Vingança e paixão – Capitulo 1 – Priscila Pereira

A primeira coisa que Júlia viu, ao entrar na igreja de braço dado com o pai, foi a cabeleira ruiva de seu futuro marido. Agradeceu pelo véu que cobria seu rosto e ocultava sua expressão de surpresa. Via o patriarca espiando, tentando descobrir o que pensava. “Como ele pôde escolher um homem ruivo?”, quase deixou escapar. À medida que se aproximava do carcereiro que a manteria, segundo sua família, segura e estável, como uma dama deve passar o resto de seus dias, conseguiu notar as sobrancelhas fartas, cor de cobre, franzidas, dando um ar de revolta a um rosto nada amigável.

O forte odor de inúmeras espécies de flores, agrupadas sem algum senso de elegância, aumentava a dor de cabeça que começara logo após ouvir a sentença: “Júlia, querida, seu pai arrumou para você um ótimo pretendente. Jovem, rico e saudável. Arrume suas coisas, meu bem, o casamento será no domingo”. E a música que jorrava do órgão, quase trincando as vidraças, só servia para abafar sua voz interior que berrava: “foge!”.

Chegando ao altar, sentiu o bigode do pai arranhando sua pele sob o véu, alguns segundos antes que fosse quase empurrada para os braços do carrasco. Olhando assim de perto, notou as sardas e os olhos verdes, como os de Galileu, seu gato, o que acalmou um tantinho as batidas estrondosas do seu coração. Ele levantou o véu devagar, como se quisesse alongar a surpresa de como seria a aparência de sua noiva. Não conseguiu ler em sua expressão nada além de tédio, nem um ar de reprovação nem a mais leve excitação. Nada.

Não se lembrava de como a cerimônia terminara, nem como havia sido a festa, tampouco o caminho até sua nova casa, da qual também não pudera enxergar nem a fachada, já que a lua não dera o ar de sua graça. Depois de tantas emoções, cheiros, sons e rostos, de repente, Júlia se vira sozinha num enorme quarto decorado no estilo colonial, com sólidos e sóbrios móveis, onde só as alvas cortinas de renda da cama traziam um ar jovial de pureza ao ambiente.

Sabia mais ou menos o que esperar. Sua mãe dissera que seria embaraçoso, repugnante e dolorido, mas que deveria se portar como uma dama, evitando demonstrar qualquer emoção negativa. Apressou-se em tirar o vestido de noiva e, depois de refrescar-se, vestir a camisola preparado para a ocasião. Soltara também os cabelos, que se espalhavam pelas costas em ondas, da cor de assoalhos recém-encerados.

Sentou-se na cama e esperou. Cada segundo martelava seus ouvidos, mostrando que o homem não tinha pressa. Quase uma hora depois, ouviu passos no corredor e uma batida apressada na porta. Sem esperar a resposta, Thiago entrou, franzindo as sobrancelhas. Júlia se levantou e afastou-se um pouco da cama.

—Me perdoe… Júlia, é isso? — limpou a garganta enquanto ela assentia. Notou que sua voz era grave e áspera, e que ele ainda estava com a roupa que usara no casamento. Ele chegou bem perto dela, como se inspecionasse uma encomenda que acabara de receber.

— Júlia, sinto muito frustrar suas expectativas… — disse passando os olhos demoradamente por sua camisola rendada, que mostrava muito mais do que ela gostaria de revelar a um estranho — Mas não pretendo tomar posse do que é meu essa noite. Na verdade, pode dormir sossegada e gozar de completa paz de espírito porque não pretendo consumar nosso casamento. Bem, boa noite, se precisar de algo, qualquer coisa, peça a um dos criados. Adeus!

Saiu tão rápido quanto entrara, deixando atrás de si um leve perfume amadeirado.

No dia seguinte, viu todo o esplendor de sua nova casa: quadros de artistas famosos, estátuas, enfeites caros, tudo mostrando o excelente gosto do dono da casa. A biblioteca era sensacional, poderia viver ali para sempre. Jardins de inverno, estufas, uma fonte. Um verdadeiro paraíso.

Foi apresentada à sua cunhada, Camila, única irmã de seu marido, ainda no auge da adolescência. Menina adorável! Seus cabelos ruivos, as sardas e os olhos de gato caiam perfeitamente nela, realçando uma personalidade alegre e exótica. Logo ficaram amigas. Via Thiago unicamente durante as refeições, onde ele tentava ser tão amável e atencioso quanto se esperaria de um bom marido.

