Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Sofro de bondade. Nasci assim, diz minha mãe. Fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Foi quando descobri que Tia Celina, professora do pré-primário, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um marido como meu rival. Mas, não foi só isso. Existiam outros que disputavam o amor dela: meus colegas de classe. Diante da terrível descoberta de ser minha amada uma leviana, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

De lá pra cá, aceitei viver meu quinhão neste mundo de provação. Não minto, pois seria inútil e cansativo. Só arrumaria dor de cabeça tentando escapar dos cascudos que viriam em seguida. Estes, garanto, nunca mereci.

Sou realmente bom. Não ótimo porque isso seria soberba e dela não me visto. Não sou melhor do que ninguém e nem invejo a identidade alheia.

Sirvo-me frugalmente da vida e da mesa. Sempre com parcimônia, alimento-me enquanto escuto pacientemente a ladainha de minha velha mãe. O sino dobra ao meio-dia e a igreja matriz parece se aproximar dos meus pensamentos. Sorrio para aquela mulher, imaginando como ela seria com dentes.

A falta de vaidade foi herdada ainda no berço. Poucos espelhos existem em minha casa. Alguns poucos apenas para garantir asseio e compostura. Nariz mirando horizonte, limpeza e ordem. Não mais, não menos.

Sou trabalhador, um profissional exemplar. Servidor público, ganho um bom salário. O suficiente para contribuir com as despesas da casa e ajudar os pobres. Calculo bem a parte que lhes cabe. Sou Francisco, mas não sou santo.

Tia Norminha chamou-me outro dia de anjo. O elogio, dito entre um sorriso e uma garfada no bolo de aipim, caiu-me algo traiçoeiro. Tive a nítida sensação de que algo crescia nas minhas costas. Apêndices clandestinos, dois calombos dificultavam meu apoio no encosto da cadeira.

Tenho três irmãos que me seguem em ordem decrescente: Tadeu, Pedro e Catarina. Falam e fazem bobagens o tempo todo.  Como sou o mais velho e dispenso meus próprios sermões, finjo que nada vejo dos seus desacertos.

Meus irmãos não são tão bons. Inventam histórias sobre meus passeios na praça. Dizem que namoro uma vizinha, a carola casada com o coveiro da cidade. Quando se cansam desse enredo, modificam as calúnias com novos detalhes sórdidos. Ora fumo maconha sob a árvore centenária; ora tenho ímpetos pedófilos e persigo moleques nas vielas da vizinhança.

Se odeio meus irmãos? Claro que não! Já disse: sou bom. Um dia, eles encontrarão seu manto de boas intenções. De santos, os nomes já têm Falta-lhes, talvez, essa coisa que chamam de coração.

Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça. Se não estou trabalhando ou auxiliando minha mãe na lida doméstica, encontro sempre um bom motivo para esticar os músculos. Minha cama conhece-me bem pouco. Dedico-lhe as horas necessárias de sono e só.

Sou mesmo assim, sempre fui. Bom. Até que conheci Joana.

Não me apaixonei, juro que não. O olhar vesgo e as feridas nas pernas me comoveram, é verdade, mas também demoveram qualquer má intenção. Era tão desprovida de encantos que ali só podia primar alma desprendida e pura.

Era falante a menina, casca grossa em pele e palavras. Logo, crivou-me um olhar sem apelo. Eu sorri em consentimento de amizade. Contei-lhe sobre minha vida de mecanismo tão preciso quanto ao de um relógio: família, trabalho, religião e um pouco da história da cidade. Ignorei o incômodo que latejava sobre minhas omoplatas. Joana interrompeu-me curiosa, pôs as mãos na cintura e me olhou com quase nojo.

─ Por que você é assim tão sem graça?

Eu a olhei incrédulo, sem palavras. De todas as ofensas já recebidas, aquela foi talvez a única que nunca imaginei ouvir.  Joana apontou-me a banalidade em todos os aspectos da minha vida. Disse ainda que a ausência de pecado era, para ela, também um defeito. Mesmo vesga, havia em seus olhos uma intensa direção. Surpreso, percebi que ela toda era um sorriso. Dos pés à cabeça, a menina revelava-se alegria em prosa.

Foi então que pequei. Não sei se é assim com todos, mas comigo doeu e muito. Rasguei-me de inveja da espontaneidade juvenil de Joana. Cobicei-lhe os trejeitos de quem se gosta mais do que merece.

Em ritmo claudicante, Joana foi até o carrinho de sorvete e voltou com um picolé de limão. Disse que não me oferecia porque talvez não me agradasse o prazer de um gosto.  Eu nada disse, arranquei o sorvete de suas mãos e o devorei em mordidas geladas, enquanto avistava nuvens de espanto tomarem os olhos sardentos daquela pequena.

Joana disse um ou dois palavrões. Fui até o sorveteiro e gastei todo o dinheiro que tinha nos bolsos. Ciente dos meus deslizes sem volta, entreguei apenas um picolé à Joana. Os outros três, devorei com a pressa de um condenado faminto.

─ Sou bom!

Joana deixou escapar um sorriso enquanto tirava o papel do seu picolé. Ao ver a menina estragar o momento que eu já julgava perfeito, avancei e lhe dei um beijo, arrancado assim de um repente. Joana pôs-se a gargalhar e, sem cerimônia alguma, levantou-se a chacoalhar o corpo, afastando-se de mim.

