Uma Prece Para Maria

O fim da tarde se aproximava sonolento, e os últimos visitantes caminhavam entre as sepulturas, produzindo um som crocante do atrito dos seus sapatos com o piso de dolomitas. Em poucos minutos tudo estaria esvaziado, os funcionários desligariam a energia e fechariam o grande portão de lanças negras, e apenas eu continuaria lá, sentada no banco de madeira e ferro, sob a vigilância dos salgueiros centenários.

Ao meu lado um jazigo de criança enfeitado por um ramo de perpétuas. No túmulo vazio, as inscrições de estilo, e na pedra ornada com a pequena foto, um peculiar epitáfio:

“Aqui repousa a esperança”

O vento gelado de maio me fazia cruzar os braços contra o peito. Pensei no chá de hortelã sobre o fogão da casa da minha mãe, e desejei muito estar com ela. Mas, como todos os anos naquela mesma data, eu repetia um ritual: sentava no banco do corredor 231 – N, e abria um pequeno álbum amarelado, com as últimas fotografias da minha irmã caçula. As páginas plastificadas, já marcadas por tanto uso, suportavam ainda o maltrato das minhas lágrimas, pranto de uma dor tantas vezes registrada naqueles vinte anos de escuridão. Duas décadas sem Maria. Sete mil, trezentos e cinco dias sem notícias, descanso ou resposta. Nenhum corpo para enterrar. Somente uma cova tão vazia quanto os nossos corações.

A saudade de Maria me fazia retornar no tempo, aos dias em que ainda éramos felizes e brincávamos na casa nova, para onde havíamos nos mudado, num bairro que apenas começava a nascer, quando a vida ainda era simples e tranquila e não havia medo.

Íamos sozinhas para a escola, passávamos tardes inteiras com nossos amigos pelas ruas, comprávamos chicletes na bodega do seu Antônio, ao lado de bêbados que se encostavam no balcão, brincávamos de guerra nas muitas obras, onde casas novas eram erguidas, usando os montes de areia como trincheiras em nossas guerras de faz-de-conta. A aparente tranquilidade nos fazia imortais, com nossos cavalos imaginários, nossas capas vermelhas, nossos sonhos de exploradoras do universo.

A diferença de quatro anos de idade entre nós, determinava uma espécie de hierarquia tácita e plenamente aceita, sem que trocássemos uma palavra sobre o assunto. Eu mandava, ela obedecia. Penso que o carinho que eu sentia por aquela criança de cabelos cheirosos era tão intenso quanto a adoração que ela nutria por mim, acreditando em todas as aventuras falsas que eu alegava ter vivido enquanto ela dormia. Ela me olhava com aqueles grandes e castanhos olhos cheios de credulidade e um fascínio inquebrantável, que só uma irmã caçula é capaz de sentir pela mais velha.

Vivemos nosso paraíso particular até a chegada de Dona Emília e seus dois filhos à casa que ficava de frente para a nossa. Chegaram num sábado à tarde, cheios de malas e móveis, um pouco depois da hora do almoço. Vovó estava passando o dia conosco e aproveitamos a distração de mamãe para ir observar o movimento da rua com a vinda dos novos vizinhos.

Maria logo se desinteressou e pediu para entrar, mas eu só tinha olhos para os meninos: um garoto ruivo, alto e calado, e um branquinho de cabelo escuro. Mais tarde fiquei sabendo os nomes, Virgílio e Pedro.

Em poucos dias ficamos amigos e os incorporamos à nossa rotina. Os meninos estudavam em outra escola, e eu passei a esperar pelos dois todos os dias pela janela da nossa casa. Não via a hora de chegarem após a aula, e poder vê-los novamente. Coincidentemente, Maria deixou um pouco de andar comigo para brincar com outas menininhas de sua idade. Umas novatas da escola que passaram a frequentar nossa casa, para brincarem com ela. De certa forma foi como uma folga para mim. Eu havia acabado de completar doze anos e já não via muita graça em brincar com bonecas, ou em pular elástico com outras crianças. Não queria ser vista por Virgílio correndo de shorts e descalça, e me constrangia quando Maria me chamava para as brincadeiras na nossa rua.

Aos poucos nossos interesses se distinguiam e ficávamos mais distantes, na mesma medida em que me aproximava de Virgílio. Eu fazia tudo para chamar a atenção dele, mas éramos apenas bons amigos. Um dia marcamos de nos encontrar em um shopping. Comprei uma calça jeans bem justa especialmente para a ocasião, uma roupa de moça. Cheguei ao local do encontro com o coração aos saltos apenas para ver meus sonhos caírem todos por terra. Ele estava com uma turma de meninos mais velhos e de mãos dadas com uma garota alta e bonita. Entendi, finalmente, o seu desinteresse em mim.

Nem deixei que eles me vissem, saí de lá segurando o choro, fui para casa, transtornada, me sentindo uma pirralha insignificante. Quando Maria chegou ao nosso quarto trazendo sua caixa de jogos para brincar comigo, eu a empurrei pela primeira vez, derrubando minha irmã, e espalhando peças de Lego coloridas pelo chão.

Naquela noite não nos falamos, mas eu podia ouvir seus soluços de choro baixinho. Aquilo fazia que eu me sentisse culpada, mas não queria dar o braço a torcer, não queria pedir desculpas, então ficava mais aborrecida ainda, e com mais vontade de ficar longe dela.

Maria só se deu conta de o quanto estávamos afastadas quando me viu pedir à nossa mãe para mudar de quarto. Eu estava meio farta de dormir no quarto cheio de bonecas e decoração cor de rosa que dividia com ela, andava impaciente com todos, respondia aos meus pais, fumava escondida com as amigas, gazeava aula e enxotava minha irmã quando estava com o meu grupinho de meninas “mais velhas” na escola. Não passava mais os recreios com ela, ia para a sala de jogos do nosso colégio para gastar meu charme nas mesas de sinuca e tênis de mesa.

Um dia, ao final da aula, alguns meninos me chamaram para ir ao supermercado novo que ficava um pouco longe da escola. Éramos cinco e resolvemos dividir um táxi. Quando já estávamos dentro do carro, vi Maria vindo e gritando o meu nome. Cheguei a pensar em levá-la conosco, mas não cabia no carro, e dois meninos ficaram de gozação, me chamando de babá. No meio da discussão, gritei com ela. Mandei que fosse com outra pessoa para casa, que me deixasse em paz, e ainda a vi se afastando com a sua fardinha cor de vinho, de cabeça baixa, com o vento espalhando seus cabelos.

Foi a última vez que a vi.

Durante todo tempo que passei no supermercado com os garotos, não conseguia afastar Maria do meu pensamento. Sentia uma angústia, um mau pressentimento, acho que estava adivinhando a tragédia que marcaria minha vida para sempre.

Voltei para casa assim que pude. De longe, avistei uma viatura parada na porta. Corri até nosso portão. Na entrada vi minha mãe abraçada ao meu pai, com o rosto escondido em seu peito. Não me perguntaram nada. Alguém havia visto minha irmã sendo arrastada para dentro de um Opala amarelo sem placa. Sabiam que ela não estava comigo.

Durante os dias que se seguiram, as nossas vidas viraram um inferno. Creio que mamãe e papai me culpavam pelo sumiço de Maria, e só falavam o necessário comigo.

Os dias se resumiam à ausência de minha irmã, às buscas sempre infrutíferas, às idas do meu pai até a delegacia. Mamãe pediu para sair do trabalho, ficava longas horas na janela, olhando para a rua, como se esperasse que a filha caçula chegasse a qualquer momento.

Jamais a encontramos. Com o tempo a polícia parou de investigar e apenas mamãe saía distribuindo pequenos cartazes com uma foto dela, vestida de farda. Cada cartaz que eu encontrava pela rua, era como se uma faca atravessasse meu peito. A culpa de ter deixado Maria sozinha naquele dia era a pior das sentenças.

Durante anos procurei a minha irmã no rosto de cada menina de cabelos escuros e lisos que via. Meus pais, depois de um tempo, se conformaram, e enterraram um caixão vazio e pequeno no cemitério municipal, onde iam visitá-la em datas especiais.

Ali, sob os salgueiros que nos faziam sombra, finalmente encontrei alguma paz. Fui ficar com minha irmã. Ir ao encontro dela, onde quer que estivesse, de certa forma me redimia de tê-la perdido.

Hoje era o dia do aniversário de Maria, e eu sabia que mamãe viria nos visitar. O céu já estava passando do laranja para o azul pesado quando eles apareceram. Fora a nossa família, apenas um grupo de desconhecidos concluía o enterro de algum ente querido.

Senti uma pena enorme ao ver o rosto de papai, tão envelhecido e triste.

Mamãe sentou ao meu lado no banco, em silêncio. Já não chorava há alguns anos. Tirou o terço de uma pequena bolsa enfeitada de miçangas azuis, e fez suas preces para Maria e para mim. Depois depositou novas perpétuas nos nossos túmulos e se foi de braço dado com meu pai.

Iolanda MARIA Pinheiro C. Leitão

36 comentários em “Uma Prece Para Maria

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  1. Olá, Iolandinha!

    Um conto muito singelo e triste que me fez lembrar o livro “Rebentar” do Raphael Gallo, sobre a busca de uma mãe sobre seu filho desaparecido e sua culpa. Não há como não senti-la de alguma forma ou alguma vez. E se eu tivesse lhe dado atenção… E se eu lhe tivesse ouvido… E se…? Comovente. Parabéns.

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    1. Muito obrigada, Sandra, querida. Gosto muito deste conto e não consegui escrever nada melhor do que ele para a etapa Crescer. Obrigada pela visita e pelo gentil comentário.

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  2. Querida Iolandinha,

    Já conhecia esse conto e, como você sabe, gosto muito dele. Foi bom revê-lo e recordar sua habilidade técnica em esconder que a irmã mais velha também é uma personagem morta. Dessa forma, a narradora se revela um espectro vagante, corroído por um terrível sentimento de tristeza e de culpa, apenas no finalzinho do texto.

    Culpa, aliás, é a palavra chave desse seu trabalho. Uma culpa terrível, que lança vida e morte da narradora à uma eterna busca por respostas, por perdão. O ponto alto, no entanto, para mim, foi sua capacidade em deixar o final angustiantemente aberto. A irmã mais nova desaparece por completo. Some sem deixar pista alguma. E, exceto pelo terrível relato de ter sido arrastada para dentro de um carro, nunca mais se sabe de seu verdadeiro destino. O golpe de mestra da autora está no fato de, também na morte, a pobre menina desaparecer. Ela deixa um vácuo atrás de si, Um vazio que não é respondido nem com o óbito da segunda irmã. Ela evapora. Vira pó, ou melhor, apenas memórias em um antigo álbum de fotos.

    Onde estará Maria? É a pergunta que ecoa no leitor após o conto. Viva? Morta? Morta e ainda sem saber que é Maria, pois se esqueceu durante a vida? Morta e magoada com irmã por toda a eternidade? Há centenas de possibilidades, não é?

    O que nos diz a autora, então, com essa narrativa que não faz concessão alguma à dor de sua personagem? Que a vida é uma só. Que nossas ações têm reações e nem sempre boas. Que no final prestaremos contas por nossos atos. Não à alguma entidade mágica ou espiritual, mas a nós mesmos.

    Parabéns mais uma vez.

    Esse conto é nota 10.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. É de cortar o coração, não é? O seu comentário ficou tão bonito que acho que ninguém precisa falar mais nada sobre a minha Maria, pessoa por quem eu tenho um carinho gigante, porque foi inspirada em mim. Adorei a leitura que vc fez, se eu fosse falar do meu conto não conseguiria fazer com tanta perfeição. Pura sensibilidade e aprofundamento nas sensações que eu desejei passar. Adoro seus comentários, mas creio que todo mundo já lhe disse isso. rs Beijos, minha linda.

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    1. Obrigada, Neusinha.

      Trouxe este conto para cá especialmente para vc poder ler. Que bom que vc gostou, minha linda. Obrigada. É um conto bem depressivo mesmo, mas eu gosto muito dele. Há muito de mim nestas histórias.

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  3. Chorei de novo. Temática tirada do humano, que contém toda a peregrinação diante da vida, do amor, da dor, da solidão, da morte. Palavras exatas e sugestivas prendem o leitor pela simplicidade e beleza, com estilo seguro, carregado de emoção. Este texto é perfeitamente adequado ao Projeto Vida, à etapa “crescer”. A protagonista sente culpa, porque cresceu, porque não queria mais brincar com a irmã mais nova, como uma menininha. O requinte das revelações finais causa um impacto maior que o sequestro. Parabéns, Iolanda. Beijos.

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    1. Eu chorei quando escrevi, chorei quando fui ler para a mamãe, tenho muita pena desta família fictícia, que foi inspirada na minha principalmente na ambientação e em alguns fatos dolorosos. A infância foi o período mais triste e feliz da minha vida, então tentei transmitir tudo isso no conto. Acho que nunca vou escrever nada tão autêntico. Que bom que vc gostou, Fátima. Beijos.

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  4. Ah… Esse conto… Sempre de parabéns por essa sensível construção. É para se gastar em lágrimas. Toda a vez que leio é um sofrimento e uma leitura a mais do que é morrer. Vou me repetir: Desaparecer é sempre pior que morrer. Desaparecidos são mortos diferentes. São mortos que matam quem fica esperando por eles. Esse texto tem um final bastante cruel. A crueldade do final, é a sensação de desolação, de inutilidade dos que ficam. Tanto Maria, que nunca foi encontrada, quanto a irmã, avivam a questão da solidão dos que ficam.
    Grande e carinhoso abraço.

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    1. Menina, que bom quando vem e quando fala coisas que eu sempre quero ouvir. Realmente este conto é de uma dor extraordinária, mas quando eu escrevi não fazia ideia de que ele iria passar toda a emoção que eu acreditava contida nele, para as outras pessoas. Coisas que vc não sabe – A narradora (que no conto não tem nome) se chama Anna e e a minha irmã mais velha. Um dia ela me deixou para trás na saída da escola, e foi a um shopping com as amigas dela. Neste dia eu chorei muito. Não porque ela tivesse ido sem mim, mas porque meus amigos, de brincadeira, me seguraram para que eu não fosse. Tenho uma irmã mais nova, e um irmão. A irmã mais nova quando leu o conto, me fez fazer uma versão com final feliz, porque o final deste conto a deprimia muito. Este conto começou a ser escrito há uns dois anos, e não era sobre mim, mas sobre a menina Araceli, que foi morta por pedófilos traficantes, escrevi uma história completamente diferente e não conseguia dar um final a ela.. Quando faltava um dia para o fim do prazo do EC, sem ideias decentes para um conto novo, resolvi transformar a Maria em mim, e coloquei lembranças genuínas, talvez por isso tenha passado tanta verdade. Um abração para ti. Até mais ler.

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      1. Isso deve ter pesado muito. Nossas vivências são o toque final para qualquer história. É sempre através de nossas vivências nesse mundo, de nossas percepções, que alavancamos alguns personagens. Está de parabéns, Iolandinha! Eu me emociono muito ao ler esse conto.
        Um grande beijo!

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  5. Como sempre, você me deixa sem palavras, Iolanda… Este conto é de cortar o coração. Toda a história já é triste e melancólica, e quando chega ao final, aí é que não deu para segurar as lágrimas mesmo. Principalmente quando o nome Maria está em destaque em meio ao seu próprio nome. Isto fez arrepiar até a alma! Este blog está parecendo um baú de tesouros, viu? Cheio de preciosidades… Abç ❤

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    1. Vanessa. A Maria não se chama assim por algum acaso. Maria é meu segundo nome, e este conto foi extraído das minhas memórias. Claro que esta tragédia nunca se abateu sobre a minha família. Mas, recordando o meu passado, vejo que escapei muitas vezes de virar estatística. No meu tempo de criança, tudo era equivocadamente considerado mais seguro, mas os predadores sempre existiram, e fui criada muito solta. Agora, com meu filho, embora ele já tenha 1,75m de altura, eu faço tudo para cobri-lo com o máximo de proteção para que ele nunca corra os riscos que eu corri. Obrigada pela leitura, pela emoção e por trazer suas lindas palavras para mim. Muitos beijos, Vanessa.

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  6. Iolandinha King, reli o seu conto com segundas intenções, já que o tinha lido no desafio do EC, e eis que estou como uma barata tonta em busca de subsídios para escrever o novo desafio, o do terror, pois é gênero que não é a minha praia, então a melhor forma é aprender com quem sabe, néh. Apesar da narrativa ser um drama, pontuado na culpa, na perda e na miserabilidade da protagonista presa entre dois mundos, atentei-me também à construção, a estrutura da história para o meu conto. Falando em história, a sua remeteu-me à minha, pois perdi um irmão de forma trágica, quando eu era adolescente, e isso foi um divisor de águas na estrutura familiar, e você retratou muito bem as culpas e medos, que toda a perda trás. Agora me dá licença que vou pro banheiro, não gosto de chorar em público. Bjs.

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    1. Aí, Rose, chora não, eu fico aqui me consumindo pela culpa, mas acho que se consigo provocar emoção em vcs estou indo pelo caminho certo, então é bom, não é? Nunca mais consegui escrever algo tão doloroso. Amiga, se vc quiser dicas sobre contos de terror, estou às ordens e tb disponibilizo todos os contos que já escrevi neste género, também posso indicar contos de autores ilustres para que vcs leiam. Obrigada, linda. Um grande abraço .

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  7. No começo do conto não há o nome da autora, mas o primoroso primeiro parágrafo, cheio de mistérios e dor, já me trouxe à mente o estilo iolandinesco. Dito e feito.
    O conto nos agarra pela garganta com riqueza de detalhes. Procuramos ávidos o destino de Maria, sem saber que o impactante seria o destino da narradora. Magnífico.

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    1. Ah, eu sempre fico feliz quando vejo que chegou comentário, ainda mais quando é um lindo assim como este seu. Obrigada, Catarina, pela leitura e por se deixar envolver pela história. Um beijão para vc.

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  8. Oi, Iolandinha!
    Por já conhecer o conto, já me emocionei desde a primeira palavra.. Só agora é que a frase: ‘Aqui repousa a esperança’ me impactou fortemente, interpretei que ali, naquele túmulo vazio eles enterraram a esperança de encontrar a filha, viva ou morta.
    Tristíssimo.
    E como eu já sabia o final, toda a narração da irmã mais velha q vai se afastando da pequena tb tocou demais… O toque de gênio em deixar Maria realmente desaparecida até mesmo para o leitor e para a autora é algo que não tem parâmetros, faz a mente e o coração vagarem por tantas suposições, que só pode enriquecer mesmo quem tem a sorte de ler este texto.
    Muitos parabéns
    Abraços

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    1. Anorkinda, outro dia lendo este conto para a minha mãe, eu e ela começamos a chorar. Eu mesma, que escrevi ainda me emociono com esta história. Tudo o que vc falou no seu comentário é exatamente igual ao que acho. A inscrição no túmulo vazio, era realmente a esperança de encontrar a filha. Mas esta é uma esperança injusta, terrível. Quando uma pessoa amada morre, vc ainda pode se despedir, fazer todo um ritual, enterrá-la, ir vez por outra colocar flores em seu jazigo, pagar missas, imaginar a pessoa no céu, descansando em paz. Mas quando alguém desaparece, quem fica vive a angústia de não saber, de todo dia esperar a volta, de toda hora pensar nas piores coisas, torturas, mortes terríveis… A imaginação não tem limites, a saudade não tem limites. Enfim. Esse texto é horrível e lindo ao mesmo tempo. Desculpe a falta de modéstia, rs. Obrigada, amiga. E beijos.

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      1. entendo perfeitamente.. rsrs este texto q eu trouxe tb à etapa crescer, tb me faz chorar toda a vez q leio e eu sempre penso..poxa q lindo isso q eu escrevi 🙂

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  9. Lembro-me bem deste conto. Causou impacto pela densidade e rastro de melancolia. Ter um filho desaparecido deve ser uma angústia torturante e eterna. Parece maldade da vida, injustiça sem limite, sei lá.
    Impossível ler este conto e não se incomodar. Eu não choro, mas sofro.
    Muito lindo e triste…. ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. O desaparecimento, quando não se soluciona rápido, deixa uma angústia pior do que a morte. Não há sequer um corpo para enterrar, uma despedida, um ritual. Só há uma tristeza tão plena de dor quanto vazio está o espaço que a pessoa deixou.

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  10. Oi Iolandinha, querida.

    Esse conto funciona maravilhosamente bem. Fruto de um conjunto de acertos. Procurei observá-los nessa segunda leitura que fiz da sua história.
    Para começar, você introduz de forma muito feliz esse cemitério que ambienta a história. Destaco o “som crocante” dos visitantes, uma achado que torna o ambiente simpático, até convidativo, eu diria, aos leitores.
    Depois temos a história das duas personagens, contada sem excessos, nem sobras. Lendo os comentários, vi que o relato está amparado em episódios entre você e sua irmã. Sobre isso, acho que foi um baita acerto você contá-la da perspectiva da sua irmã, a mais velha. Os olhinhos da Maria – os seus – ganharam uma tal verdade que acho não ocorreria no sentido inverso, se é que você me entende.
    Há dois clímax. No primeiro descobrimos que Maria desapareceu, o que causa mais comoção do que causaria sua morte. Depois, vemos a culpa da narradora se transformar em um pungente suicídio, onde a história se resolve. Por fim, um desfecho elegantemente melancólico.
    Um primor, minha amiga. Sucesso sempre!
    Beijo!

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    1. Que comentário fantástico, Elisa. Fiquei super feliz de ter visto o quanto vc gostou do conto. E muito feliz também por ter tido esta inspiração acertada. Olha, muito obrigada. Vindo de vc este elogio tem um sabor especial, já que vc é uma das melhores escritoras de terror que eu conheço. Abraços, flor.

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  11. Oi, Iolandinha, minha querida!
    O que dizer além de que o seu conto é devastadoramente belo, triste e que incendeia, linha após linha, a alma e o coração?
    Menina, você já sabe, mas vou dizer de novo e sempre: você escreve é muito, que primor!
    Drama-suspense-reflexão-revelação-transcendência, excelente!

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    1. O mundo fica bem melhor com gente como vc, sabia? Gente que tem humildade, carinho, amizade, generosidade. Quando eu comparo vc com outros autores cheios de si, fico pensando que o mundo ainda tem salvação. Além de tudo é linda. rs. Obrigada, amiga. Este texto foi difícil até de escrever, porque me emocionou. Até hoje me emociona. Meu filho já tem dezoito anos, mas sempre que ele passa pela porta, me dá um aperto no coração, e eu peço sempre a Deus que o proteja. São tantos os perigos deste mundo, não é? Um abraço.

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      1. Oi, Iolinda (gostei desse jeito carinhoso que inventei pra te chamar, não sei se já usaram <3), então, obrigada, eu comento e sou elogiada, poxa, sem palavras e idem, sempre.
        O que você disse sobre filhos, e a passagem pela porta, impossível não sentirmos esse aperto, e pior, não me engano, sei que será para sempre, enquanto existirmos, a Mãe existirá, e tudo que cabe nesse #melhorpapel.
        Pensar também em tantos casos assim, sem solução, essa dor que não permite luto, tudo mexe demais com a gente, fora que você é uma escritora ímpar, que honra estar escrevendo no mesmo espaço que você!
        Muitos beijos! ❤

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  12. Renata, tem muita gente que me chama de Iolinda, Iolindinha, rs. Geralmente as pessoas são muito carinhosas comigo. Sorte. Eu que me sinto honrada por fazer parte deste grupo tão talentoso e gentil. É um prazer estar com vcs, minhas amigas. Um abraço para ti, viu?

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  13. Iolandinha. Que belo conto. Não posso interpretá-lo, daria lugar a uma imensa tese sobre os sentimentos de culpa e perda. Existem nele muitos outros, mas esses dois são os que reúnem todo o foco narrativo. Escrito com a inteligência e sensibilidade que são a sua marca, ele é capaz de transmitir a angústia que retrata, até a quem nunca tenha conhecido na pele essas situações devastadoras. Li os comentários e as respostas que deu. Ah! Eu penso que sua irmã, sem o pretender e nem mesmo se dar conta, lhe causou uma profunda dor. Aposto que você imaginou como ela se sentiria se lhe sucedesse algo de horrível como consequência de a ter deixado ali (felizmente não foi o caso), mas sinto que você quase sentiu desejo de que algo muito mau acontecesse para que sua irmã sofresse a culpa pelo que lhe fizera. Acredito que viveu uma “vingança” imaginária imaginando-se vítima. Suposições minhas, desculpe, mas penso que estou certa. Neste conto você finalmente fez a catarse. Precisava perdoar sua irmã (já são grandes e não fazia sentido guardar tanta dor derivado duma atitude que causou dor, mas que não foi de maldade). Aí, colocou-se no lugar dela vivendo a situação. Era para analisar o conto, não o escritor eu sei. mas o conto está perfeito e o final absolutamente fantástico. Ainda bem que os personagens pais são acessórias. Imagine a dor deles! Um grande abraço.

    PS: Vocês dizem mesmo “gazeava aula”, ou falta aí um “t”? pergunto porque nunca vi a palavra e em Portugal dizemos gazetear.

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    1. Olá, Ana. A minha irmã sempre foi maravilhosa comigo. No episódio do shopping ela só foi sozinha porque não viu meus colegas me segurando para evitar que eu fosse com ela e suas amigas, mas eu imagino que tenha exorcizado muitos demônios com este conto sim. Na minha meninice os adultos não sentiam o medo que sentem hoje e eu tinha uma liberdade que ia além do que o devido. Sumia por horas, brincando em casas de vizinhos, subindo em telhados e andando de bicicleta e sim, por algumas vezes pedófilos se aproximaram de mim. O destino fez que eu escapasse em todas, mas poderia ter sido diferente. A adolescência da minha irmã foi difícil para mim, sempre tive muito ciúme dela, com as amigas, com os namorados. Ainda hoje não costumo gostar das amigas que ela arruma, rs. Acho que vc tem razão em muitas coisas. A gente passa a vida inteira resgatando as dores da infância, período difícil, este. Muitíssimo obrigada pela sua tão bem feita análise. Como sempre. Quando ao gazear, acho que vcs aí em Portugal estão certos, afinal vem de gazeta, não é? Mas aqui o verbo gazear é reconhecido pelos dicionários. Moça, gosto muito de vc, e adoro seus contos. Um grande abraço.

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  14. Iolandinha, esse conto sempre me faz chorar… Como mãe é impossível pra mim imaginar o horror que deve ser ter um filho desaparecido. Você conseguiu transmitir tão bem o sentimento de culpa que a narradora carrega… É tristissimo… Parabéns!! Esse é um contasso!!!

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    1. Que bom ver você lendo novamente e sentindo as mesmas emoções como sentiu pela primeira vez. É um conto muito triste mesmo. Obrigada, flor. Sou sua admiradora.

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  15. Ai Iolanda!

    As vezes um releitura deixa tudo mais impactante, mais sentimental. ” Foi a última vez que a vi” essa frase machuca tanto, o nó se cria na garganta e os olhos piscam rapidamente só pra não sentir aquela ardência familiar Novamente encontro a esperança no seu conto, eu acredito que é o sentimento mais agridoce que existe, não imagino que exista dor pior nessa vida que a espera de um desaparecido, sempre que vejo as fotinhas de crianças espalhadas por ai doí muito em mim, sou muito sensível a isso, então seu conto me acerta em cheio. E você foi tão má….nem depois da morte ela achou alívio à devoção que tem nessa esperança, é muito triste.

    Em nenhum momento se deixa de pensar em Maria, onde está, onde esteve, quanto tempo durou seu sofrimento? E a culpa, nossa como será viver com esse sentimento a vida toda e até depois dela?

    Você parte nossos corações com esse texto e a gente gosta disso. Um conto que merece sempre ser lembrado e aplaudido, não lembro muito bem do meu primeiro comentário a ele, mas com certeza não fez jus a ele.

    Parabéns, sempre!

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    1. Amanda, eu acho que nunca mais eu vou conseguir escrever um conto com tanto sentimento e nem causando tanto sentimento em quem lê. Talvez porque haja tanto de mm nesta narrativa, meus medos, minhas memórias… e o conto passou tanta autenticidade. A gente tem destes momentos de inspiração, não é? E pela escrita vamos deixando que nossas emoções transbordem em nossas histórias. Beijos.

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