De saltos altos ou borrão – de Paula Giannini

 

Caída no asfalto.

O vestido levantado me cobria o rosto.

As pernas tortas jogadas uma para cada lado compunham a cena, no mínimo, patética. Quem me visse assim, de cima, pensaria que eu estava morta.

Não estava.

Eu respirava.

Ou ao menos era nisso que queria acreditar.

Levantei a cabeça, afastando a saia e impulsionando o corpo a fim de sentar e visualizar a cena. O que havia. Calcinha cor da pele, manchada de água sanitária e visivelmente desleixada.

Mas o que significava aquilo? O que acontecera?

Eu não sabia.

Tampouco fazia ideia de quem era. Onde estava.

Em torno de mim, rostos estáticos também eram interrogações.

Eu estava bem?

Sim, estava.

E a única coisa que conseguia realmente pensar era: por que cargas d’água eu usava uma lingerie tão velha? Meu lema, se é que eu tinha um, era jamais sair de casa usando roupas de baixo feias. Não que alguém as fosse ver. Ou será que veriam? Mas uma mulher precisava ser precavida. E se eu desmaiasse? E se caísse na rua, sei lá…

E eu caíra.

Caíra?

Em um impulso, puxei a saia cobrindo aquela coisa horrorosa. Eu precisava sair dali, tomar um ar, voltar para casa, recuperar meu endereço, a identidade.

Foi nesse momento que os vi.

Gigantescos olhos a me sondar do lugar onde, se haveria de supor, estaria o céu. Sobre minha cabeça lá estavam eles. Congestionados, focados, emoldurados por hastes negras e grossas lentes de grau.

Tentando ignorar o delírio que parecia me assolar, esfreguei as mãos. Quem sabe assim me livraria da poeira e do constrangimento de me sentir observada tão de perto.

O choque com certeza fora forte. Eu batera com a cabeça e as alucinações logo passariam.

Alguns metros à frente, minha bolsa jazia aberta, quase tão desconjuntada quanto eu. Os objetos espalhados precisavam ser recolhidos. Ergui a perna no gesto natural de caminhar, impulsionado pelo braço estendido a fim de me reaver com o que era meu.

Fui ao chão.

O vestido, novamente suspenso, deixava, também novamente à mostra aquela hedionda peça bege. As pernas, porém, dessa vez, dobravam-se ambas para o mesmo lado. Repeti o movimento em déjà vu, cobrindo mais uma vez as coxas.

– Vou jogar tudo no lixo, juro. Calcinha, essa porcaria de dia e…

Foi então que percebi, logo abaixo dos tornozelos, um borrão como aqueles que se formam quando se apaga um desenho feito a lápis. Não havia sapatos para se jogar fora, tampouco meias ou pés.

“Fui atropelada”, pensei mortificada, já procurando meu algoz.

Não havia carro.

O motorista fugira e me deixara ali, mutilada e, estranhamente, sem dor ou sangue.

Eu precisava me virar de bruços e rastejar até a bolsa. Queria pedir socorro, ligar para alguém, tomar um remédio. Me beliscar e acordar daquele pesadelo terrível. Tomei impulso, puxando meu corpo com os braços, para alcançar aquilo que era meu.

Batom, espelho, preservativos, um lápis descomunal…

Levantei o olhar sondando aquilo que mais parecia um poste.

A ponta em meu tornozelo era segurada com firmeza por aquele que pude reconhecer como o dono dos imensos olhos. A me perscrutar, ele me desenhava o destino, a vida e, para o meu mais completo alívio, agora também me presenteava com novos pés.

E sapatos.

De saltos altos.  

***

(*) Este conto faz parte do livro “Pequenas Mortes Cotidianas” – Editora Oito e Meio.