Esperava não ser tarde demais quando alcancei a menina e a puxei pelos cabelos. Na força da hora, sacudi-lhe o corpo franzino e bati sua cabeça de encontro ao banco de concreto. Uma, duas, três vezes. Depois, perdi a conta. Os gritos e o sangue mesclaram-se em doses iguais. Perfeita consagração: hóstia mergulhada no vinho. Senti falta do sermão do padre e das ave-marias que me serviriam de algum alento.

Depois, foi aquela correria na praça e os guardas trançando seus braços nas minhas asas. E foi assim que cheguei aqui, Seu Delegado. Sei que minha mãe me aguarda lá fora. Não tenho mais nada a dizer.  Minhas mãos ainda cheiram à ferrugem. Como pode um corpo tão frágil guardar tanto sangue?

9 comentários em “Sem Pecados – Claudia Roberta Angst

Adicione o seu

  1. Sen-sa-cio-nalll! Perfeito! Ri a cada parágrafo mas parei de rir no surto do Francisco. Bicho mais doido! Fiquei tentando lembrar onde já havia visto este estilo de escrita, Pense no livro Diário do Farol do João Ubaldo Ribeiro, mas depois mudei de ideia. Com certeza era muito mais parecido com Luneta Mágica de Lima Barreto. Se ainda não leu não perca a oportunidade, é delicioso. Gostei muito do cara repetindo que era um homem bom. Adorei o cinismo como se referia aos parentes com fingido bem-querer e notório desprezo. Seu personagem é cinismo puro! Amei seu conto!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Uma sátira perfeita. Texto divertido e prazeroso, uma pouco oportuna especulação sobre o Bem e o Mal enunciada por um narrador que proclama sua bondade desde a primeira linha, apresentada de forma bem-humorada, crítica e ambígua, parecendo uma provocação ao leitor.

    É o depoimento do criminoso? A máxima de que “basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade” é uma das regras básicas da defesa do narrador-protagonista. A única pessoa que afirmou o contrário foi morta por ele em um acesso de raiva. A repetição levou a afirmação ao topo da escala, invertendo a situação entre vítima e assassino.

    A narrativa foge de tons piegas e tem uma conotação de fábula com lição de moral, descrevendo toda a situação, entremeada de digressões pseudo-filosóficas.

    Parabéns pelo bom trabalho. Gostei demais.Beijos.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Menina, como eu quis que esse surto acontecesse, hahahha! O cara já estava me irritando com tanta bondade e falta de pecado, hahhaah! Isso é o que eu chamo de surpreendente. Por mais que eu esperasse algo que sacudisse esse cara, nunca imaginaria isso! Que dó da Joana, mas ela é a personificação de que dizer a verdade é doloroso demais, mas necessário, rs. Parabéns, Claudia! 😉

    Curtido por 1 pessoa

  4. O ritmo da sua prosa, sempre presente, aqui nesse conto se junta ao cinismo da narrador produzindo o efeito de acentuar a modalidade de loucura que o anima. Espécie de sentimento de superioridade espiritual que não aceita contestação. Para mim, um conto de terror cheio de personalidade graças às características desse narrador. A cena da violência com a menina ficou perfeita: concisa e horripilante além de surpreendente. Não esperava esse desfecho. Parabéns pelo trabalho! Ótima leitura!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Cláudia, Cláudia, Cláudia! Parabéns! De tudo quanto já li seu, este é seguramente o meu conto favorito, aquele de que irei recordar-me sempre. Muito bom! Aquele Francisco estava a dar-me um nojo que nem imagina, eu já o detestava por todos os poros. Depois aconteceu a reviravolta, rápida, certeira e mirabolante, totalmente inesperada. Espero que a criatura apodreça na prisão. Parabéns! Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Oi, Cláudia,

    Parabéns! Conto impecável, a melhor coisa que já li de sua autoria até hoje. Aqui, o narrador é o ponto alto do trabalho, dissimulando toda a sua maldade em belas palavras de auto-engrandecimento. Sou bom, ele diz… E de fato, é. Até o dia que, não mais. Não vi suas palavras como as de um cínico, mas como a de pessoas ainda mais perigosas, as que acreditam ser boas, acreditam estar fazendo o certo, mas, no fundo são cruéis e capazes dos piores atos, afinal ser humano é também ser animal.

    Destaco ainda, a belíssima imagem sobre as asas, que flerta com o realismo fantástico.

    Parabéns de verdade. Uma excelente narrativa, digna dos(as) melhores autores de contos contemporâneos(as). Merece ser publicado, vocês não acha?

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  7. Olá, Cláudia! Que conto MARAVILHOSO! Em cada linha, em cada palavra. Começo com o linguajar apurado, que se liga ao narrador num pretenso tom de superioridade. Depois, passo à criação soberba da personagem, pondo-se num pedestal de santidade que, como a Paula apontou, parece-me próprio daquelas pessoas que se julgam superiores, pondo-se em nível distinto das demais, o que é infinitamente pior. O sadismo, o cinismo, o surto ocasionado pelo descontrole temporário, tudo atingiu a perfeição. Considero-o seu melhor conto. Parabéns. Parabéns, Parabéns! Amei.

    Curtido por 1 pessoa

  8. O dito “certinho”. Quando o milagre é demais, o santo desconfia, não é assim? rsrsrs. Se uma pessoa se diz muito boa, pode esperar!
    Bjs ❤

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: