia de café quente e cheiroso, Élida suspirava e tentava pensar em algo que espantasse seu tédio. Se ao menos houvesse algumas crianças correndo pela casa, bagunçando a ordem perfeita dos móveis, bibelôs, almofadas e quadros, ou pelo menos um cachorro, gato, passarinho… Para arrumar as crianças era tarde demais, mas para um cãozinho mão era…  quem sabe.

Continue lendo “Recomeço – Élida”

Luz e Sombra – Renata Rothstein

Terras de Ythisi, século VII D.C.                              

Yanna caminhava resoluta pela encosta íngreme rumo ao cemitério de Tagar, sentindo o vento frio e cortante, tão frio e cortante quanto aqueles últimos tempos, feitos de surpresas e responsabilidades impostas, para as quais não havia se preparado.

Continuou a subir a montanha cada vez mais rápido, e parando subitamente ao atingir o ponto mais alto, de onde se avistava todo o grande reino de Orr – e onde ficava também o cemitério do reino.

Continue lendo “Luz e Sombra – Renata Rothstein”

Doença de Família – Sabrina Dalbelo

Primeiro lugar no vestibular na Faculdade de Medicina da USP 2007. Grande mérito, resultado de igual dose de responsabilidade. Isabela Alonso entrava na faculdade como a melhor da turma e logo se tornaria a preferida do professor de anatomia, Ricardo Pádua, um reconhecido médico paulista. As investidas, após as aulas práticas sobre o sistema cardiovascular, resultaram na entrega do coração ao mestre, vinte anos mais velho. Eram companheiros frequentes nos intervalos das aulas e logo o namoro engatou.

Continue lendo “Doença de Família – Sabrina Dalbelo”

Um céu para Maicon

Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.  

Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava.  Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?

Continue lendo “Um céu para Maicon”

SEM TONS – Alina

Nasceu totalmente desprovida de melanina, como se toda a cor da sua gente tivesse escorrido por um ralo imaginário. As raízes africanas só se revelavam nos traços fortes, nos lábios generosos, sedentos de um calcado a mais de ébano. Nada nela se escurecia, a não ser a rejeição que logo se apresentou como companheira fiel.

Coube à família, a missão de acolher a menina, criá-la em seu seio com os valores de seus ancestrais. Mas como aceitar aquele ser tão diminuto e ao mesmo tempo tão estranho a tudo que antes era familiar e natural? Todos ali se orgulhavam de ser o que eram, sem misturas que mesclassem outros tons ao padrão herdado.

Por falta de atenção ou talvez até uma ponta de ironia, batizaram a criança com o nome de Alina. No decorrer da infância, entre colegas de escola e até mesmo no convívio doméstico, a rima caiu como uma luva para que o bullying se esparramasse como praga. Era Alina, a albina.

Continue lendo “SEM TONS – Alina”

Pulso – Evelyn Postali

Como chegara àquela encruzilhada?

Com a arma em punho apontada para Max, ouviu a própria respiração enquanto o pulso tremeu de leve ao experimentar o peso da pistola. Aquele seria o momento propício para romper a linha tênue entre o que já vivera e a estrada desconhecida que se abria adiante? Era assim, num estalo, a fronteira entre o bem e o mal, entre o certo e o errado? Puxar o gatilho ou não? Mas o que diria ao irmão a esperar por ela em casa? “Ei, maninho! Matei um homem. Agora você pode fazer a cirurgia.” Era isso? Nada mais de madrugadas trabalhando por mixarias, nada de patrões abusivos, nada de músculos cansados pelas horas extras.

Ao perceber o movimento do sujeito caído à sua frente, o dedo roçou no gatilho. Continue lendo “Pulso – Evelyn Postali”

O Caminho é o Caminhar (Fheluany Nogueira)

— Acredito em Carma, mãe! Carma é física, ação e reação. Aceitar tudo como um fardo imutável? Isso não. Se nada muda, mudo eu!

— Eu acredito, sim, no destino. É lógico, sem confundi-lo com pachorra ou acomodação. Nada acontece por acaso. Tudo é uma questão de estar na hora e no lugar certo. Coincidências, tia? Claro que não…

— É. Nada vai embora antes da hora. Aprendizado ou teimosia? Mesmo na teimosia, há uma lição. Culpar a vida, o destino e se sentar, na zona de conforto, em posição vítima é péssima escolha. Sofrimento e perda de tempo. Chega de teorias… Um exemplo prático:

Continue lendo “O Caminho é o Caminhar (Fheluany Nogueira)”

Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,

Osmose lenta.

Boca entreaberta como se bebesse,

Cabeça atenta.

 

Rosto desfeito,

Rosto sem recusa onde nada se defende,

Rosto que se dá na angústia do pedido,

Rosto que as vozes atravessam.

 

Rosto derivando lentamente,

Pressentimento que os laranjais segredam,

Rosto abandonado e transparente

Que as negras noites de amor em si recebem.

 

Longos raios de frio correm sobre o mar

Em silêncio ergueram-se as paisagens

E eu toco a solidão como uma pedra.

Continue lendo “Para Inspirar – Rosto Nu (Sophia de Mello Breyner Andresen)”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