A versão da vovó

Refaço teus passos
Te recrio no que faço
Meu fim, teu começo

“Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.”

Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele levou também todas as suas roupinhas em sacolas de plástico num horário em que ela já não estava acordada.

“Ninguém vira passarinho. Cresce, garota. Deixa de ser idiota.”

Tinha talvez seis anos. Embora a prima de nove tivesse mandado o irmão calar a boca, que deixasse a prima pequena em paz, nunca mais repetiu que um dia teria asas e cantaria como um sabiá.

Aos nove, com um vasto repertório de assovios e outros sons produzidos por seu versátil equipamento vocal —-língua, dentes, lábios —  dialogava com os passarinhos da janela de seu quarto, nos fundos da casa. Inventava respostas fazendo com que às mesmas notas e ritmos dos trinados dos pássaros correspondessem reprimendas ou incentivos, conforme lhe interessasse.

Aos onze, um choque. Pela boca de uma professora sem tato soube que sua mãe não havia morrido, mas abandonado a família, saído de casa sem motivo e sem deixar rastro.

Quando pediu à avó que lhe contasse a verdade, a avó alisou sua cabeça e a encarou com compaixão.    

“Minha filha, por que você não fica com a versão da vovó? ”

Do pai, só sabia que ele se mudara para a capital e depositava religiosamente todos os meses um salário mínimo na conta da avó. Nenhum telefonema, nenhum presente, nenhuma carta. Do dinheiro, a avó guardava a metade, igualmente sem falha ou atraso, em uma poupança para a menina fazer uso quando precisasse.

A quantia economizada foi suficiente para ela se manter na capital durante a universidade até conseguir um estágio. Casou-se dois anos depois de formada com um colega de classe. Com três anos de casada teve o primeiro filho, dois anos mais tarde nasceria a caçula, a menina tão desejada pelo pai.

Assim que voltou da maternidade, o mais velho nos braços, uma sombra começou a rondá-la. Um desânimo a abatê-la e uma sensação profunda de incapacidade quase a imobilizá-la. O marido chamou a avó para ajudar com o bebê na tentativa de fazer a mulher sair do torpor que a paralisava. Ao vê-la abraçada à criança, o rosto pálido, as olheiras fundas, uma lembrança fez a avó estremecer. Conhecia aquela tristeza no olhar e já uma vez falhara em aliviá-la. Mas fez o que sabia e podia. Escancarou as janelas, o sol sempre um remédio, encheu a casa de flores e preparou várias comidas que a neta gostava, além de se deliciar o quanto podia com o macio bisneto no colo.

A segunda filha, não a queria, mas o marido insistiu e ela acabou cedendo à vontade dele. O abatimento foi ainda maior. A avó já havia partido, os remédios receitados pelo psiquiatra a ajudaram a sair do buraco.  

Se o marido não a tivesse deixado pouco mais de um ano após o nascimento da menina, talvez tivesse sido ela a abandoná-lo e aos filhos. A tristeza se instalara nela como uma segunda natureza. Não uma tristeza de morte, mas uma tristeza de tédio, que a implicava no trabalho na mesma medida que a desinteressava dos filhos e da casa. Menos mal, nada faltava às crianças, além do carinho e afeto que ela não tinha para dar.

Tão logo puderam, os filhos partiram. O mais velho, para estudar na América. A menina, dois anos depois, mudou-se para Berlim com o marido. Casara-se muitíssimo jovem. Estabelecidos, só voltavam ao Brasil em viagens muito rápidas.

Aos cinquenta e oito era uma executiva bem situada. Morava sozinha em um apartamento confortável e uma das suas grandes alegrias era poder demorar-se no café da manhã ouvindo o canto dos pássaros que habitavam as árvores do pátio para onde suas janelas se voltavam. Uma variedade deles — sabiás, melros, estridentes maritacas. Fumar seu único cigarro do dia naquela altura da vida naquele ambiente a fazia sentir-se plena e renovada.  

Certa noite sonhou que voava. Ondulando os braços, controlava altura e velocidade. Contornava árvores com perícia, dialogava com aves imaginárias. Pesadelo ao contrário, a sensação foi tão intensa e boa que ela despertou. Sentia sede. Atravessou a sala fria e sem lua e na cozinha serviu-se de um copo de água gelada.

Ao passar pela sala na volta, avançou até a janela, estava aberta, daí o ar frio, melhor fechá-la, pensou. Nisso, um pássaro cinzento camuflado pelo negrume da noite arremessou-se sobre seu peito quase nu sob a camisola delicada. O susto fez seu coração dar um salto. Logo, era como se algo muito pesado apertasse seu peito, o braço esquerdo perdeu a força, o copo d´água se espatifou no chão, um suor frio inundou seu corpo. Tombou no tapete impecável, branco, uma nuvem sob seu corpo flácido. A agonia durou talvez quinze minutos. Então a alma levantou voo. O pássaro cinzento a guiou para longe, noite a dentro.   

Meu desafio: escrever um conto em uma sentada. Na verdade, escrevi em duas, mas no mesmo dia. Revisei uma semana depois em duas passadas, apenas gramática, sem expandir ou remexer a escrita. De qualquer forma, foi uma escrita bastante rápida para os meus padrões. A ver se resultou em um texto palatável ao vosso gosto.

10 comentários em “A versão da vovó

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  1. O pássaro, talvez seja a analogia mais utilizada para se falar de liberdade. No texto, liga-se à fuga e à morte. O voo livre da ave tem relação direta com a existência humana. A trama apresenta a vida de uma mulher, dos seis aos cinquenta e oito anos, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistiram desde a geração anterior. Uma história densa e leve, violenta e poética.

    A protagonista tenta, de todas as maneiras, encontrar uma forma de escapar das barras que a prendem à realidade na qual se encontra; com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita. Não foi amada pelos pais, não soube amar os filhos. Restou apenas a versão da avó.

    A vida é uma prisão e desaparecer é tentar ser livre: o medo de se expor e o medo do enfrentamento. “Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…”. (Rubem Alves)

    Se o conto foi uma escrita bastante rápida para os padrões da autora, temos que confiar na palavra dela. Agora, que resultou em um texto palatável ao meu gosto, resultou. Gostei muito da premissa e da narrativa. A fala da avó é poesia pura, reflexiva. E, o fechamento do texto em formato circular lembrou ao leitor o ciclo da vida que engloba o reprodutivo, o fenômeno que permite que as espécies continuem existindo ao longo do tempo.

    Parabéns pelo trabalho, que em si é tão amplo que abre margens para muitas interpretações. Beijos.

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  2. Olá, Autora!
    É um texto bem curto e direto, tão lindo, tão triste! Senti ao ler como as heranças emocionais são profundas, o sangue clama! Quebrar o ciclo é quase impossível sozinho, fiquei com dó das crianças, dos adultos, todos presos por correntes…
    Acho que o texto ficou perfeito, está tudo na medida certa, nada sobrando e nada faltando, uma dose certeira de sentimento e uma pitada do mágico, ótimo conto! Parabéns!
    Até mais! Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Olá, gostei do seu texto e da opção pelo pássaro como símbolo de libertação, como ligação entre a menina e sua mãe, como um conforto em sua vida conturbada. A mensagem é muito bonita, a narrativa é boa, mas talvez haja muita informação para um texto curto, o que conferiu a ele um ritmo apressado. Talvez não precisasse contar tantos fatos da vida da protagonista sem aprofundar-se neles.
    Vocêr escreve muito bem, com passagens que ganharam um tom poético.
    Parabéns por ter escrito algo tão completo e coerente em uma tacada só. Isso é realmente um deafio e tanto. Gostei especialmente do final, muito bonito, apesar de triste. Linda a estrofe que inicia o texto também.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Uma narrativa que voa diante dos nossos olhos. O primeiro desencanto da menina – não se transformará em pássaro. Talvez não do jeito que sua mente infantil é capaz de alcançar, mas um dia, quando ela for livre (os filhos crescidos e distantes, o casamento desfeito, a independência financeira), então a mãe a virá buscar como um pássaro. A liberdade como um último voo.
    Fiquei em dúvida quanto ao número de filhos. Para mim, era apenas um menino e depois veio a menina. No entanto, talvez eu tenha interpretado mal o parágrafo: “A segunda filha, não a queria, mas o marido insistiu e ela acabou cedendo à vontade dele. O abatimento foi ainda maior. A avó já havia partido, os remédios receitados pelo psiquiatra a ajudaram a sair do buraco.” Se a avó já havia partido, era outra criança? Ou a mesma menina, mas que ainda rejeitava apesar da passagem de tempo?
    Desafio muito bem cumprido, sendo o conto elaborado em apenas duas “sentadas”, foi um feito e tanto. Parabéns!

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  5. Olá. Pelo jeito a protagonista resolveu mesmo ficar com a versão da avó e esperou por isso a vida toda, deixando ela mesma de viver a sua própria versão de vida, ansiando pelo desfecho da história da avó.
    Esse desafio tem mostrado contos diferentes do que estamos acostumadas a ler, não sei, mais espontâneos, talvez. Gostei bastante do texto, mas senti pena dos filhos da protagonista, afinal, não tinham culpa pelos dissabores da mãe, e também raiva do marido, tão típico de homem querer filho para a mulher criar.
    Espero que tenha alcançado seu objetivo com o desafio, porque ficou ótimo.
    Abraços. ❤

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  6. Para uma sentada só ficou muito bom. Eu concordo com o que disse a Fernanda. Talvez tenha ficado curto para narrar toda uma vida. Algumas passagens me confundiram um pouco, como entre o parágrafo que termina em “Com três anos de casada teve o primeiro filho, dois anos mais tarde nasceria a caçula, a menina tão desejada pelo pai.” e o que começa com “Assim que voltou da maternidade” Eu achei que ela estava saindo da maternidade após o nascimento da filha, mas depois vi que era ainda do filho. A velocidade acabou por me confundir um pouco. Mas o conto é muito bonito, traz imagens riquíssimas, como a que dá título ao conto “por que você não fica com a versão da vovó?”. Isso é lindo, o texto me ganhou ali. A alegoria se fecha quando um pássaro vem buscá-la e certamente a levará para a companhia da tão saudosa mãe. Muito bom, parabéns!

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  7. Muito bonito e interessante o seu conto. Quando meu filho nasceu eu estava no meio de um processo de separação. Só vim a me divorciar anos depois, mas o marido já estava com um pé fora de casa há muito tempo. Acho que isso afetou a minha relação com o bebê. Mesmo tendo todo o cuidado e carinho que uma mãe tem com um filho, demorei para derreter meu coração e entender o laço que tínhamos, eu e meu Gabriel.

    Achei curioso isso da mãe ter virado um passarinho (metaforicamente) e ter ido buscá-la no momento da morte (da protagonista).

    O título foi muito bem escolhido. Parabéns, autora, um conto e tanto.

    Curtido por 2 pessoas

  8. Querida Contista,

    Parabéns por cumprir seu desafio com tanta beleza.

    A imagem inicial do conto já rouba o leitor de imediato. A imagem da mãe virando passarinho é algo mais que poético, metafórico e filosófico. É algo que cala em nós em algum lugar só nosso. Quem é mãe, quem é filha, quem é mulher, ou, quem sabe, todos os leitores…

    O texto pega o leitor pela história propriamente dita, mas também prima pela literaridade e tecitura das palavras.

    Se me permite uma opinião, já que estamos em um desafio de leitura crítica, é a seguinte: há, nesta história, uma série grande de conflitos (depressão o´s-parto, solidão, abandono, relação neta e avó, relação mãe e filha, relação marido e mulher), se o conto não daria um romance, daria com certeza, uma novela ou um conto de maior fôlego, talvez uma série de contos amarrados em romance, ou mesmo um roteiro de um lindo filme, o que me faz desconfiar da autoria (rsrsrs)

    Parabéns pelo lindo trabalho, de verdade!

    Obrigada por (se) nos desafiar.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  9. Querida Contista,

    Que belezura, delicada e sensível escrita, que me provocou uma ótima experiência.
    Saiba que escrever um conto em uma sentada (ou duas) dá certo para ti. Deu certo.
    O conto é um primor.
    Há uma história de uma vida inteira aqui ilustrada e tudo passa tão rápido, a vida passa rápido. Mas não falta nada à narrativa. O que importa foi descrito.
    Essa falta, essa ausência quase que randômica na vida dessa mulher… triste e real.
    Esse conto é muito bom. Investe nele (concursos)!

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  10. Magnífico seu conto, escrito tão rapidamente…e lindamente esplêndido, nas linhas e entrelinhas, no que de existir ele nos traz. A história de uma vida, uma pessoa sobrevivente (da depressão, talvez), mas que corajosamente resistiu, a ligação com os pássaros, nossa, considero genial seu conto.
    Emocionou-me, de verdade.
    E claro, desafio cumprido!
    Parabéns!!

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