Teresinha dos anéis de Saturno – Evelyn Postali

 

Teresinha mora sozinha na casa marrom da esquina, onde o vento faz a curva e vai bater na casa amarela, do outro lado da rua de chão batido e de canteiros de amor-perfeito.

— Seu Lino, abra a porta! Tem selo voando aqui fora!

— O que foi, Teresinha?

— Tem selo pra tudo que é lado.

— Joguei fora. Cansei de guardar.

— O senhor pode colecionar coisa mais fácil. Eu coleciono anéis de vento, de pó de estrela do céu de Saturno.

— Você é maluca, isso sim!

Teresinha não escuta. Lança anéis de luz para ele pegar. Tenta isso todos os dias, mas Lino parece vindo da lua. Um caso perdido…

— O senhor deveria ao menos tentar.

— Me deixe aqui com a minha bagunça. Vá cuidar dos seus anéis!

E assim ela segue, a jogar anéis todos os dias, a abrir janelas todos os dias. Um trabalho incansável.

Bendita essa coisa de jogar anéis e de abrir janelas. Teresinha é quem sabe e segue cuidando da vida.

Ela cuida bem de sua casa, muito diferente da casa de sua mãe. A casa materna, de madeira tosca, com frestas de dedo, por onde se enxergava o horizonte ou qualquer forasteiro à distância, cheirava a picomã mesmo limpa, porque o frio nas vacarias é intenso e o fogão a lenha não pode parar de soltar fagulhas.

Vem ajudar, aqui, Teresinha! Vem ajudar a tocar esse gado para o outro lado! O pai chamava para ajudar, mas a menina não se movia.

Ah… As manhãs no campo geado, branquinho e frio. Teresinha não quer se lembrar daquela infância dura, dos cristais de gelo pendurados na plantinha em frente à casa humilde, da escassez de cobertor, de quentura de amor.  Teresinha nunca foi daquela lida. É de outro mundo. É de Saturno, daquele planeta vaidoso, carregado de anéis, do qual a professora falou.

A casa de Teresinha também tem fogão a lenha, mas o chaminé funciona e a alvenaria despeja sobre ela a incrível sensação de um abraço, aquela impressão que não tinha quando morava com a mãe, apesar do carinho materno quase esquecido. Foi presente de um fulano, um dos cavaleiros corajosos e destemidos, de lança em punho e chapéu na mão, que encontrou nos idos de 60 e, de lá, foi só saudade, mas a casa ficou. A casa e ela.

— Bom dia, Teresinha.

— Bom dia, seu João. Vai cedo, hoje, para a feira?

— Não tem farinha e Maria precisa fazer pão.

Teresinha sorri, limpa a soleira, e lança um de seus anéis coloridos para que João consiga fazer o trajeto em paz e a bengala o ajude, a ele e aos seus quase noventa anos de óculos de lentes garrafais. Ela volta a esfregar a veneziana, passa o pano nos vidros. Uma janela, outra janela. Todas as janelas. Afinal, a casa tem mil janelas e por todas entra luz. Ela guarda a luz do sol e da lua e essa luz a faz sorrir.

Teresinha não tem filhos. Quis um dia, mas a Terra o levou. Brincou de roda, tonteou e o menino se foi, amparado pelas mãos de todos. O médico disse que foi coração, que era fraco e não resistiu. Teresinha chorou lágrimas tão transparentes; encharcaram o jardim. Por isso ela tem as flores nos fundos da casa. Brotaram na semana seguinte, quando clareou e fez verão de um dia para o outro.

— Oi, Teresinha que não é de Jesus.

Lá vem Dora. Dora e seu vestido de borboletas. Só falta mesmo as asas para a menina ganhar o céu. E Teresinha sabe que o dia chegará e Dora alçará voo e acenará do alto.

— Já é tempo de escola, Dorinha?

— Já é sim, que tristeza… Não posso mais dormir, nem brincar.

— Não diga isso, menina!

— Onde estão os cavaleiros com os chapéus?

— Eles vêm e vão. Você não vê porque é criança. Só sabe da música a metade.

Porque é verdade: as pessoas só sabem da música, a metade. Da metade amorosa de Bernardo, não sabem. Da metade da paixão pelo maldito, não sabem. Porque Bernardo é de Flora e Flora é rainha. Dona de um palacete, branco, reluzente, na subida do morro. Um palácio de cristal, cheio de torres e bandeiras, com janelas para o nascente, com sacadas para o poente, enfeitado de ladrilho, rebuscado com jasmim cheiroso.

Teresinha sabe que, do coração de Bernardo, não terá um pedaço, nem grande, nem pequeno que seja, mesmo com a paixão declarada, mesmo morrendo de amor, todos os dias nos braços de outros cavaleiros. Bernardo é príncipe encantado e Teresinha, aquela que mora na casa marrom, da esquina onde o vento bate e segue adiante pela rua descalça de folhas de cinamomo, é apenas uma borralheira.

— Você já foi pra escola, Teresinha?

— Eu já, sim. Já fui.

Mas Teresinha não frequentou muita aula, não. Fez o primário até a quinta série e parou, porque precisava trabalhar e os livros não eram comestíveis como são nesse tempo de agora. Ela não sabe nada além do pouco que guardou. Sabe da vida. Dessa, sim. E dos anéis de Saturno, é claro, o planeta distante a olhar para ela, esperando seu retorno.

— Vê se estuda, menina! Para ser doutora, ou malabarista, ou ainda professora, para curar as dores que ninguém vê.

— E você estudou o quê?

— Estudei estrelas. Ainda estudo, quando o céu está aberto e a rua escura. Todas elas olham para mim. Sei os nomes. Todos eles.

E Dora ria.

Lá se ia mais um anel. Multicolorido, dessa vez, porque é para a menina que passa todos os dias rumo à escola do outro lado da praça.

Mas um dia chega e Teresinha adoece. Dizem uns que é de amor. Dizem outros que é terrível. O médico aponta para o peito. Os remédios lhe arrancam os anéis. Já não consegue cuidar do jardim, nem abre as mil janelas todos os dias.

As pessoas se comovem. Vão visitar Teresinha. Ela recebe a todos, um por um, na sala modesta de um só sofá e duas cadeiras. Abre a janela para ventilar a dor e percebe, aos poucos, que cada um carrega junto de si um de seus anéis.

Então, ela se alegra, porque os anéis estão a salvo, bem guardados como joias de pó de estrela do céu de Saturno. Finalmente poderia seguir viagem rumo ao infinito.

Quando Teresinha se vai para sempre, o dia amanhece diferente. Os jardins explodem em exuberância. A tarde fica azul, mas encurta. Anoitece antes e é de um silêncio avassalador. As estrelas ficam mais próximas, tocando a superfície de ar do planeta.  Tudo acontece num piscar de olhos. Num momento Teresinha está lá, deitada, com os olhos fechados, sonhando. No outro, está envolvida em uma luz cintilante e difusa. Dorinha não ousa se mexer. Prende a respiração vendo os anéis descidos do alto se espalharem por todo o lugar. E lá se vai Teresinha, subindo, subindo… Rodeada de luz e de anéis.

— Teresinha foi pro espaço.

— Não diga isso, Dorinha! Olha o respeito.

— Mas foi, sim, mãe. Teresinha foi pro espaço, viver em Saturno, no céu de Saturno, junto dos anéis, para brilhar com as estrela no céu.

37 comentários em “Teresinha dos anéis de Saturno – Evelyn Postali

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  1. Mas que encanto de conto, guria. Parece um daqueles livros infantis cheios de ilustrações maravilhosas e poesia por rodo conto. Terezinha teve uma vida linda transformando desilusões em pó de estrelas com seus anéis de Saturno. Ritmo fácil de acompanhar, ainda estou flutuando com a cadência das palavras. Tudo lindo, lindo demais.

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    1. Que felicidade ler seu comentário! Teresinha está mesmo lá no alto. Virou estrela no céu de Saturno, porque os anéis fizeram efeito. Carregaram de felicidade quem a conheceu. Obrigada por ler e comentar. Um grande e carinhoso abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Olá, Evelyn!
    Seu texto me arrebatou com tantos simbolismos carregados de poesia. Uma narrativa primorosa que traz a medida certa entre a fantasia e a realidade, que é triste, que é sofrida, mas que ganha contornos metafóricos com a riqueza vocabular bem escolhida ! Obrigada por nos brindar com uma narrativa marcante e absolutamente deliciosa.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ah… Que feliz estou em saber que essa história arrebatou você! Fico contende por ter conseguido juntar fantasia e realidade. Estava preocupada em não fazer de forma clara. Obrigada por ler e comentar. Um grande e carinhoso abraço!

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  3. Evelyn,ainda estou recuperando o fôlego.Que conto delicado!Uma “primura” como diria meu avô Mário que também conversava com estrelas e com plantas.Você escreveu com alma, nos levando com cada palavra,ponto ou vírgula a redescobrir nossa inocência e pureza original. Quando terminamos de ler, podemos sentir nos envolvendo, os suaves e amorosos anéis de Saturno de Terezinha; em nossas mãos brilham pó de estrelas e em nossos olhos e corações faíscam sonhos e desejos incontidos de viajar no vento, para além da imaginação , ao encontro desse fantástico planeta.Bjs.Deste à luz uma estrela!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Como é maravilhoso receber um feedback depois de escrever algo que não se tinha muito consciência se seria interpretado bem. Obrigada pela leitura e comentário! Fiquei super feliz com seu retorno. Um grande e carinhoso abraço!

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  4. Oi Evelyn, delícia de conto, ideal para um sábado gelado e chuvoso, com cheirinho de fogão a lenha. A narrativa é pura fantasia, delicada, daria um belo livro infantil todo pintadinho de estrelas e planetas. Pense nisso! Bjs.

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    1. Que bom que gostou! Fico feliz. Sim! Pensarei em um livro infantil com essa história. Quem saber ponho em prática os outros que estão só no campo das ideias. Obrigada por ler e comentar. Um grande e carinhoso abraço!

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  5. Tá, sério, não sei se fui só eu, mas de meu muita vontade de chorar.
    Esse texto mexeu comigo Evelyn.
    Ele mostra o quão boa escritora tu é, guria.
    Sou tua fã e fico muito feliz de poder te ler aqui, do meu lado (e eu não chego nem perto).

    Puxa, que história linda!
    Como sonhar uma vida iluminada e estrelar na vida do campo é esquisito pros outros, mas tão necessário para aquele que sente ter nascido fora do ninho.

    Lindo, lindo!

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    1. Opa! Se mexeu com você, então, fiquei feliz! Obrigada, Sabrina. Como é bom ouvir os comentários das contistas, Tanta sensibilidade! Eu sou muito sortuda por estar aqui. Obrigada pela leitura e comentário. Obrigada pelo carinho! Um grande e carinhoso abraço!

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  6. Deixei-me capturar pelos anéis de Saturno,que me envolveram, e pela alegria e inocência da Teresinha! Uma leitura envolvente, com ares de histórias infantis, em linguagem poética, mas leve, doce. Parabéns pela narrativa sensível que trouxe para nós todo o encantamento dos astros. Beijos!

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    1. Obrigada por ler e comentar. Fico feliz que tenha gostado da história da Teresinha. Quem sabe não é isso que esteja faltando nesse mundo: deixar-se envolver pela doçura da infância e fazer o mundo mais leve. Um grande e carinhoso abraço!

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  7. Que delicinha.. as Contistas estão umas fofas, né não?!
    .
    Amei demais, casou tanto com minha alma infantil… rsrs fantasiosa.. muito meigo, pena que triste em certo sentido, mas ela voltou pra Saturno, mas sendo metáfora, não é bem assim.. ah.. deixa eu sonhar porque eu recebi uns aneis também 🙂
    bj Evelyn!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Que delícia de conto, Evelyn! Tão lindo, tão leve…Um equilíbrio muito bem construído entre realidade e fantasia que expõe seu talento como autora. Parabéns, querida! E a ilustração encantadora. Beijos

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  9. Oi, Evelyn!

    Que texto lindo! remete realmente a infância, por um momento me lembrei dos livrinhos de histórias como essa que lia na biblioteca da escola no intervalo do recreio.

    Teresinha é encantadora, imaginei bem ela e sua casinha, simples mas muito limpinha, aquele tipo de pessoa que a gente passa do lado e um simples bom dia já faz toda a diferença. Lembrei do seu Adalberto do conto da Anorkinda e pensei que eles fariam uma dupla e tantos rs.

    O véu que Terezinha usava pra ver a vida era muito bonito, os sonhos transformados em fantasia e vistos dentro da realidade. A ilustração está muito bonita, a narrativa o a voz cativante do narrador.

    Parabéns!!

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    1. Que bacana ler seu comentário, Amanda! Fico feliz que tenha gostado dessa história! Acho que é na simplicidade que nos encontramos conosco, não é? Eu tentei resgatar um pouco, sim, do sonho, do mágico, quando nossos olhos se entregam para aquilo que é essencial. Obrigada por ler e comentar. Um grande e carinhoso abraço!

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  10. Ando precisando do pó dos anéis que Terezinha joga, quem sabe minha vida não fica mais doce? Eu sou suspeita porque realismo fantástico é o meu estilo literário mais amado, tanto que o Gabriel Garcia Márquez é meu autor favorito. A sua história me lembrou muito também do Dom Quixote e dos seus maravilhosos devaneios. Um conto adorável, uma história do morro das maravilhas onde a gente quer encontrar coisas extraordinárias. Muita imaginação, muita beleza, parabéns

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela leitura e comentário, Iolandinha! Pois é. Também ando precisando desse pó mágico que poderia tornar leves alguns momentos. Fico lisonjeada por meu conto lembrar os devaneios de Dom Quixote. E Gabriel García Márquez escreve maravilhas. Ando lendo alguns contos dele e me maravilhado com os textos. Obrigada de novo. Um grande e carinhoso abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  11. Evelyn, que história mais linda, doce e triste a de Teresinha. Principalmente, bem contada por você. Viajei em cada linha, pude sentir cada intenção dos anéis que Teresinha, tão reliente e sonhadora, um ser das gala´xias, mesmo, entregava a cada um de seu convívio.
    E voou. Pessoas assim sãpo feitas para voar, mesmo.
    Muitos beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  12. Que conto mais lindo de se ler/ ver/ sentir… Teresinha é uma personagem cativante, daquelas que a gente sente vontade de conhecer de verdade, conversar, tomar um café, ouvir umas histórias. Teve uma vida sofrida e com uma triste perda, mas nem por isso deixou-se abater. Linda história.
    Abs ❤

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  13. História triste, mas contada de forma poética, sensível. A personagem que era avoada, distraída, mas no fundo triste e sozinha, depois de deixar este mundo finalmente alcança o espaço, os astros e as estrelas que lhe faziam companhia. Muito bonito!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi! Creio que Teresinha sabia que, se não entendesse a vida como uma viagem para ser aprendida não teria visto a beleza de cada momento. Obrigada por ler e comentar! Um grande e carinhoso abraço!

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  14. Querida Evelyn,

    A melhor parte de As Contistas é que, aos poucos, com esse compartilhamento regular de textos, nossas poéticas vão tomando forma de modo a nos fazer vislumbrar a obra de cada uma das participantes como uma espécie de coletânea coerente, pois se ata por características muito peculiares a cada uma das escritoras.

    Em sua obra vejo sempre personagens fortes. Ainda que Teresinha possa parecer delicada, ela é forte. Uma batalhadora, uma vitoriosa, uma sobrevivente às adversidades.

    Outra coisa que me chama muito a atenção em seus contos é a forma com que você convida o leitor a visitar imageticamente lugares simples, mas que guardam em si toda a sofisticação da alma e da cultura do povo brasileiro.

    Parabéns, como sempre.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Paula… Me emocionei aqui com sua leitura do conto. Obrigada pelas palavras. Obrigada por ler. Você está certíssima. Aos poucos, as características – talvez possamos falar de linguagem – de cada uma se fazem notar. Bem pontuado. Eu estou muito feliz com o desenvolvimento das minhas construções para o blog. É algo que me faz feliz e me faz crescer. Mais uma vez, obrigada por ler e comentar. Um grande e carinhoso abraço!

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  15. Olá, Evelyn!

    Gostei bastante das imagens que você oferece, da beleza da morte, ou passagem para outro plano. Gosto de como vc consegue fazer uma narrativa onde temos dias corridos e dores e beleza, usando poucas palavras. Isso sugere para o leitor, faz que ele veja e sinta muitas coisas sem que seja preciso descrevê-las.

    Parabéns pelo conto.

    Curtido por 1 pessoa

  16. Tanto tempo depois, que dizer, Evelyn? As outras contistas já disseram tudo. Muita magia, muita alegria, muita tristeza, a beleza da doçura de uma menina cujo único objetivo é distribuir luz e oferecer anéis. Que história mais linda! Puro realismo mágico. Obrigada pela leitura. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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