Coleção de Um Coveiro – Thaís Lemes Pereira

–  Bem-vinda, sua idolatra! – eu disse, quando escutei o rangido da porta e senti o vento entrar. Minhas mãos ainda tremiam, mas a garrafa de conhaque vazia em cima da mesa mostrava que não era de frio. – Ainda é dia, vejo que se adiantou.

Acendi um cigarro. Lancei prazerosamente a fumaça e lembrei das recomendações médicas para que não bebesse e não fumasse. Soltando uma gargalhada afoita, sobreveio uma tosse. Não me faria diferença nenhuma!

– Aceita? – estendi a mão com o cigarro e a observei balançar a cabeça de forma negativa. – Acho que sei o motivo de ter chegado tão cedo…

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Nada Existe (Nem o Título) – Thaís Lemes Pereira

A vida não é perfeita, mas também não é ruim. Espera. Contentamento é uma das primeiras coisas que aprendi que não podemos ter. Sou feliz? Bem, eu tenho um emprego, estudo como qualquer garota da minha idade, existe minha mãe. Calma, comecei tudo errado de novo, penso mentalmente, respiro e retorno do início, Isa, para começar: defina felicidade…

***

Naquele dia, fui dormir com a última frase dita pelo professor na cabeça.

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No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

Apenas lembro de ter caído em um interminável buraco, desejando descobrir quem o havia cavado. Da noite anterior, recordo que estava sentado de frente para o balcão de um bar, como todas aquelas garrafinhas de conteúdo colorido pedindo “beba-me”. Senti os pelos do braço arrepiarem após dar a partida no carro. Precisei desviar de um animal branco, de porte pequeno, que atravessou com pressa as extremidades da estrada e, depois disso, recordo apenas de estar caindo em um buraco sem fim. Talvez aquela fosse minha sentença por dirigir embriagado: a solidão.

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Dos Amores Divididos e Multiplicados (Regina Ruth Rincon Caires)

Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
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Flor-de-Capitão (Regina Ruth Rincon Caires)

O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do chão. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas.
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O mendigo do Viaduto do Chá (Regina Ruth Rincon Caires)

A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.

Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

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Dores e Amores (Regina Ruth Rincon Caires)

Ajeitada na velha cadeira, na calçada da pequena hospedaria que administra, Carminda observa a noite que cai. O costumeiro xale a lhe cobrir os ombros, os pés metidos em sapatos de pano, aspecto que em nada lembra a menina cheia de ideias que fora um dia. Desolada, de cabelos brancos, opacos, olha o movimento rotineiro das pessoas da vila. Em intervalos longos, os carros passam. Lentos. Mas, mesmo assim, a poeira da rua pouco cascalhada incomoda os olhos. Acende um cigarro, contrariando a ordem médica. Não quer saber. Havia atingido um tempo em que apenas atendia as próprias vontades. As mais simples. Para as outras, já não havia espaço.

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Múltipla Bia (Melisa Ribeiro)

Fui convidada a fazer
um texto para uma amiga,
achei melhor escrever
em forma de poesia,
o nome dela é Bianca,
mais conhecida por Bia,
mas não sou eu, reles poeta,
que falo sozinha por ela,
ela mesma é quem se narra,
nem precisei descobri-la.

Formada em pedagogia
no momento é professora,
mas em sua biografia
revela sem deixar dúvida,
entre tantas outras coisas,
que busca uma alternativa,
novos rumos, outra vida.

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Amiga, de verdade! – Fheluany Nogueira

 

— Eee turmaa!! Voocêexxx goostaam meexxxmo doo meuuu jeito, hein?!!! – Elisa entrou no Mormaai Surf Bar, com segurança e carisma peculiares. Sentia-se candanga verdadeira, de peito e raça, como se fosse uma pioneira na construção da capital, um símbolo da força do país…

A engenheira, vinda de uma família numerosa, optou por não ter filhos, nem animais de estimação. Sua alegria, como ela mesma reiterava, estava nas amigas – como a mãe fora, era amante das festas e reuniões regadas a muito vinho ou cerveja e conversas exaltadas. Gostava da guitarra e de versos românticos. Com o grupo, tornava-se falante, contadora de casos divertidos. O modo de falar era característico: arrastava as sílabas, as palavras ficavam alongadas, salientando as vogais. Mesmo sem vê-la, era reconhecida de longe pela voz grave e fala mole.

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Os frágeis fios da confiança (Anorkinda Neide)

Alina sempre passeava pelos bosques de cristal à tarde, logo depois que o sol atingia o meio do céu. Na verdade, ela precisava buscar um pouco da água límpida da Fonte Matriz para as purificações do fim do dia, mas ela considerava aquela tarefa um passeio, um deleite, até para não zangar-se de ser sempre ela a fazer isso e não alguma de suas cinco irmãs mais velhas.

A mocinha apegou-se àqueles caminhos repletos de vida e de detalhes. As cores mudavam a cada vez que ela por ali passava, seja devido à umidade do ar, ora mais baixa, ora mais alta, seja pela quantidade de nuvens no céu a filtrar a luz solar que se permitia esgueirar por entre as copas das árvores ou mesmo devido ao humor de Alina, havia momentos em que tudo era mais colorido e brilhante, dias felizes ou o bosque recebia tons pasteis insípidos quando a menina chateava-se.

Alina havia completado na véspera quatorze anos de idade e por isso tudo estava radiantemente belo e feliz a sua volta. Ela tinha certeza de que o bosque comemorava com ela daquela paz e alegria de se tornar mocinha e parar de ser tratada como bebê pelas irmãs e pelos vizinhos da aldeia. A moça estava cheia de expectativas para sua vida adulta que ainda demoraria a chegar, mas estava a cada dia mais próxima, ela já podia vislumbrar no horizonte.

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Carta a uma amiga distante (Bia Machado)

Querida amiga, como vai?

Acho que posso chamá-la de Amiga, não posso? Estamos sempre tão distantes uma da outra, pela forma como vivemos a vida, pela forma como nos veem, por tantas diferenças que existem entre nós, mas ainda assim, saiba que tenho uma profunda admiração por você. Sempre acreditei que com você a vida fica mais bonita, você traz o frescor à vida que eu jamais trarei, pelo simples fato de que não fui feita para isso. Nasci da necessidade, imperiosa, de registrar, marcar, calcular, medir, economizar. Aliás, eu faço parte do tempo, das medidas, da forma das coisas, estou ali, em  cada simetria da natureza, como algo inevitável, quase uma fatalidade, ou talvez até como uma mágica… Como contariam estrelas, se eu não existisse? Imagine a vida dos humanos sem mim! Seria um verdadeiro caos. Agora, imagine a vida das pessoas sem você? Seria sem graça, seria mais triste, estaria sempre faltando alguma coisa, no mínimo o tal frescor que citei acima. Continue lendo “Carta a uma amiga distante (Bia Machado)”

Luz (Renata Rothstein)

Caminho. Meu passo – tão invisível quanto solene sela sua autoridade na manhã que nasce, explosão de cores e esperanças.
A porta a ponte o muro e o mundo abrem seus ansiosos olhos, e pouco a pouco exigem, permutam falaciosos sonhos banhados no ouro perdido do que já foi – e embora exaurida estendo minhas mãos sem rumo para tatear a sensibilidade, em tudo que não há. Arrumo e aprumo a lente e o chão, impostos pela impossibilidade que contrariando meu desejo mais oculto, a tudo invade.
Arde em mim a realidade, enfim.
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Um pequeno conto de Natal (Sandra Werneck)

À minha amiga secreta – Maria Santino

Um pequeno conto de Natal à Maria

Eu quero uma espada a laser de Natal. Miguelzinho insistiu com Maria num balbucio que ganhava ares de incômodo. Maria relutava, não por ser adepta do politicamente correto, mas porque o velho pai necessitava de descanso. E espadas bramindo pelos ares fatalmente causariam rebuliço e estragos. Já antevia adornos e quinquilharias espatifadas pelo chão e o desassossego de quem necessitava de calmaria.

Eu quero uma espada a laser de Natal. Diz para o Papai Noel. O filho insistia. Não. Não. E não. Maria também, em balbucios que iam ganhando corpo, depois iam ganhando certeza, depois iam ganhando a destemperança de mães desafiadas. O avô não podia, tinha de se aliviar dos desatinos dos jovens, da teimosia de quem tem no momento a urgência de tudo, de quem acha que é preciso viver antes que as lembranças se eternizem em fotografias, antes que a saudade preencha os cômodos, causando incômodo na alma que nunca se preenche. O avô precisava de paz. Ponto final. Continue lendo “Um pequeno conto de Natal (Sandra Werneck)”

O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)

(Para a minha amiga secreta, Priscila, com o desejo de que cumpra os seus sonhos, em 2019 e sempre.)

Priscila adormeceu tranquilamente sem imaginar o que o sono lhe traria.

Sonhou que era noite de Natal e ela, quase criança no sonho, caminhava por uma rua deserta e mal iluminada, levando nos braços o seu gatinho branco malhado de preto, pequenino também ele, num estranho encontro entre quandos diferentes, juntos num tempo em que ele não existia ainda e ela estava ainda longe da mulher que mais tarde veio a ser.

Mas nos sonhos tudo é possível e raramente se estranham estas incongruências e por isso mesmo a situação parecia-lhe normalíssima. Até que o tareco se assustou. Continue lendo “O Sonho de Priscila (Ana Maria Monteiro)”

Algarve – Evelyn Postali

(Para Ana Maria Monteiro, minha amiga secreta. Dezembro, 2018)

De mansas correntes, e azuis e verdes inesquecíveis, se fazia a paisagem. Ana admirava tudo, parada na beira da praia. Com o olhar fixo no balanço das ondas, voltava a ter quinze anos e o mundo podia ser carregado nos braços outra vez.

A água límpida tocou-lhe os pés, agora lisos e de uma juventude invejável. Mexeu os dedos e moveu-os, para frente e para trás, um de cada vez, sentindo a textura da areia. Cada grãozinho contava um pedacinho de alguma vida e as conchas, aqui e ali, murmuravam segredos nem tão secretos assim. O mundo é grande, o tempo é longo, a vida é curta. Continue lendo “Algarve – Evelyn Postali”

BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst

Era mesmo de espantar. Nem chegava a tocar a pele ou a língua e já ardia como pimenta. Feita de matéria doce, rapadura ou algo substancial e mole como um amarelo quindim. Assim era ela, tão afável como cupido em Dia dos Namorados, tão mordaz como a peixeira guardiã fiel fincada em sua cintura. Era mais do que tudo, um mistério de luzes, um universo de aparentes contradições traduzidas em palavras, ora de amor, ora de puro terror. Continue lendo “BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst”

RENOVAÇÃO – Juliana Calafange

Nascida na capital da província, Akili fora para a aldeia ainda moça, para se casar com o filho do soba[1] local. Ao longo de trinta anos foi esposa dedicada, teve três meninos saudáveis e fez-se útil à sua comunidade, ajudando na lavra e também ensinando o português para as crianças, pois a maioria na aldeia só conhecia o dialeto macua. E esse era seu maior encantamento, ajudar as crianças a descobrir as veredas do idioma e da literatura, que para ela não havia arte maior no mundo. Foi pelas letras que Akili criou raízes na pequena comunidade. Os livros a ajudaram a superar momentos difíceis e foram testemunhas das suas alegrias naquele lugar. A aldeia passou a ser o seu lar, onde sentia-se respeitada e amada, onde podia viver cercada de juventude e histórias, longe dos conflitos políticos da capital. Continue lendo “RENOVAÇÃO – Juliana Calafange”

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