Verdades Fingidas (C.R.Angst)

Ninguém percebe, mas ela tem um plano. Engana os sentidos para que pareça tudo tranquilo. Camufla as palavras com a delicadeza de um véu esgarçado e sem mais serventia. E ainda assim, ela não quer rasgar a ilusão da felicidade.

Ela finge que não se importa, que não regula o calendário com a ausência que traz em sua sombra. Diz que não há problema em misturar os dias, pois tem certeza de que cedo ou tarde o impasse se resolverá. E quando tudo mais for passado, isso também será parte da areia que debaixo dos seus pés desliza pela ampulheta. É o tempo dela. Só dela. A sós.

Talvez nem seja fingimento de verdade. Talvez seja mais uma proteção, uma capa de chuva a repelir as lágrimas que não respeitam o seu momento. Não importa o quanto ela se esforce, o sorriso vira canoa e navega pela melancolia. E ela se deixa deslizar pelas semanas.

Agora tenho certeza de que ela não finge. Nem a dor, nem mesmo o amor. Vê, ela não reclama da demora, do rabugento destino que não se apressa com nada. Nem mesmo para acertar as pedras do caminho. Nem mesmo para consertar os ponteiros que já perderam a noção da saudade.

Nunca finge. Posso apostar que não. Ela só não fala o quanto espera. E o quanto esperará até que o mundo gire mais devagar e jure também esperar por ela. Enquanto isso, guarda as promessas na barra da saia, costurando pérolas e estrelas arrancadas dos seus sonhos.

É o plano dela. Talvez não só dela. Nunca mais serem sós.

– Flutuação – Iolanda Pinheiro

Não lembrava para onde estava indo, ou mesmo de quem era, apenas de como a chuva caia aos baldes sobre o para-brisa, e da pista escorregadia pela estrada sinuosa. Não sabia porque dirigia tão rápido naquela tempestade, mas recordava nitidamente do momento em que perdeu a direção e o carro se projetou sobre o despenhadeiro numa flutuação em câmera lenta, da luz dos faróis iluminando o céu de piche, do baque de mil e oitocentos quilos sobre o oceano, e depois, nada.
 
Acordou sufocando com a água que entrava por todos os lados. Batia no vidro com a trava metálica ao mesmo tempo que se atrapalhava tentando liberar a fivela do cinto de segurança.

Passou com dificuldade pela janela, nadou, já quase sem ar, em direção à superfície, e então sentiu um tentáculo enrolando-se pela perna esquerda e a puxando para baixo. Os pulmões lutavam por ar, e a consciência ia falhando. Agora o corpo todo estava tolhido, e algo pesado comprimia seu peito. Estava morrendo.

Mergulhou num entorpecimento de morte e se deixou arrastar por um sono morno, confortável, até perceber um fio de luz e um ruído leve, mas constante, como um zumbido de máquina atingir seus ouvidos. A luz foi tomando conta do espaço e o som foi ficando mais presente.

Abriu os olhos.

Estava em um quarto estranho. Tentou se levantar mas sentiu dor nas pernas e nos quadris, além de uma cefaleia leve.  Ouviu vozes e depois passos. Logo, um homem apareceu trazendo um copo de água.

-Beba devagar. – Falou, enquanto a ajudava a se erguer na cama. Depois deu-lhe um comprimido.

O rosto do homem era familiar, mas não conseguia sequer lembrar o próprio nome. Pediu um espelho. Ficou surpresa com a imagem. Apenas um corte superficial na testa, nada mais. Porém aquele rosto que a olhava de volta pelo espelho, aquele rosto não era o seu.
 
Jogou o espelho sobre a cama, e passou os dedos pelo rosto estranho, horrorizada, como se quisesse arrancá-lo.

– Onde estou? Que lugar é este? Cadê o meu carro? Quem é você?
– Calma. Fique tranquila. De que carro está falando?
– Meu carro! Caí no mar com meu carro. Onde está?
– Não havia carro. Você foi encontrada na rua, desmaiada perto da praça da cidade, e a levamos ao hospital.
– Por que não estou no hospital? Que lugar é esse?
– A senhorita passou um mês lá. Quando acordou e fez todos os exames, teve alta, e nos oferecemos para ficar com você até que recobrasse a memória. Somos de um grupo da igreja…
– Mas eu acabei de acordar! O acidente foi ontem!
– Moça – falou o homem estendendo um copo com um comprimido rosa – beba isto.
– Não quero beber nada! – Falou mas acabou engolindo o comprimido que o homem oferecia, talvez ajudasse a lembrar.
 
O remédio que o homem deu a relaxou e fez a dor incomodar menos.Dormiu e sonhou com o acidente. No sonho dirigia muito rápido, sem saber para onde estava indo. No carro, pendurado no espelho um enfeite balançava. Um brinquedo de couro costurado, com penas coloridas. Sabia o que era aquilo, mas não lembrava do nome. Acordou em seguida, ou, pelo menos, imaginou isso.
 
Conseguiu tomar banho e saiu do quarto. Tudo na casa lhe dava uma sensação de familiaridade, de conexão.  Na sala simples, uma mesa posta, o homem e a mulher com um bebê nos braços.
 
Sentaram-se para o almoço. A comida a fez lembrar de sua infância. Purê de batata com arroz e carne moída. Sorriu. Lembrara que tivera uma infância, que já havia comido aquelas coisas. Mas não lembrava do próprio rosto.

O bebê era inquieto. Até um pouco irritante. A mulher colocou o bebê sobre a mesa e ele bateu na travessa da salada espalhando a verdura por todo canto. A mulher continuava sorrindo como se nada estivesse acontecendo.

Achou aquilo tudo muito esquisito. Pediu o telefone do homem e ele o mostrou prontamente, mas ela continuou olhando para o disco do aparelho sem saber para onde ligar. Era desesperador. Sentia-se presa num mundo aleatório onde era uma espécie de extraterrestre. Não tinha nome, ou rosto, lembranças e estava entre estranhos.

Não sabia o que fazer, para onde ir, ou quanto tempo ficaria naquele limbo. Resolveu permitir que o tempo mostrasse a realidade para ela e se adaptou à rotina da casa.

Ao fim do almoço recusou o suco. Queria dar um passeio pela cidade. Havia um jardim do lado de fora, algumas árvores, e uma trilha por onde chegaria ao portão, conforme o homem lhe dissera. Depois era só descer seguindo a estrada e logo encontraria a vila. Não dava para ver a saída porque o caminho fazia uma curva e a vista estava coberta por um morro baixo que se via em boa parte do terreno da propriedade.  

Pensou que o portão estaria logo após a primeira curva, mas, para a sua surpresa, a trilha se estendia e se estreitava à medida em que seguia em frente. A vegetação se fechando de acordo com que ela avançava, começou a arranhar suas pernas. Até que chegou a um ponto em que não conseguiu mais prosseguir. Olhou em volta e não distinguiu mais a trilha para voltar.   Não entendia como aquilo havia acontecido, mas a trilha simplesmente sumira.

Apesar de ser pouco mais de uma da tarde, o dia começou a escurecer como se estivessem passando da hora do crepúsculo. Ouviu um barulho de folhas sendo movidas, olhou para trás a tempo de ver um vulto se movendo muito rápido, bem perto de onde estava.   
 
Assustou-se. O que teria sido aquilo? Pouco tempo depois o sol voltou a brilhar. Havia uma trilha onde antes só se via mato e árvores. Mesmo tendo andado bastante, de onde estava conseguia divisar a casa. 

O dia seguinte foi como uma repetição do anterior. O mesmo casal sorridente com o bebê, o mesmo comprimido rosa, a mesma trilha estranha. Desta vez, todavia, a noite não caiu antes da hora. Foi fazendo o trajeto ensinado pelo homem até chegar no ponto em que a trilha desaparecia e ouviu outra vez o barulho das folhas. Com a luz do sol conseguiu ver o que estava na mata, era um cão pequeno, peludo e amarelo olhando-a com olhos castanhos e curiosos e com a sua longa e rosada língua para o lado de fora.       
                                                                                                                     – Ralph! – Falou sem saber porque lembrava do nome. O cachorro ouviu e veio balançando o rabinho.Os seus olhos embaçaram com as lágrimas. Ajoelhou-se e o cãozinho se lançou em seus braços. Lembrou do cheiro, da maciez do pelo fofo, das lambidas. Não conseguia saber de que forma, mas aquele corpinho quente e peludo já estivera muitas vezes junto ao dela.

Voltou para a casa com o cachorrinho. O homem o recebeu com alegria.

– É o Ralph, estava perdido.

Ralph pulou por todo lado, lambendo as pessoas, subindo no sofá. Depois foi até os potinhos de água e comida na cozinha.  Estavam vazios. Foi até a despensa para procurar pela lata de ração, mas quando olhou de volta o cachorrinho já havia corrido em direção às árvores.

Naquela noite bebeu o remédio sem dar trabalho. Até bebeu antes da hora porque queria dormir.  No sonho que teve viu a si mesma quando era criança em um barco. O dia estava quente e quando tentava olhar para o rosto das outras pessoas a luz do sol a ofuscava. Estavam não muito perto da costa, e dava para ver toda a parte sul da ilha onde moravam. A noite caiu de súbito e já não estava mais no barco, mas sentada no banco da frente do carro, com o cachorro.  O cãozinho se agitava tentando pegar um brinquedo O pai dirigia em alta velocidade e estava chovendo muito. A mãe atrás com o irmão nos braços, pedia ao marido que fosse devagar. Numa curva o cachorro se soltou e foi para o colo do pai para pegar a peteca que a menina havia pendurado no espelho.

Acordou aos prantos pela manhã. Quis ter de novo os pais ao seu lado. Tentou dormir outra vez para voltar a sonhar. Mas não podia. Estavam perdidos para sempre, todos eles.

Passou o dia mais calada do que o normal. Foi dar sua costumeira volta pela trilha, pensando em encontrar o cachorro, desta vez sem sucesso. Queria entender tudo aquilo. O que estava fazendo naquela casa com aquelas pessoas? Sentia que, de alguma forma, estava tudo conectado, mas não conseguia seguir o fio da meada.
Pediu para tomar o comprimido rosa duas vezes por dia. Ele parecia ativar suas lembranças. Na tarde seguinte o homem saiu e a mulher sorridente pediu para que ela ajudasse a arrumar o guarda roupa do casal.

A mulher ia tirando os objetos e entregando à moça para que os colocasse em caixas. Eram roupas, lençóis, álbuns, livros… Entre as coisas encontrou um velho aparelho de vídeo cassete. Fazia muito tempo que não via um como aquele. Antes de guardar em uma das caixas, perguntou se podia ligá-lo.

– Sim, querida. – Respondeu a mulher com um rosto sério pela primeira vez.

Na cena, o casal e uma menina brincavam na praia. Junto a eles o cachorrinho corria para a água e voltava. Sorriu ao ver a cena. Usavam roupas de banho já há muito fora de moda. A mulher estava esperando um bebê. Em um determinado momento a menina se afastou para ir atrás do cachorro e entrou na água. O homem gritou seu nome:

– Liana, volte aqui!

Então a câmera focou bem no rosto da criança.

Sentiu um impacto no cérebro. Não sabia se por causa do nome ou pelo rosto da menina. Teve um “déja vù” instantâneo. Aquelas lembranças de uma outra família estavam instigando as suas.

Ficou com aquilo em sua cabeça até o homem anunciar que ia fazer uma visita à vila. Pensou em ir com ele, mas se sentiu sem ânimo e acabou não indo.

O homem não voltou naquele dia, nem nos seguintes. Não tendo com quem conversar, tratou de se aproximar da mulher e da criança: um menino. Pediu para ver os álbuns, saber mais sobre a família.

Achou estranho a dona da casa ter, no máximo, uns trinta anos, e as fotos terem uma qualidade bem inferior às fotos atuais. Conversavam enquanto passava as páginas. A mulher ia apontando para as pessoas e falando seus nomes: Vó Juliana, Tia Fernanda, Madrinha Cristina, o patrão do marido, as crianças… levou um choque ao ver uma das fotos. Entre outros brinquedos sobre uma prateleira, o objeto de couro e penas com o qual havia sonhado logo após se recobrar do acidente. Ficou olhando para a peteca e seus olhos se encheram de lágrimas. Sentia que a qualquer instante as lembranças voltariam todas à sua cabeça.

Ouviu um barulho e correu até a janela para ver quem chegava, mas quando olhou para o vidro ao invés de enxergar a paisagem do lado de fora, havia uma tela escura. Depois, em flashes viu uma sala cinza com luz indireta bem tênue e pessoas vestidas com jalecos brancos.

Tomou um susto e foi andando para trás enquanto se afastava da janela. Foi quando sentiu a picada fina e profunda de uma agulha em seu braço direito.  Em poucos segundos as suas pernas foram ficando moles. Olhou pela janela novamente e viu o jardim lá fora piscando como se fosse uma imagem em uma televisão com defeito. Que estranho. Tentou se soltar das mãos que a seguravam, mas uma fraqueza enorme ia fazendo seu corpo todo pesar. Foi nesse momento que o homem entrou.

– Pai! – Falou baixinho finalmente reconhecendo o homem que se aproximava.
– Liana! Minha filha!  – Correu para abraçá-la mas a sua imagem começou a se desfazer em pequenas partículas.

Liana olhou espantada para as próprias mãos e, com horror, viu que ela se desfazia também. Antes de sumir de vez ainda ouviu a voz do pai falando, mas não teve tempo de decifrar a mensagem antes que seu cérebro deixasse de existir.
 
                                               XXX
 
– Filha, papai perdoa você…
– Senhor. A conexão caiu, senhor.
Gabriel olhou a filha dentro da bolha, adormecida em uma geleia vital. Sem acordar desde o acidente.
– Papai ama você.
O técnico levou o homem relutante até o escritório do diretor.
– Boa tarde! Fomos mais longe desta vez. Estou muito satisfeito. Talvez na próxima ela se lembre antes do tempo acabar.
– O senhor acha que ela despertará?
– Quem sabe? Vamos esperar para tentar novamente daqui a um ano, ok?
 
 



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Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

Quero-queros passeiam como se nada se passasse
atenta aos meus passos, circundo os ninhos
não quero que pese sobre meus ombros
a culpa pelos ovos partidos.

Ante os coletivos que circulam solitários
vejo brotar marmitas em esquinas que não existem
(cada um sobrevive como pode)
nenhum carro para
eu, a pé, hesito em correr o risco
— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
que alguém mais nobre a faça por mim.

Conforta-me a grama onde meus pés afundam
sou grata porque meus pais já partiram
minha geração assiste soturna
a descontinuidade da sorte
que tivemos até aqui.

Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

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Levar, Voltar (Marília)

De tão contraditório, fazia sorrir e chorar. Tudo no mesmo objeto, naquela pessoa carregada para perto do céu, de volta à terra. Eu só observava, admirava. Você chegava naquela sala que parecia vazia, meio escura, comportava pessoas alheias ao acontecer ali na tela daquele celular.

Isso bastava. A gente se preenchia enquanto sorrisos ecoavam, olhares compartilhavam desejos sem a boca verbalizar. Tudo com hora de acabar. Porque o turno do trabalho chegava ao fim, então a rota de volta era caminhada.

A internet que conectava demonstrava sinais de fraqueza, então a gente se distanciava um pouco mais, ainda. Eu, do meu lado de algum lugar o via guardar coisas na mochila deixando cansaço transparecer, sorrindo ao me ver e eu pensando sem contar: um riso desses é para colecionar.

Na espera pelo elevador, eu ouvia palavras sonhadoras. Quando seu andar encontrava porta de embarque, você ficava entre o fechar-ou-ali-continuar, se despedia e nossa ligação depois caía. Ah, que elevador temido! E ao mesmo tempo, tão maravilhoso!

Com ele, aprendi sobre esperar. Se a noite ele te levava embora, de manhã felizmente, fazia voltar.

Marília

P.S.: Mesmo quando o fuso dos horários é igual, o Tempo pode impedir conexões. G, obrigada por fazer ponteiros girarem a favor e os minutos cronometrados virarem alegria. As palavras que você gostou desde a primeira leitura agora também são suas, como quem sabe voltar porque tudo-e-tanto-e-muito.

O Preço

Ela estava chegando… Ele havia tido aquele sonho outra vez:  A moça vinha subindo pela areia da sepultura. Separando a terra negra e úmida até chegar à superfície. Andando, pálida e suja, mas resoluta em direção a ele… Emmanoel Olhou para o relógio com aflição. Ia por dentro da velha casa em passos ligeiros, verificando cada tranca, uma, duas, três vezes…. Encheu as frestas das janelas emparedadas com retalhos encharcados no barro mole. Por fim, e não restando mais nada a fazer, trancou-se na pequena despensa da cozinha e esperou.

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A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

Primeiro você mudou de linha. Imaginando que eu não perceberia, pulou para o outro parágrafo e foi se distanciando, até ultrapassar as margens e chegar à outra página. Foi então que eu te perdi de vista.
Ouvi dizer que, durante dias a fio, você percorreu páginas e invadiu capítulos, ansioso, confuso, aparentemente sem um propósito definido. Então, decidiu que precisava encontrar a fita de cetim vermelha, que, para o seu azar, sempre avançava um pouquinho mais a cada dia, dificultando o sucesso da sua jornada. Mas você finalmente a encontrou e a escalou, alcançando a borda da capa dura. Finalmente, conquistou sua liberdade, escorregando pela lombada. Veja só que corajoso.

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a maior metáfora fui eu (Sabrina Dalbelo)

Ao vivo e, ao evocar os meus demônios, eu ofertarei meus medos, meus filhos e meu saco de moedas.

Não posso te prometer um final luxuoso, nem aplausos, mas te darei meu nome e tudo o que dele fizeram.

Não tenho lembranças nem crenças. As verdades, as abandonei todas.

Trilhei um caminho torto e indigno de registro em medalhas.

Tenho o que sobrou da minha alma como legado.

Tudo isso dá uma palavra só, tão pequena que foi a minha imensidão.

A poesia do outro (Fernanda Caleffi Barbetta)

Não vejo graça em ler o que escrevo.
Gostoso é pousar os olhos nos escritos do outro.
Igual comida que a gente mesmo faz,
não tem sabor,
falta tempero.
O problema é que ler o outro
às vezes me dá gastura.
Quando a coisa é boa mesmo
dá uma sensação amarga de desejar ter escrito aquilo
e não poder mais.
Plágio é crime.
Outro dia, pedi ao meu amigo poeta
que escrevesse uma poesia minha
com a letra dele.
Em um papel branquinho,
com uma caligrafia rebuscada,
copiou os meus versos,
reproduziu minhas rimas.
Quando li,
deu aquela gastura,
a sensação amarga de não ter eu
aquela letra linda.

 

Um Dia (Marília)

Eu só escuto, emociono. É tão bonito ver juventude e velhice lado-a-lado. Ela delicada, de laço no cabelo, ele de boné, quase careca. Para ambos, não importa aparência, importante é viver a experiência do momento. Aqui atrás, fico quieta para ouvir melhor minha saudade latejar. Hoje em dia meu avô não pode me levar para escola, pois não sou estudante, ele não habita terra dos vivos.        

Se pudesse dar um único recado para menina que nem ao menos sei o nome, eu diria sobre aproveitar, desfrutar da companhia que um dia o Tempo vai levar. Só vai restar lembrança, Menina. Abraça enquanto é possível. Entre esse pensamento nostálgico, escuto o senhor falar, orgulhoso: “Para chegar na escola, você pega tal ônibus, desce em tal lugar, olha para atravessar, mas se quiser, só ligar que o vovô te leva e vai buscar”.

Escapou até uma lágrima aqui! Agora os dois desceram, chegaram ao destino juntos. Eu, sozinha, bolei plano para um dia, quando já estiver mais velha, como vou querer ir embora dessa terra. Das últimas forças que restarem, vou falar assim baixinho na certeza que ele vai me escutar: Vovô, vem me buscar?

Marília

Desejo – Fernanda Caleffi Barbetta

Postou-se ao meu lado,
a respiração acelerada, ansiosa.
Desejava que eu lhe notasse
a presença,
que eu erguesse a cabeça
e lhe encarasse os olhos,
lhe fitasse os lábios.
Mas retive minha atenção
aos seus sapatos,
que, pouco a pouco,
se afastaram,
deixando para trás
a respiração acelerada, ansiosa,
que talvez fosse minha desde o início.
Ignorando o desejo,
que talvez fosse somente meu,
de que me notasse e
me encarasse os olhos,
me fitasse os lábios.

Menina-Poly (Marília)

Quis enfeitar domingo chuvoso com boas escolhas, Realmente eram. Dia frio, coberta, leitura, música. Ajeitei a poltrona, liguei Poly e ouvi no rádio sobre amor que dura janeiros até o mundo acabar.

Logo em seguida, o disco foi escolhido, as coordenadas posicionadas na rotação musical, parecia tudo bem. Porém, ao longo dos segundos estendidos minutos mais parecendo horas, ela desabou. Nós. Juntas. Poly desordenou seu ritmo exato, instabilizando movimento de braço com giro suave por velocidade sem poder controlar.

Eu, tentando ajudar, fui comandante do navio prestes a naufragar, reorganizando botões, sem sucesso. Um deles até deslocou-se do corpo dela para minhas mãos, quase dizendo: Estou cansada. Pensei: Ela não pode parar! Tentei assimilar giro, engrenar retorno, nada além da vontade por gritar: Ajuda! Vamos perder a paciente, equipe! Sozinha, fui médica sem conseguir socorrer. Liguei e desliguei, pedi, implorei: Volta! Ela pareceu entender, pois acendeu uma última vez, depois acalmou, apagou quase falando: Desculpe, não consigo mais.

Como fica quem fica? Com lágrimas, desconectando fios impedindo condução elétrica, empurrando de volta ao lugar agora triste, acarinhando o objeto querido, minha-menina-toca-discos-emoções-e-corações. Você apareceu do nada, vinda de outro lugar ser meu lar artístico. Te vi perto, do lado, acesa resplandecendo tom a tom minhas músicas favoritas, além das inúmeras sortes ao ouvir no rádio tantas palavras melodiosas.

Contigo, toquei de tudo, variando humor e amor por artista no momento, todos do passado. Você foi minha companhia de relaxamento, descontração para arrumar o quarto, empolgação com cada disco novo, encantou quem te assistiu rodopiar linha por linha músicas escolhidas. Com você, a frase: Eu tenho uma vitrola deixou esta sujeita aqui ser dona tua, cuidadora duma jovem senhora com idade não revelada. Foram lançadas muitas Polyvox. Poly, só houve você.

Em nome de tudo isso, papai vai tentar resgatá-la, por favor, seja Fênix. Se não conseguir, pode ir. Caso tenha cansado, fique tranquila. Sua aposentadoria por anos de trabalho chegou, ainda que eu jamais quisesse viver este dia. Adeus? Não. Prefiro dizer pela certeza de reencontrar: Até a próxima lembrança!

Marília


P.S.: Poly, obrigada pela música de despedida! A escolha foi excelente! (De Janeiro a Janeiro, de Nando e Ana)

 

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Reflexos (Fheluany Nogueira)

 

         Hoje amanheci velhíssima, vinte e oito anos. Só que não senti, não importei, não tive vontade de voltar atrás; o que não significa também que esteja com vontade de prosseguir. Vou ficando.

         Meu WhatsApp trouxe uma mensagem. Adivinhada. Sabida. Conversa que há anos não falha. Diz palavras protocolares. Fiel, a insistir, a dizer que ainda faço anos, a convencionar-me, a balizar-me, a compromissar-me com um mundo que não me quer e a que não quero. Melhor que as pessoas se deslembrem de mim. Estou conseguindo. Há muito tempo deixei de contar presentes ou vinte amigos me cumprimentando. Perco a noção das coisas certas, cíclicas, dos calendários, das datas… Havia tempo em que eu media a minha (des)importância pelo número de e-mails, mensagens e cartões recebidos por ocasião de meus aniversários. A data me provoca sustos.

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Resenha: “PÁGINAS DO IMAGINÁRIO: Contos Fantásticos”, de E. E. Postali

Para começar as leituras do ano de 2020, eu queria um livro especial: um livro de uma escritora brasileira do qual gostasse da escrita. Dando uma olhada na estante, fiquei feliz por ter muitos livros de autoras nacionais, mas entre elas, aquela a qual eu já conhecia a escrita, muito boa por sinal, era a querida Evelyn Postali.

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Então é Natal! (Amanda Gomez)

1 2 3 4 …

Fechei os olhos, encostei a cabeça no volante e contei mentalmente até dez. Geralmente isso nunca funcionava comigo, mas o que eu poderia fazer? Respirei fundo e chequei as horas no celular, a pontada de tristeza era imediata sempre que olhava pra ele. Um Samsung com o nome de alguma letra do alfabeto parcelado em dez vezes. A tela quebrou na primeira semana.

Estava atrasada, muito atrasada… do tipo que provavelmente meu emprego estaria ameaçado. Talvez isso fosse bom, pensei melhor, aquele trabalho estava me matando lentamente, me fazendo ter pensamentos homicidas com relação às minhas colegas de trabalho. Criaturas odiosas com delineado de gatinho, sapatilhas e tiaras turbantes. É, talvez eu só devesse relaxar no meio daquele congestionamento e agradecer por não ter que passar horas em pé, atendendo uma penca de pessoas que vão desesperadas gastar a miséria dos seus décimos terceiros em coisas fúteis.

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Feliz Natal – Vanessa Honorato

O primeiro natal sem Artur. Não sabia porque ainda insistia em fazer essa ceia. Não tinha vontade de nada, tampouco convidados. A mesa estava posta como sempre esteve:  abastecida com comida, bebida, enfeites coloridos de vermelho e verde, velas, guirlandas. Para quê? Qual motivo de tanto empenho se ninguém desfrutaria com ela? A taça de vinho era sua companhia agora. Gelado, encorpado, cheiroso, do jeito que ela passou a tomar todos os dias depois do trabalho. Artur fazia falta diariamente, mas em datas especiais era pior. Podia ouvir o som da sua voz desejando-lhe feliz natal, ansioso para saber o que ela havia lhe preparado de presente, já que não compravam nada, todos os natais faziam presentes diferentes preparados com suas próprias mãos.

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PAIS NOVOS (Sabrina Dalbelo)

“Odeio vocês”, gritava Lucas. “Odeio vocês”, resmungava Letícia.

Os irmãos não tinham ouvidos. Reclamavam da ordem para escovar os dentes, para arrumar a cama, para organizar as próprias coisas, de tudo.

Os pais, Renato e Marlene, não sabiam mais o que fazer. Focavam em manter um nível mínimo de paciência para dedicar orientações sobre educação e boa convivência, as quais, aparentemente, não levavam a nenhum resultado exitoso, pois os irmãos eram teimosos e birrentos.

Lucas, de sete anos, era esperto e bastante traquinas. Letícia tinha apenas cinco, mas não titubeava em retrucar os pais.

Perto do Natal, os irmãos combinaram de escrever uma carta de intenções única ao Papai Noel. O pedido era muito simples: pais novos.

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Cova de Lama (Iolanda Pinheiro)

Já moça, lembrava do tempo em que o mundo era cinza e a vida flutuava no terreno lodoso de segredos e mentiras. Quando a velha e eu nos enfurnávamos pelas manhãs atrás das covas onde os caranguejos sonhavam. Do braço de minha vó enfiado até o ombro no berço de terra mole, os dedos procurando as carapaças com a destreza das infinitas repetições. Não custava muito, e ela puxava o guaiamum arroxeado de dentro do ninho. Outros tantos se seguiam, até que enchêssemos os grandes embornais.

O que não era vendido virava almoço, jantar, café, merenda. A necessidade não escolhia sabores.

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