 

 

25 comentários em “De saltos altos ou borrão – de Paula Giannini

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  1. Eu já havia lido esta pérola de texto. Pequeno e perfeito em sua grandiosa pequenez. Uau! Era o tipo da coisa que eu queria escrever quando eu tento escrever realismo fantástico. Simplesmente adorável. Fiquei com coisas na cabeça. Pensava o tempo inteiro que ela estava morta, e por isso mesmo não conseguia se levantar. Aí apareceu o ser ou os seres no céu. Seriam anjos? Fiquei nesta vibe e só quando os pés da moça foram refeitos foi que eu percebi, encantada e perplexa o que era, mas que eu não vou dizer para não dar spoiler. Maravilha. Invejei. Uma verdadeira inspiração.

    Beijos, mulher.

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    1. Querida Iolanda,
      Sabe o que é interessante?
      Nunca percebi que este conto era realismo fantástico… rsrrss
      Obrigada pela leitura e comentário tão carinhoso.
      Beijos
      Paula Giannini

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  2. Já li, ouvi e agora, reli. Dentro de um esquema próprio, Paula, suas personagens ganham vida e se rebelam contra sistemas preestabelecidos. Com a espontaneidade de sua comunicação, os seres do seu artesanato nascem, agem e buscam soluções dentro de condições humanas, ganhando um sopro poético dentro de uma realidade trivial. Sempre capturando esta leitora.

    Desenhista e narrador se equivalem em função. O escritor é uma espécie de desenhista que usa as palavras; o desenhista é um escritor que trabalha com traços, cores… nesse sentido, o texto tem um fundo metalinguístico.

    Parabéns pela ideia, pelo estilo (esses parágrafos curtos são demais), pela densidade. Abraço.

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    1. Fátima, amiga tão querida.
      Obrigada por suas palavras sempre tão generosas.
      Sim, o desenhista e o escritor se irmanam no sentido narrativo, ambos ocntam histórias, não é?
      Beijos
      Paula Giannini
      .

      Curtido por 1 pessoa

  3. Esse eu já pude ler na versão física e foi bom relembrar, o que me chama a atenção é tanta coisa dita em um texto curto desse. Achei muito legal, é um conto desses que a gente diz que quebra a quarta parede, como se alguém de fora interagisse com as personagens. Ótimo trabalho! Agora vou ver o vídeo. 😉

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Bia, obrigada pelas leituras…. rsrsrs 😉
      Adoro ler o ponto de vista de vocês.
      Beijos
      Paula Giannini

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  4. Conto que surpreende em todos os sentidos, e da forma mais positiva possível. Um borrão de talento e criatividade que se traduz em um magnífico quadro. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Olá, Paulinha! Existe nos seus contos uma perspicácia que foge do padrão, do sentido e do layout comum. Um desenhista-escritor ou um escritor-desenhista? E somos também brindadas com um vídeo maravilhoso! Parabéns, minha querida! Estou sempre aprendendo com vc! Que venham mais contos espirituosos como esse! Beijos

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    1. Querida Sandra,
      Estou rindo aqui, porque acho isso mesmo dos contos da Fernanda. rsrsrrs
      Obrigada por seu carinho de sempre.
      Beijos
      Paula Giannini

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  6. Ah, lembro desse conto. Aliás, lembro de todos os contos do Pequenas Mortes. Achei incrível a sua capacidade de se colocar no lugar de qualquer um ou qualquer coisa, seja gente, bicho ou objetos. Ou um desenho. Animado? Também devo reiterar o quanto gosto do seu estilo de frases curtas e diretas, muito bem pensadas para dar ao leitor apenas o essencial, deixando que a nossa imaginação faça o resto. Muito bom reler, Paulinha!

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  7. Que legal! Confesso que não me dei conta do que acontecia até o final. O artista que dá vida a sua criação! Muito bom, amei! ❤

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    1. Querida Elisa,
      Obrigada pelo seu carinho, sempre.
      Sobre o vídeo, vamos fazer isto sempre que possível?
      Beijos
      Paula Giannini

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