Um dia, numa de suas expedições pela casa, descobriu um aposento iluminado por janelas enormes, onde materiais de pintura misturavam-se a vários quadros, todos estampados com o rosto de uma mulher. Loira, olhos castanhos cativantes, sorriso discreto e pele rosada. Uma mistura de surpresa e curiosidade a impulsionava a continuar ali, mas o medo de que fosse pega bisbilhotando foi maior e saiu apressada de lá.

Na primeira oportunidade, perguntou à Camila quem pintava as telas e, o mais importante, quem era a modelo. Descobriu que seu marido sempre fora apaixonado por Cecília, uma amiga de infância. Eles chegaram a trocar juras de amor, mas, sem explicação alguma, a moça marcara casamento com um conde, deixando Thiago arrasado. Foi assim que, movido pelo ciúme e despeito, arranjou casamento na primeira oportunidade e marcou para uma semana antes do dela, que por sinal era naquele dia.

Não viu Thiago na semana seguinte. Sentia raiva e vergonha de ser uma mera peça no joguinho de vingança dele. Como seu pai pudera arranjar um casamento tão vil? Mesmo sabendo que ele não viria, passou a trancar a porta do quarto.

10 comentários em “Vingança e paixão – Capitulo 1 – Priscila Pereira

Adicione o seu

  1. Eita que eu já quero saber o próximo capítulo. Será que eu precisarei esperar um mês? Adorei. Tão interessante, curioso, emocionante capítulo! Adoro quando pego textos que tenho vontade de saber o que vai acontecer, e vc é muito boa nisso. Um grande abraço, menina. Gosto muito de vc.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Acho que dessa união com início nada promissor nascerá um grande amor, Pri.
    Gostei do primeiro capítulo, a ambientação é perfeita, a descrição dos personagens também, agora é aguardar o próximo capítulo.
    Amei,
    Bjokas

    Curtido por 1 pessoa

  3. Fiquei curiosa! O que acontecerá com esse improvável casal? Conhecendo o romantismo da autora, suponho que no final estarão felizes e apaixonados. Mas até lá, imagino que uma trama de suspense e romance será belamente construída. Aguardo ansiosa o próximo capítulo. ❤

    Curtido por 1 pessoa

  4. Uau!
    ótimo primeiro capitulo.
    Como já li muitos romances, imagino o que virá..mas quero q vc me surpreenda!! kkk
    abraços, Priscila

    Curtido por 1 pessoa

  5. Tenho um certo receio com romances, prefiro sempre o terror e suspense, acredito mais no medo do que no amor. Maaaas, esse capítulo me prendeu. Não foi um episódio dramático e chato, muito pelo contrário, em poucas linhas já me afeiçoei pela personagem, e lógico, quero saber mais. Bjs ❤

    Curtido por 1 pessoa

  6. Uau! Ansiosa pelo capítulo 2, pois este aqui estácom um gosto incrível de “quero mais”.

    Gosto de suas histórias com certo tom clássico: o triângulo amoroso, o desprezo na primeira noite que acabará por ser um incentivo, tenho certeza, a irmã que se torna amiga.

    A escrita é muito boa, segura, e com construções frasais bem elaboradas. Boa dose de suspense e ritmo perfeito, a leitura agradável. As cenas se formaram com clareza e a narração foi eficiente.

    Parabéns, Priscila! òtimo trabalho. Já começou a escrever o seguimento? Vamos lá… Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Muito legal ter dividido esta história em capítulos porque certamente ainda tem muito a acointecer. Suspeito de um amor brotando ai entre o casal recém-casado.
    Muito boa a descrição das cenas. Gostei do clima de romance de época.
    “E a música que jorrava do órgão, quase trincando as vidraças, só servia para abafar sua voz interior que berrava: “foge!”” – muito bom isso. Beijos e parabéns. Aguardando o próximo capítulo.

    Curtido por 1 pessoa

  8. Olá, Priscila!
    Que ótimo começo! A ambientação é primorosa e nos dá um gostinho de quero mais!
    Ansiosa para o próximo capítulo! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

  9. Oi Priscila,
    Demorei, mas cheguei.
    Que delícia de história de amor. Ansiosa pela continuidade.
    Parabéns,
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtir

  10. Menina! Isso dava uma edição de Contos Românticos Históricos e dos bons, rsssss… Gostei muito da narrativa, bem envolvente e num ritmo bom de leitura, sem muitos devaneios. Claro que vou ler a continuação!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: